29 de dezembro de 2009

Nem mais um SE

.
Se te digo tão cedo, ao pé do ouvido: gosto de ti
Se te digo no dia seguinte: quero te ver
Se te digo quando estás longe: volta logo
Se te digo que amigos me disseram:
... estás apaixonado!

Talvez ouça de ti: estás doido
Talvez ouça de mim mesmo: estou doido

E
Se me dizes: também gosto de ti
Se me dizes, quanto te chamo: já vou
Se me dizes, lá de longe: sinto saudades
Se me dizes, com teu olhar e teu doce beijo:
... estou apaixonada!

Talvez ouças de mim o pedido de namoro
Talvez ouças de si mesma: sim

E
Para que tanto "se" se há dois corações que se gostam?
.

12 de dezembro de 2009

Adeus, Fundi

.
O temporal do fim de outubro de 2009, em Pato Branco, trouxe mais que prejuízo material. Na maior maior enchente da história da cidade, as ruas de vários bairros foram tomadas pelas águas do pequeno Rio Ligeiro – naquela ocasião, já não tão pequeno assim. Em localidades menos abonadas, famílias perderam o pouco que tinham. Fundi, um sujeito que sabia curtir cada tragada de ar, perdeu o bem mais precioso: a própria vida.

Fundi, quando filhote
Quando a chuva cessou e as ruas deixaram de ser navegáveis, populares lamentavam as perdas e a Defesa Civil contabilizava os prejuízos. Fundi, duro como pedra, não sobrevivera para ver os estragos. Amanheceu estirado, no jardim de sua casa, próximo ao ramo de flores em que costumava se aliviar após um bom prato de ração com sardinhas. Em vida, projetava ele, queria ter a morte dos elefantes: velho e longe dos seus.

Adulto e gozando de boa saúde – nunca fumou e não era chegado a bebidas alcoólicas –, Fundi teria certamente teria se safado da correnteza do Rio Ligeiro, fosse o temporal a causa do óbito. Sua família estava convicta: homicídio doloso! Ele fora envenenado e a polícia, ao que tudo indica, não investigaria a autoria do crime. No país da impunidade, assassinos de bichanos não vão em cana. Fundi não frequentou escola, mas, esperto, sempre soube desse detalhe. Por isso, nunca comia fora de casa.

Impedido de chegar à segurança do lar, ilhado pela correnteza que havia tomado conta das vias públicas, Fundi estava molhado, com fome e com frio. Com azar equivalente ao de alguém que transa sem camisinha, pela primeira vez, e contrai o vírus da aids; dançou no primeiro petisco alheio que comeu, aos cinco anos de idade, completados dias antes, em 15 de outubro. O “tempero” de sabor levemente apimentado era, na verdade, o sabor da morte.

Dzico, como também era chamado, sofreu com a dor dos espasmos musculares, com as convulsões causadas pelo veneno. Tinha certeza: a morte viria ao seu encontro em minutos. Usaria ela capa preta e foice, como no cinema? Preferia não pensar nisso! Cruzou a nado o rio... melhor, a rua. Queria se despedir de seus donos. Se gato tem sete vidas, o valente felino amarelo, de pelos curtos e sedosos, gastou seu sopro final de vida contra a correnteza. Em seus últimos pensamentos, recordou-se da vida boa que tivera e deu graças ao deus dos felinos por tudo.

Fundi nasceu em Planalto, uma pequena cidade do Paraná, que – exceto órgãos como os Correios e a Caixa Econômica – poucos têm noção de onde fica. Filhote de origem humilde e mãe pulguenta, por certo seria um gato de galpão. Em outras palavras, não moraria na rua, mas teria de caçar ratos em meio à pilhagem de milho para ter o que comer. De uma ninhada só de amarelinhos, por obra do destino, Dzico foi o único kitty (como se diz em inglês) entre seus irmãos que cresceu à base de ração.

Em Dois Vizinhos, cidade que se autointitula a capital nacional do frango, um jornalista e sua esposa se julgavam jovens demais para ter um herdeiro. Faltava algo ao casal, que discutia sobre adotar um animal de estimação. Queriam um filhote sem raça definida, “dos bão”, e entre um cão e um gato escolheram a segunda opção.

Um aluno lá na escola comentou que tem filhotinhos recém-desmamados, na casa dos pais deles, num lugar chamado Planalto – disse a mulher. – Parece que são todos amarelos – acrescentou, assim que se recordou do detalhe.

Olha só... nunca tive um gato amarelo. Então está decidido, pede para o piá trazer um pra gente – disse o homem.

Fundi adolescente
Desde os tempos de infância e da chupeta, de suas recordações mais antigas, o jornalista lembrava de ter animais de estimação. Gatos, ele perdeu a conta de quantos teve até deixar Pato Branco, após a graduação em Jornalismo. No chute, calculava que foram mais de 50 felinos que, pelo fato de não serem castrados, raramente viviam mais de cinco anos. Robin, um gato malhado que resistira ao primeiro envenenamento, viveu seis.

Na casa de seus pais, era o jornalista quem normalmente batizava os felinos. Com algumas exceções, preferia se esquivar dos nomes de pessoas. Da turma de companheiros, os que mais marcaram se chamavam: Batman, Mimão, Super, Mel, Tom, Parceiro, Batman o Retorno, além do próprio Robin – irmão do primeiro Batman. Fundi, de Fondue "aportuguesado", seria o nome do próximo, independentemente da cara do filhote.

Chegou com cara de gato desnutrido, com mais orelha que qualquer coisa. Tinha listras pretas móveis em meio à pelagem cor-de-caramelo. Pulgas! Centenas delas, gordas e saciadas pelo sangue do pobre coitado. Bem nutridas, tinham força para resistir ao banho e ao xampu. Eram pulgas de vale-tudo e pareciam beber biotônico, ao invés de sangue. Várias rodadas de ensaboa-enxágua foram necessárias para mandar as invasoras pelo ralo.

Sem pulgas e abastecido a carinho, leite morno, ração e sardinha – seu prato preferido –, Fundi cresceu com vigor para se tornar um cara esperto e destemido. Definitivamente, a desnutrição de outrora não havia prejudicado suas habilidades mentais. Se fosse gente, seria um físico... um físico que descobriu a lei da gravidade na prática, ao saltar da janela em investida contra um pardal. Dzico, vale ressaltar, não era muito dado a teorias. O detalhe é que seus “paitotes” (mistura de pais com filhote, que não consta do dicionário) moravam num apartamento. Aos seis meses, Fundi perdeu sua primeira vida e, da forma mais doída, aprendeu que gatos não voam.

Além de físico nato, Fundi era praticamente um diplomata. Transitava bem em qualquer situação e, inclusive, com outras espécies. Provou isso quando o jornalista foi morar na Alemanha e ele, Dzico, teve de se mudar para a casa de seus “avóstotes” (mistura de avós com filhote, que também não consta do dicionário). No novo lar, em Pato Branco, sudoeste do Paraná, tinha a companhia de outros quatro gatos, mas se tornou melhor amigo de um cachorro branco, filhote como ele, chamado Floquinho. O cachorro, outro sem raça definida, cresceu odiando felinos... mas Fundi, como sempre, era uma exceção. Um gato político como ele não poderia, jamais, ser rotulado como os demais de sua espécie. Se fosse preso, exigiria cela especial.

O tempo passou e Dzico se tornou um adulto. Por volta dos dois anos de idade, um gato macho já pode ser considerado adulto. Sem perder tempo e aproveitando o melhor da via, o gato amarelo aplicava sua combustão hormonal nas namoradas... várias, todas gatas. De seu quociente de inteligência (QI), privilegiado, ele fazia bom proveito. Ao invés de namorar na rua e correr o risco de apanhar de gatos mais fortes e experientes, levava as namoradas para comer sua ração, na casa dos avóstotes. E comia elas.

Aos cinco anos, seguia sendo um incorrigível galanteador. Volta e meia levava um corridão de algum vizinho, indignado com o miado do baladeiro Fundi na hora do sono. Ossos do ofício... e que ofício! Com o passar dos anos, o que mais mudou foi a cor dos filhotes da redondeza, mais amarelinhos do que nunca, mais órfãos do que nunca. Ninguém sentirá mais falta do notívago felino do que as gatas que ele seduziu – e não se faz necessário explicar os motivos. Contudo, jornalista e ex-esposa (casamentos também “morrem”) lamentam não ter passado mais tempo com aquele que consideram ser “O Cara” entre os animais de estimação que tiveram.

O jornalista recebeu de sua mãe a trágica notícia, ao telefonar de São Paulo capital para se informar sobre os estragos causados pelo temporal, em Pato Branco. “A boa notícia é que a água não entrou em nossa casa. A má notícia é que Fundi morreu”, contou. (…) Alguns segundos se passaram até que o rapaz conseguisse dizer algo. Custou a assimilar a notícia, enquanto as boas lembranças de Fundi visitavam sua mente. No telefone público de um shopping, deixou escapar uma lágrima, esforçado-se para que aquilo não se repetisse. “Enterrei o corpo dele lá no quintal da tua avó”, acrescentou a mãe do jornalista, já sentindo o baque que a notícia causara em seu filho.

Fundi adulto
Ele e sua ex-esposa, que já não se viam há mais de um ano, tiveram de se falar novamente, por email. Assim que ela soube da morte de Dzico, respondeu a missiva para dizer o quanto amava aquele gato. Aproveitou para contar novidades: se tornara aeromoça, um sonho antigo, e estava morando na Grande São Paulo. Ele a parabenizou pela conquista e, fora isso, limitou-se a agradecer pelas belas palavras proferidas ao felino. Palavras que teriam emocionado o “Babundo”, outro apelido que o velho gato de guerra recebera de seus paistotes.

Amava viajar com ele, em cima de meu ombro, no ônibus; amava ver ele dormindo, e babando; amava esmagar ele; amava até mesmo quando ele ficava mordendo minha orelha, no meio da madrugada – escreveu a mãetote (outra que também não consta do dicionário). – Mesmo longe de você, Fundi, nunca te esqueci. Lembrarei de você e te amarei para sempre – encerrou.

Um mês antes do trágico temporal – e do maligno petisco envenenado –, o jornalista visitou seus pais e irmãos. Foi a última vez que viu Fundi, que estava mais adulto, com um olhar compenetrado, porém, com o mesmo jeito de gato malandro. Era um gato feliz e parecia preocupado em seguir uma única orientação: “vida, só se vive uma vez”. Desde então, com uma saudade que bate forte, seu dono se esforça em aproveitar cada dia como se fosse o último, tal como fazia Fundi. No Natal, quando voltar a Pato Branco e não mais encontrar o gato amigo, o jornalista plantará uma árvore onde jaz o felino... para não se esquecer dos bons momentos.
.

Quem está na cola do LF