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23 de janeiro de 2010

Mensagens de Natal

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Conta a história que o primeiro cartão de Natal comercializado data de 1843. Teria sido bolado em Londres, por Henry Cole, com ilustração de John Callcott Horsley. Trazia a imagem de uma família unida e feliz, com uma criança de colo e vinho posto à mesa. Talvez estivessem eles mais sob efeito da bebida fermentada do que felizes, mas, de qualquer forma, a ideia do cartão de Natal vingou. Décadas depois, tornou-se prática comum entre os cristãos.

Ainda hoje, o cartão é uma das maneiras mais utilizadas, e mais baratas, de desejar felicitações a quem se quer bem na data mais importante do calendário cristão. Todo pão-duro, que quer marcar presença sem gastar muito, encontra nos velhos cartões a solução para o problema – em vista do custo-benefício.

Duas guerras mundiais e vários conflitos armados depois da sacada de Cole e Horsley, multiplicaram-se as maneiras de desejar feliz Natal. Isso não por remorso, muito menos por fé em Cristo, mas puramente pela vontade capitalista de ganhar dinheiro em cima de produtos pensados por engenheiros, designers, etc, e comercializado por mentes publicitárias. Então os cartões, antes apenas manuscritos, agora vêm até com música polifônica. Para quem tem grana, as opções são as mais variadas, e caras. Passar as festas de fim de ano em Paris, por exemplo, e enviar de lá alguns postais natalinos é chique... embora haja o risco de o "new parisiense" parecer esnobe.

Há quem prefira contratar um papai noel de barba postiça para entregar os presentes. A opção é um tanto brega, mas o cachê segue fazendo a alegria de velhinhos barrigudos e aposentados, todo mês de dezembro. O Papai Noel, por si só, é brega. Contudo, bastou um publicitário da marca mais famosa de refrigerantes pôr nele roupas vermelhas, e dizer que ele vinha do Polo Norte, para parecer chique também – para alguns, acreditem, tanto quanto ou mais que um cartão com selo francês e carimbo de Paris.

Mais antiquado que os noéis barrigudos, de barbas postiças e que – crianças, prestem atenção – não moram no Polo Norte e não gerenciam o trabalho de duendes-operários da fábrica de brinquedos, são as mensagens por telefone. Mais brega que isso tudo, indiscutivelmente, é o carro de som (ou, pior, bicicleta de som) na porta de casa. Não duvide da capacidade humana em querer aparecer. Há sempre alguém disposto a felicitar, parabenizar, paquerar, etc, do jeito mais escandaloso. Dizem até que o Papai Noel conquistou a Mamãe Noel com um trenó de som, com direito a Jingle Bells e roupas de baixo comestíveis... bem, o que os outros fazem entre quatro paredes não nos diz respeito.

Com tanta opção no mercado, os cartões virtuais são como mísseis de longo alcance, teleguiados. Nenhuma outra maneira de desejar feliz Natal é tão abrangente, tão prática, tão em conta. Pela internet, é possível enviar um cartão para o outro lado do mundo e para o colega de trabalho ao lado com a mesma rapidez – e sem custo adicional pela quilometragem. Tóquio, Nova York, Londres, Dubai, Antananarivo e Pato Branco são todas, ao menos na web, logo ali.

Os cartões virtuais de sites especializados, encaminhados para o email do destinatário, são na web a maneira mais clássica de enviar felicitações de Natal. Contudo, num ambiente que muda tão rapidamente, tais cartões estão caíndo em desuso. Na moda, agora, estão os gifs. Traduzindo: trata-se de imagens animadas, que os internautas enviam a seus contatos em redes sociais virtuais, como Orkut e Facebook e que, quase sempre, não agradam quem as recebe.

Coisa que não cai em desuso é o SMS, popularmente conhecido como "torpedo". Já falaremos disso. Antes, é preciso comentar sobre a última das últimas em se tratando de cumprimentos natalinos: os #FF (Folow Friday, que em 2009 caiu numa sexta-feira) de Natal no Twitter. Nesse caso, o usuário escreve para seus seguidores algo como:

#FF especial de Natal para os queridos @FulanodeTal @CiclanodoBar @Natalino @Siliconada @GirlFatal @ElizabethQueen – por exemplo. Ao contrário dos cartões por email e dos gifs, essa modalidade de feliz Natal parece não ter enjoado.

Conheço dezenas que não abrem mão do SMS. Helitron von Kaík é um deles. Sujeito de aparência dinamarquesa, de estatura pigmeia, de bondade ímpar e coração verdadeiro, de várias histórias e muitas esposas, que já é alfabetizado digitalmente e tem até Orkut; no Natal passado torpedeou todos seus mais chegados, inclusive seu primo jornalista (que responde por esta crônica). A este, pouco depois da meia-noite, enviou a carinhosa mensagem:

– Feliz Natal. Que Deus te abençõe... beijos gatinha! – escreveu. Coisas de Helitron, que, prefiro imaginar, enganou-se no intuito de agradar alguma namorada. Ninguém deseja, a essa altura do campeonato, duvidar da masculinidade do Di Caprio da família. Engano ou não, arrancou risos de todos presentes à ceia.

Há, no entanto, mensagens desse naipe enviadas de propósito, como uma outra recebida pelo mesmo jornalista, de outro primo:

No Natal, todos pensam no Papai Noel, mas se esquecem dos veadinhos que puxam o trenó. Eu lembrei de todos. Feliz Natal!!! – dizia o torpedo. Disso, tiro uma conclusão: o primo caminhoneiro deve ter investido horas de grande esforço mental, durante alguma estressante viagem em que lutara para se manter acordado ao volante, pensando na dita mensagem de Natal. Ou, ainda, a recebeu por email de algum funcionário público aspirante a humorista.

Passadas duas noites da ceia de Natal, em outro jantar em família, o caminhoneiro esclareceu ter recebido a mensagem, aquela dos "veadinhos do trenó", de um conhecido. E quis apenas compartilhar o momento com seus queridos primos. Uma outra, mais misteriosa, ele leu aos presentes naquela ocasião, não sem antes estender o prato para o repeteco do peixe assado. E que peixe... outra hora passo a receita.

– Não sei como te dizer isso, mas é melhor que você saiba por mim – dizia o SMS. – Só não te disse antes por medo de te magoar. Mas você tem de saber a verdade e tem de ser forte. Muitas vezes somos enganados e nos decepcionamos com a verdade. Seja forte e aceite a realidade: Papai Noel não existe (kkk). Feliz Natal! – por sorte, não havia criança alguma por perto.

Quem estava por perto era Edinelson von Kaík. "Vocês precisam ver uma que recebi de meu irmão", disse ele, referindo-se a Helitron, que, novamente, não estava presente. Ao ler a dita mensagem, a mesmíssima do "beijos gatinha", uma nova onda de risos tomou conta do ambiente. Se rir faz bem ao coração, todos ali ganharam uns cinco anos de vida... e uma porção de dúvidas acerca do parente.

Teria Helitron encaminhado a mensagem a todos seus contatos? Estaria ele apenas zoando com todos? Estaria, ainda, revendo suas preferências (sexuais, por que não)? Pior, teria ele enviado o torpedo a seu chefe? Correria risco de ser demitido? Sobre o fato, Helitron ainda não foi sabatinado pela família, mas será. Ainda não foi demitido, mas... todos esperam que não seja.

Quando os britânicos Henry Cole e John Callcott Horsley pensaram o primeiro cartão de Natal, não faziam a ideia da dimensão que tomaria o invento. O manuscrito pintado a mão, indiretamente, inspirou outras formas de se desejar feliz Natal. Inspirou Helitron, que, com o torpedo do "beijos gatinha", deve ter feito com que Cole e Horsley se revirassem em seus túmulos. E o jornalista, com o coração mais jovem, ainda que 30 dias atrasado, deseja um feliz Natal a todos que não pôde ver pessoalmente.
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1 de setembro de 2009

Uma linda mulher

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"Terminei o namoro. Vem me ver... e vem sem pressa de voltar, tá". Foi essa a mensagem que recebi da mulher amada, via SMS, uma noite dessas, já no final do expediente no jornal. Custei a acreditar e me contive, por estar no ambiente de trabalho, para não dar pulos de alegria ao reler o "torpedo". Custei a acreditar que não passava de um sonho ao acordar, no sofá, com o corpo doído, os olhos inchados e um princípio de torcicolo. Pareceu tão real que, ainda zonzo de sono, cheguei a conferir a caixa de mensagem do celular  e nada.

Nem sempre me recordo dos sonhos que tive, porém, de alguns poucos, daqueles carregados de realidade e impactantes por isso, não apenas lembro de cada detalhe, passo semanas refletindo a respeito deles. O que querem me dizer? Para mim, sonhos como esse da mensagem via celular são instigantes e, às vezes, preocupantes.

Costumo ter dois tipos de sonho. Aqueles com um misto de informações desconexas, que não fazem sentido, desconsidero. Esses, como o do relato, são raros e dão a impressão de que vão, de fato, acontecer. Em algumas ocasiões  em situações de pequena relevância  já aconteceram tal como eu havia sonhado. Isso, assusta.

Há alguns meses, dias depois de ter um desses sonhos que se concretizaram, sonhei que havia acertado as seis dezenas da Mega-Sena (e relatei isso, neste blog, em uma crônica). Despertei com os seis números em minha mente, de maneira que podia vê-los rabiscados no bilhete premiado. Voltei a dormir e, ao acordar, de novo, só me lembrava do número 12. Naquele dia, fiz uma aposta nesse número e em outros cinco, sem conseguir recordar quais eram os outros cinco. No concurso daquele dia, o 12 foi sorteado.

Cinco madrugadas antes desse do SMS, sonhei que minha ex-namorada estava grávida, com riqueza de detalhes da tensa conversa que tivemos a respeito e da maneira como ela anunciou a gravidez. Estivemos juntos, depois disso, e ela  sem saber de meu sonho  me contou que havia passado um par de dias preocupada com o atraso da menstruação. Disse-me como pretendia me contar, caso estivesse mesmo grávida. Detalhe: ela me contaria tal como eu havia sonhado.

Fico preocupado quando sonhos ruins envolvem pessoas próximas a mim. Também este ano, sonhei com a morte de um grande amigo que fiz em Maringá. Ele perderia a vida ao ser atropelado, no Centro da cidade, no dia em que fazia a mudança para outro apartamento. Cheguei a perguntar se ele estava planejando se mudar  e não estava, ainda bem , mas não lhe contei o porquê da pergunta. Quando for deixar o apê, espero estar junto para me certificar de que ele vai olhar para os dois lados antes de atravessar a rua. De quebra, ajudo com a mudança.

Impressionado com os pensamentos que irrigaram minha mente enquanto eu entortava a cervical no sofá, tomei o rumo do quarto. Na cama, apanhei caderno e caneta da cabeceira e escrevi até o parágrafo anterior, antes de pegar no sono, por volta das 5 horas.

A claridade do Sol, o céu azul, que podia ser visto pela fresta da janela, e o barulho da construção do prédio ao lado me despertaram lá pelas 9 horas. Quando digo que alguns sonhos me instigam, não exagero. Com meiguice e doçura sem iguais, a linda mulher  a "Julia Roberts" de meus pensamentos  havia retornado para mim, agora, para sempre. Acordei feliz, mesmo sabendo que se tratava apenas de um sonho, até porque, sonhos às vezes se materializam.

Sonhar é de graça e, pelo menos neles, o "felizes para sempre" de tantas obras literárias é possível, tanto quanto estar com quem se deseja. Que o sonho do SMS seja, quiçá, daqueles que tem continuidade, na vida real.
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