4 de setembro de 2009

Vinte dias com Angela

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Era inverno. Pelo que sugere a estação, devia estar frio, mas, na prática, o calor daquele início de tarde, em Maringá, permitia ficar a vontade com pouca roupa. O desconforto não estava no clima, tampouco no pagode de quinta que tocava no alto-falante da rodoviária e, sim, no atraso em quase duas horas do ônibus da linha Palmas-TO/Santa Maria-RS. Foi na longa espera, de causar raiva, que Angela notou Francisco pela primeira vez.

Quase 30, quase 1,80m, quase careca, quase desmaiado de sono - pela insônia da noite anterior -, Chico nunca teve panca de galã. Era do tipo que, com alguma frequência, passava despercebido nas festas. Porém, de jeans, camiseta, boné, óculos escuro e, sobretudo, tênis All Star, ele pareceu interessante aos olhos dela. Há pesquisas que afirmam que uma mulher, quando não está comprometida, repara da cabeça aos pés em até sete homens que a atraem, todo dia. Por sorte - no dicionário dele "destino" e no dela, "acaso" - Chico havia entrado na lista de bem-apessoados na avaliação da moça com não mais de 20, cinturinha de modelo, cabelos curtos e pele lisa.

A troca de olhares, do tipo capaz de causar frio no estômago e calor abrupto em outras partes, aconteceria instantes mais tarde e eles, solteiros, aproveitariam cada instante da oportunidade concedida pelo acaso - ou pelo destino. Se a vida fosse como no cinema ou nas novelas, pelo início da história, Francisco e Angela passariam por dificuldades para ficar juntos e, no final, viveriam felizes para sempre. Na vida real, não foi isso que a história reservou para eles, não em uma trama que envolve também um sujeito chamado Humberto - guarde bem esse nome!

Chico não costuma ser um cara apressado, mas o sono que tanto o torturava o fez ser o primeiro a despachar a mala para, o quanto antes, tomar seu lugar na poltrona 3 do ônibus. Já havia se acomodado quando decidiu buscar água no final do corredor, antes de cair no sono. Ao se levantar, seus olhos brilharam para Angela, que se sentaria na poltrona 4, ao lado da sua. Ele custava a acreditar na bondade divina. Toda vida teve problemas com "vizinhos" de viagem e, desta vez, parecia que a sorte estava a fim de compensá-lo. Angela ajeitava a mochila no bagageiro interno quando ouviu a pergunta:

- Vou ali ao fundo buscar água, posso trazer para ti também? - disse Chico, certo de que ela aceitaria e, mais, que gostaria da atitude. Ser gentil com aquela desconhecida jovem foi mais que um ato de cavalheirismo, em uma situação como aquela foi uma oportunidade, bem aproveitada, de quebrar o gelo.

Ela aceitou e, pelo sorriso ainda inibido, demonstrou ter curtido a atitude. Gaúcha, atraída a Maringá pelos estudos na universidade estadual, notou algo familiar no sotaque de Chico. Neto de gaúchos e repórter do maior jornal de Maringá, ele passaria o fim de semana em sua terra natal, Pato Branco, no sudoeste do Paraná. Uma cidade de colonização gaúcha que, bem por isso, é mais apegada aos costumes do Rio Grande do Sul do que do próprio Paraná.

Em férias na universidade, Angela passaria um mês na longínqua Alegrete, tão distante de tudo que um pouco além - bem pouco - fica o Uruguai. Ao lado dela, o sono de Chico passou de repente e ambos conversaram desde o copo d'água até o desembarque na "Capital do Sudoeste", que é a figura de linguagem utilizada pelos "nativos" para autoproclamar Pato Branco capital de alguma coisa. Nas 11 horas de viagem do trecho - que passaram como se fossem 2 horas - a estudante de Biologia e o repórter só interrompiam o bate-papo mediante apropriados e uníssonos "chiiiiiii" dos outros passageiros. Fora os dois, num ônibus sem televisores e sem filme para ajudar a passar o tempo, os demais queriam dormir.

Da turma do "chiiiiiii", quem não conseguiu pegar no sono ao menos ouviu boas histórias. Angela e Chico foram ecléticos e não economizaram saliva. Falaram sobre estudos, trabalho, religião, família, amigos, saudades da família e dos amigos, da cidade-natal, relacionamentos anteriores, sexo, drogas e rock and roll. Bate-papo que incluiu peculiaridades culinárias, como o fato de ambos gostarem de fígado de galinha e, mais que isso, saberem cozinhar o prato ainda tão pouco apreciado. O assunto sobre o preparo do fígado foi, de longe, o que mais recebeu pedidos de silêncio. Quando eles falaram de sexo e relacionamentos, porém, ninguém no ônibus se manifestou. Curiosidade, talvez.

Na afinada troca de palavras, o tom de voz e os olhares trocados na penumbra sinalizavam que o encontro daquele casal - unido por uma força maior ou por força nenhuma - teria um segundo tempo, de muitos gols. Na primeira despedida, nada de beijo, apenas um olhar prolongado e silencioso, repleto de boas e "más" (no melhor sentido da palavra) intenções. No desembarque em Pato Branco, numa madrugada de céu estrelado, com temperatura na casa dos 10°C, o indiscreto motorista perguntou:

- E aí, companheiro, pegou o telefone da moça? - Chico respondeu com um desinibido sorriso, de modo a dispensar as palavras. Angela ouviu o que dissera o motorista, de dentro do ônibus, enquanto observava o repórter apanhar sua bagagem. Também sorriu, embora um pouco envergonhada, menos pela curiosidade do motorista, mais por notar que todos os demais passageiros estavam em silêncio. Ou dormiam ou, acordados, tinham ouvido pormenores da conversa.

O jovem de Pato Branco havia esquecido de pedir o telefone da guria de Alegrete. O que na geração de seus pais teria sido um problema, na deles era um mero detalhe. Chico tomou nota do endereço de email, do MSN e do orkut de Angela, tudo para se certificar de que eles não perderiam contato. A bela de corpo delgado abanou com a mão esquerda assim que o ônibus partiu, já na expectativa de receber o primeiro email - que não demoraria a ser enviado.

Angela nunca acreditou em simpatias, porém, o encontro no ônibus a deixou pensativa. Seria possível que, mesmo com sua falta de fé, uma simpatia desse certo? No dia de Santo Antônio, na paróquia homônima em Maringá, a gaúcha comprara 12 pedaços de bolo para ela, as primas e os tios, com quem mora desde que ingressou na universidade, três anos antes. Reza a lenda que encontrar uma medalhinha de Santo Antônio no bolo significa - para as solteiras - namorado à vista. Das fatias que comprara, Angela comera três e, apenas esses, continham as ditas medalhinhas no recheio.

Já em Alegrete, recordou-se do recorde da Paróquia Santo Antônio, que agora lhe pertencia e do qual preferia não se orgulhar: três pedaços de bolo, três medalhinhas. E se, por acaso, a simpatia providenciasse a ela um namorado trilegal? Tentando se manter incrédula, seguiu trocando emails com Chico, todos os dias, até o dia em que seus olhares tornassem a se encontrar.

O reencontro foi em um banco de concreto com formato de onça-pintada, diante da entrada principal de um shopping de Maringá. Trocaram mimos - lembrancinhas, como se diz no Rio Grande -, beijos não. Não ali, diante de um conglomerado de lojas, de uma plateia de desconhecidos, da onça inanimada. Não antes de um passeio a dois, pelas ruas arborizadas da cidade. Não sem antes brindar o momento com chope gelado e música ao vivo. Sob a bênção de um céu estrelado, sem Lua, mas com outra longa e descontraída conversa, ele a acompanhou até a casa dos tios.

Chico sabia que seria correspondido. Angela sabia que bastava se virar de costas para ele, para ser abraçada e beijada no pescoço, antes do presumível beijo de cinema. Foi o primeiro grande momento de um romance que, já foi dito, não terminaria com o batido "e viveram felizes para sempre" e que teria ainda a figura de Humberto - repito: guarde bem esse nome!

Combinaram de ir ao parque, na tarde seguinte, caso fizesse sol. Contudo, a previsão era de chuva. E do céu derramou água, mas Chico foi ao encontro de sua gaúcha, com seu possante 1.0, mesmo assim. Questionou o que faria, pois chovia, e recebeu de Angela a melhor resposta:

- Com o tempo ruim assim, já era o passeio no parque - disse a bióloga.
- O que você sugere? - questionou o rapaz.
- A gente poderia ver um filme em sua casa - respondeu Angela, sem delonga. Para Chico, que morava sozinho, a ideia foi brilhante.

A gaúcha e o paranaense não combinavam em muita coisa, aliás, combinavam bem pouco. Ele, cristão protestante; ela, católica nada praticante. Ele, sonhador; ela, pés no chão. Ele, favorável à liberalização da maconha, embora nunca tivesse experimentado; ela, contrária à descriminalização, ainda que conhecesse os efeitos da Cannabis. As diferenças eram gritantes, mas um bom filme, sem pressa, eles curtiam muito assistir juntos. No segundo grande momento, beberam vinho. Bom esclarecer, não era um vinho qualquer.

Certa vez, na redação do jornal, Chico foi presenteado por Humberto - olha ele aí -, seu editor, com um chileno Santa Helena. Uma retribuição a um vinho que trouxera para o amigo de uma vinícola que visitara durante as férias, na Serra Gaúcha. Em uma comprometida troca de olhares, e admirado com a beleza de Angela, o pato-branquense se lembrou da sábia recomendação de Humberto.

- Deguste esse vinho com alguém especial, que faça por merecer cada gole - disse o experiente editor. Pela intensidade do encontro, Chico não tinha dúvidas: Angela fizera por merecer cada gota do fruto da videira. E foram vários goles, de modo a faltar tempo para o filme, no sentido literal da palavra. Quem dera durasse para sempre, porém, aos dois, nenhum ditado serviu tão bem quanto este: "os dispostos se atraem e os opostos se distraem". A gaúcha e o paranaense eram como água e óleo e, por consequência, não estavam verdadeiramente atraídos, mas, sim, se distraindo.

Tal como na noite do primeiro beijo, 20 dias depois, estavam novamente numa mesa de bar, frente a frente, mas já não tão próximos. Desta vez, o encontro era para desmanchar o namoro. No meteórico romance, Angela não se sentia como Julieta, tampouco Francisco como Romeu. Faltava a paixão genuína, o "combustível" sem o qual não é possível chegar ao amor. Deveriam insistir no namoro e desistir da busca pelo verdadeiro amor? A pergunta que não quis calar, calou sem dó o relacionamento recém-iniciado.

Angela se foi, sem dizer adeus. Chico, em busca de consolo, foi contar a história a Humberto. Experientes escritores, como ele, entendem bem os dramas da vida e do coração e, por isso, têm a palavra certa para quando um romance acaba.

- Você aproveitou bem o vinho, naquela noite? - quis saber Humberto. Ainda cabisbaixo, Chico respondeu que sim, que o vinho não tinha sido em vão. - É isso que importa. Levanta a cabeça e vai beber outro vinho, com outra companhia especial - sentenciou o amigo editor.

Feliz por ter conhecido Angela, e sem saber onde está sua Julieta, Chico levantou a cabeça, pensou no próximo vinho, e tocou o barco. Mais decidida do que ele no término do namoro, Angela seguiu com uma dúvida cruel: seria o amor de anos antes o Romeu que ela viu ir embora, sem se despedir? Ambos, em caminhos distintos, ajudados pelo destino - ou pelo acaso -, seguem em busca de uma paixão genuína, para escrever uma história que termine com "felizes para sempre".
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10 comentários:

Anônimo disse...

PERFEITO! :D
tu contou direitinho, hein! hehe
e enfim descobri quem era humberto!

e a angela foi sem dizer adeus pq ainda espera uma ligaçao do chico, pra se encontrarem e conversarem até altas horas!

;D
bjus!!

yngrid

Anônimo disse...

Só você mesmo para transformar "tragédia" em uma leitura pra lá de agradável. Me faz pensar que os romances ultimamente estão cada vez mais rápidos, parece coisa de novela, começam e terminam em segundos. Eu, como amiga, nem fiquei sabendo do início, nem tampouco do fim... mas a amizade continua, né?
beijos.
Sensação.

tais ac filha do rei disse...

Lf amei seu romance bem mais realista dowue esses americanos que as mulheres gostam de ler e ficar imaginando final feliz e sabe a vida é a realidade de finais que nem sempre são tao ferlizes mas que sempre terminam bem

Anônimo disse...

Conceito de gaúcho p o texto: LB (Loco de bom)
Vou esperar pelo texto do teu final feliz, embora esse, seja um final que se faz todos os dias, como uma planta que se rega e cuida, para poder colher os frutos!

Abraço!
Nara

LF Cardoso disse...

Uma coisa eu já percebi: finais super felizes agradam mais! Por isso as novelas sempre teminam do mesmo jeito, com o mocinho dando a volta por cima e dois ou três casamentos (embora eu não entenda essa associação de casamento com final feliz).

Yngrid, teu "PERFEITO" em caixa-alta já valeu o conto. Ah, o Humberto não comentou, mas disse ter gostado do romance (ponto pra mim, pra nós, sei lá).

Sensação, que já foi protagonista de uma de minhas crônicas, e Tais, minha prima (saudades), muito obrigado pelo apoio de sempre! São grandes leitoras, isso é fato!!!

Nara, toda pessoa quer ter um final feliz, por mais brega que isso possa soar. Chico e Angela também querem... cada um do seu jeito, um dia chegam lá. Colherão frutos se Deus permitir! Obrigado pelo "Loco de bom".

Luana Caroline disse...

Linda história de um romance de inverno!

Os dois seguirão seus caminhos mas tenho certeza que guardam um imenso carinho um pelo outro!

Sucesso pros dois
;)

Abraços

Vinicus disse...

Nota: 9,5

Vinicius Carvalho

Thiago Ramari disse...

Nota: 7,0

Thiago Ramari (por email)

Juliana Daibert disse...

Nota: 10

Juliana Daibert (por email)

Elaine disse...

Nota: 8,0

Elaine Utsunomiya (por email)

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