23 de fevereiro de 2009

Um orkut para Daibert

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"E aí Sudoeste", exclamou a colega repórter Juliana Daibert, com um abraço gostoso, depois de passar um mês longe da redação de O Diário, em férias - rodando esse Brasil de moto com o marido. Depois que ela descobriu que Pato Branco se autointitula a capital do Sudoeste do Paraná, é assim que ela me chama, sempre enfatizando o E para zoar do sotaque pato-branquense.

Daibert fez falta na redação de O Diário, não apenas pelo fato de ser a repórter setorista de saúde - e escrever com propriedade ímpar sobre o assunto -, mas pela paz de espírito que ela transmite. Trata-se de uma pessoa do bem, isenta de falsidade e leal a seus princípios. Sempre que preciso espairecer, ou desabafar sobre um entrevistado que me tirou do sério, corro na mesa dela trocar meia dúzia de palavras. E por lá, volta e meia, encontro torradinhas com mel.

Vou lhes contar quem é Daibert.

Passei maus bocados no final do primeiro semestre de 2008, na ocasião da minha separação. Sem condições psicológicas para o trabalho, desabafei com o ex-chefe de reportagem de O Diário, Rodrigo Parra, e dele recebi todo o apoio - como se fosse vindo de um irmão mais velho. Fiquei alguns dias sem ir ao jornal e sem falar com mais ninguém a respeito.

Estava em casa, reflexivo, solitário, quando recebi um telefonema de Daibert, que queria saber se eu estava bem e se precisava de alguma coisa. A demonstração de coleguismo foi importante naquele momento de dificuldade e, penso, talvez ela nem saiba disso. Depois de Parra, ela foi a primeira pessoa (fora a família) a quem contei meus problemas. Não tenho irmãs (e sim dois irmãos, mais novos), mas se tivesse gostaria que fosse da mesma "madeira" de Daibert.

Muitos a admiram e clamam a presença dela no orkut, rede de relacionamento que gosto de definir como "a perda de tempo mundial". Contudo, a jornalista que chegou a pegar os tempos da máquina de escrever nas redações, reluta contra o avanço das coisas virtuais. Certo é que Daibert terá de ceder, cedo ou tarde. E na campanha para que isso aconteça, criei a comunidade "Um orkut para Daibert". Não era dono de nenhuma comunidade, nem queria ser, mas para ter Daibert como amiga, também no orkut, tive de abrir uma exceção.
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Daibert em dois momentos na confraternização de fim de ano de O Diário: com o "Sudoeste" e com algumas das meninas da redação.
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22 de fevereiro de 2009

O apóstolo e os fugitivos

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O sentimento era de conquista e satisfação. Lembro-me como se fosse hoje da vez em que acertei as seis dezenas da Mega-Sena - não fui o único ganhador nem o prêmio estava acumulado. A quantia não era absurda, no entanto, mais de R$ 1 milhão não pode ser considerado pouco. Com a grana daria, certamente, para comprar um Porsche, um apartamento na Avenida XV de Novembro, próximo à Catedral de Maringá, e para fazer uma viagem à Groenlândia em mês de aurora boreal.

Por questões de discrição e segurança, contei a façanha apenas a meus pais, irmãos e aos amigos do peito. Era importante que o mínimo de pessoas soubessem, assim esperava ser possível levar uma vida "normal" dali em diante, mesmo com os bolsos abarrotados de dinheiro. Não queria que a mulher especial se interessasse por mim por causa do cheiro de gasolina do Porsche.

Fora minha mãe, nenhuma outra mulher ficou sabendo. As fêmeas, talvez por instinto, talvez pela oscilação hormonal, necessitam de confidentes. "Não conto para ninguém", vindo de uma mulher, significa: "não conto para ninguém, só para minha melhor amiga". E isso é tão perigoso quanto a caixinha de remédios ao alcance das crianças.

Um túmulo, digo, um amigo me perguntou: "donde foi que você tirou esses números? Sonhou com eles?" Sempre que vou à lotérica da atendente loira com cabelo de Barbie, para pagar as contas do mês, faço uma "fezinha". O que não faço é distinção entre os números, como se alguns fossem misses e outros fossem lenhadoras.

Respondi ao amigo: "joguei naqueles em que a caneta alcançou primeiro, com exceção feita ao 12". O doze sempre me pareceu um número legal, um apóstolo do bem, daqueles que faz caridade aos mais necessitados, que visita asilos sem ser candidato a cargo eletivo e que ajuda cegos a atravessar a rua. É um número que dá sorte e, bem por isso, poderia me ajudar a ficar rico da noite para o dia.

Meu amigo, que sempre tem uma palavra para tudo, ao bom estilo presidente Lula, comentou: "Ahhhhh boooooom! Está explicado o porquê você ganhou, foi porque jogou no 12". Depois da filosofia vã, suspeitei que não deveria ter contado a ele sobre o prêmio.

A primeira coisa que comprei foi um daqueles celulares que possuem rádio, máquina fotográfica, MP3, editor de textos e até despertador com toques a perder de vista. E foi o infeliz do despertador que me acordou, por volta das 8h30. O sonho tinha sido muito real, rico em detalhes. Custava a acreditar que não passava de um sonho e que toda aquela grana havia desaparecido no abrir dos olhos.

Fui ao banheiro e, enquanto esvaziava a bexiga, podia me lembrar claramente dos seis números que tinham me tornado milionário. Desconfio que programei o despertador sem querer, porque não precisava acordar antes das 9 horas naquela quarta-feira nublada. Voltei a dormir.

"Qual eram mesmo os números?" Foi a pergunta que me veio à mente assim que acordei, algumas horas depois de voltar para a cama. Só me lembrava do doze (que devia se chamar João; fosse Pedro teria me abandonado, fosse Judas teria me traído), dos outros cinco números não. "Malditos", exclamei. Os infelizes haviam arrumado as trouxas e fugido para bem longe, assim que peguei no sono.

No caminho para o jornal, passei na lotérica da Barbie, apanhei uma cartela da Mega-Sena, pintei com convicção o 12 e sem certeza alguma os outros cinco. Lamentava a estupidez de não ter anotado as seis dezenas premiadas, antes mesmo de ir ao banheiro.

No final da noite, conferi o resultado do concurso no site da Caixa Econômica. O 12 estava entre os sorteados, e só ele. Quis arrancar os poucos cabelos que me restam. Se o tivesse feito, não teria dinheiro para pagar o tratamento capilar, agora que me tornara pobre de novo. Mas uma coisa é certa: se pego aqueles cinco fujões por aí, capo eles.
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21 de fevereiro de 2009

Vinte e tantos anos mais um

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É difícil ter sono antes das 2 horas, especialmente no mormaço de algumas noites, quando o vento parece fazer a curva quilômetros antes de chegar a Maringá. Em madrugadas assim, escrevo até encher os olhos de "areia" e, posso garantir, é daí que surgem os melhores textos - ou os piores (depende de quem lê).

Numa noite escaldante dessas, sem ânimo para as crônicas e os contos - e sem vinho em casa para criar ânimo -, gastei meia dúzia de horas na "perda de tempo mundial", o orkut. No final das contas, porém, foi produtivo.

Li e apaguei meu recados, bisbilhotei as fotos de meus cem amigos, quis saber quem seriam os dois novos loucos da internet (que se juntaram aos demais que se dizem meus fãs), postei duas ou três fotos e percebi que não tenho mais 100% de aproveitamento no campeonato. Agora, o orkut me diz que sou 90% confiável, 90% legal e 100% sexy. Sinal de que muita gente precisa se consultar com um oftalmologista urgentemente, e não sabe.

Só quando o sono deu as caras, notei que uma colega de trabalho estava de idade nova. Eis a grande serventia do orkut: lembrar os usuários da data de aniversário dos amigos. Quase precisando do auxílio de palitos para manter os olhos abertos, não deixei de desejar felicidades àquela que costumei chamar de OFFíssima. Escrevi cambaleando de sono, "pescando" em frente ao computador, mas marquei presença. Deu no que deu.

Foi uma minicrônica de feliz aniversário. A OFFíssima disse que gostou e, mais que isso, postou os parabéns no "quem sou eu" do orkut dela. De duas uma: ou ela também estava com muito sono quando fez isso ou tinha degustado algum fermentado de uva ou de cevada.

Eu escrevi e ela postou:

"Vanessa, talvez não se lembres, mas antes de você nascer Deus olhou para ti e disse: "desce lá e detona. Seja feliz e faça seus parentes e amigos igualmente felizes". Aí você respondeu: "ok, mas posso fazer isso tudo e, ainda, lutar capoeira?" O Todo Poderoso disse: "claro que sim, desde que você não se esqueça de enviar um cartão-postal para um colega chato de redação, que você vai conhecer lá pelos seus vinte e tantos anos, quando for ao Havaí".

Alegre e extrovertida, tu tens feito tudo o que combinou com o Altíssimo: fazes as pessoas ao teu redor mais felizes, sem se esquecer do dito postal da ilha de LOST. Por isso, no aniversário de teus vinte e tantos mais um, você merece os melhores parabéns".


Merece mesmo. Um Concha y Toro para brindar a saúde dela e de todos os meus amigos.
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14 de fevereiro de 2009

O que MacGyver faria?

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A visão predominante ao se abrir a janela da cabana, logo pela manhã, era de uma verdadeira floresta. Estava ali há quase um ano e a variedade de plantas era cada vez maior. "Talvez algumas delas ainda nem tenham sido catalogadas", disse para mim mesmo, cogitando chamar uma amiga bióloga que lida com vendas para analisar a situação.

Sempre tomo os devidos cuidados para evitar criadouros do mosquito da dengue, mas fora o Aedes aegypti, havia insetos de toda sorte naquela cobertura verde, desde os sempre presentes "tatuzinhos" às belas joaninhas.

Seria merecedor de uma medalha do Greenpeace como ativista-voluntário não fosse a dita floresta um verdadeiro matagal e a cabana, minha casa. O mato parecia ter crescido um mês em uma noite e, quando me dei conta, a calçada ligando o portão à casa dos fundos já estava tomada. Um bom sinal de que, se preservada, a natureza faz sua parte, e a erva daninha o faz ainda mais rápido.

No canteiro central, o mato já começava a "raspar" o assoalho do Sólido - nome de meu Fusca 1975, azul-escuro com branco-gelo nas laterais, pintura perolizada e interior combinando com as cores do lado de fora -, carro que está comigo desde 2006 e que colocarei à venda em março. Voltando a falar do mato, na lateral do corredor, algumas espécies atingiam a altura do Fusca.

Era fácil imaginar o cansaço que daria para pôr fim àquela selva, difícil era calcular quantos mililitros de suor teria de derramar. Tinha permitido o desenvolvimento daquelas espécies, sem impor controle, então não seria justo pagar para alguém fazer o trabalho sujo. O jeito era vestir uma camisa regata e um calção confortáveis e calibrar uma Coca-Cola na geladeira.

Ainda não mencionei: o episódio se deu dias antes do Natal de 2008. Passaria o feriado cristão em Pato Branco e, se deixasse para desmatar aquela área verde mais tarde, quando retornasse é certo que precisaria de um mapa, uma bússola e, quem sabe, um guia (digo, uma guia) indígena para fazer o percurso da rua até a porta de casa, sem me perder.

Se dispusesse do arsenal de ferramentas do galpão de meu falecido avô, Armando Cardoso, começaria o carpido com uma foice - uns dias a mais e seria necessário um machado - e liquidaria a fatura com uma enxada. Sem um artefato "bélico" à altura da ocasião, precisei queimar algumas calorias a mais (sorte minha ter reservas) para dar conta do recado com uma pequena faca de cozinha, de ponta pouco afiada e com cabo de plástico, daquelas que penam até para cortar carne de frango. Adianto que a pobre ficou um bagaço após o serviço.

Como por aqueles dias estava iniciando no jornal às 13 horas, devotei duas manhãs inteiras ao meio ambiente. Algo me diz que, agora, tenho currículo para me candidatar a uma temporada no Greenpeace. Tinha tudo planejado, roçaria o mato, deixaria o amontoado secando ao sol para, no domingo, queimá-lo sem piedade. O volume era grande e, desse modo, seriam necessárias dúzias de sacolas recicláveis caso optasse em empacotar o mato para ser levado pelo caminhão da coleta.

Devastei 90% da selva, deixando um refúgio seguro de 10% da "mata" aos insetos. Do contrário, eles poderiam reivindicar abrigo em minha residência.

Não choveu por aqueles dias e o mato empilhado secou rápido. No domingo, as folhas secas clamavam por um palito de fósforo tanto quanto um fumante assíduo - daqueles que escurecem o pulmão desde as primeiras horas do dia - que tem o tabaco em mãos, mas não tem o fogo.

Antes de atear fogo no material orgânico ressecado, com o gosto da vingança pelas horas na lida, tomei o cuidado para que a fumaça não fugisse do controle. A vizinha dos fundos tinha saído e as janelas estavam fechadas, não havia roupas no varal e, o melhor, quase não ventava. Fora os insetos que preferiram ficar na palha seca, e que pela teimosia tostariam em instantes, eu era a única alma viva nas proximidades.

Pus fogo e fiquei ali, a alguns passos, sentindo o calor, ouvindo os ramos secos estalarem, admirando as chamas como deviam fazer os homens das cavernas nos tempos em que as mulheres eram puxadas pelos cabelos. Cheguei a me sentar no piso, sem me importar com o chão sujo e a bermuda semilimpa. Naquele momento, sentia-me como um imperador. Nero, talvez.

O império, no entanto, sucumbiu três minutos depois quando, do centro das chamas, surgiu um fino esguicho d'água, que pela pressão vencia a gravidade por cerca de quatro metros de altura antes de cair como chuva. "Porcheria", exclamei no impulso (e no susto), em italiano mesmo, ao perceber que o fogo rompera algum encanamento. Felizmente, pude contar com três baldes cheios d'água, remanescentes da roupa que lavara horas antes de atear fogo em "Roma". O mesmo episódio me fez sentir, primeiramente, um militante do Greenpeace, depois um imperador romano e, por último, um bombeiro.

Custava a acreditar na falta de sorte. Todo o encanamento que leva água do registro à casa, numa extensão de 15 metros - num cálculo puramente visual - ficava sob o concreto. Sem perceber, tinha escolhido, para amontoar o mato, o único meio metro em que o cano ficava a mostra.

O rompimento no cano, do tamanho da circunferência de um prego grande, foi no domingo (21), dia de comércio fechado; viajaria na quarta-feira (24). Precisava consertar aquilo o quanto antes para, sem preocupações, comer peru assado em Pato Branco, com a família. Poderia chamar um encanador na segunda-feira (para levar uma facada, no bolso), porém, preferi improvisar no conserto do vazamento.

Não dispunha dos apetrechos usuais para consertar um vazamento d'água, mas precisava fazê-lo. Era uma questão de honra. Fã de séries norte-americanas, e com 27 anos de idade, foi inevitável pensar: "o que MacGyver faria?" Menciono minha idade porque alguém com menos de 23 anos dificilmente pensaria o mesmo - por ser muito jovem na época em que a série foi transmitida. MacGyver era um agente secreto americano que se recusava a utilizar armas de fogo. Sempre acompanhado de seu canivete suíço, era capaz de fazer um explosivo sem usar pólvora. Duas semanas antes, tinha procurado na internet um box da série, mas a primeira temporada estava esgotada.

Não sem antes fechar o registro, corri para diante de minha caixa de ferramentas, dotada de estanho, ferro de solda, alicates para lidar com pequenas e grandes fiações e vários tipos de chaves. Materiais esses que mantenho desde que estudei Eletrônica no 2º grau técnico no Centro Federal de Educação Tecnológica do Paraná (Cefet-PR, hoje UTFPR), em Pato Branco, além de um ano da faculdade de Tecnologia em Automação Industrial, na mesma instituição.

Arrisquei, primeiro, o óbvio: durapox (já vi escrito de várias formas). No final da noite, com a pasta-colante seca, liguei o registro para acabar "apreciando" um novo gêiser. Fui dormir desgostoso com a situação e acordei com uma ideia brilhante, daquelas que MacGyver teria tido em segundos, mas que precisei de horas - algumas das quais sonhando. Animado, cheguei a recordar a música tema da série naquele instante.

Apanhei fita veda-rosca, chave de fenda, durapox e um parafuso, um pouco mais grosso do que o furo no encanamento. Envolvi o parafuso com veda-rosca (sem economizar) e utilizei a chave de fenda para parafusá-lo no cano. Então, cobri tudo com durapox. Esperei secar e, pouco antes de ir ao jornal, religuei o registro, temendo que o parafuso fosse lançado ao espaço como um foguete tripulado. Que nada! O bendito ficou lá, tal como se tivesse sido colocado pelo próprio Richard Dean Anderson, ator protagonista da famosa série.

Fui a Pato Branco, voltei a Maringá, e o parafuso continuava preso ao cano, como se tivessem nascido um para o outro. Ficou tão bom que preferi nem chamar o encanador. Toda vez que voltava para casa, fosse do trabalho ou de um passeio, ficava orgulhoso ao avistar o parafuso, tecnicamente afixado. Sentia-me o MacGyver em pessoa e não queria que aquele sentimento holywoodiano de capacidade passasse.

Um dia desses, no final de janeiro, inventei de mostrar a proeza a um vizinho metido a encanador. Para minha surpresa, ele - um senhor de quase 60 anos - ficou transtornado ao ver um parafuso contendo o vazamento, como se aquilo fosse uma heresia. "Vou fazer um serviço decente aí, nem que seja de graça", resmungou. Preferi não me opor à iniciativa e ainda paguei (insistindo para que ele aceitasse) R$ 25 pelo serviço. "Com a 'fé' das pessoas não se brinca", pensei.

O casamento entre cano e parafuso foi curto, mas bom enquanto durou. Para ninguém mais ficar magoado, melhor que MacGyver não saiba da parte final dessa história, que fique entre nós.
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12 de fevereiro de 2009

O universo hiper-realista de Gabriel T.

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Esta semana, uma amiga conhecida por alguns poucos como "OFFíssima" retornou ao trabalho, toda sorridente. Estava ela de férias, numa terra bem, bem distante: na ilha de LOST, aprendendo a surfar.

Não, a OFFíssima não estava no vôo 815 da Oceanic nem contracenou com Rodrigo Santoro, muito menos foi socorrida pelo doutor Jack Shephard. A colega repórter retornou, sim, de onde a famosa série foi gravada: Havaí (foto). Não sem antes, lá do meio do Oceano Pacífico, mais próximo do Japão do que dos Estados Unidos, enviar um cartão-postal endereçado ao amigo blogueiro (vai para a coleção).

O pessoal da redação é chique demais. Outra colega, a Traguetíssima - uma das maiores incentivadoras deste pobre blog - passou, sei lá, mais de uma semana em um cruzeiro pela costa brasileira. As férias de ambas me fizeram lembrar de um amigo que formou comigo a primeira dupla da Agência Experimental de Jornalismo da Faculdade de Pato Branco (Fadep), em 2002.

Loiro de cabelos cacheados, cerca de 1,80 metros de altura, Gabriel T. Comin - o 'T' é de um sobrenome polonês, daqueles com 20 consoantes para cada vogal - é um sonhador, culto e destemido, sujeito que no ditado popular: "mata a cobra e mostra o pau". Vou explicar.

Fui da primeira turma de Jornalismo da Fadep, o 20º acadêmico a receber o diploma da então nova instituição. Calouro da turma subsequente, Gabriel queria mais, queria ares mais cosmopolitas e menos provincianos. Dito e feito. Na metade final do curso, convenceu seus pais de que precisava se mudar para Curitiba, alegando que na capital do Estado teria mais oportunidades. Por lá, salvo engano, concluiu seus estudos em Jornalismo no final de 2005.

Gabriel se formou para, daí, aventurar-se em algo que eu gostaria de ter feito na época, e não fiz. O impulsivo estudante - que nos tempos de Fadep paquerou a belíssima filha do nobre diretor - guardou o canudo na estante para embarcar num cruzeiro, ou melhor, em vários.

Não foi a passeio. Sem grana como 99% dos estudantes recém-formados no Brasil, conseguiu descolar (por falar bem inglês e pela aparência a la Beckham) uma vaga de garçom em um grande navio. Enquanto os mais abastados desinchavam os bolsos no luxo do grande "barco", Gabriel ralava (a la operário chinês) não menos de dez horas por dia em um cruzeiro que, vejam só, tinha em seu itinerário os principais destinos turísticos do Mar Mediterrâneo. Dizem que ele chegou a enjoar do litoral da Espanha, da Itália, da França.

O rapaz natural de Coronel Vivida, uma pequena cidade do sudoeste do Paraná - onde os jovens mais "normais" parecem presos ao destino de se casar e passar a vida toda no mesmo emprego -, registrou a experiência em seu blog. No site, relembrou uma ocasião em que teve de pegar um avião até a ilha de Malta, de onde zarparia o navio. No voo, estraviaram a bagagem dele e, sem tempo de comprar o essencial, precisou de roupas emprestadas dos colegas garçons, inclusive de cuecas. Parece que a mala foi entregue alguns dias depois, só não sei se os amigos aceitaram as cuecas de volta.

Atualmente, Gabriel se define como "garçom de navio aposentado e jornalista nas horas vagas". Não sei por aonde ele anda, infelizmente, perdi contato. De qualquer forma, Gabriel deixou uma importante lição aos seus conhecidos e aos leitores de seu blog: os destemidos aproveitam melhor a vida do que os "normais" - e gastam menos dinheiro. Mesmo sem ter precisado de um boca-a-boca do dr. Shephard, OFFíssima (que já morou um ano nos Estados Unidos como intercambista) que o diga.

Errata!
O quinto parágrafo foi alterado onde mencionava que Gabriel se formou em Jornalismo na UFPR, enquanto na verdade ele se graduou na UnicenP (ver comentários). Agradeço a colega jornalista Aleta Dreves, professora universitária no Acre (e seguidora deste blog), pela correção.

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10 de fevereiro de 2009

Para marcar a mente e o coração

Dream Theater no som do carro, bagagem no porta-malas, máquina fotográfica sempre ao alcande das mãos, pneus calibrados, roteiro da viagem na cabeça - para ser feita sem pressa -, óculos escuros para dar um charme. Uma semana para marcar a mente e o coração.

Será na semana em que completo 28 anos a viagem que farei com meu irmão do meio (Eduardo, 26, que costumo chamar simplesmente de Piá), ambos de férias, para rachar o combustível, dar boas risadas juntos, compartilhar bons momentos. Uma viagem que um devia ao outro, desde sempre, e que será paga agora, em março.

Sem pais nem parentes nem amigos nem namoradas nem música sertaneja por perto, só irmãos de sangue - tipo A+ os dois, registre-se.

Uma viagem que valeria a pena mesmo se não tivesse rumo, se só chovesse, se faltasse gasolina no meio da estrada... mas os destinos a gente já tem em mente: Bombinhas, Florianópolis, Beto Carrero e Serra Gaúcha. Isso significa, em outras palavras, tostar a pele ao sol, cansar de caminhar nas dunas, ficar rouco de tanto gritar na montanha-russa e, sem cerimônia, beber (moderadamente, claro) onde se produz o melhor vinho do Brasil.

Perguntaram-me: "se o Ronaldo fizer o jogo de estreia em Presidente Prudente (a apenas 175 quilômetros de Maringá), você pretende ir até lá assistir". Sem pensar muito, respondi: "Não será possível, estarei acompanhado de alguém muito mais importante naquele dia (8 de março). E fazendo algo bem mais divertido".

As férias só podem ser melhores se o irmão caçula (João Paulo, 20, que eu chamo de Nanico e que o Eduardo chama de Magrão) conseguir folga no trabalho e, assim, confirmar presença. Vai ser demais. E DEMAIS, numa situação dessas, não é exagero.

Na foto: Piá, LF e Nanico com Dona Clacy e Seu Luiz. Clique nela para ampliar.
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4 de fevereiro de 2009

Um café com leite no micro-ondas (com hífen)

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Tarde de terça-feira (3 de fevereiro). Do jornal para a autoescola, para acrescentar à minha habilitação o direito de dirigir motos. Da pista de aulas práticas para uma panificadora no Centro de Maringá, por volta das 18 horas, para ler a Folha S.Paulo enquanto degustava sem pressa um apetitoso assado recheado com tomate seco. Pedi para beber um pingado, mais forte de café do que de leite (com E no final, em função do sotaque pato-branquense).

Entre a panificadora e minha casa, na Zona 3, são cerca de dois quilômetros, uma boa distância para queimar as calorias do tomate seco - e de calorias entendo bem, perdi quase nove quilos no segundo semestre de 2008. "Valeu", ainda agradecem meus joelhos, todos os dias. Fazia o percurso, pela Rua Santos Dumont, sem pressa, apreciando a arborização, as ruas planas, o planejamento da cidade, o asfalto bem conservado (acha que as ruas estão ruins? Então precisa conhecer mais o Brasil). Se me pedissem para descrever Maringá numa única palavra, diria: "gostosa", de um jeito que, se a cidade pudesse responder, exclamaria: "atrevido!"

Na noite anterior, tinha dormido apenas quatro horas. Destarte, a ideia era retornar ao doce lar e tirar um cochilo, mesmo que por alguns poucos minutos. Como dormir não costuma ser, ultimamente, uma das prioridades para mim, fiz um pit-stop na livraria do shopping Maringá Park, para folhear algumas revistas de moto. Vou precisar de uma, assim que tirar a carteira. Dizem que a crise tende a reduzir o preço dos veículos, pelo menos dos usados, tomara que sim.

Ao contrário do que costumo fazer, não pedi um café expresso naquele dia. Ainda considerava a proposta de um chochilo para mais tarde. Contudo, não deixei a loja de mãos vazias, sentiria-me mal se o fizesse - por ter "paquerado" as revistas. Comprei um dicionário, a 7ª edição do mini Aurélio, revisado conforme o Acordo Ortográfico - mas não me recordo o preço. E, como havia prometido, quando isso acontecesse passaria a escrever no Blog do LF de acordo com as regras adotadas para unificar a língua portuguesa.

Da livraria para casa e, no destino final, um café com leite esquentado no micro-ondas (agora com hífen) para o estômago. A postagem que você acaba de ler foi escrita respeitando o novo Acordo Ortográfico, ou seja, pouquíssima coisa mudou. Até o fim de 2012 valerão as duas formas, a nova e a antiga, porém, quanto mais cedo ocorrer a transição, melhor. Os jornais Folha de S.Paulo e Estado de S.Paulo, os maiores do País, já o fizeram, em 1º de janeiro.
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1 de fevereiro de 2009

Porco a pururuca: jogador de Copa também gosta

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"Está a fim de cobrir uma reunião esportiva amanhã à noite? Ouvi que vai ter um jantar". A pergunta partiu de um editor, lá pelas tantas da noite, no final do expediente. Quando o dia de trabalho é árduo, o cansaço (mental, no caso de um jornalista) não te permite pensar em muitas possibilidades além de uma ducha quente e de uma cama espaçosa.

Clóvis, que editava interinamente as páginas de Esportes de O Diário, acrescentou: "se não tiver nada de interessante, você janta com o pessoal e vai embora". Uma espécie de isenção antecipada de culpa para o caso de, de fato, não ter nada de interessante no evento. No mínimo, conheceria novas caras. "Pode contar comigo", disse. O evento, no final de dezembro, marcaria o lançamento da camisa do Grêmio Maringá para a temporada 2009.

Vinte e quatro horas mais tarde, num clube dançante de idosos, aguardava pela apresentação da nova diretoria do clube e da camisa, com certa desconfiança. Havia comentários na cidade de que não seria desta vez que o ex-campeão paranaense ressurgiria das cinzas.

Batia um papo agradável com a assessora de imprensa não-oficial do Grêmio quando um colega de imprensa interrompeu. "Você viu quem está na reunião?". Ele se referia ao maringaense Alex Santos, lateral-esquerdo que disputou as Copas de 2002 e 2006 pela seleção japonesa. Filho ilustre do Grêmo Maringá, onde deu seus primeiros passos no futebol, Alex tinha dado o ar da graça. Isso significava, em suma, que tería uma matéria - com apresentação de camisa ou não.

Alex Santos, que ao contrário do Fenômeno não aparenta ter problema com peso, já se preparava para provar um aromático porquinho pupuruca, devidamente decorado com frutas e acompanhado de farofa (e limão em separado, para os mais exigentes), quando o interrompi. Fiz duas ou três perguntas e agendei para a manhã seguinte uma entrevista mais longa, na casa da avó dele. Fui àquela reunião sem a certeza de que o assunto renderia matéria, voltaria com a garantia de duas.

De fato, a camisa do Grêmio Maringá, listrada em preto e branco e com símbolo em preto e amarelo-quase-laranja, foi apresentada (e a matéria, publicada). E por quem? Alex Santos, que só não vestiu o manto por força contratual. É assim no futebol, o jogador só pode aparecer na mídia com a camisa de seu time (o Urawa Red, no caso de Alex) e da seleção nacional.

Dos famosos que entrevistei em 2008, sem contabilizar políticos, incluo Alex Santos no top três da lista, juntamente com o publicitário Roberto Justus e com o maratonista Vanderlei Cordeiro. Todos os três, simpáticos e atenciosos com a imprensa, cada qual do seu modo. Alex Santos: o mais a vontade nos trajes, porém, mais inibido na entrevista.

Foi uma conversa de 40 minutos, com gravador para registrar tudo e o fotógrafo Rafael Silva para garantir as melhores imagens (incluindo a foto desta postagem). O melhor do bate-papo com Alex Santos foi publicado em O Diário na edição deste domingo (1º de fevereiro). Ele disse, entre tantas coisas, que o São Paulo é como clube o exemplo a ser seguido no Brasil. Também falou sobre como se sentiu ao enfrentar a seleção brasileira, de Ronaldinho Gaúcho e companhia, na Copa da Alemanha, em 2006.
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