26 de fevereiro de 2013

Amigo de Fé

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Já se passaram quase duas décadas desde a época que o irmão do meio dos três filhos de Dona Clacy costumava dizer que, quando fosse adulto, moraria em Maringá, a cidade mais arborizada e encantadora do Paraná. Terra onde tudo que se planta dá, cidade daquela catedral em formato de cone, de belas moças, bom clima e gente acolhedora. Mas Deus tinha outros planos para os três irmãos.

O do meio permaneceu na cidade natal de seus pais. Foram o primogênito e o caçula de Dona Clacy a desembarcar em Maringá. Primeiro o mais velho, dois anos mais tarde o caçula. Dividiram apartamento e viveram bons momentos juntos. Foram um para o outro o mais certo das horas incertas, sempre com “palavras de força, de fé e de carinho”, como já dizia Roberto Carlos em uma de suas canções mais famosas.

O mais velho da história, já careca aos trinta e poucos, é este que vos escreve. Lembro-me, como se fosse hoje, do dia em que meu irmão mais novo, semanas depois de terminar a faculdade de Publicidade lá no outro lado do Estado, chegou a Maringá em busca de melhores oportunidades na profissão. Depois daquilo e até então, vivi o que considero a melhor fase da minha vida. Ninguém deveria ser filho único, porque um irmão é uma das maiores bênçãos que alguém pode ter.

Não é preciso ter um milhão de amigos. A presença de quem se ama, do irmão sempre por perto, na maioria das vezes mais do que basta. Nos bons momentos, a felicidade conseguia ser plena, mesmo que fosse nas coisas mais pequenas, como nas noites de queijo e vinho antes dos combates da madrugada, na TV; na preocupação quando o outro estava doente; nas partidas de basquete na tabela vergonhosamente mal conservada da Vila Olímpica; no boteco de chope com colarinho e espetinho barato; nas partidas de futebol ou de Street Fighter no videogame, que eu sempre perdia, mas gostava de alardear que ganhava.

Depois de três anos juntos, meu brother, por quem sempre tive aquele sentimento de responsabilidade típico de irmão mais velho, partiu para uma nova caminhada. Provou mais uma vez que é um grande guerreiro. Sem emprego ou lugar certo para morar, mudou-se para Buenos Aires para um ano de estudos. Na certeza de que alguma portenha há de conquistar seu coração, penso que o jovem publicitário ficará na Argentina por bem mais que onze ou doze meses.

Na primeira noite após sua partida, a sensação foi de nó na garganta. Um sentimento difícil de explicar. Para fazê-lo, precisaria de ao menos um farelo do talento de Hemingway ou de Shakespeare. Sei que meu irmão João Paulo, a quem ajudei minha mãe na escolha do nome, não é um grande fã de Roberto Carlos, mas foi em uma canção do rei - ou melhor, uma verdadeira poesia do rei e de seu amigo Erasmo Carlos - que encontrei as palavras certas para expressar o que sinto.

“Não preciso nem dizer, tudo isso que eu lhe digo, mas é muito bom saber, que você é meu amigo. Não preciso nem dizer, tudo isso que eu lhe digo, mas é muito bom saber que eu tenho um grande amigo.” Irmão e grande amigo. Benditas sejam as amizades eternas!
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8 de fevereiro de 2013

Boa Viagem

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Era para ser mais uma sexta-feira de verão. Em Maringá, normalmente, isso significa calor e temperaturas máximas acima de 30 graus, ótimo para quem está na praia e péssimo para quem não tem ar-condicionado no escritório. Ainda bem, o que era para ser não foi. Fez frio!

Aquela manhã começou com cara de chuva e clima ameno. Ótimo para um café bem quente e um pão com chimia. Acordei cedo, com tempo de alguma leitura antes de partir para o trabalho. "Será que tem revista para mim na portaria", pensei. Desci na recepção do prédio para conferir e aproveitei para levar algumas sacolas de lixo. Deixei a água fervendo para passar o café. Um dia fresquinho daqueles merecia algo melhor que um mero solúvel.

Na portaria, nenhuma revista, mas uma grata novidade. O carteiro havia entregado um cartão postal de uma amiga viajante, jornalista, ex-colega de redação no maior jornal da cidade. De sorriso ímpar, por sorte, era minha vizinha de mesa. No jornal, eu costumava pegar pautas de política e ela, de assuntos mais honestos. Às vezes, flagrava-me olhando para a bela jornalista. Quando se trabalha por longas horas e sucessivos dias diante do computador, colírio se faz necessário.

Depois de encher o coração dos maringaenses de saudades, numa despedida sem alardes, Cristiane ganhou o mundo. Morou em Curitiba, São Paulo, Rio de Janeiro e sei lá onde mais. Quase a perdemos para Londres. Por fim, descobri no postal, estava ela em Recife. Logo imaginei as praias, a boa comida, gente receptiva e tantas paisagens de tirar o fôlego. É o que eu vejo nas fotos de amigos, nas revistas e na TV, já que, por infortúnio, nunca estive no Nordeste do País.

"Estou adorando Pernambuco! Recife tem um vento bom que balança os cabelos e faz a gente pensar na vida", escreveu a amiga, de cabelo longos, pretos e lisos. Fã de Chico Buarque, moça de bom gosto, fina e ao mesmo tempo simples. Tanto é que certa vez, já faz alguns bons anos, convidei-a para sair comer um "dógão" desses de esquina, com direito a molho de maionese temperado com ervas, e tubaína para acompanhar. E ela topou sem titubear. Recordar bons tempos do passado nos faz revigorar a alma.

Para um colecionador de postais, aquela correspondência foi um deleite. Na foto, Boa Viagem, a praia urbana mais famosa e badalada da capital pernambucana. Li que são quase sete quilômetros de extensão, de areia dourada e convidativa, com parte da costa protegida por uma barreira de recifes, responsável pela formação de belas piscinas naturais.

Entre goles de café e mordiscadas no pão com chimia, li e reli o postal. Apanhei um alfinete e marquei Recife no mapa-múndi que tenho na parede da sala. No quadro estão marcados todos os lugares de onde amigos me enviaram postais. Isso inclui destinos exóticos como as capitais Honolulu, do Havaí, e Nuuk, da Groenlândia. Como decoração, combinou com a bicicleta que tenho na parede.

Com a alma e o estômago alimentados, parti para o trabalho, sem blusa, para aproveitar o clima ameno. Como postais não anunciam detalhes do remetente, terei de descobrir por outros meios o endereço para retribuir, com outro postal, essa pequena lembrança que tornou um dia cinzento muito mais agradável.

E antes que me perguntem o que é "dógão" e chimia, digo-lhes que o primeiro, também conhecido como cachorrão, é o lanche típico de Maringá, um tipo de cachorro quente prensado que nenhuma outra cidade no mundo sabe fazer melhor. Nessa bela cidade arborizada, Big Mac é para os fracos. O segundo é o nome gaúcho, aportuguesado de schmier em alemão, para doce ou geleia de passar no pão. Detalhe, nossa schmier é doce e a dos alemães, salgada e preparada com queijo (Shimierkasse).
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Quem está na cola do LF