31 de julho de 2011

Homem invisível

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Estirado no sofá, retomando o fôlego do exercício físico de minutos antes, flagro-me (outra vez) a observar a bela imagem de Marilyn Monroe. Lá está a bela, com seu olhar maroto, na estampa do meu relógio de parede. Os ponteiros do relógio feito de vinil reciclado, comprado numa lojinha dessas vende-tudo de São Paulo, quase marcam zero hora, impondo fim a um dia especial.

O Wikipédia me contou que o dia 26 de julho é a data de nascimento do saudoso Telê Santana (o melhor dos técnicos de futebol) e do vocalista da banda Rolling Stones, Mick Jagger (pai de trocentos filhos); e da morte do Papa João Paulo II. Para mim, o 207º dia do ano no calendário gregoriano passará a ser o Dia Internacional da Caloi 10.

A vida sedentária, a avaliação médica de pré-disposição a labirintite e o ganho de peso deram o alerta: havia passado da hora de mudar os hábitos. Matriculei-me numa academia, cortei os doces e frituras, reduzi as massas e, a mais empolgante das medidas pró-saúde, comprei uma Caloi 10 "zero km". Dizem se tratar (e eu concordo) do maior clássico entre as bicicletas fabricadas no Brasil.

Todas as cinco bikes que tive, anteriormente, foram presentes de meu pai. Logo, é a primeira vez que meto a mão no bolso para comprar uma bicicleta. Um sabor especial, quase comparado à compra do primeiro carro zero.

Lembro-me bem da última bicicleta que tive: uma mountain bike Sundown 18 marchas, roxa com detalhes em rosa e azul, bar hands também na cor rosa. Um pouco gay? Bastante, diria, mas na época não achava isso. A "magrela" era única na cidade, não havia outra igual. Da adolescência ao período da faculdade, foi meu principal meio de transporte na montanhosa Pato Branco. Por lá, ao contrário da plana Maringá, faz todo sentido ter 18 ou 21 marchas.

Com imenso pesar, vendi aquela bicicleta em 2006, antes de partir para uma temporada na Alemanha. Foram sete longos anos sem andar de bicicleta (ergométricas de academia não contam). Era difícil conter a ansiedade para voltar à rotina das pedaladas. Perder calorias com a sensação de liberdade do vento na cara? Bah, tudo de bom!

Tão logo saí do trabalho, apanhei e Caloi 10 e parti para o passeio inaugural. Não ousei largar as mãos do guidão, como fazia quando era mais jovem, com menos peso e mais cabelos. Andar de bike "sem as mãos" só depois de comprar um capacete.

Passei no posto para calibrar os pneus. Meti neles as 100 libras que o fabricante sugere, morrendo de medo de o pneu estourar de súbito. Dois caras na faixa dos 50, que abasteciam seus carros, vieram puxar conversa. Um teve Caloi 10 no passado, ambos não sabiam que o modelo ainda era fabricado.

- Caloi 10 é que nem Kombi, não acaba nunca - brinquei. Os camaradas se foram, um deles convicto de que uma Caloi 10 o deixaria alguns anos mais jovem.

Calibrando os pneus ou pedalando, o que não pude deixar de notar é que, no universo feminino, homem em bicicleta é invisível. As mulheres de hoje gostam mesmo é de homem com carro. Moto 150 cilindradas não serve. Carro usado também não serve, tem de ser novo e, de preferência, importado. Ser "Maria gasolina" está na moda. Não faz muito tempo, uma dessas me disse: "preciso de um mínimo de conforto". Nunca mais a convidei pra sair.

Quando era adolescente, já faz um bom tempo, os rapazes com Caloi 10, a primeira bicicleta com marchas do Brasil, faziam tremendo sucesso com as meninas. E elas até aceitavam uma carona no quadro da magrela. Ou, como se diz em Pato Branco, "no varão da magrela". Em tempos de domínio das "Marias gasolina", só se consegue tamanha proeza com uma Harley-Davidson.

Homem invisível que sou, apanhei a Caloi 10 e parti pelo roteiro pré-definido no Google Maps. Foram 17 quilômetros, dos quais pequeno trecho das pedaladas se deu em uma das raras ciclovias de Maringá. Na metade do percurso, fiz uma pausa estratégica na casa da Dona Celina, onde sempre encontro café passado e pão com manteiga. Bom pra repor as energias.

Os quilômetros finais, no retorno para casa, foram doloridos. Bicicletas da categoria Speed são leves, rápidas, interessantes de pilotar, mas deixam a desejar em conforto. Ouvi falar que ciclistas experientes usam shorts com almofada no traseiro. Muita frescura. Prefiro ficar com o traseiro doído.

Apesar das dores, vou guardar boas recordações do primeiro Dia Internacional da Caloi 10. Marylin, com seu sorrido maroto, parece me observar com olhar de aprovação. Nos tempos dela, homens de bicicleta não eram tão invisíveis quanto hoje, posso apostar. Algumas até aceitavam carona no varão.


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