18 de março de 2011

Happy hour em Maringay

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Quando Luke chegou à choperia preferida de oito entre dez solteiros de Maringá, com 30 minutos de atraso em relação ao combinado, os amigos Lelo e Rita já se encaminhavam para a segunda rodada: ele de chope e ela, de conhaque. Ela o de sempre e ele, nem tanto. Nos dois últimos encontros Lelo havia preterido álcool por um suco de morango com leite.

 Cadê a namorada Luke?  perguntou Rita.  Pensei que fosse nos apresentar ela hoje.
 Ela está na faculdade, mas não faltarão oportunidades  respondeu o atrasado.
 Sei brother! É a quinta vez que você diz isso. Tua namorada está que nem o Bin Laden, a gente sempre ouve falar, mas nunca ninguém viu  brincou Lelo. Sorrindo, os três e brindaram a muitos outros happy hour juntos.

A choperia estava praticamente lotada, algo incomum para uma quarta-feira de final de mês, quando boa parte dos trabalhadores já haviam torrado o salário do mês pagando contas. Uma mesa, em especial, despertou a atenção dos dois rapazes. Duas moças, uma loira gordinha (no diminutivo para ser simpático) e uma morena de corpo escultural pareciam aguardar a chegada de seus pares. O som ambiente, com música ao vivo, impossibilitava ouvir o que conversaram.

 Larga mão de ouvir a conversa alheia, Luke  reclamou Rita.
 Que é isso Rita  indagou Lelo.  Pouco antes de o Luke chegar era você que queria saber o que os caras ali da mesa ao fundo falavam.
 E por que Rita iria querer ouvir a conversa deles?  questionou Luke.
 Porque ela acha que o sujeito com gel no cabelo está dando moral pra ela  respondeu Lelo, com a devida entonação no “acha”.
 Ele está me encarando sim  garantiu a amiga de olhos verdes e sorriso maroto.
 Sem chance Rita. Você é linda, só que os caras são gays  avaliou Luke.

Um homem pode não reparar, a julgar pela aparência, quando uma mulher prefere pererecas a sapos, mas costuma acertar com precisão quando outro homem é gay. Na teoria de Luke, isso é possível menos por causa dos trejeitos, mais por conta da nítida falta de interesse deles pelas curvas femininas. Parafraseando o escritor Luis Fernando Verissimo, “Homem que é homem (HQEH)” repara atento um par de coxas e um belo rebolado como se seus olhos dissessem: “gos-to-sa”; homossexual repara os mesmos atributos dizendo em pensamento: “pi-ran-ha”. Ou às vezes: "va-ca o-fe-re-ci-da". Rita desdenhou da teoria.

 Você diz isso, Luke, porque está com ciúmes.
 Está bem, Rita, não está mais aqui quem falou.

Vinte infindáveis minutos depois de feito o pedido, o garçom trouxe a picanha na tábua. Demora de praxe, para forçar a clientela a beber mais. Na mesa ao lado, loira cheinha e morena gatinha ainda aguardavam por seus pares. HQEH, vale lembrar, não deixa mulher esperando.

Luke e Lelo, com muito assunto para pôr em dia, haviam pedido um baldinho de cerveja. Rita, já na ânsia para inflar os pulmões com fumaça, continuava trocando olhares com o sujeito da mesa ao fundo.

 O gostosinho de preto foi lá fora fumar. Vou aproveitar pra puxar conversa com ele  disse Rita.
 Isso não está certo. É ele quem tem dar em cima de você, não o contrário  protestou Lelo.
 Até concordo, mas vou abrir uma exceção. Faz um mês que não faço sexo  respondeu a amiga, num ataque de sinceridade “patrocinado” por três doses de conhaque.
 Deus, por que é que uma coisa dessas nunca acontece comigo?  brincou Luke.  Nunca nenhuma loira louca pra transar deu em cima de mim. Sempre tomei a iniciativa, quase sempre pra levar fora  acrescentou, já com Rita a caminho do encontro com o playboy.
 Deus, porque é que ela não pede minha ajuda para apagar o fogo. Tenho vocação para bombeiro  emendou Lelo, de olho no rebolado.

Da posição onde estavam, Lelo ficava de costas para o flerte e Luke, de frente para o “crime”, narrava o episódio para o amigo:

Cara, ela esqueceu o isqueiro só para ter como puxar conversa com o sujeito de preto / Bah, agora passou a mão no braço dele / Vixi, ele mexeu no cabelo dela, vai ver eu estava errado e ele não é tão gay assim / Opa, o cabeludinho que estava com ele na mesa saiu para fumar também. Estranho / Calma aí, cara, já te digo o que é estranho / Caramba, tu não vais acreditar no que estou vendo...

Luke não conseguiu prosseguir com a narrativa. Embora o esforço para não chamar a atenção dos vizinhos de mesa, engasgou-se num ataque de riso.

 O que houve brother? Diga logo.
 há-há-há...
 Vai, diga lá o que você está vendo.
 Veja com seus próprios olhos.

O cabeludinho e o playboy com topete moldado a gel eram mais “amigos” do que Rita e seu maço de cigarros. O sujeito de preto passou a acariciar os cabelos do companheiro, que retribuiu o carinho ao apalpar o traseiro do “escolhido” de Rita. Ela, visivelmente sem jeito e irritada, dava baforadas sem tirar a bomba de nicotina da boca. A teoria de Luke estava certa.

A dupla assistia de longe ao momento cômico quando, de repente, foi surpreendida pela sinceridade de um pobre andarilho com “bafo de onça”.

 Uma moedinha pra me ajudar, por favor  pediu o maltrapilho.
 Sei, só falta dizer que o dinheiro é para comprar leite para as crianças  resmungou Lelo.
 Não, é para comprar uma cachacinha  respondeu.

Homens são, em sua maioria, seres ambiciosos. Trabalham pelo status, pelo dinheiro e pelo que o status e o dinheiro podem proporcionar. Há quem diga que, na pujante Maringá, mais pelo status do que pelo dinheiro. Com o suor do cartão-ponto se pode beber com os amigos, viajar nas férias, comprar um carro para aumentar as chances de sucesso nas paqueras e, tendo sucesso, levar a namorada para comer... num bom restaurante, claro.

Às vezes, algum vício surge para roubar do homem seus sonhos, o emprego, o carro e, com o cartão de crédito cancelado, até a namorada. Num estágio mais avançado do vício, quando a família se cansa de ajudar e decide dar as costas, resta ao bebum apenas a companhia de seu fiel vira-lata. O único prazer, então, além de fazer "justiça" com as próprias mãos, é a "marvada".

 Bah, quanta sinceridade!  exclamou Luke  Toma aqui um trocado.
 Concordo, isso aqui é pra te ajudar com a cachaça  disse Lelo, contribuindo também com dois reais.
 Deus abençõe vocês  agradeceu o pinguço.

O que vale é a atitude, não o valor da oferta. Leitores da bíblia nas horas (bem) vagas, o católico Lelo e o protestante Luke conheciam aquela passagem em que Jesus valorizara a oferta da senhora pobre, que contribuíra com pouco, mas o fizera de coração. Feliz, o pinguço rumou para algum boteco com seus quatro reais. Chateada, Rita retornou da mal-sucedida paquera, com alguns cigarros a menos no maço. Certamente, o rapaz de preto NÃO daria fim ao período de “seca” dela.

 Agora entendo por que chamam Maringá de Maringay  reclamou Rita.
 Viu só no que dá trocar os amigos aqui por um desconhecido  comentou Lelo, rindo da situação.
 Para o teu governo, Lelo, o casalzinho lá quis saber se você é gay. Parece que eles têm um amigo solteiro  disse Rita.
 E o que você respondeu?
 Disse que você é muito gay, que você está solteiro e que amaria companhia no fim de semana  respondeu Rita.
— Viu só, brother, dá nisso ficar pedindo suco de morango com leite por aí  disse Luke.

Na mesa ao lado, loira e morena partiram sem beber metade das cervejas do balde. Nem sinal de seus pares. Evidente que a morena havia marcado o encontro à moda antiga: “leva um amigo que eu levo uma amiga”. Os pares devem ter desistido do encontro na entrada do bar, ao analisar a amiga loira de uma distância segura:

 Cara, tua mina trouxe para mim aquela loira com o triplo do meu tamanho? Sou muito teu amigo, mas isso é sacanagem — deve ter dito o amigo do "amigo" da morena.

E os pares deram meia-volta, abandonando as duas à própria sorte. Tem mulher que, com receio de perder a paquera para uma concorrente, só sai na noite com amiga feia. Aí, acabam as duas sozinhas e, pior, sem ninguém para bancar o baldinho de cerveja. Essa teoria, no entanto, não pôde ser comprovada naquela noite por falta de provas.

Assim como as moças da mesa ao lado, Rita também quis ir embora. Mulheres bonitas e gostosas, sempre cortejadas, tendem a ficar irritadas quando tomam "toco". Nada impressionados com a brabeza alheia, Luke e Lelo fizeram questão de incluir Rita na divisão da conta. Não se paga a bebida de mulher que passa celular de HQEH para quem joga no outro time. Desde aquele dia, Lelo é acordado no meio da madrugada por telefonemas anônimos.
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8 comentários:

tais ac filha do rei disse...

amei como sempre muito boa

Anônimo disse...

Ahahahah......E é Maringay mesmo, LF!!!!! Parabéns!!!
Adriano Danhoni

Lucas disse...

Suco de morango com leite é muito gay hahaha. Massa! Crônica engraçada.

Lucas, Florianópolis.

Camila disse...

Melhor de tudo foi ir reconhecendo os personagens! hahaha
Curti LF! =)

Yngrid disse...

UAHuhUHAUHuhauhAUH!!!! cada vez melhor!!!
bju!

LF Cardoso disse...

Esta é baseada em fatos reais, mas os protagonistas ainda não deram a cara por aqui. Talvez não tenham curtido.

soler disse...

Vivo em Boa Vista/RR e, sempre que posso, dou uma pasada no seu blog. Parabéns pelo seu trabalho. Quanto a conto...gay em todo canto.
Wilson Soler

LF Cardoso disse...

Caro Soler

É sempre ótimo receber o feek back dos leitores. Quando o retorno vem da distinta Boa Vista, melhor ainda! Abraços.

LF

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