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7 de novembro de 2019

Tio Beto

O romancista John Grisham, 64 anos, é meu escritor norte-americano favorito, depois de Ernest Hemingway. Lembro-me bem do momento exato em que fui apresentado ao autor dos best-sellers "Tempo de Matar" e de "O Dossiê Pelicano". Foi em 2006, num pequeno quarto de uma república a um oceano de distância.

Folhas a cair no outono alemão, temperatura abaixo dos 10°C e aquela vontade de tomar logo um cafezinho para esquentar o corpo. No retorno do trabalho, uma correspondência enviada pelos meus tios Alberto e Iara me aguardava. A carta, que me encheu de alegria, estava acompanhada de um presente: o livro "Nas Arquibancadas", um dos melhores de Grisham (na minha modesta opinião).

Haviam-se passado 20 dias desde minha chegada a Bonn para um estágio na Deutsche Welle, a renomada emissora pública alemã. Apesar de morar na Alemanha e de estagiar num importante veículo de comunicação no exterior representarem a realização de um sonho, eu sentia uma forte solidão, especialmente à noite, quando retornava para meu pequeno quarto. Naquela minha primeira experiência internacional, aos 25 anos, mais de 11 mil quilômetros me separavam da família, em Pato Branco.

Aquela carta, que guardo até hoje, com imenso carinho, trazia uma mensagem reconfortante, otimista, com votos de sucesso. Diz um trecho da missiva:

"Você está tendo uma iniciativa maravilhosa. Aproveite esse momento ao máximo, capitalize as experiências, amplie os contatos e os horizontes. Lembre-se que todos torcemos muito pelo seu sucesso e acreditamos em você. Porém, quando der aquela saudade, sentir medo ou solidão, lembre dos ensinamentos e conselhos dos seus pais, seus tios e seus irmãos. Parabéns pela coragem e decisão". 

Mensagens de apoio como aquela foram fundamentais para meu crescimento pessoal e profissional. Agora, aos 38 anos, vejo que fui um privilegiado por ter tido sempre esse suporte familiar. Nunca me faltaram referências positivas na minha família. Parte dos bons exemplos vieram do meu tio Alberto ou, simplesmente, tio Beto – como sempre chamei o irmão mais novo de minha mãe. Minhas lembranças dele vêm da mais remota infância, de quando eu entrava em seu quarto – ele ainda morava na casa dos meus avós – para espiar suas coisas, sem que ele soubesse. Nunca quebrei nada, registre-se!

Lembro-me que Tio Beto tinha um relógio de pulso que vinha acompanhado de várias pulseiras, algo bem descolado para os anos 80. Mais legal que isso era seu Alfa Romeo amarelo de quatro portas. Naqueles tempos, se uma Caloi 10 já colocava o rapaz em evidência, imagine só o efeito social de um carro quatro portas! É certo que meu tio, boa pinta, inteligente, funcionário de banco, datilógrafo de primeira (na época, isso importava mais que falar inglês) tinha inúmeras pretendentes.

Hoje com mais de 82 mil habitantes, Pato Branco devia ter menos da metade dessa população nos anos 80. Era uma cidade de pouca infraestrutura e sem opções de ensino superior. Quem quisesse prosseguir nos estudos precisava partir para centros maiores – uma opção pouco provável para maioria dos jovens pato-branquenses da época, exceto para os filhos dos ricos. Tio Beto desconsiderou as limitações e foi estudar em Porto Alegre.

Fico a imaginar as dificuldades pelas quais passou meu tio para estudar na capital gaúcha. Meu avô, Armando Cardoso, apesar de ser um homem de muita leitura, não era pessoa de posses. As conquistas de minha mãe e meus tios foram, em grande parte, mérito deles mesmos. Os desafios que enfrentei na Alemanha, com todo o suporte da família, por exemplo, em nada se comparam àquela jornada de um jovem do interior, sem recursos, na grande cidade. 

Pela história que me foi contada, tio Beto retornou solteiro do Rio Grande do Sul, para sorte da minha tia Iara, uma moça de ótima família, uns dez anos mais jovem que ele. Eu era bem pequeno quando ele a apresentou aos meus pais. Todos logo gostaram dela. Alberto e Iara sempre formaram um belo e admirável casal, a ponto de – muito provavelmente – causarem aquela invejinha básica aos ex-pretendentes dela e às ex-pretendentes dele. Nos relacionamentos é assim mesmo, a maior parte fica chupando dedo.

Os anos foram se passando e a convivência com meu tio foi sempre uma constante. Foi com ele que aprendi a jogar xadrez, por volta dos dez anos, e a gostar de Fórmula 1. Nas festas de família eu, meu irmão e primos sempre desafiávamos os tios nos jogos de conhecimentos gerais, como o Perfil, e sempre perdíamos. Tivemos muitos acampamentos e viagens juntos, em família. Na minha formatura em Jornalismo, tio Beto estava presente. No casamento que não deu certo, também. Nos cinco meses que estive na Alemanha, também, ainda que em pensamento.

Por tudo isso, a descoberta de um câncer no pâncreas, há alguns meses, foi um baque para toda a família. Com grande tristeza minha mãe me telefonou para contar a notícia. Recém-aposentado da Caixa, tio Beto tinha uma série de planos. Gente ativa como ele sempre tem muitos planos. Nesta quarta-feira, 6 de novembro de 2019, ele partiu, aos 58 anos. Num primeiro momento, faltaram-me as palavras para os pêsames. Esses parágrafos todos foram escritos com lágrimas nos olhos.

Há alguns meses, estive em Pato Branco para visitá-lo. Tio Beto já encarava as sessões de quimioterapia, com a coragem de sempre. Minha viagem não teve tom de despedida. Todos tínhamos fé em sua cura, apesar de saber que a situação era bem grave. Foi a última vez que o vi pessoalmente. Triste.

Foi uma inestimável perda. Alguém já disse que "nunca estamos preparados para perder alguém que amamos". Deveria haver alguma lei celestial que impedisse pessoas de bom coração e caráter de morrerem tão cedo. À minha tia Iara e meus primos Miguel e Vitor Cardoso, meus sinceros sentimentos. Tio Beto, descanse em paz.
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Tio Beto com os irmãos Clacy (minha mãe) e Paulo
 
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11 de setembro de 2018

Bolsonaristas têm de torcer pelo PT

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A 26 dias do primeiro turno das eleições, a mais recente pesquisa Datafolha para presidente da República traz uma boa e uma péssima notícia para os bolsonaristas. A boa: Jair Bolsonaro (PSL) ampliou um pouco a vantagem para o segundo colocado. A má notícia: sua rejeição não para de crescer, o que impõe um teto eleitoral baixo para o candidato.

A primeira pesquisa sem o ex-presidente Lula (PT) mediu as intenções de voto quatro dias após o atentado sofrido por Bolsonaro em ato de campanha em Juiz de Fora (MG). Havia a expectativa – pautada na ampla exposição do fato pela mídia – de que a facada, desferida por um completo imbecil sem filiação partidária, faria o candidato do PSL disparar nas pesquisas.

Os dias se passaram, o agressor foi preso; a vítima segue internada, mas se recupera bem; teorias da conspiração de todo tipo tomaram a rede; gente mal intencionada espalhou boatos; e as expectativas iniciais não se confirmaram. O candidato cresceu de 22% para 24% no Datafolha, bem aquém do discurso da militância de que "o atentado acabava de eleger Bolsonaro". A julgar pelos números, fora a militância, o atentado não causou comoção.
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15 de agosto de 2018

Lula tucano

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Por puro gosto e não por necessidade – porque estou temporariamente de “licença” do ofício de repórter –, acompanho com afinco o noticiário de política. Vejo o que saiu nos jornais, leio os principais portais com cobertura na minha área de interesse, ouço rádios que discutem o tema e assisto na tevê aos debates e programas de entrevistas com os candidatos. Uma overdose.

O tempo que alguns dedicam ao programas de auditório, aos reality shows, às maratonas de séries norte-americanas, àquele programa musical que “só toca top” (propaganda enganosa, na certa) e aos alienígenas do History Channel, eu prefiro gastar com política. Aliás, eu também assisto ao “Alienígenas do Passado”, porém, quanto ao programas de auditório, falta-me estômago. Nem com sonrisal.

Essa overdose, muito provavelmente, está interferindo em meu sono. Os sonhos da noite passada que o digam. Sonhei com petistas, tucanos, eleições, manifestantes e protestos. Garantem os especialistas que tudo o que sentimos, vemos e vivemos é refletido nos sonhos, porque nosso cérebro nunca para de funcionar, mesmo naquele sono profundo de um porre.

No sonho, em plena corrida eleitoral pela Presidência da República, manifestantes de vermelho convulsionavam pelas ruas. Vitrines apedrejadas, agências bancárias depredadas, ônibus queimados. O caos. Havia até pessoas com coquetel molotov em mãos, prontos para fazer ainda mais estrago. O que mais chamava atenção eram as faixas de “Lula traidor”. Como? Militantes querendo o couro do ex-presidente, aquele mesmo conhecido internacionalmente por tirar milhões da pobreza e que, mesmo preso, seguia sendo um ícone para a esquerda brasileira? Isso mesmo, gente com camiseta do PT gritando “Lula traidor”.

Condenado em segunda instância e, por isso, impedido de disputar as eleições presidenciais, Lula havia tomado uma medida dramática. Deprimido pelo isolamento do cárcere, sob vigilância do juiz Sérgio Moro, Lula abandonara o PT para se filiar ao PSDB.

No dia seguinte à decisão de virar tucano, Lula estava livre da prisão, respirando o ar puro da liberdade outra vez. Não sem duras críticas. Para os poderosos detentores do capital, Moro havia demorado demais para soltar o ex-presidente. Um novo tucano não pode ficar tanto tempo sem bater as asas.

Enfim, Lula poderia vazar de Curitiba. O friozinho agradável, as cafeterias, as araucárias, o transporte público de referência e os belíssimos parques, que tanto agradam os turistas, não apetecem muito o pessoal do colarinho branco. Os políticos certamente preferem outros destinos para as férias. Dizem as más línguas que o presidente Michel Temer (MDB) tem pesadelos toda noite com Curitiba.

Dias depois da soltura, Lula dava as caras na campanha presidencial de Geraldo Alckmin (PSDB). Daí, a convulsão social nas ruas. Nas regiões Norte e Nordeste, pela primeira vez na história, o PSDB venceria com folga a esquerda nas urnas. Dizem que o eleitor tem memória curta. Pode ser, mas quem passou fome nunca se esquece dos tempos de dificuldade. Por isso, Lula seguia imbatível nos rincões do País, independentemente da legenda partidária.

A cada nova pesquisa, Alckmin se aproximava mais próximo de uma implacável vitória no primeiro turno. Os tucanos já preparavam suas garrafas de Dom Pérignon para celebrar a conquista. Finalmente, o Brasil voltaria aos trilhos do desenvolvimento. Os bancos – que no auge da crise faturaram bilhões, explorando os trabalhadores com taxas de juros surreais – preparavam-se para faturar os mesmos bilhões, só que ao cubo.

Certamente, o mercado veria com bons olhos o resultado das urnas, o dólar cairia e os juros baixariam. Exceto os juros do rotativo do cartão e do cheque especial, claro, pois esses nunca caem. Do contrário, o que seria dos banqueiros sem as retiradas bilionárias todo ano.

Nas ruas, estava claro que os militantes de esquerda não aceitariam calados o desenrolar dos fatos. Che Guevara havia baixado neles. Lembro de ter visto uma amiga, líder sindical, nas manifestações. Ela, que participara do acampamento em frente à Superintendência da Polícia Federal, em Curitiba, agora era mais uma gritando palavras de ordem contra o ex-presidente.

No entanto, outra amiga sindicalista, fã incondicional de Lula, havia se filiado ao PSDB para seguir o mestre. Foi quando despertei, doido de vontade de tomar um cafezinho passado na hora. Que sonho esquisito. Ou teria sido um pesadelo?

Na vida real, tudo segue como no dia anterior. Preso e impedido de participar dos debates, Lula lidera as pesquisas. Pelas regras do jogo, a Lei da Ficha Limpa o impedirá de concorrer, mas o programa eleitoral na TV se encarregará, em tese, de transferir seus votos para o sucessor na chapa, o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad (PT).

Nas recentes pesquisas, Jair Bolsonaro (PSL) segue em segundo, com Marina Silva (Rede) em terceiro e Ciro Gomes (PDT) em quarto. Com menos de dois dígitos, Alckmin surge no quarto lugar, fora do “pódio” e bem distante do segundo turno. Sem o apoio de Lula, o que só seria possível em sonho, o Dom Pérignon dos tucanos talvez tenha de aguardar mais quatro anos.


9 de agosto de 2018

Homem de bem

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A hora do jantar, em família, é sagrada para José Borges, 45 anos, casado, pai de um filho pequeno. Na mesa, a apetitosa comida estava ainda mais saborosa desde a reconciliação com sua senhora. Ficaram brigados por algumas semanas, depois que a raiva dele resultou em hematomas nela. Foi um desentendimento "por amor", dizia ele.

Borges jantava seu prato favorito, frango frito com batata inglesa assada, temperada com pimenta do reino, salsinha e azeite de oliva; quando o telefone fixo tocou.

— Poxa vida, bem na hora do jantar. Atende lá mulher, que eu trabalhei o dia inteiro.

A esposa estava exausta após a faxina, os cuidados com o filho, as compras no supermercado, os preparos do jantar, as aulas do curso de graduação a distância. Ainda assim, levantou-se da mesa e atendeu a ligação, sem reclamar.

— É seu amigo Nico. Quer falar contigo.
— Tem de ser agora?
— Ele insiste que é urgente.

Ainda mastigando um bocado de frango frito, Borges apanhou o telefone.

— Fala brother.
— Zé, seu celular está desligado? Tentei te ligar e não atendeu.
— Parou de funcionar. Vou procurar aquele ambulante filho da mãe para reclamar.
— Já te disse para não comprar na rua. Pode ser aparelho roubado — advertiu Nico.
— Mas diga lá, o que há de tão urgente?
— Você não viu? Seu vídeo passou na tevê para o país inteiro!

Ah, quem diria! O vídeo despretensioso de Borges, gravado na horizontal conforme as recomendações dos jornalistas da emissora, havia sido selecionado para o quadro “O Brasil que eu Quero”. A estratégia de gravar em frente à igreja matriz, cartão-postal da pequena cidade, pelo visto fora acertada.

Nos minutos seguintes, mais ligações atendidas pela esposa e outras interrupções no frango com batatas. Eram outros amigos contando a boa nova. No aplicativo de mensagens, que ele não podia acessar sem seu smartphone, Borges podia imaginas as centenas de felicitações pelo feito.

Zé, para os mais chegados, era um sujeito conhecido, benquisto na sociedade local. Motivo que explica os telefonemas. Após um dia puxado, Borges se sentia merecedor daqueles segundos de fama. Parecia um jovem youtuber com o sorriso no rosto pelo primeiro vídeo com um milhão de acessos.

Antes de revelar o conteúdo do vídeo que ganhou as telinhas de todo o Brasil, vale a pena relembrar o atarefado dia desse distinto cidadão. Pela manhã, pulou da cama por volta das 7h30. Deu uma rápida zapeada nos incontáveis canais de sua “gratuita” skygato. Reclamou do café da manhã: “Omelete, de novo”. Saiu sem se despedir da mulher, que acordara uma hora e meia antes passar o café e preparar a papinha do bebê.

Na saída de casa teve o segundo incômodo do dia – o primeiro fora a omelete. Na caixinha das correspondências, uma do departamento de trânsito o informava sobre uma multa tomada dias antes por avanço de sinal vermelho. "O que tem de passar um pagador de impostos nesse país injusto", esbravejou Borges, em pensamento.

Um pouco atrasado por conta da leitura da correspondência, trafegou cinco metros na contramão para não precisar dar toda uma volta no quarteirão. Ao menos ali, a prefeitura não havia instalado câmeras de vigilância para flagrar infrações de trânsito. Para Borges, as lideranças municipais deveriam se preocupar mais com bandidos, ao invés de punir gente de bem com uma “indústria da multa”.

Menos de dez minutos depois, o apressado condutor já estava na Câmara Municipal. Cargo, assessor parlamentar; salário, R$ 5 mil. Não tinha jornada definida de trabalho. Na verdade, dava as caras no gabinete duas ou três vezes por semana, e devolvia 40% do rendimento mensal para o vereador. O repasse ajudava a compor o caixa dois da campanha seguinte. Trabalho duro, mesmo, só no período de eleições, sob risco de seu parlamentar perder o mandato e, ele, a boquinha generosa. No poder público, sempre há teta para mais um.

Quando dava as caras, a permanência na Casa de Leis costumava ser de meia hora, salvo duas exceções: em dia de sessão com projeto de lei polêmico envolvendo seu vereador e quando a assessora gostosa de outro parlamentar estava na área, dando sopa. Sempre rolava uma paquera, ao menos da parte dele, na cantina dos funcionários do Legislativo, onde não havia câmeras.

— Jordana não está por aí hoje? — perguntou Borges, sobre a cobiçada assessora parlamentar.
— Tome jeito, Zé — respondeu a secretária do vereador, um sujeito de extrema direita, pouco dado a minorias e “gente da senzala”, como o próprio edil costuma dizer.

O vereador tinha grande estima por Borges, “um dos seus”, apesar das passagens do assessor pela polícia por agressão doméstica e injúria racial. Contudo, o parlamentar, um moralista, desaprovava as cantadas do assessor casado à colega do Legislativo. O que diriam os eleitores se descobrissem. Entre seus apoiadores nas urnas estava fiéis da Galáxia do Reino de Deus, algo assim.

— Bom, já que a gatinha do gabinete vizinho não está, vou cair na estrada.
— Com esse tempo de chuva, Zé?
— Sim, as encomendas não param. Quer alguma coisa?
— Duas garrafas de gim. Não esquece.

Por conta de seu horário flexível na Câmara, Borges tinha tempo de sobra para suas idas e vindas do Paraguai. Com as muambas, conseguia triplicar as rendas do mês. Trazia de tudo, laptops, iPhones, pneus, televisores de tela plana, videogames, cigarros etc. Só não mexia com drogas ilícitas, porque homem de bem tem de dar bom exemplo.

Deu azar uma única vez. Foi pego na aduana, perdeu tudo o que estava acima da cota limite e aprendeu com aquela dura lição. Agora, Borges faturava ainda mais ao voltar do "Paragua" com sua caminhonete abarrotada de produtos. O esquema na fronteira era bom para ele e para os fiscais, que ganhavam uma gorjeta generosa por semana para fazer vista grossa. O próprio vereador, ambulante antes de ser eleito, foi quem lhe ensinou o caminho das pedras, ou melhor, da "fiscalização zero".

No retorno à cidade natal, para não perder o hábito, parou na estrada para tomar sua caninha. Na casa das primas, tinha a carícia certa lhe aguardando. Pagava bem para escolher, e escolhia a opção mais arrebitada. “Isso é coisa de homem”, já dizia seu avô. “Homem é assim mesmo”, dizia sua avó, conformada. Àquela altura, a esposa já havia posto a mesa do jantar.

Pegar estrada esburacada não é tarefa fácil. Quando chovia forte, como era o caso naquele dia, Borges reduzia a velocidade e bebia apenas uma cachacinha, sem a saideira. Varado de fome, deixou as encomendas para entregar na manhã seguinte, já que não precisaria bater ponto na Câmara.

Aliás, meses antes, Alves, o parlamentar esquerdista FDP, tentara impor a obrigatoriedade de ponto biométrico na Casa de Leis, mas, felizmente, seu vereador havia conseguido o apoio da maioria para vetar a proposta. A "normalidade" de sempre seguia sendo a regra.

— Olá, Zé, como foi seu dia? — perguntou a esposa, no retorno do marido ao lar.
— Muito puxado, como sempre. O trânsito na fronteira e o vai e vem dos muambeiros nas lojas me estressam, você sabe. E com a chuva, pior ainda.
— E na Câmara, tudo certo?
— Não tinha nada para fazer lá. O dia de receber os pobres pedintes no gabinete é só na semana que vem.

A pergunta da esposa sobre a Câmara não era por suspeita da paquera indevida, mas por preocupação. Ela tinha ouvido na rádio, enquanto limpava a casa, que o promotor estava investigando denúncia de funcionários fantasmas.

— O quê? Que promotor desocupado. Não tem bandido para prender não?
— Isso te preocupa?
— Claro que não, porque o trabalho de um bom assessor é na rua, falando com o povo.
— Quem você acha que fez essa denúncia?
— O FDP do Alves, com certeza. 

Como a mesa já estava posta, Borges desandou a comer. Foi quando o telefone tocou. O assessor chegou a pensar que seria seu vereador, mas era o amigo Nico, trazendo a boa nova. O que os amigos viram na telinha foi um Zé boa pinta, gel no cabelo, camisa branca bem passada, pedindo no horário nobre por “um país com melhores estradas, com menos impostos e sem corrupção”. Um belo discurso, digno de um cidadão de bem, apesar da hipocrisia.


10 de julho de 2018

Sonhei com o Corinthians

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Noite fresca de outono, digna de um bom vinho tinto e de um prato saudável que me lancei a preparar para a família. No menu do dia, sopa de frango com caldo de abóbora cabotiá, com toque final de manjericão fresco da muda que eu ganhara semanas antes da amiga jornalista Juliana Daibert. A esposa aprovou, e repetiu, mas o gato Timbu deu apenas um golinho no caldo. Nessas horas, a família serve de cobaia em minhas incursões na cozinha.

O vinho e o jantar de quarta-feira, normalmente, acompanham a rodada do futebol. Na tevê, Corinthians e São Paulo pela semifinal do Paulistão 2018. No sofá, este jornalista, palmeirense, deliciava-se com a tensão alheia para conhecer o adversário do alviverde imponente na final. Em tese, todo palmeirense torce contra o Corinthians, mas naquele caso pouca diferença faria se o vitorioso fosse bambi ou gambá.

No segundo tempo, o zero a zero no placar despertou a irresistível vontade de zapear. Para quem cresceu em tempos analógicos, em que controle remoto não existia, trocar sucessivamente de canais sem levantar do sofá proporciona um prazer difícil de descrever. Quando percebi, estava envolvido com o Alienígenas do Passado, programa do History Channel que defende a tese de que seres de outros planetas tiveram importante papel no desenvolvimento de civilizações antigas.

Enfim, as histórias dos teóricos dos antigos astronautas me fizeram esquecer completamente do jogo e, quando lembrei de retornar ao canal de origem, o Corinthians tinha acabado de abrir o placar, nos acréscimos, levando a partida para os pênaltis. No momento decisivo, provavelmente sob bênção de São Jorge, o goleiro Cássio pegou duas e o Timão avançou à final. Ainda no sofá, peguei no sono minutos depois. E o sonho (pesadelo, talvez) que viria foi surreal.

Estávamos eu e os ex-colegas de redação Luiz de Carvalho e Welington Vainer saindo do estádio, onde tínhamos assistido àquele mesmo derby paulista. Nos tempos do jornal O Diário, Carvalho e Vainer eram parceiros do cafezinho da tarde em uma cafeteria na Avenida Brasil, de duas irmãs chamadas Val. Talvez pela influência subliminar desse convívio profissional diário eles tenham sido incluídos no sonho.

De repente, já estávamos em outro ambiente. Não sei dizer se era um pub ou uma cafeteria. Comentávamos sobre a ineficiência bambi – ao tomar o gol nos acréscimos – quando surgiu, todo ofegante, com a voz ligeiramente trêmula, um jogador do Corinthians. Ao menos no sonho, parecia muito se tratar de Romero, o atacante paraguaio.

— Eles foram embora sem mim — dizia, repetidas vezes, o jogador.
— Calma rapaz. Eles quem? — perguntou Carvalho.
— Meu time, o Corinthians. Esqueceram de mim — respondeu.
— Como é que um time esquece do jogador. Você não deve ser um cara importante, então — comentei.
— Que absurdo isso. Cadê o assessor do time numa hora dessas — reclamou Vainer, o único corintiano no recinto, além do jogador.

Discorríamos sobre o inusitado episódio quando Romero começou a chorar. De tão transtornado que estava, o corintiano custava a ouviu nosso convite para se acalmar. Nada como alguns goles de café, sem pensar nos problemas, para acalmar a alma.

— Rapaz, para que tanto desespero. Por que você não pega um táxi ou um uber? — questionou Carvalho.
— Não sei pra onde o time foi.
— Então, vai pra sua casa — sugeriu Vainer.
— Não lembro onde eu moro — respondeu o jogador, enxugando as lágrimas.
— Caramba. Depois dessa vou precisar mais de mais um café. Surreal — eu disse.

Parecia um pesadelo. Estávamos lá, entre goles de café, sem saber o que fazer com o corintiano. Ninguém queria se responsabilizar pelo cidadão, nem mesmo Vainer, que por ser do mesmo time tinha mais responsabilidades do que nós naquela situação. Se alguém tivesse de servir de babá, que fosse ele.

— Você que tem de levar o Romero embora — comentei, dando um tapinha nas costas do colega Vainer.
— É sim, é seu dever como corintiano — emendou Carvalho, aos risos.
— Não posso, vou pegar meu ônibus para Castelo em 15 minutos — retrucou Vainer, referindo-se à sua cidade, Presidente Castelo Branco, situada na região metropolitana de Maringá.

Ainda preocupado com o abandono, Romero disse estar sem dinheiro. Isso era ainda mais custoso de acreditar. Jogador de time grande sem grana? Devia ganhar por jogo, ainda que ficasse no banco, mais do que nós jornalistas num ano todo de trabalho.

O corintiano aceitou beber algo enquanto pensávamos no que fazer. Pediu achocolatado. Não tinha. Pediu fanta uva. Tinha. Vainer já havia vazado, como medo de ficar de babá. Éramos só Carvalho, eu e o jogador abandonado pelo Timão.

— Ele deve estar há muito tempo sem fazer gols, para ser esquecido desse jeito — eu disse a Carvalho.
— Nem sei. Prefiro ouvir jazz e ler livro a ver o Corinthians — respondeu Carvalho, sendo interrompido por Romero.
— Vocês não gostam de fanta uva?
— Não.
— Não.
— Por que não?
— Porque prefiro café — disse.
— Porque é bebida de criança — disse Carvalho. — Ou de bambi, e você é corintiano — acrescentou.

Para onde levar o cidadão, era essa a questão que pairava no ar. Para o albergue? Para a delegacia? Ou seria melhor ligar para o Conselho Tutelar? Muitas ideias surgiam quando, ao longe, notamos o amigo Rodrigo Parra se aproximar, com sua bike. Também jornalista, e fanático pelo Timão, Parra haveria de saber o que fazer.

— Parra, nos ajude por favor. Não sabemos o que fazer com este jogador — eu disse.
— Romero, o que você está fazendo aqui com um palmeirense? — perguntou Parra.
— Tomando fanta uva.
— Certo, deu para notar. Mas você não deveria ter viajado com o time? — tornou a perguntar Parra.

Nos instantes seguintes, Romero repetiu toda a história da má sorte do abandono, e tornou a chorar. Parra acalmou o jogador e tranquilizou a todos com sua resposta.

— Eu sei onde ele mora. Vou levá-lo para casa — disse.
— Ufa — respondi.
— Ainda bem. Como você vai levá-lo? — questionou Carvalho.
— No quadro da magrela, onde mais — respondeu Parra.

Em alguns cantos do país, o quadro da bike se chama "varão". Logo, Parra levou Romero para casa no varão. Acordei a rir disso, no sofá, horas depois do fim do jogo, pasmo pelo sonho bizarro que acabara de ter. Tomei um copo d'água, tornando a rir da situação do Romero, e fui para a cama acompanhar a esposa e o felino no descanso noturno. Não é todo dia que se tem um pesadelo desses com o time rival.


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11 de outubro de 2014

Não ao "rouba, mas faz"

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Nunca fui adepto do "rouba, mas faz", expressão que lembra Maluf e outros fichas sujas. E nunca vou ser, apesar de críticas até de pessoas próximas, que discordam do meu posicionamento. Se sou honesto, tenho o direito de exigir isso da classe política.

Quem renova o mandato de governos corruptos não pode se dar ao luxo de ficar indignado com os altos impostos do Brasil; com a saúde precária; com brasileiros morrendo na fila por falta de atendimento e até de medicamentos; com o amigo que tem problema grave de saúde e leva meses para conseguir uma consulta médica; com a escola pública de péssima qualidade, que não serve para os filhos de senadores e deputados, por exemplo; com o filho que ficou sem merenda na escola porque alguém desviou recursos; com o salário (ou o que chamam de salário) dos professores; com o juiz que mandou soltar bandidos porque não tinha vaga no sistema carcerário; etc.

Quem dá um contrato assinado em branco (o voto) para que um governo corrupto continue no poder não pode se indignar com nada disso, porque toda a fortuna que é desviada para a conta de políticos ladrões, corruptos, e seus comparsas seria o suficiente para resolver todos esses problemas e outros que não listei. E se listasse, não caberiam num livro.

Político, corrupto ou não (a minoria), ama o voto mais do que qualquer coisa. Alguns, mais do que sua própria mãe. Político precisa do seu voto para ficar ou chegar ao poder. Se pararmos de votar em governos com escândalos de corrupção, se dermos o recado nas urnas de que não importa o que tenham feito de bom, se tiverem desviado dinheiro público não terão nosso voto; forçaremos os políticos a adotarem postura mais honesta conosco e com o dinheiro dos nossos impostos.

A política do "rouba, mas faz" tem de acabar, e isso só vai ocorrer com a renovação constante e sem piedade dos governantes e legisladores. Errar na escolha e eleger político que, mais tarde, mostra-se corrupto é humano. Errar de novo e manter um corrupto (ou alguém que não seja, mas parabeniza um colega de governo, corrupto, pelos "bons serviços prestados") no poder é burrice.

Tenhamos em mente que o que determinado governante faz por nós é obrigação, não um favor. E se o faz tirando proveito, direta ou indiretamente, de esquemas de corrupção, não merece nosso voto. Nós pagamos os políticos muito bem para que eles nos representem. São nossos empregados, pagos com nosso dinheiro. E empregados desonestos a gente demite por justa causa.

Se reciclagem é o caminho para um mundo sustentável, também o é para um sistema políticos mais honesto... ou menos nojento.
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28 de novembro de 2013

Curiosidades

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Redes sociais envolvem seus usuários em uma relação de amor e ódio. Bom percentual do conteúdo nelas compartilhados são fúteis e descartáveis, mas quem consegue ficar sem dar uma bisbilhotada, de vez em quando, na linha do tempo para ver a última dos amigos?

O Facebook é tal como garimpo. Em meio a muita lama e pedras há algumas pequenas pepitas de ouro – bons conteúdos, produtivos, interessantes, com humor refinado. Ao clicar "curtir" em um deles, entretanto, acabei me comprometendo.

Um amigo havia escrito uma lista de curiosidades sobre ele. Achei interessante e "curti", sem me dar conta do teor da brincadeira. Quem curtisse, teria de relatar curiosidades na rede, conforme número recebido pelo amigo curtido. Este que vos "fala" recebeu o número 15 e fez sua parte.

1- Sou viciado em café. E o primeiro passo é reconhecer o vício;

2- Tal como o amigo advogado Leonardo Pacheco, que me apresentou essa brincadeira e me intimou a apresentar 15 curiosidades sobre mim, tenho medo de panela de pressão. E por isso não cozinho feijão;

3- Fiz curso de datilografia em máquina de escrever Olivetti e, desde então, não preciso mais olhar para o teclado;

4- Sou metodista (denominação protestante), mas cursei a pré-escola e o antigo primeiro grau em instituições católicas;

5- Meu primeiro vídeo game foi um Atari 2600 (quem nasceu depois dos anos 80 e não faz ideia do que é isso, clique aqui);

6- Escrevo cartas e coleciono cartões postais. Os mais inusitados que recebi foram postados da Groenlândia e de Galápagos, mas ainda não recebi nenhum da Ásia;

7- Desde 2000 me correspondo por cartas com uma amiga húngara de Budapeste, chamada Liana. Ainda não a conheci pessoalmente;

8- Cuido bem do meu coração com um bom vinho tinto e meu prato favorito é feijoada;

9- Cursei um ano de Tecnologia em Automação Industrial, no antigo Cefet-PR, antes de desistir dos cálculos para estudar Jornalismo;

10- Meu primeiro trabalho como jornalista, antes mesmo de terminar a faculdade, foi como repórter estagiário de esportes no Diário do Sudoeste, de Pato Branco, em 2003. E meu chefe, à época, era sobrinho de Renato Russo;

11- Gosto de estudar idiomas. Falo inglês e italiano e tentei aprender alemão e francês (até o momento, sem sucesso);

12- Disputei competições de tênis de mesa e, ao modo Barrichello, fui duas vezes vice-campeão da faculdade;

13- Meu maior hobby é viajar, conhecer novas culturas e gente diferente. Realizei um dos sonhos de infância aos 29 anos, ao conhecer Machu Picchu;

14- Casei antes dos 25 e me divorciei bem antes dos 30. Se arrependimento matasse, não estaria aqui participado dessa brincadeira;

15- Não quero me curar do meu vício.
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23 de julho de 2013

Que Frio

LF
O vento gelado não assustou tanto. Incomodou um pouco, confesso, mas quem gosta de frio não pode reclamar nessas horas. Vesti o sobretudo que trouxe da Alemanha e que repousava há anos no guarda-roupa, apanhei um gorro para proteger a careca e parti para o trabalho, a pé, pelas ruas de Maringá. Dizem os meteorologistas se tratar da massa de ar polar mais intensa a atingir o Sul do Brasil em 15 anos.

Coisa boa. No inverno não suamos por qualquer coisa, come-se e dorme-se melhor e os insetos desaparecem. Até o mosquito da dengue, que com uma forcinha de munícipes porcos mata cada vez mais, dá uma trégua. Calor é bom pra quem vive perto da praia e também pra moradores de rua – que em muitas cidades não têm onde se abrigar do frio.

O inverno começou em 21 de junho, mas foi na terceira semana de julho que ele deu as caras. Fez três graus na terceira maior cidade do Paraná, o que é suficiente para aterrorizar muito maringaense. Creio que um levantamento mais detalhado sobre essa frente fria apontaria para um recorde de atestados médicos em 2013. Há quem se recuse a sair debaixo das cobertas quando as temperaturas despencam.

"Que exagero", diria um canadense sobre quem classifica como "gelada" qualquer temperatura positiva. Saibam os canadenses que frio é relativo e cada um o encara de modo diferente. Enquanto baianos correriam risco de extinção com menos de dez graus; Montreal, Toronto e outras cidade do Canadá decretariam moratória se seus moradores "hibernassem" aos três graus positivos de Maringá.

Pelas bandas do Papai Noel, a concepção de frio é bem diferente. Soube que o povo inuit, que habita o Polo Norte e não gosta de ser chamado de esquimó, tem quase dez palavras distintas para descrever neve. O pouco que aprendi sobre a cultura inuit foi com uma amiga groenlandesa que vive em Nuuk, a capital da Groenlândia, próximo ao círculo polar ártico. No último bate-papo, via Facebook, comentei sobre o frio que começava a fazer em Maringá, dias antes dessa frente fria que fez nevar em mais de 90 cidades no Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

– Agora são nove da manhã e faz dez graus em Maringá. Esse é o nosso inverno – escrevi.
– Sério?
– Sim, mas vi na TV que vai esfriar um pouco mais. 
– Aqui em Nuuk faz oito graus agora. Talvez passe de 15 graus. Esse é nosso verão.

Na Groenlândia, às vezes, chega a nevar no verão, para felicidade dos ursos polares. Da neve que cai no Sul do Brasil e que, nos noticiários, disputa pau a pau espaço com a visita do Papa Francisco ao Rio de Janeiro; diria um groenlandês: que frio? Diria um maringaense: que frio! Diria um gaúcho: bah, que frio tchê! Diria a jornalista Sandra Annenberg (âncora do Jornal Hoje, da Rede Globo): que deselegante esse frio. Diria um baiano: ...
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5 de junho de 2013

Dez bons hábitos para preservar o meio ambiente

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No Dia Mundial do Meio Ambiente, comemorado em 5 junho, despertei pela manhã pensando em algo especial para escrever nessa data. Recordei-me das lições recebidas – de meus pais, professores, amigos, colegas jornalistas e ambientalistas –, ao longo da vida, sobre como agir para ajudar na preservação do meio ambiente.

Há muito o que fazer se quisermos preservar as belas riquezas naturais, que ainda temos hoje, para as futuras gerações. Se cada um fizer um pouco, considerando que a união faz a força, vai dar certo! Do pouco que aprendi sobre preservação do meio ambiente, separei dez bons hábitos que podem fazer a diferença nas nossas vidas e no meio em que vivemos.

#1 Abandonar as sacolinhas plásticas do supermercado – use sacolas de pano, de preferência;
#2 Fechar a torneira enquanto escova os dentes;
#3 Tomar café, no escritório, em sua própria caneca. O cafezinho fica mais gostoso em recipientes de vidro ou porcelana do que nos copinhos de plástico... e o meio ambiente agradece;
#4 Digitalizar documentos e imprimir só o que for extremamente necessário; 
 #5 Utilizar papel reciclado. É um pouco mais caro do que o papel branco, mais nenhuma árvore teve de ser derrubada para produzi-lo.
#6 Abastecer o carro flex com etanol (álcool). Combustíveis fósseis como o petróleo (de onde vem a gasolina) são mais nocivos à natureza do que os biocombustíveis; 
#7 Preferir o transporte coletivo ao individual. Se os ônibus (ou metrô) de sua cidade são ruins e a tarifa é cara, lute para que a situação melhore. E se não melhorar, na próxima eleição, não vote no mesmo candidato;
#8 Comprar uma bicicleta para ir ao trabalho ou à escola pedalando. O menos poluente entre os combustíveis é a "banha";
#9 Trocar o automóvel motor 2.0 ou superior por um modelo mais econômico. Se é fundamental ter um carro (não dá para levar a "mina" para jantar de bicicleta, não é mesmo?), escolha um que consuma menos combustível;
#10 Contribuir financeiramente com ONGs que trabalham na proteção e preservação da natureza. Se estiver faltando dinheiro, ao menos compartilhe nas redes sociais essas dicas. Vai que um milionário leia a postagem depois de você.
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26 de fevereiro de 2013

Amigo de Fé

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Já se passaram quase duas décadas desde a época que o irmão do meio dos três filhos de Dona Clacy costumava dizer que, quando fosse adulto, moraria em Maringá, a cidade mais arborizada e encantadora do Paraná. Terra onde tudo que se planta dá, cidade daquela catedral em formato de cone, de belas moças, bom clima e gente acolhedora. Mas Deus tinha outros planos para os três irmãos.

O do meio permaneceu na cidade natal de seus pais. Foram o primogênito e o caçula de Dona Clacy a desembarcar em Maringá. Primeiro o mais velho, dois anos mais tarde o caçula. Dividiram apartamento e viveram bons momentos juntos. Foram um para o outro o mais certo das horas incertas, sempre com “palavras de força, de fé e de carinho”, como já dizia Roberto Carlos em uma de suas canções mais famosas.

O mais velho da história, já careca aos trinta e poucos, é este que vos escreve. Lembro-me, como se fosse hoje, do dia em que meu irmão mais novo, semanas depois de terminar a faculdade de Publicidade lá no outro lado do Estado, chegou a Maringá em busca de melhores oportunidades na profissão. Depois daquilo e até então, vivi o que considero a melhor fase da minha vida. Ninguém deveria ser filho único, porque um irmão é uma das maiores bênçãos que alguém pode ter.

Não é preciso ter um milhão de amigos. A presença de quem se ama, do irmão sempre por perto, na maioria das vezes mais do que basta. Nos bons momentos, a felicidade conseguia ser plena, mesmo que fosse nas coisas mais pequenas, como nas noites de queijo e vinho antes dos combates da madrugada, na TV; na preocupação quando o outro estava doente; nas partidas de basquete na tabela vergonhosamente mal conservada da Vila Olímpica; no boteco de chope com colarinho e espetinho barato; nas partidas de futebol ou de Street Fighter no videogame, que eu sempre perdia, mas gostava de alardear que ganhava.

Depois de três anos juntos, meu brother, por quem sempre tive aquele sentimento de responsabilidade típico de irmão mais velho, partiu para uma nova caminhada. Provou mais uma vez que é um grande guerreiro. Sem emprego ou lugar certo para morar, mudou-se para Buenos Aires para um ano de estudos. Na certeza de que alguma portenha há de conquistar seu coração, penso que o jovem publicitário ficará na Argentina por bem mais que onze ou doze meses.

Na primeira noite após sua partida, a sensação foi de nó na garganta. Um sentimento difícil de explicar. Para fazê-lo, precisaria de ao menos um farelo do talento de Hemingway ou de Shakespeare. Sei que meu irmão João Paulo, a quem ajudei minha mãe na escolha do nome, não é um grande fã de Roberto Carlos, mas foi em uma canção do rei - ou melhor, uma verdadeira poesia do rei e de seu amigo Erasmo Carlos - que encontrei as palavras certas para expressar o que sinto.

“Não preciso nem dizer, tudo isso que eu lhe digo, mas é muito bom saber, que você é meu amigo. Não preciso nem dizer, tudo isso que eu lhe digo, mas é muito bom saber que eu tenho um grande amigo.” Irmão e grande amigo. Benditas sejam as amizades eternas!
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8 de fevereiro de 2013

Boa Viagem

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Era para ser mais uma sexta-feira de verão. Em Maringá, normalmente, isso significa calor e temperaturas máximas acima de 30 graus, ótimo para quem está na praia e péssimo para quem não tem ar-condicionado no escritório. Ainda bem, o que era para ser não foi. Fez frio!

Aquela manhã começou com cara de chuva e clima ameno. Ótimo para um café bem quente e um pão com chimia. Acordei cedo, com tempo de alguma leitura antes de partir para o trabalho. "Será que tem revista para mim na portaria", pensei. Desci na recepção do prédio para conferir e aproveitei para levar algumas sacolas de lixo. Deixei a água fervendo para passar o café. Um dia fresquinho daqueles merecia algo melhor que um mero solúvel.

Na portaria, nenhuma revista, mas uma grata novidade. O carteiro havia entregado um cartão postal de uma amiga viajante, jornalista, ex-colega de redação no maior jornal da cidade. De sorriso ímpar, por sorte, era minha vizinha de mesa. No jornal, eu costumava pegar pautas de política e ela, de assuntos mais honestos. Às vezes, flagrava-me olhando para a bela jornalista. Quando se trabalha por longas horas e sucessivos dias diante do computador, colírio se faz necessário.

Depois de encher o coração dos maringaenses de saudades, numa despedida sem alardes, Cristiane ganhou o mundo. Morou em Curitiba, São Paulo, Rio de Janeiro e sei lá onde mais. Quase a perdemos para Londres. Por fim, descobri no postal, estava ela em Recife. Logo imaginei as praias, a boa comida, gente receptiva e tantas paisagens de tirar o fôlego. É o que eu vejo nas fotos de amigos, nas revistas e na TV, já que, por infortúnio, nunca estive no Nordeste do País.

"Estou adorando Pernambuco! Recife tem um vento bom que balança os cabelos e faz a gente pensar na vida", escreveu a amiga, de cabelo longos, pretos e lisos. Fã de Chico Buarque, moça de bom gosto, fina e ao mesmo tempo simples. Tanto é que certa vez, já faz alguns bons anos, convidei-a para sair comer um "dógão" desses de esquina, com direito a molho de maionese temperado com ervas, e tubaína para acompanhar. E ela topou sem titubear. Recordar bons tempos do passado nos faz revigorar a alma.

Para um colecionador de postais, aquela correspondência foi um deleite. Na foto, Boa Viagem, a praia urbana mais famosa e badalada da capital pernambucana. Li que são quase sete quilômetros de extensão, de areia dourada e convidativa, com parte da costa protegida por uma barreira de recifes, responsável pela formação de belas piscinas naturais.

Entre goles de café e mordiscadas no pão com chimia, li e reli o postal. Apanhei um alfinete e marquei Recife no mapa-múndi que tenho na parede da sala. No quadro estão marcados todos os lugares de onde amigos me enviaram postais. Isso inclui destinos exóticos como as capitais Honolulu, do Havaí, e Nuuk, da Groenlândia. Como decoração, combinou com a bicicleta que tenho na parede.

Com a alma e o estômago alimentados, parti para o trabalho, sem blusa, para aproveitar o clima ameno. Como postais não anunciam detalhes do remetente, terei de descobrir por outros meios o endereço para retribuir, com outro postal, essa pequena lembrança que tornou um dia cinzento muito mais agradável.

E antes que me perguntem o que é "dógão" e chimia, digo-lhes que o primeiro, também conhecido como cachorrão, é o lanche típico de Maringá, um tipo de cachorro quente prensado que nenhuma outra cidade no mundo sabe fazer melhor. Nessa bela cidade arborizada, Big Mac é para os fracos. O segundo é o nome gaúcho, aportuguesado de schmier em alemão, para doce ou geleia de passar no pão. Detalhe, nossa schmier é doce e a dos alemães, salgada e preparada com queijo (Shimierkasse).
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1 de novembro de 2012

In memoriam

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Primeiro de novembro, véspera de Finados. Primeiro dia de uma eternidade sem a Livraria Espaço Maringá Park, que fechou as portas após liquidação relâmpago – tão relâmpago que, quando cheguei, Hemingway já tinha "ido embora" – de seu acervo de livros. Um fim sem cerimônias e com boa dose de lamentação dos viciados em café que, agora, sentem-se órfãos nessa cidade sem grandes opções em cafeterias.


Tudo bem que a qualidade no atendimento por lá, talvez por conta do fechamento que estava por vir, havia decaído muito. O pedido demorava a chegar, os músicos contratados não tocavam mais Pink Floyd, as atendentes já não tinham os mesmos olhos e pareciam menos apetitosas. Nesse caso, referindo-me às tortas, inclusive à alemã, minha preferida.

Saudades. Arrependo-me das tantas vezes que, por conta do atendimento, troquei a melhor cafeteria da cidade pelo "méque-café" do andar de cima. Sem comentários. Não se pode comparar um prato de feijoada a qualquer sanduíche com gosto de plástico ou um bom vinho a uma latinha de cerveja. No hemisfério dos cafés, o ambiente faz parte de um todo que, em Maringá, só a Livraria Espaço tinha.

Perguntei-me uma dúzia de vezes: onde os aficionados por café degustarão um bom expresso, lendo algum livro e ouvindo música instrumental ao vivo? É nessas horas que os adeptos de um expresso sem pressa percebem a grande diferença entre morar na capital e no interior. Em Maringá, não há uma alternativa ao espaço que acaba de fechar as portas. Dizem que no local será inaugurada uma grande rede de livrarias, dessas que têm livros demais e café de menos.

Sentia-me tão à vontade naquele café que de minha última centena de crônicas, penso que um terço foram escritas de lá. Escolhia sempre a mesa de canto, ao lado dos vidros temperados com vista para o Parque do Ingá. Nos tempos de solteiro, um olho focava nos manuscritos outro, nos "violões". O local sempre foi bem frequentado. E o expresso de lá sempre agradou.


PS.: foto de Andye Iore.


10 de agosto de 2012

Viajar é preciso

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Em plena sexta-feira, cansado de uma longa semana de jornada dupla de trabalho, o jornalista se depara com uma interessante mensagem, publicada no perfil de uma amiga, no Facebook. Dizia a mensagem: "Quer ser feliz. Não compre mais coisas... vá viajar". Foi inevitável, a ele, recordar das últimas férias e também do que lhe disse um conhecido, quando soube do destino escolhido para seu mês de descanso.


— África do Sul?
— Sim.
— E vai fazer o que lá?
— Estudar inglês, num intercâmbio na Cidade do Cabo  —  respondeu o jornalista, para ouvir do conhecido uma gozação a la Fernando Collor de Melo, o "caçador de marajás".
— Hummmmm, tá virando marajá então!
— Marajá nada. Nem som no meu carro 1.0 eu tenho.

Além de ser um destino paradisíaco, a Cidade do Cabo – em inglês, Cape Town – tem custo de vida menor do que outros destinos mais conhecidos para intercâmbio de inglês, como Londres e Nova York, por exemplo. E as passagens de avião para a África do Sul saem mais em conta do que para a os Estados Unidos, Canadá, Inglaterra e outros destinos onde é possível estudar a língua de Shakespeare.

O jornalista tentou explicar ao fanfarrão que estudar inglês no exterior não é mais uma opção reservada à burguesia. Economizando um pouco por mês, até repórter pode. Ambos riram, pois o conhecido também é jornalista e sabe que, na profissão, ganhar um bom salário é para William Bonner e alguns poucos. E a conversa prosseguiu.

— E você, para aonde vai nas férias.
— Não vou viajar. Comprei um videogame e um televisor de tela plana e vou aproveitar.
— Mas nem uma viagem curta, de uma semana?
— Não. Tenho de economizar para pagar as contas  —  respondeu o conhecido, referindo-se às prestações dos aparelhos eletrônicos recém-adquiridos. E do último gole de café, que regava a conversa, ambos retornaram para seus afazeres na redação.

Passados alguns dias, horas antes do embarque para o outro lado do Atlântico, para um mês longe dos problemas, o jornalista conferiu as malas e os documentos. Na mania de sempre, tirou tudo da tomada. Um dia de tempestade poderia queimar seu televisor 21 polegadas, do tipo tela-tubo-de-imagem-nada-plana, e seu aparelho paraguaio de DVD. Seria uma lástima ter de gastar com uma TV nova o dinheiro que ele já guardava para as férias seguintes, quiçá, no Canadá.

Publicado também por Infomacaiba.
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15 de junho de 2012

L'automne

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Automne. Foi minha resposta na aula da francês à pergunta do professor sobre les saisons de l'année. Uma opção que gerou olhares duvidosos, como se os colegas pensassem: "sujeito metido; garanto que prefere o verão". Afirmar que gosta mais do outono do que das outras estações do ano é quase tão inusitado quanto dizer que prefere refrigerante de uva quando todos os demais do grupo terão respondido "coca" ou "guaraná".

O outono costuma ser associado ao cinza. E não há dúvida: qualquer outra cor é mais bela do que essa. E logo surgem os argumentos pró-verão: sol, corpos bronzeados, mulheres de biquíni, cerveja gelada, bermudão, churrasco à beira da piscina. E pró-primavera: flores, muitas cores, a vida que renasce, academias lotadas. E também pró-inverno: lareira, cobertor quentinho, a elegância das roupas de frio, a paisagem com geada, a neve.

Mas a desprezada estação, que no hemisfério sul vai de 20 de março a 20 ou 21 de junho, tem seus encantos. No Brasil, é época das festas juninas e do quentão com gemada – que os maringaenses odeiam, mas que não pode faltar lá em Pato Branco. Nos Estados do Sul, é tempo de pinhão, o fruto da araucária, símbolo do Paraná. Só de escrever a respeito deu água na boca.

Em regiões de clima subtropical, o frio do outono é suficiente para espantar os insetos, inclusive o infame mosquito da dengue, mas passa longe do ar gelado de trincar os ossos, do inverno. Não tem flores, mas também não tem pólen nem alergia nem espirros que custam a cessar. E o barulho das folhas a cair, no instante em que tocam o chão, tem um mágico poder anti-stress quando escutado sem pressa.

No hemisfério norte esse fenômeno é ainda mais deslumbrante. Por lá, as folhas passam por uma metamorfose de várias cores antes de despirem as árvores. O encanto é tamanho que o símbolo de uma folha  de bordo ilustra a bandeira canadense. E quando o céu não é de brigadeiro – de um belo azul como o dos olhos de minha namorada –, o dia pode amanhecer tomado por neblina. Um terror para quem tem voo programado. Um deleite para quem ama o clima de serra, do vinho a dois defronte a lareira, e não vê a hora de tirar férias para ir às montanhas outra vez.

Poucas coisas se comparam ao mar e outono não é a melhor época para ir à praia. Contudo, para quem vive em Maringá ou qualquer outra cidade distante seis horas ou mais de viagem da praia mais próxima, a magia do quebrar das ondas não serve de argumento para desqualificar o outono. Se um dia eu morar em Florianópolis, aí sim, talvez prefira o verão.
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25 de janeiro de 2012

Amnésia literária

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Um bombom de chocolate com avelãs, alguns biscoitos com recheio de goiabada, três expressos depois e... nada! Sem nenhuma boa ideia para apresentar à folha de papel, ociosamente em branco, o lápis recém-apontado seguia em repouso. Se lápis pudesse falar, aquele um teria dito: “Vamos lá, você consegue. Já escreveu antes, por que não escreveria agora?”

Um frase memorável, pensei, deve ser tudo na vida de um lápis. E aquele HB queria fazer seu grafite valer a pena.

Amnésia literária é o que de pior pode ocorrer com um escritor. Num passe de mágica, você transborda de boas ideias, de estórias sedentas para serem contadas. Claro, isso costuma acontecer no chuveiro; na fila do banco; no trânsito; no almoço de família; na cama, em especial quando o sono bate à porta. Noutro passe de mágica, esquece-se de tudo na companhia do lápis ou defronte o computador, tão logo os dedos tocam o teclado.

A xícara fora esvaziada 15 minutos antes e a cafeína na corrente sanguínea tornara inquietas minhas pernas. Era chegada a hora de encarar o papel em branco e escrever. O quê? Qualquer coisa que, posteriormente, pudesse ser lido pela namorada, sem conflitos. Ali ao lado, quase sem piscar, ela folheava um livro com centenas de fotos de gatos, adultos e filhotes. O livro parecia dar dicas do universo dos felinos.

— Falei pra minha irmã que não pode assustar o Alfredinho quando ele está dormindo — disse Ines, que insiste em chamar seu gato cores preto e branco, de mais de cinco quilos, pelo diminutivo.
— Mas teu gato vive dormindo — respondi.
— Só de dia. À noite, ele sai atrás das gatas.
— Sei bem como é — comentei. — O último gato que eu tive, o Fundi, também era pegador. Ele morreu numa enchente, lá em Pato Branco.
— Que dó.
— É.

Por falar em gatos e gatas, entre sucessivos goles de café, foi impossível não notar a ruiva com lábios de Angelina Jolie em uma mesa próxima. Um tipo exótico de mulher. Pele bem clara e com sardas, unhas pintadas de preto, batom vermelho Ferrari, óculos escuros prendendo os cabelos lisos e coluna ereta, tipo manequim. Ofuscava quase que completamente uma amiga pouco produzida, cabelos curtos e unhas por fazer. A protagonista bebia água tônica e a coadjuvante, cappuccino gelado com creme.

A Angelia Jolie versão Irlanda estava vestida comportadamente, sem decotes nem minissaia. Uma prova de que mulher não precisa “usar uniforme de biscate”, como diria o jornalista Marco Antonio Araujo, para ser notada. Nessa linha de conduta, há um ano, os belos olhos azuis e o jeito delicado de Ines me conquistaram. No papo de boteco com amigos, sempre rola o comentário de que mulher ideal é aquela que não faz o homem passar vergonha.

As lembranças do início do namoro me arrebataram da cafeteria para o passado. Quando retornei, a ruiva já tinha partido. Melhor assim. Com a namorada ao lado, era preciso redobrar a cautela para evitar uma “guerra mundial” por coisa pouca. Bem pouca.

Li na internet que a cada 100 habitantes no mundo um, no máximo dois, são ruivos. E mais: os cabelos avermelhados, provenientes de um gene recessivo, correm o risco de desaparecer até 2060. E se o rutilismo é exceção, então, jovens e belas ruivas como aquela “irlandesa” são raridade. Certamente, precisam ser "estudadas" antes que acabem. Em dia de amnésia literária, em que o lápis pouco trabalhou, Alfredinho há de concordar comigo.
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29 de dezembro de 2010

Retrospectiva 2010

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Chego ao final de 2010 com o sentimento de que, assim como em 2009 (o melhor ano de minha vida), fiz valer a pena. Cobrei muito de mim mesmo para que, no fim da jornada, a colheita fosse boa. Colhi bons frutos da profissão, das novas amizades, do convívio familiar. Como quem vai à guerra, tive baixas em determinadas batalhas, porém, na fé de que recebi o auxílio divino nas minhas escolhas, tudo terminou bem.

Para quem amargou uma separação, há quase três anos, comecei 2010 com uma namorada – que hoje vive em São Paulo capital – e terminei o ano com outra. Duas mulheres fantásticas, que em muito contribuíram para meu crescimento como homem. Foi também neste ano que realizei dois desejos antigos: a compra de um carro zero e a sonhada viagem a Machu Picchu, no Peru. É para realizar sonhos que trabalhamos, senão de que valeria passar 11 meses por ano ouvindo cobranças e reclamações (tantas vezes injustas) do chefe?

No jornal, perdi algumas batalhas, mas quem não perde? Contudo, triste por não ter crescido tanto quanto esperava, comemorei em 2010 meu retorno ao jornal impresso e, melhor, à editoria de Política. Sigo firme para 2011 e com o anseio de escrever cada vez melhor.

Como cronista, 2010 não foi tão bom quanto 2009. Escrevi 22 crônicas, contra 47 do ano passado. Se considerar minha estreia como blogueiro de O Diário, com a página "Café com Jornalista", o número de crônicas está de bom tamanho. Não é fácil encontrar disposição para alimentar dois blogs. E é certo, saibam disso, que o ânimo para isso veio do feedback dado nos comentários e das palavras de incentivo de cada um de vocês, que acompanham o que escrevo.

Fecho 2010 com o sentimento de que fiz o suficiente, mas com o pensamento de que em 2011, ano em que completo 30 anos, devo fazer ainda mais. Concluir o primeiro livro está nos meus planos, cobrem-me quanto a isso. Deixo aqui, então, a lista das sete crônicas que mais curti escrever ao longo deste ano. Se possível, dê seu voto (em forma de comentário) para aquela que te agradou mais. Vou contabilizar também os votos (se houver) dados no Twitter, Facebook e Orkut. Depois publico o resultado. Feliz 2011 a todos. Que Deus nos abençõe.

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Escolha a melhor de 2010

- A Conspiração (ACREdite)
- A Parábola do Velho Boi
- Camilas, Vanessas e Grazielas
- Das Auto
- Chora, me liga
- As mulheres vão dominar o mundo
- Iracema vai se casar
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11 de março de 2010

"Orfeu e Violeta", a melhor segundo os jornalistas

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O romance "mais que relâmpago" entre um jovem de Pato Branco e uma bela moça de Realeza, que se encontram em um ônibus a caminho de Maringá, foi eleito como o melhor texto do Blog do LF pelos jornalistas. "Orfeu e Violeta" obteve 39,5 pontos de 40 possíveis. Anteriormente, a história já havia sido eleita a melhor na opinião dos leitores.

A votação tanto dos leitores, num primeiro momento, e agora dos jornalistas compõe um processo de escolha das 12 melhores crônicas do LF, dentre 17 finalistas – publicadas até a data limite de 18 de setembro de 2009. O resultado será divulgado em postagem futura (e em breve), com detalhes sobre o "livreto" artesanal que contará com essas 12 mais bem avaliadas.

Cinco jornalistas foram convidados a votar, quatro marcaram presença e deixaram sua opinião – dando nota máxima (10) para a melhor entre 17 crônicas e nota mínima (5) para a pior, com pontuação intermediária para as demais. Votaram a editora Elaine Utsunomiya e os repórteres Vinícius Carvalho, Juliana Daibert e Thiago Ramari, todos de O Diário do Norte do Paraná (assim como o autor).
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18 de novembro de 2009

Eis os cinco corajosos

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Estão definidos os cinco corajosos jornalistas – mais pacientes do que corajosos – que votarão para a escolha das 12 melhores crônicas deste blog, na última etapa de seleção. Eles aceitaram o convite para ler cada um das 17 melhores na opinião dos leitores e do autor e classificá-las com notas de 5 a 10, de modo que a mais interessante receba 10 e a mais chata, 5.

Os jornalistas são: Ivo A. Pegoraro, diretor de redação do Jornal de Beltrão; Paulo J. Rafael, professor universitário e proprietário do jornal Folha do Norte; Elaine Utsunomiya, editora de Suplementos de O Diário do Norte do Paraná; Vinícius Carvalho e Thiago Ramari, repórteres de O Diário do Norte do Paraná.

Vinícius Carvalho foi o primeiro a concluir a avaliação e as notas dadas por ele podem ser conferidas nos comentários da cada crônica concorrente. Pontuação e nota têm o mesmo peso, assim, "Orfeu e Violeta" lidera com 30 pontos. Em segundo está "Um tweet de Ana Paula", com 21, e em terceiro lugar "Uma diliça de madrugada", com 19,5.
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9 de outubro de 2009

"Orfeu e Violeta", a melhor segundo os leitores

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"Orfeu e Violeta", que já liderava o ranking da mais comentadas deste blog, foi eleita a melhor crônica na avaliação dos leitores. O conto, que discorre sobre o encontro entre um jovem de Pato Branco e uma bela moça de Realeza num ônibus a caminho de Maringá, obteve 7 pontos, contra 4 pontos de "Uma linda mulher" – a segunda crônica mais lembrada.

Ao votarem em seus textos preferidos, os amigos contribuíram com a seleção das 12 melhores crônicas do Blog do LF, que vão compor um livreto mais adiante. Na fase decisiva, jornalistas convidados vão avaliar as 17 mais bem classificadas até o momento. Veja quais são elas no Café com Jornalista.

A pontuação corresponde à somatória da primeira fase (número de comentários) com a segunda fase (pontos dados pelos leitores).
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18 de setembro de 2009

Seleção das melhores crônicas do LF

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Incentivado por colegas de redação, lancei oficialmente este blog de crônicas em 28 de novembro de 2008, data de uma postagem teste com fotos da Groenlândia (não me peçam para explicar o porquê da Groenlândia). Desde então, foram 49 postagens (contando com esta)... crônicas, em sua grande maioria.

Algumas poucas já ilustraram páginas de jornais, porém, a grande maioria ficou presa ao virtual. Desse detalhe, surgiu a ideia de dar "vida" a alguns dos textos publicados neste blog. As 12 melhores crônicas, com data anterior a 18 de setembro, vão compor um livreto "artesanal" – como será e qual o propósito? Prometo explicar mais adiante – ao final de um processo de seleção que incluirá três etapas.

A primeira etapa já foi realizada e resultou nas 25 melhores crônicas do blog, na opinião do próprio autor. A segunda etapa, lançada agora, consiste da votação dos leitores (ler regras abaixo dos links) em seus textos preferidos. Dessa votação, em pontuação acumulativa com a primeira etapa, restarão 17. Na terceira e última fase, cinco jornalistas darão nota a cada uma dessas 17, elegendo, assim (e considerando o desempenho das fases anteriores) as 12 melhores crônicas deste blog.

Classificadas pelo número de comentários (ao lado do respectivo título), até esta data, e por avaliação do autor, as 25 melhores crônicas estão abaixo relacionadas:

Setembro
001 Um tweet de Ana Paula / 11
002 Vinte dias com Angela / 6
003 Uma linda mulher / 8

Agosto
004 Namorei a Paulista / 9
005 Enfim, habilitado! / 11

Julho
006 Um pesadelo com Michael Jackson / 8
007 Graças a Pink Floyd / 10
008 A turma da 6ª Série / 6

Junho
009 Cobain e o universo feminino / 10
010 A lucidez de Barack Pandeiro / 7

Maio
011 Azar no jogo... / 8
012 Canáááááááários! / 10

Abril
013 Sensação na calada da noite / 5
014 Do que as mulheres gostam / 7
015 O Polo Norte, o bilhete e o fim das férias / 5

Março
016 O melhor bolo de aniversário / 4

Fevereiro
017 Um orkut para Daibert / 7
018 O apóstolo e os fugitivos / 6
019 Vinte e tantos mais um / 7
020 O que MacGyver faria? / 4
021 O universo hiper-realista de Gabriel T. / 8
022 Para marcar a mente e o coração / 6

Janeiro
023 Orfeu e Violeta / 13
024 Uma "diliça" de madrugada / 10

Dezembro
025 Uma reportagem e um colega para não esquecer / 3

Como votar
Os leitores devem deixar sua opinião nesta postagem, em comentário assinado com o nome completo e cidade de origem. Opiniões anônimas ou repetidas, neste caso, serão desconsideradas. O votante deve escolher sua crônica favorita (citando corretamente o título ou o número) e, além disso, nominar outras três de sua preferência.

As crônicas apontadas como favoritas receberão 3 pontos. As crônicas preferidas (aquelas outras três) terão peso 1. Os pontos serão somados ao número de comentários obtidos por cada crônica até esta data. A avaliação do leitor poderá ser feita até 30 de setembro, uma quarta-feira. Após essa data, não serão permitidos novos comentários.

Um dos participantes será presenteado, mediante sorteio, com cópia do livreto de crônicas deste blog. Não é nada demais, mas é uma singela maneira de agradecer o incentivo dos seletos leitores do Blog do LF. Sem o apoio de todos que leem - e comentam - certamente eu já teria desistido.

Votem e divulguem esta seleção!
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