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15 de agosto de 2019

VLT das Ilhas Maurício

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Há quem afirme – sem muita propriedade no assunto – que Maringá, com seus mais de 415 mil habitantes, e Londrina, com cerca de 565 mil, não comportam uma linha de trem (ou metrô) que ligue as duas principais cidade do interior do Paraná. Além de defender que comportam, penso que já passou da hora.

Fora os argumentos da segurança e da praticidade desse novo modal, que não enfrenta trânsito, como os ônibus; outro bom argumento está no fluxo de passageiros. Além da população das duas regiões metropolitanas (Maringá e Londrina), esse trem passaria por Apucarana e Arapongas, ambas com cerca de 100 mil habitantes. Ou seja, o modal serviria diretamente a mais de 1,5 milhão de habitantes. É pouco? Pelo contrário!

Port-Louis, capital das Ilhas Maurício

Um exemplo de que dá, sim, para viabilizar o transporte ferroviário com esse número de passageiros vem das Ilhas Maurício, um pequeno país insular do oceano Índico, na África. Por lá, está em execução o "Métro Express de Maurice" (em francês), um VLT construído pela empresa indiana Larsen & Toubro. O projeto prevê 19 estações ao longo de 26 quilômetros. Será apenas uma linha, com inauguração parcial prevista para setembro de 2019.

O projeto do VLT das Ilhas Maurício é bastante interessante (veja o vídeo ao fim do texto). O veículo leve sobre trilhos ligará a capital, Porto Luís (Port-Louis, em francês), e seu belo litoral, à quarta maior cidade do país, Curepipe, situada nas montanhas – uma espécie de Campos do Jordão de lá. Essas duas cidades mauricianas contam, respectivamente, com 150 mil e 82 mil habitantes. Sozinha, Maringá tem quase o dobro dessa população.

Lógico que não é adequado comparar uma cidade de interior com a capital de um país, porém, em contrapartida, o PIB (soma dos bens e serviços de uma região) das Ilhas Maurício não chega a um quarto do PIB paranaense (cerca de R$ 400 bilhões), quem dirá do brasileiro. Se um país africano situado numa pequena ilha pode, nós, paranaenses, também deveríamos poder. Então, onde está o entrave?

Não é desconhecido o fato de o Brasil ser amplamente dependente das rodovias, inclusive no transporte das riquezas geradas no campo, e há um gigantesco lobby para manter esse cenário. Faz sentido. Os "barões" do transporte rodoviário – de pessoas e de mercadorias – não pretendem perder parte desse rentável filão para empresas do setor ferroviário. Assim, projetos nessa área não enfrentam apenas a escassez de recursos federais para investimentos, mas também entraves de ordem política.

Se entre Maringá e Londrina a tendência é que o transporte rodoviário de passageiros permaneça como regra, sem exceções, fica a expectativa de que a Cidade Canção mude o status quo. A atual administração, do prefeito Ulisses Maia (PDT), aliás, já tornou público que cogita a implantação de um VLT. Apenas para o saudoso jornal O Diário, escrevi três ou quatro reportagens a respeito.

De acordo com o secretário de Mobilidade Urbana, Gilberto Purpur, um estudo apontou que há viabilidade para a instalação desse modal na Avenida Brasil. Seria, caso o projeto saísse do papel, o primeiro VLT da região Sul – um feito e tanto. Seria também mais uma propaganda positiva para uma cidade já reconhecida nacionalmente por sua qualidade de vida.

Bastante comuns nas cidades europeias, os VLTs poluem bem menos que os ônibus, são silenciosos e transportam mais passageiros. Além disso, costumam valorizar – e, por consequência, revitalizar – as regiões onde são instalados. E a Avenida Brasil, com tantos espaços comerciais fechados, convenhamos, mereceria esse "tapa no visual". Resta torcer para que nenhum lobby barre o projeto.


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31 de janeiro de 2019

Big Brother Brasil 119

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Você do futuro, peço um pouco de sua atenção! O ano é 2019.

Um dólar vale em torno de R$ 3,80; o salário mínimo de fome no Brasil subiu de R$ 954 para R$ 998 no governo Bolsonaro (R$ 8 abaixo do valor previsto no orçamento de 2019); carros elétricos ainda são raros; os políticos mantêm gordos salários e avantajados benefícios; as ações da Vale despencaram após o criminoso desastre em Brumadinho (MG) – enquanto escrevo, inúmeros corpos seguem soterrados nos rejeitos de minério de ferro –; o homem ainda não pisou em Marte; ovo faz bem à saúde; banha de porco é mais saudável que óleo de soja; o lanche prensado de Maringá segue sendo o melhor do planeta; e o Big Brother Brasil (BBB) chega à sua 19ª edição.

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Vivemos numa época em que youtubers são tão populares entre os jovens quanto os poetas foram em outra época. Isso talvez explique o fato de termos grandes livrarias em recuperação judicial, editoras demitindo, jornais fechando as portas e bibliotecas vazias. Enquanto isso, os "heróis mais vigiados do Brasil" garantem fabulosa audiência à principal emissora de TV do País. São 18 anos consecutivos de BBB, sendo que o primeiro ano contou com duas edições.

Dia desses, um grupo de cientistas descobriu que é possível diagnosticar alzheimer antes do surgimento da doença. Outros pesquisadores chegaram à conclusão que beber café diariamente pode prevenir alguns tipos de câncer. Para você, que vive num futuro em que alzheimer e câncer provavelmente sejam doenças curáveis, isso pode não parecer grande coisa, mas para nós, meros mortais do passado, são fatos a serem comemorados.
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Do ponto de vista tecnológico, os avanços são inegáveis. Meus avós, por exemplo, só viram energia elétrica e água encanada quando já eram adultos. Nem fogão a gás tinham. Contudo, apesar das inovações, em alguns momentos temos a impressão de ter retrocedido à Idade Média. Você, caro leitor do futuro, pode acreditar que o povo do meu tempo acabou de eleger um presidente que mede negros por arroba e que não empregaria mulher com o mesmo salário de homem? E, pasme, milhares de mulheres votaram nele! Procura aí nos livros de história para confirmar. O cidadão se chama Jair Bolsonaro, e tem um vice general mais esperto que ele. Como estamos vivendo a história, não faço ideia de como ela vai terminar, mas a impressão é de que são poucas as chances de um final feliz.

10 de julho de 2018

Sonhei com o Corinthians

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Noite fresca de outono, digna de um bom vinho tinto e de um prato saudável que me lancei a preparar para a família. No menu do dia, sopa de frango com caldo de abóbora cabotiá, com toque final de manjericão fresco da muda que eu ganhara semanas antes da amiga jornalista Juliana Daibert. A esposa aprovou, e repetiu, mas o gato Timbu deu apenas um golinho no caldo. Nessas horas, a família serve de cobaia em minhas incursões na cozinha.

O vinho e o jantar de quarta-feira, normalmente, acompanham a rodada do futebol. Na tevê, Corinthians e São Paulo pela semifinal do Paulistão 2018. No sofá, este jornalista, palmeirense, deliciava-se com a tensão alheia para conhecer o adversário do alviverde imponente na final. Em tese, todo palmeirense torce contra o Corinthians, mas naquele caso pouca diferença faria se o vitorioso fosse bambi ou gambá.

No segundo tempo, o zero a zero no placar despertou a irresistível vontade de zapear. Para quem cresceu em tempos analógicos, em que controle remoto não existia, trocar sucessivamente de canais sem levantar do sofá proporciona um prazer difícil de descrever. Quando percebi, estava envolvido com o Alienígenas do Passado, programa do History Channel que defende a tese de que seres de outros planetas tiveram importante papel no desenvolvimento de civilizações antigas.

Enfim, as histórias dos teóricos dos antigos astronautas me fizeram esquecer completamente do jogo e, quando lembrei de retornar ao canal de origem, o Corinthians tinha acabado de abrir o placar, nos acréscimos, levando a partida para os pênaltis. No momento decisivo, provavelmente sob bênção de São Jorge, o goleiro Cássio pegou duas e o Timão avançou à final. Ainda no sofá, peguei no sono minutos depois. E o sonho (pesadelo, talvez) que viria foi surreal.

Estávamos eu e os ex-colegas de redação Luiz de Carvalho e Welington Vainer saindo do estádio, onde tínhamos assistido àquele mesmo derby paulista. Nos tempos do jornal O Diário, Carvalho e Vainer eram parceiros do cafezinho da tarde em uma cafeteria na Avenida Brasil, de duas irmãs chamadas Val. Talvez pela influência subliminar desse convívio profissional diário eles tenham sido incluídos no sonho.

De repente, já estávamos em outro ambiente. Não sei dizer se era um pub ou uma cafeteria. Comentávamos sobre a ineficiência bambi – ao tomar o gol nos acréscimos – quando surgiu, todo ofegante, com a voz ligeiramente trêmula, um jogador do Corinthians. Ao menos no sonho, parecia muito se tratar de Romero, o atacante paraguaio.

— Eles foram embora sem mim — dizia, repetidas vezes, o jogador.
— Calma rapaz. Eles quem? — perguntou Carvalho.
— Meu time, o Corinthians. Esqueceram de mim — respondeu.
— Como é que um time esquece do jogador. Você não deve ser um cara importante, então — comentei.
— Que absurdo isso. Cadê o assessor do time numa hora dessas — reclamou Vainer, o único corintiano no recinto, além do jogador.

Discorríamos sobre o inusitado episódio quando Romero começou a chorar. De tão transtornado que estava, o corintiano custava a ouviu nosso convite para se acalmar. Nada como alguns goles de café, sem pensar nos problemas, para acalmar a alma.

— Rapaz, para que tanto desespero. Por que você não pega um táxi ou um uber? — questionou Carvalho.
— Não sei pra onde o time foi.
— Então, vai pra sua casa — sugeriu Vainer.
— Não lembro onde eu moro — respondeu o jogador, enxugando as lágrimas.
— Caramba. Depois dessa vou precisar mais de mais um café. Surreal — eu disse.

Parecia um pesadelo. Estávamos lá, entre goles de café, sem saber o que fazer com o corintiano. Ninguém queria se responsabilizar pelo cidadão, nem mesmo Vainer, que por ser do mesmo time tinha mais responsabilidades do que nós naquela situação. Se alguém tivesse de servir de babá, que fosse ele.

— Você que tem de levar o Romero embora — comentei, dando um tapinha nas costas do colega Vainer.
— É sim, é seu dever como corintiano — emendou Carvalho, aos risos.
— Não posso, vou pegar meu ônibus para Castelo em 15 minutos — retrucou Vainer, referindo-se à sua cidade, Presidente Castelo Branco, situada na região metropolitana de Maringá.

Ainda preocupado com o abandono, Romero disse estar sem dinheiro. Isso era ainda mais custoso de acreditar. Jogador de time grande sem grana? Devia ganhar por jogo, ainda que ficasse no banco, mais do que nós jornalistas num ano todo de trabalho.

O corintiano aceitou beber algo enquanto pensávamos no que fazer. Pediu achocolatado. Não tinha. Pediu fanta uva. Tinha. Vainer já havia vazado, como medo de ficar de babá. Éramos só Carvalho, eu e o jogador abandonado pelo Timão.

— Ele deve estar há muito tempo sem fazer gols, para ser esquecido desse jeito — eu disse a Carvalho.
— Nem sei. Prefiro ouvir jazz e ler livro a ver o Corinthians — respondeu Carvalho, sendo interrompido por Romero.
— Vocês não gostam de fanta uva?
— Não.
— Não.
— Por que não?
— Porque prefiro café — disse.
— Porque é bebida de criança — disse Carvalho. — Ou de bambi, e você é corintiano — acrescentou.

Para onde levar o cidadão, era essa a questão que pairava no ar. Para o albergue? Para a delegacia? Ou seria melhor ligar para o Conselho Tutelar? Muitas ideias surgiam quando, ao longe, notamos o amigo Rodrigo Parra se aproximar, com sua bike. Também jornalista, e fanático pelo Timão, Parra haveria de saber o que fazer.

— Parra, nos ajude por favor. Não sabemos o que fazer com este jogador — eu disse.
— Romero, o que você está fazendo aqui com um palmeirense? — perguntou Parra.
— Tomando fanta uva.
— Certo, deu para notar. Mas você não deveria ter viajado com o time? — tornou a perguntar Parra.

Nos instantes seguintes, Romero repetiu toda a história da má sorte do abandono, e tornou a chorar. Parra acalmou o jogador e tranquilizou a todos com sua resposta.

— Eu sei onde ele mora. Vou levá-lo para casa — disse.
— Ufa — respondi.
— Ainda bem. Como você vai levá-lo? — questionou Carvalho.
— No quadro da magrela, onde mais — respondeu Parra.

Em alguns cantos do país, o quadro da bike se chama "varão". Logo, Parra levou Romero para casa no varão. Acordei a rir disso, no sofá, horas depois do fim do jogo, pasmo pelo sonho bizarro que acabara de ter. Tomei um copo d'água, tornando a rir da situação do Romero, e fui para a cama acompanhar a esposa e o felino no descanso noturno. Não é todo dia que se tem um pesadelo desses com o time rival.


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23 de julho de 2013

Que Frio

LF
O vento gelado não assustou tanto. Incomodou um pouco, confesso, mas quem gosta de frio não pode reclamar nessas horas. Vesti o sobretudo que trouxe da Alemanha e que repousava há anos no guarda-roupa, apanhei um gorro para proteger a careca e parti para o trabalho, a pé, pelas ruas de Maringá. Dizem os meteorologistas se tratar da massa de ar polar mais intensa a atingir o Sul do Brasil em 15 anos.

Coisa boa. No inverno não suamos por qualquer coisa, come-se e dorme-se melhor e os insetos desaparecem. Até o mosquito da dengue, que com uma forcinha de munícipes porcos mata cada vez mais, dá uma trégua. Calor é bom pra quem vive perto da praia e também pra moradores de rua – que em muitas cidades não têm onde se abrigar do frio.

O inverno começou em 21 de junho, mas foi na terceira semana de julho que ele deu as caras. Fez três graus na terceira maior cidade do Paraná, o que é suficiente para aterrorizar muito maringaense. Creio que um levantamento mais detalhado sobre essa frente fria apontaria para um recorde de atestados médicos em 2013. Há quem se recuse a sair debaixo das cobertas quando as temperaturas despencam.

"Que exagero", diria um canadense sobre quem classifica como "gelada" qualquer temperatura positiva. Saibam os canadenses que frio é relativo e cada um o encara de modo diferente. Enquanto baianos correriam risco de extinção com menos de dez graus; Montreal, Toronto e outras cidade do Canadá decretariam moratória se seus moradores "hibernassem" aos três graus positivos de Maringá.

Pelas bandas do Papai Noel, a concepção de frio é bem diferente. Soube que o povo inuit, que habita o Polo Norte e não gosta de ser chamado de esquimó, tem quase dez palavras distintas para descrever neve. O pouco que aprendi sobre a cultura inuit foi com uma amiga groenlandesa que vive em Nuuk, a capital da Groenlândia, próximo ao círculo polar ártico. No último bate-papo, via Facebook, comentei sobre o frio que começava a fazer em Maringá, dias antes dessa frente fria que fez nevar em mais de 90 cidades no Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

– Agora são nove da manhã e faz dez graus em Maringá. Esse é o nosso inverno – escrevi.
– Sério?
– Sim, mas vi na TV que vai esfriar um pouco mais. 
– Aqui em Nuuk faz oito graus agora. Talvez passe de 15 graus. Esse é nosso verão.

Na Groenlândia, às vezes, chega a nevar no verão, para felicidade dos ursos polares. Da neve que cai no Sul do Brasil e que, nos noticiários, disputa pau a pau espaço com a visita do Papa Francisco ao Rio de Janeiro; diria um groenlandês: que frio? Diria um maringaense: que frio! Diria um gaúcho: bah, que frio tchê! Diria a jornalista Sandra Annenberg (âncora do Jornal Hoje, da Rede Globo): que deselegante esse frio. Diria um baiano: ...
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26 de fevereiro de 2013

Amigo de Fé

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Já se passaram quase duas décadas desde a época que o irmão do meio dos três filhos de Dona Clacy costumava dizer que, quando fosse adulto, moraria em Maringá, a cidade mais arborizada e encantadora do Paraná. Terra onde tudo que se planta dá, cidade daquela catedral em formato de cone, de belas moças, bom clima e gente acolhedora. Mas Deus tinha outros planos para os três irmãos.

O do meio permaneceu na cidade natal de seus pais. Foram o primogênito e o caçula de Dona Clacy a desembarcar em Maringá. Primeiro o mais velho, dois anos mais tarde o caçula. Dividiram apartamento e viveram bons momentos juntos. Foram um para o outro o mais certo das horas incertas, sempre com “palavras de força, de fé e de carinho”, como já dizia Roberto Carlos em uma de suas canções mais famosas.

O mais velho da história, já careca aos trinta e poucos, é este que vos escreve. Lembro-me, como se fosse hoje, do dia em que meu irmão mais novo, semanas depois de terminar a faculdade de Publicidade lá no outro lado do Estado, chegou a Maringá em busca de melhores oportunidades na profissão. Depois daquilo e até então, vivi o que considero a melhor fase da minha vida. Ninguém deveria ser filho único, porque um irmão é uma das maiores bênçãos que alguém pode ter.

Não é preciso ter um milhão de amigos. A presença de quem se ama, do irmão sempre por perto, na maioria das vezes mais do que basta. Nos bons momentos, a felicidade conseguia ser plena, mesmo que fosse nas coisas mais pequenas, como nas noites de queijo e vinho antes dos combates da madrugada, na TV; na preocupação quando o outro estava doente; nas partidas de basquete na tabela vergonhosamente mal conservada da Vila Olímpica; no boteco de chope com colarinho e espetinho barato; nas partidas de futebol ou de Street Fighter no videogame, que eu sempre perdia, mas gostava de alardear que ganhava.

Depois de três anos juntos, meu brother, por quem sempre tive aquele sentimento de responsabilidade típico de irmão mais velho, partiu para uma nova caminhada. Provou mais uma vez que é um grande guerreiro. Sem emprego ou lugar certo para morar, mudou-se para Buenos Aires para um ano de estudos. Na certeza de que alguma portenha há de conquistar seu coração, penso que o jovem publicitário ficará na Argentina por bem mais que onze ou doze meses.

Na primeira noite após sua partida, a sensação foi de nó na garganta. Um sentimento difícil de explicar. Para fazê-lo, precisaria de ao menos um farelo do talento de Hemingway ou de Shakespeare. Sei que meu irmão João Paulo, a quem ajudei minha mãe na escolha do nome, não é um grande fã de Roberto Carlos, mas foi em uma canção do rei - ou melhor, uma verdadeira poesia do rei e de seu amigo Erasmo Carlos - que encontrei as palavras certas para expressar o que sinto.

“Não preciso nem dizer, tudo isso que eu lhe digo, mas é muito bom saber, que você é meu amigo. Não preciso nem dizer, tudo isso que eu lhe digo, mas é muito bom saber que eu tenho um grande amigo.” Irmão e grande amigo. Benditas sejam as amizades eternas!
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8 de fevereiro de 2013

Boa Viagem

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Era para ser mais uma sexta-feira de verão. Em Maringá, normalmente, isso significa calor e temperaturas máximas acima de 30 graus, ótimo para quem está na praia e péssimo para quem não tem ar-condicionado no escritório. Ainda bem, o que era para ser não foi. Fez frio!

Aquela manhã começou com cara de chuva e clima ameno. Ótimo para um café bem quente e um pão com chimia. Acordei cedo, com tempo de alguma leitura antes de partir para o trabalho. "Será que tem revista para mim na portaria", pensei. Desci na recepção do prédio para conferir e aproveitei para levar algumas sacolas de lixo. Deixei a água fervendo para passar o café. Um dia fresquinho daqueles merecia algo melhor que um mero solúvel.

Na portaria, nenhuma revista, mas uma grata novidade. O carteiro havia entregado um cartão postal de uma amiga viajante, jornalista, ex-colega de redação no maior jornal da cidade. De sorriso ímpar, por sorte, era minha vizinha de mesa. No jornal, eu costumava pegar pautas de política e ela, de assuntos mais honestos. Às vezes, flagrava-me olhando para a bela jornalista. Quando se trabalha por longas horas e sucessivos dias diante do computador, colírio se faz necessário.

Depois de encher o coração dos maringaenses de saudades, numa despedida sem alardes, Cristiane ganhou o mundo. Morou em Curitiba, São Paulo, Rio de Janeiro e sei lá onde mais. Quase a perdemos para Londres. Por fim, descobri no postal, estava ela em Recife. Logo imaginei as praias, a boa comida, gente receptiva e tantas paisagens de tirar o fôlego. É o que eu vejo nas fotos de amigos, nas revistas e na TV, já que, por infortúnio, nunca estive no Nordeste do País.

"Estou adorando Pernambuco! Recife tem um vento bom que balança os cabelos e faz a gente pensar na vida", escreveu a amiga, de cabelo longos, pretos e lisos. Fã de Chico Buarque, moça de bom gosto, fina e ao mesmo tempo simples. Tanto é que certa vez, já faz alguns bons anos, convidei-a para sair comer um "dógão" desses de esquina, com direito a molho de maionese temperado com ervas, e tubaína para acompanhar. E ela topou sem titubear. Recordar bons tempos do passado nos faz revigorar a alma.

Para um colecionador de postais, aquela correspondência foi um deleite. Na foto, Boa Viagem, a praia urbana mais famosa e badalada da capital pernambucana. Li que são quase sete quilômetros de extensão, de areia dourada e convidativa, com parte da costa protegida por uma barreira de recifes, responsável pela formação de belas piscinas naturais.

Entre goles de café e mordiscadas no pão com chimia, li e reli o postal. Apanhei um alfinete e marquei Recife no mapa-múndi que tenho na parede da sala. No quadro estão marcados todos os lugares de onde amigos me enviaram postais. Isso inclui destinos exóticos como as capitais Honolulu, do Havaí, e Nuuk, da Groenlândia. Como decoração, combinou com a bicicleta que tenho na parede.

Com a alma e o estômago alimentados, parti para o trabalho, sem blusa, para aproveitar o clima ameno. Como postais não anunciam detalhes do remetente, terei de descobrir por outros meios o endereço para retribuir, com outro postal, essa pequena lembrança que tornou um dia cinzento muito mais agradável.

E antes que me perguntem o que é "dógão" e chimia, digo-lhes que o primeiro, também conhecido como cachorrão, é o lanche típico de Maringá, um tipo de cachorro quente prensado que nenhuma outra cidade no mundo sabe fazer melhor. Nessa bela cidade arborizada, Big Mac é para os fracos. O segundo é o nome gaúcho, aportuguesado de schmier em alemão, para doce ou geleia de passar no pão. Detalhe, nossa schmier é doce e a dos alemães, salgada e preparada com queijo (Shimierkasse).
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2 de setembro de 2011

Pastel e pilates, por favor

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Direi a meu filho, quando tiver um: seja médico, advogado, engenheiro, jogador de futebol e até vereador, mas pense duas vezes antes de ser jornalista. O rendimento de repórter, em especial em cidades de interior, com poucas opções de trabalho, deixa a desejar. Quem quer ter algum ($$) a mais para investir na carreira precisa fazer dupla jornada, sentado em frente a um computador, no maior sedentarismo.

A mesma dupla jornada que me permite pagar uma conceituada pós-graduação e, uma vez por ano, fazer uma boa viagem; acarreta esgotamento mental, sucessivas faltas à academia, má alimentação, açúcar demais e fibras de menos, enfim, uma vida sedentária. Consequência: ganho de peso e malhação para correr atrás do prejuízo.

Com pouco tempo para exercícios, já tentei algumas alternativas. Cortei açúcar para perder míseras 200 gramas e desisti daquelas cápsulas que prometem absorver a gordura dos alimentos. Mentira, não funciona! Estou pensando seriamente em cortar as massas e parar de comer à noite, porém, de momento, a estratégia ainda não saiu do papel. Tenho receio de tomar remédio e prejudicar a saúde, por isso, o máximo que cogito é tomar aquelas vitaminas da Herbalife.

Ao lembrar o que me diz a balança, refuto a afirmação de minha magra e esbelta namorada de que estou bem. Só quer me agradar, é isso.

Para complicar, a academia que passei a frequentar fecha nos fins de semana e depois das 23 horas, nos dias de semana; justamente quando tenho tempo de queimar algumas calorias na esteira. Minha mãe quis saber por que parei de correr no Parque do Ingá. Tive de explicar, de novo, toda a história da dupla jornada e do sedentarismo.

Minha campanha pela perda de alguns quilinhos começa a ter participação popular. É o pessoal cruzando os dedos e até indicando academia – entre elas de boxe, esporte que eu praticava num passado mais magro que o atual. Numa das sessões da Câmara Municipal, na sala de imprensa, um vereador veio me dizer eu estava gordo. Nem reclamei da constatação porque, dessa vez, o vereador estava falando a verdade.

Como essa questão de redução de peso não se resolve de uma hora para outra, preferi postergar novas metas (para não falar em dieta) para segunda-feira. Na manhã seguinte à constatação do vereador, pedi um pastel de miniovo na feira, com café para acompanhar. Nessa história de perder peso, todo mundo tem uma "boa" dica pra dar. O nobre edil me indicou pilates. "Custa SÓ R$ 150 por mês", disse ele. Bom, enquanto não recebo salário de vereador, prefiro boxe… e um bom chope de vinho depois!
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8 de abril de 2011

Não pare na faixa

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O título, meus caros, não é educativo. Trata-se de um desabafo e, sendo assim, não tire conclusões sem ler o texto até o final. Tem a ver com uma dose cavalar de chateação e que me levou à seguinte reflexão: vale mesmo a pena agir corretamente?

O sábado começou com uma manhã entediante de trabalho. A rotina de repórter não é a maravilha que os estudantes de Jornalismo imaginam (e que eu também imaginava em meus tempos de academia, há quase dez anos). Fui escalado para cobrir o retorno de Rodrigão a Maringá e, na companhia de fotógrafo do jornal, levamos um chá de cadeira à espera do BBB no shopping onde ele participaria de sessão de autógrafos.

Deve ter sido castigo, pelos trotes que havia passado no Twitter sobre uma repentina chegada de Rodrigão, dias antes. Como entusiasta da editoria de política, queria ter acompanhado a reunião da simpática senadora Gleisi Hoffmann - esposa do ranzinza ministro Paulo Bernardo - com prefeitos da região. Baita azar, porém, o pior estava por vir.

O estresse do trabalho passou com um bom cochilo depois do almoço e com a terapia de sempre: a associação de livraria e café expresso, com ambiente climatizado para escapar do calor maringaense. Para melhorar, o café foi na agradável companhia de uma amiga jornalista. Para ficar perfeito, à noite passei buscar a namorada para jantar e beber um bom vinho. E bons vinhos sempre... bom, não há necessidade de pormenores.

Mas “quando a esmola é demais”, como diz o ditado, “o santo desconfia”. Alguma coisa estava para dar errado.

No percurso a caminho do Centro da cidade, por volta das 21h30, reduzi a velocidade ao notar um pedestre no canteiro central, aguardando para concluir a travessia da avenida. Fiz o que se ensina em qualquer autoescola, ao respeitar o Código de Trânsito Brasileiro e atender ao apelo das insistentes e válidas campanhas de trânsito: dei preferência ao pedestre. Uma fração de segundo depois, senti a pancada no meu carro vermelho de marca italiana e o corpo contra o sinto de segurança. Sinalizei com o pisca alerta que daria preferência ao pedestre, mesmo assim sofri colisão traseira de Vectra conduzido por um empresário, ou melhor, um ignorante de um pequeno município vizinho.

Não briguei, não ofendi o sujeito. Acidentes acontecem e, felizmente, ninguém se feriu. O empresário assumiu a culpa de imediato. Um senhor em torno dos 55 anos, que aparentava estar sóbrio. Bateu por descuido, não por conta do efeito da ingestão de álcool. Ele ainda tentou se esquivar de meu carro e, felizmente, não conseguiu. Estou certo de que teria atingido o pedestre, que já atravessava a faixa.

Lembrei-me de uma campanha educativa da Prefeitura de Maringá que passa diariamente na TV a cabo local. “Em Maringá, atravesso a rua na faixa, porque muitos motoristas respeitam os pedestres e param na faixa”. Como a utopia soa bem na tevê. Faltou dizer que outros, que não respeitam, passam por cima de quem estiver na frente.

Não demorei para perceber que o estrago no carro seria o menor dos problemas. Ou melhor, demorei, e muito. A Polícia Militar (PM) compareceu para registrar o boletim de ocorrência próximo da meia-noite, duas horas e meia depois de ser acionada. E depois da chegada da PM, lá se foram mais 20 minutos para preencher a papelada. Soube do sargento que se o imposto do veículo não estivesse em dia (ainda bem que estava) eu seria multado e o carro, guinchado. Um tanto justo: quem mandou parar na faixa?

Duas semanas se passaram desde a raiva daquele sábado à noite e, querem saber, o carro ainda não foi consertado. A companhia de seguro do empresário autorizou o conserto, mas há fila na mecânica autorizada e falta de peças no estoque. Nada como andar a pé para perder uns quilinhos.

As campanhas educativas se esforçam para elevar a segurança do trânsito, mas o “sistema” não colabora. Colisão traseira, horas de espera pelo boletim de ocorrência, risco de ter o carro guinchado, perda de ânimo para o programa de sábado à noite com a namorada, falta de peças para o conserto, dias a pé, estresse e cabelos (que já são poucos) a menos... tudo por conta do respeito ao pedestre. Como a batida daquela noite foi em frente à uma pizzaria, tudo terminou em pizza.
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18 de março de 2011

Happy hour em Maringay

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Quando Luke chegou à choperia preferida de oito entre dez solteiros de Maringá, com 30 minutos de atraso em relação ao combinado, os amigos Lelo e Rita já se encaminhavam para a segunda rodada: ele de chope e ela, de conhaque. Ela o de sempre e ele, nem tanto. Nos dois últimos encontros Lelo havia preterido álcool por um suco de morango com leite.

— Cadê a namorada Luke? — perguntou Rita. — Pensei que fosse nos apresentar ela hoje.
— Ela está na faculdade, mas não faltarão oportunidades — respondeu o atrasado.
— Sei brother! É a quinta vez que você diz isso. Tua namorada está que nem o Bin Laden, a gente sempre ouve falar, mas nunca ninguém viu — brincou Lelo. Sorrindo, os três e brindaram a muitos outros happy hours juntos.

A choperia estava praticamente lotada, algo incomum para uma quarta-feira de fim de mês, quando boa parte dos trabalhadores já tinha torrado o salário do mês pagando contas. Uma mesa, em especial, despertou a atenção dos dois rapazes. Duas moças, uma loira gordinha (no diminutivo para ser simpático) e uma morena de corpo escultural pareciam aguardar a chegada de seus pares. O som ambiente, com música ao vivo, impossibilitava ouvir o que conversaram.

— Larga mão de ouvir a conversa alheia, Luke — reclamou Rita.
— Que é isso Rita — indagou Lelo. — Pouco antes de o Luke chegar era você que queria saber o que os caras ali da mesa ao fundo falavam.
— E por que Rita iria querer ouvir a conversa deles? — questionou Luke.
— Porque ela acha que o sujeito com gel no cabelo está dando moral pra ela — respondeu Lelo, com a devida entonação no “acha”.
— Ele está me encarando sim — garantiu a amiga de olhos verdes e sorriso maroto.
— Sem chance Rita. Você é linda, só que os caras são gays — avaliou Luke.

Um homem pode não reparar, a julgar pela aparência, quando uma mulher prefere pererecas a sapos, mas costuma acertar com precisão quando outro homem é gay. Na teoria de Luke, isso é possível menos por causa dos trejeitos, mais por conta da nítida falta de interesse deles pelas curvas femininas. Parafraseando o escritor Luis Fernando Verissimo, “Homem que é homem (HQEH)” repara atento um par de coxas e um belo rebolado como se seus olhos dissessem: “gos-to-sa”; homossexual repara os mesmos atributos dizendo em pensamento: “pi-ran-ha”. Ou às vezes: "va-ca o-fe-re-ci-da". Rita desdenhou da teoria.

— Você diz isso, Luke, porque está com ciúmes.
— Está bem, Rita, não está mais aqui quem falou.

Vinte infindáveis minutos depois de feito o pedido, o garçom trouxe a picanha na tábua. Demora de praxe, para forçar a clientela a beber mais. Na mesa ao lado, loira cheinha e morena gatinha ainda aguardavam por seus pares. HQEH, vale lembrar, não deixa mulher esperando.

Luke e Lelo, com muito assunto para pôr em dia, haviam pedido um baldinho de cerveja. Rita, já na ânsia para inflar os pulmões com fumaça, continuava trocando olhares com o sujeito da mesa ao fundo.

— O gostosinho de preto foi lá fora fumar. Vou aproveitar pra puxar conversa com ele — disse Rita.
— Isso não está certo. É ele quem tem dar em cima de você, não o contrário — protestou Lelo.
— Até concordo, mas vou abrir uma exceção. Faz um mês que não faço sexo — respondeu a amiga, num ataque de sinceridade “patrocinado” por três doses de conhaque.
— Deus, por que é que uma coisa dessas nunca acontece comigo? — brincou Luke. — Nunca nenhuma loira louca pra transar deu em cima de mim. Sempre tomei a iniciativa, quase sempre pra levar fora — acrescentou, já com Rita a caminho do encontro com o playboy.
— Deus, porque é que ela não pede minha ajuda para apagar o fogo. Tenho vocação para bombeiro — emendou Lelo, de olho no rebolado.

Da posição onde estavam, Lelo ficava de costas para o flerte e Luke, de frente para o “crime”, narrava o episódio para o amigo:

Cara, ela esqueceu o isqueiro só para ter como puxar conversa com o sujeito de preto / Bah, agora passou a mão no braço dele / Vixi, ele mexeu no cabelo dela, vai ver eu estava errado e ele não é tão gay assim / Opa, o cabeludinho que estava com ele na mesa saiu para fumar também. Estranho / Calma aí, cara, já te digo o que é estranho / Caramba, tu não vais acreditar no que estou vendo...

Luke não conseguiu prosseguir com a narrativa. Embora o esforço para não chamar a atenção dos vizinhos de mesa, engasgou-se num ataque de riso.

— O que houve brother? Diga logo.
— há-há-há...
— Vai, diga lá o que você está vendo.
— Veja com seus próprios olhos.

O cabeludinho e o playboy com topete moldado a gel eram mais “amigos” do que Rita e seu maço de cigarros. O sujeito de preto passou a acariciar os cabelos do companheiro, que retribuiu o carinho ao apalpar o traseiro do “escolhido” de Rita. Ela, visivelmente sem jeito e irritada, dava baforadas sem tirar a bomba de nicotina da boca. A teoria de Luke estava certa.

A dupla assistia de longe ao momento cômico quando, de repente, foi surpreendida pela sinceridade de um pobre andarilho com “bafo de onça”.

— Uma moedinha pra me ajudar, por favor — pediu o maltrapilho.
— Sei, só falta dizer que o dinheiro é para comprar leite para as crianças — resmungou Lelo.
— Não, é para comprar uma cachacinha — respondeu.

Homens são, em sua maioria, seres ambiciosos. Trabalham pelo status, pelo dinheiro e pelo que o status e o dinheiro podem proporcionar. Há quem diga que, na pujante Maringá, mais pelo status do que pelo dinheiro. Com o suor do cartão-ponto se pode beber com os amigos, viajar nas férias, comprar um carro para aumentar as chances de sucesso nas paqueras e, tendo sucesso, levar a namorada para comer... num bom restaurante, claro.

Às vezes, algum vício surge para roubar do homem seus sonhos, o emprego, o carro e, com o cartão de crédito cancelado, até a namorada. Num estágio mais avançado do vício, quando a família se cansa de ajudar e decide dar as costas, resta ao bebum apenas a companhia de seu fiel vira-lata. O único prazer, então, além de fazer "justiça" com as próprias mãos, é a "marvada".

— Bah, quanta sinceridade! — exclamou Luke — Toma aqui um trocado.
— Concordo, isso aqui é pra te ajudar com a cachaça — disse Lelo, contribuindo também com dois reais.
— Deus abençõe vocês — agradeceu o pinguço.

O que vale é a atitude, não o valor da oferta. Leitores da bíblia nas horas (bem) vagas, o católico Lelo e o protestante Luke conheciam aquela passagem em que Jesus valorizara a oferta da senhora pobre, que contribuíra com pouco, mas o fizera de coração. Feliz, o pinguço rumou para algum boteco com seus quatro reais. Chateada, Rita retornou da mal-sucedida paquera, com alguns cigarros a menos no maço. Certamente, o rapaz de preto NÃO daria fim ao período de “seca” dela.

— Agora entendo por que chamam Maringá de Maringay — reclamou Rita.
— Viu só no que dá trocar os amigos aqui por um desconhecido — comentou Lelo, rindo da situação.
— Para o teu governo, Lelo, o casalzinho lá quis saber se você é gay. Parece que eles têm um amigo solteiro — disse Rita.
— E o que você respondeu?
— Disse que você é muito gay, que você está solteiro e que amaria companhia no fim de semana — respondeu Rita.
— Viu só, brother, dá nisso ficar pedindo suco de morango com leite por aí — disse Luke.

Na mesa ao lado, loira e morena partiram sem beber metade das cervejas do balde. Nem sinal de seus pares. Evidente que a morena havia marcado o encontro à moda antiga: “leva um amigo que eu levo uma amiga”. Os pares devem ter desistido do encontro na entrada do bar, ao analisar a amiga loira de uma distância segura:

— Cara, tua mina trouxe para mim aquela loira com o triplo do meu tamanho? Sou muito teu amigo, mas isso é sacanagem — deve ter dito o amigo do "amigo" da morena.

E os pares deram meia-volta, abandonando as duas à própria sorte. Tem mulher que, com receio de perder a paquera para uma concorrente, só sai na noite com amiga feia. Aí, acabam as duas sozinhas e, pior, sem ninguém para bancar o baldinho de cerveja. Essa teoria, no entanto, não pôde ser comprovada naquela noite por falta de provas.

Assim como as moças da mesa ao lado, Rita também quis ir embora. Mulheres bonitas e gostosas, sempre cortejadas, tendem a ficar irritadas quando tomam "toco". Nada impressionados com a brabeza alheia, Luke e Lelo fizeram questão de incluir Rita na divisão da conta. Não se paga a bebida de mulher que passa celular de HQEH para quem joga no outro time. Desde aquele dia, Lelo é acordado no meio da madrugada por telefonemas anônimos.
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18 de janeiro de 2011

Santo de casa não faz milagre

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Popularidade é algo que mexe com o ego das pessoas – com algumas mais, com outras menos. Na escola, quem não se preocupou em ser aceito perante os colegas, em fazer parte da turma, em atrair a atenção da menina mais bela da classe? Na vida adulta as preocupações são outras, porém, o objetivo da maioria segue sendo o mesmo: agradar e ser aceito. Para todo puxa-saco (e conheço vários), por exemplo, isso significará lamber o chão que o chefe pisa, ser for preciso.

Quadro com imagem de Jesus Cristo
em exposição no Centro de
Pato Branco (Foto: LF Cardoso)
Prefiro não agradar tanto, mas não nego: curto esse lance de índice de popularidade. Com alguma frequência, confiro o desempenho de meus blogs no Google Analytics. Analisando as métricas dos blogs, fico sabendo de detalhes importantes, tais como a origem da audiência e o total de visitantes em determinado período.

Importo-me mais com o que o Analytics revela sobre minhas crônicas do que a respeito das "postagens jornalísticas". Em recente checagem, descobri que foram 800 acessos únicos nos últimos 30 dias – um aumento de 11% no período. Bons números para um blog que tem em média quatro atualizações por mês e um público seleto: pessoas que gostam de ler.

Da última vez, quis saber quais cidades compõem o Top 10 de visitas ao blog. Para minha surpresa, a cidade de onde venho e onde vivi até os 23 anos ficou de fora. Em outras palavras, não estou agradando meus conterrâneos. O ditado, que não “perdoou” nem Jesus, segue firme e forte nos dias de hoje: “santo de casa não faz milagre”.

Em 30 dias, tive 106 acessos únicos em Maringá, isto é, as crônicas foram lidas a partir de 106 endereços de IP (máquinas distintas) na cidade onde moro há três anos – e onde tenho mais audiência. Em segundo ficou São Paulo (103 acessos únicos), com Cascavel (47) em terceiro e Curitiba (39), em quarto.

Considerando familiares, amigos, ex-colegas de aula e de trabalho, tenho mais conhecidos em Pato Branco do que o dobro dessas quatro cidades, juntas. Contudo, Pato Branco aparece na 20ª colocação no relatório do Google. Foram apenas seis acessos únicos em 30 dias, 20 a menos do que Lima, capital do Peru, onde meus amigos não passam de meia dúzia.

Dizem que a bíblia tem explição para tudo. Verdade ou exagero, sei que para esse caso as escrituras me serviram. Vamos à teoria:

Jesus era da Galileia. Na região onde nasceu, não operava milagres. Não porque preferia outras cidades, mas, sim, porque os nazarenos não tinham fé nele. Certa vez, em uma sinagora, ele deu a entender que era filho de Deus, deixando seus conterrâneos furiosos. Moisés havia ensinado: "não matarás", mas os fieis da sinagoga não pensaram duas vezes em atentar contra a vida de Jesus. Disseram (em adaptação livre, de minha parte): "este aí não é o carpinteiro, filho de José? Vamos atirá-lo do penhasco!"

Se quem dividiu o ocidente em AC e DC não era aceito em sua própria terra, quem sou eu para querer ser lido em Pato Branco. Não tem jeito, as pessoas vivem e morrem, mas os ditados permanecem.
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Baseado em texto publicado no Café com Jornalista.
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5 de janeiro de 2011

A novela do Ingá

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Em recente viagem de férias a Lima, capital do Peru, tirei um tempo para conhecer o tão bem falado – pelos guias de turismo – Bosque das Oliveiras (Bosque de los Olivos, em espanhol). Vi de perto as árvores centenárias e, satisfeito pela oportunidade, fico a imaginar o tamanho da frustração caso tivesse me deparado com o local fechado por tempo indeterminado. Decepção maior teriam dois colegas de redação, que optaram por férias em Nova York, caso encontrassem na ilha de Manhattan o Central Park interditado.

Foto: odiario.com
Guardadas as devidas proporções, é isso que se passa em Maringá com os visitantes que dão de cara com cadeados no portão de entrada do Parque do Ingá. Situado no Centro de Maringá, com mata nativa e um lago ocupando área de 47,3 hectares, o Parque do Ingá foi fechado em 15 de abril de 2009 após a morte de 20 saguis e um macaco-prego. Havia o receio das autoridades de que se tratasse de febre amarela, mas exames laboratoriais revelaram que as mortes dos animais foram causadas por herpes. Os cadeados, porém, permaneceram nos portões para indignação dos moradores e, quem sabe, até dos saguis – sempre com o "olho maior que a barriga" sobre o lanche dos visitantes.

Ao correr ou caminhar no entorno de um dos principais cartões postais de Maringá, algumas vezes senti a vontade de pular a cerca para ver se de fato existiam obras em execução no local. Sem autorização, poderia ser preso, porém, meu lado jornalista pressentia que o atrevimento renderia uma boa matéria. Novelas, todos sabem, dão boa audiência. No "vou, não vou", minha ousadia não chegou a tanto, nem a de um vereador de oposição que confessou ter a vontade de pular a cerca também – no bom sentido da palavra, claro.

O Parque do Ingá não foi aberto ao público em julho do ano passado, contrariando a previsão inicial do governo municipal. Num discurso otimista, o prefeito da cidade deu lá suas justificativas para o atraso e disse que o parque seria reaberto, parcialmente, em janeiro de 2011. À imprensa foi apresentado um belo projeto de revitalização, com uma série de atrativos a serem criados em parceria com a iniciativa privada. O resultado seria tão bom, dava a entender a prefeitura, que, no final das contas, a espera pela reabertura do parque valeria a pena.

O tempo passou, veio janeiro e... nada de concreto! A reabertura, vi na matéria de um colega de redação, foi adiada pela quarta vez. A novela, que já completa 21 meses, segue sem data para um final feliz. Os saguis mais jovens, nascidos na "era dos cadeados", imagino eu, continuarão por alguns meses a ouvir as belas histórias contadas por seus anciãos, sobre o quão bom eram os tempos dos visitantes que burlavam a fiscalização para lhes oferecer as mais variadas guloseimas.

Na condição de jornalista, seguirei dando minha contribuição profissional ao informar os leitores das novidades e reclamar das promessas não cumpridas. Na condição de cidadão, prosseguirei tentando explicar aos parentes e amigos, que vêm volta e meia me visitar em Maringá, o porquê de nosso principal parque continuar fechado ao público. No otimismo de que tudo termine bem, na ceia de Natal brindei para ter a sorte grande na Mega-Sena da Virada e para ver o Parque do Ingá na ativa outra vez. Em ambos os casos, o ano novo não teve um início feliz.

Crônica baseada em opinião publicada em odiario.com.

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8 de março de 2010

Sr. 'João sem braço'

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No processo de locação de um apartamento, a informação de que faltava um documento me levou à Associação Comercial e Empresarial de Maringá (Acim). Precisava do SCPC Imobiliário, documento cobrado pelas imobiliárias e que serve para o locatário comprovar que é bom pagador e que tem o nome limpo na praça. Fui à Acim e apanhei a senha: número 67... antes de prosseguir, tenho de dizer que o relato a seguir é baseado em uma boa e uma má notícia.

Vamos começar pela notícia ruim: a fila era "quilométrica". Ainda não haviam chamado a senha 55, todos os assentos estavam ocupados e, pior, pelo excesso de gente o ar-condicionado não dava conta de refrescar o ambiente. Dedici que o melhor era esperar no shopping em frente, bebendo um refrescante suco de laranja com graúdas pedras de gelo e lendo a última edição da revista Veja. Bem melhor do que estar na fila e ter de trocar gotas de suor e olhares cansados com desconhecidos.

O retorno se deu com a senha no número 64. Com a desistência dos números 65 e 66, vencidos pelo cansaço, não demorou e fui chamado. — Vai custar "tanto" — disse a atendente, antes mesmo de fazer a consulta do CPF no sistema. Talvez quisesse se certificar de que eu teria a grana. "Está certo", pensei, não ficaria irritado por aquilo. Irritado fiquei foi com um senhor, que adentrou na sala de atendimento, furando uma fila quilométrica e se fazendo de desentendido. Um genuíno "João sem braço".

— O senhor poderia aguardar lá fora que lhe atendo assim que seu número for chamado — disse a atendente, com tolerante simpatia. — Blá, blá, blá, blá... etc — respondeu "João sem braço", de maneira que não consegui compreender nada do que ele dizia. Se passar por velho "gagá" deve ser a última técnica de como furar fila, até porque a atendente rapidamente desistiu de insistir para que ele aguardasse do lado de fora. Devia ter 60 anos, porém, na fila havia três ou quatro com mais idade que ele... e com mais educação também.

— Tem um ditado bíblico que diz que as pessoas próximas são as que mais nos desapontam — disse o fura-fila, ao notar que eu o observava com olhar de reprovação.

É possível que ele tenha aceitado ser fiador de alguém da família que, ao que parece há pouco tempo, passou-lhe a perna. Contudo, nunca ouvi ou li tal ditado bíblico. O que sei, da bíblia, é que devemos agir com honestidade até nos mínimos detalhes. É de prática ilícitas de pequena monta que nascem os corruptos, os ladrões, os maus pagadores. O "João sem braço" reclamava de alguém que não agiu corretamente com ele, mas e ele: agiu como homem de bem com todos aqueles que, respeitosamente, esperaram sua vez na fila?

Tal como aquele senhor, o mundo está repleto de pessoas com desvios morais e éticos que sabem (e citam) a bíblia de "trás para frente, decor e salteado" – aí sim, um ditado de verdade. Não disse àquele senhor uma única palavra. Nem foi preciso, um olhar às vezes também vale por mil palavras. O fura-fila esperou "sua vez", na sala, e eu tomei o rumo da imobiliária.

A boa notícia é que o setor jurídico da imobiliária aprovou a locação do imóvel que escolhi. Trata-se de um apartamento situado a cinco quadras do jornal, com dois quartos, cozinha, dois ambientes de sala, vaga de garagem e cobertura com churrasqueira. Melhor que isso, dividirei o apartamento com meu irmão mais novo que, assim como o autor desta crônica, trocou Pato Branco por Maringá sem medo de ser feliz.
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29 de janeiro de 2010

A Conspiração (ACREdite)

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Pablo Sica tem seus motivos para desconfiar da existência do Acre, o mais isolado dos Estados brasileiros. No 1º Encontro de Twitteiros de Maringá, ele tocou no assunto e deu a impressão de realmente acreditar no que dizia. Falou em uma suposta conspiração para fazer o brasileiro crer que lá distante, mais perto do Peru e da Bolívia do que do restante do Brasil, em meio à Floresta Amazônica, há uma capital e tantas outras cidades. Duas doses de café alcoólico mais tarde, foi além: mencionou algum envolvimento da Rede Globo, que teria com o Acre uma ligação semelhante à da Iniciativa Dharma com a Ilha de Lost.

Alguns dos twitteiros do Grupo dos Nove (G9, como ficaram conhecidos os nove participantes do primeiro encontro) se entreolharam, como se dissessem: "que diabos colocaram no café dele?" No encontro – combinado no Twitter, claro –, mais de 20 confirmaram presença, mas só oito deles cumpriram com a palavra. Pablo, porém, foi o único que compareceu sem anúncio prévio. Marcou presença porque era em Maringá, em chão conhecido. Fosse no Acre, não iria.

No G9 do Twitter maringaense, a maioria é jornalista. Um deles, atiçado pela curiosidade inerente à profissão, marcou um café com Pablo no mesmo shopping do encontro anterior, na mesma livraria. Somente os dois – esposa de um viajando e a namorada do outro, também –, e uma tarde inteira pela frente. Não demorou para Pablo falar da conspiração.

O jornalista aproveitou para fazer muitas perguntas, mas nem em todas obteve respostas. "Há coisas que um incauto talvez não deva saber", cogitou, em pensamento, o jornalista. "Há coisas que é melhor que um jornalista não saiba; não num primeiro momento", deve ter pensado Pablo. O lance de o Acre não existir, ao menos não da forma como ensinam os livros escolares, era inquietante, mas não tanto quanto a participação da Dharma, ou melhor, da TV Globo na dita conspiração. Difícil imaginar que alguém ACREditasse nisso.

Para ser mais convincente, Pablo relatou passagens vividas por dois de seus amigos. Um, das Forças Armadas, havia sido convocado para uma missão no Acre. Outro, voluntário em um clube de futebol do Mato Grosso, acompanharia o time num amistoso em Rio Branco. Antes, ambos não acreditavam na conspiração, agora, ambos já não têm tanta certeza.

— Fui relacionado para uma missão no Acre, no mês que vem — comentou o amigo de Pablo, do Exército, por telefone.
— Pode esquecer. Se minha teoria está certa, vão cancelar a missão.
— Por que cancelariam?
— Porque o Acre não existe — afirmou Pablo, que, no mês seguinte recebeu novo telefonema:
— Meu amigo, estou assustado — disse o militar. — Cancelaram a missão no Acre e nem explicaram o motivo.
— Não te avisei. Qual a explicação para o Acre, que faz fronteira com dois países, ser o único Estado brasileiro sem base aérea — disse Pablo, mais cheio de razão do que nunca.

Outra vez, contou Pablo ao jornalista, um de seus amigos acompanhou um time de Mato Grosso em um amistoso que se daria em Rio Branco. No avião, tão logo o piloto anunciou o procedimento de pouso na capital do Estado, as aeromoças se apressaram em fechar as 'cortinas'. "É um procedimento padrão", diziam, "fechem logo".

— O que houve, por que não pousamos no aeroporto? — questionou o amigo de Pablo, assim como alguns jogadores.
— Tivemos um problema com a torre de comando. Vamos, há um ônibus esperando por vocês — disse o encarregado da recepção da delegação mato-grossense. O que aconteceu dali em diante, conforme relatou o amigo de Pablo, foi surreal.

— Fomos levados a um campo de futebol em um ônibus com vidros escuros. Mal dava para ver do lado de fora. Quando descemos no estádio, a poucas horas da partida, não vimos torcedor algum — relatou. — Vi ali um varredor de rua e perguntei a ele para que lado ficava a cidade. Sem dar uma palavra, o varredor, de macacão cinza, deu-me as costas e continuou varrendo.

Inquieto e irritado, pela falta de respeito do gari, o amigo de Pablo insistiu. Aproximou-se e, ao tocar o ombro do varredor, disse:

— Você pode me responder para que lado fica a cidade? — insistiu. O gari se virou, fitou nos olhos o mato-grossense, que, ao reparar o logotipo da Rede Globo no bolso do uniforme daquele senhor, ficou perplexo e, até deixar o Acre logo após o jogo, não tornou a abrir a boca. Sentiu medo. Existiria, de fato, a uma conspiração envolvendo o Acre? Correria ele algum risco? Por que eles não foram levados para visitar a cidade? De qualquer forma, para o amigo, Pablo já não parecia tão insano quanto antes.

Regada a um bom café com torta de limão, a conversa prosseguia sem pressa, na cafeteria do shopping. O jornalista não se dava por convencido, até porque ele não conhecia os dois amigos de Pablo. Conhecia, sim, uma ex-colega de faculdade que, dias depois da colação de grau, mudou-se de "mala e cuia" para Rio Branco.

— Tenho uma amiga que mora em Rio Branco há cinco anos. Se formou em Jornalismo comigo e hoje dá aulas na Universidade Federal do Acre. O que você me diz disso? — perguntou a Pablo, em tom de confronto.

— Depois que essa tua amiga foi para lá, você a encontrou novamente, falou com ela?
— Sim, conversamos com alguma frequência pelo MSN. Ela diz estar feliz por lá.
— Ok, MSN. Mas você a viu pessoalmente depois que ela foi para o Acre.
— Não.
— Algum de teus colegas de faculdade a viu?
— Não que eu saiba.
— Ela já retornou de lá para visitar os amigos?
— Não! – e a essa altura o Jornalista já começava a temer pela colega.
— Algum conhecido já foi visitá-la e voltou para contar história?
— Acho que ninguém foi visitá-la.
— Até que alguém faça isso, e prove, lamento te dizer: talvez vocês não vejam mais essa amiga.

O gole seguinte de café teve sabor de suspense, um misto de pavor e medo. Segundo Pablo, a colega de Jornalismo não corria risco de morte, mas, por algum motivo que ele mesmo desconhecia, jamais retornaria do Acre. Mistérios da conspiração. Talvez ela também estivesse usando macacão ou jaleco com logotipo da Globo.

— Ela me convidou para ir visitá-la — comentou o jornalista.
— Eu não iria – disse Pablo. — Estão querendo te recrutar, é assim que funciona.
— E se de fato houver algum mistério por trás do Acre e eu for vê-la?
— Aí não tornaríamos a vê-lo, infelizmente.
— E os heróis do Acre, como Plácido de Castro e Chico Mendes, o que você me diz deles?
— São personagens dos livros escolares. E faz tempo que não acredito mais na versão oficial que nos ensinam sobre o Acre.
— Quer saber, vou visitar minha colega no Acre, mas só se ela vir de lá antes.
— Nem assim eu iria — exclamou Pablo. — Terminou o café?
— Sim.
— Garçom, a conta por favor.

Publicado também em: Mais1Livro.com

Translation into English
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9 de outubro de 2009

"Orfeu e Violeta", a melhor segundo os leitores

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"Orfeu e Violeta", que já liderava o ranking da mais comentadas deste blog, foi eleita a melhor crônica na avaliação dos leitores. O conto, que discorre sobre o encontro entre um jovem de Pato Branco e uma bela moça de Realeza num ônibus a caminho de Maringá, obteve 7 pontos, contra 4 pontos de "Uma linda mulher" – a segunda crônica mais lembrada.

Ao votarem em seus textos preferidos, os amigos contribuíram com a seleção das 12 melhores crônicas do Blog do LF, que vão compor um livreto mais adiante. Na fase decisiva, jornalistas convidados vão avaliar as 17 mais bem classificadas até o momento. Veja quais são elas no Café com Jornalista.

A pontuação corresponde à somatória da primeira fase (número de comentários) com a segunda fase (pontos dados pelos leitores).
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7 de outubro de 2009

As curvas de Maringá

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Ao voltar de São Paulo, a reflexão de sempre: como Maringá é arborizada! E como tem mulheres bonitas – tanto quanto (ou até mais do que) árvores. A constatação é espontânea de tal modo que se torna impossível não repeti-la toda vez que retorno a essa cidade abundante em verde, flores e curvas.

Nas passadas sem pressa rumo à cafeteria preferida, a natureza deu-me as boas-vindas com uma casca de semente de sibipiruna, que deve ter deixado em meu rosto a marca do impacto. Sibipirunas que, na primavera, decoram Maringá em verde e amarelo, com pequenas flores que liberam uma resina grudenta, o terror dos para-brisas dos veículos. "Antes as flores e as cascas de sibipiruna do que as pombas", pensei.

As boas-vindas, Maringá parcelou em duas vezes, a segunda delas "paga" já na cafeteria do shopping. Livre da dieta do açúcar, bebia um café expresso com creme e chocolate, meio amargo, e lia "Traçando New York", livro de Luis Fernando Verissimo recém-comprado num sebo. Na mesa mais afastada do balcão e mais próximo da janela, concentrado na leitura e no café, perdi a majestosa chegada de Liana – suponho que tenha sido majestosa e não tenho a mínima ideia do nome verdadeiro da moça.

Aparentava 1,60m de altura, 20 anos, menos de 50kg, do tipo intelectual embora nada nerd. Tinha cabelos longos, lisos e ruivos que se esforçavam para tocar sua cintura – uma cinturinha para apreciar sem moderação –, e ainda pele clara, olhos verdes e esbeltas coxas, valorizadas pelo shorts curto, porém, comportado. Pediu um café gelado e sacou da bolsa um livro com marca-texto que indicava uma leitura nas páginas finais.

Uma linda jovem, que curte um bom livro regado a café, na livraria com música ao vivo... ahhhh!... uma miragem, um oásis no deserto escaldante. Fiquei com sede, ou melhor, encantado. Esqueci Verissimo e concentrei minha atividade cerebral numa estratégia de aproximação. Precisava ser notado e, mais, causar boa impressão.

Duas rápidas e discretas trocas de olhares me carregaram da coragem necessária para avançar contra os "inimigos": o risco de um fora e o receio de nunca mais tornar a vê-la (caso não tomasse uma iniciativa). Notei que ela estava na mesa 28, com número escrito em fonte igual a que indicava, na passagem, o portão de embarque (também 28) no Terminal da Barra Funda, em São Paulo, um dia antes.

"É um sinal, só pode", alertou minha mente, cobrando-me ação. "Pense em alguma coisa, rápido", insistiu. "E se ela se levantar, for embora e você nunca mais tornar a vê-la?". Minha mente estava certa e eu, se não acatasse seu incentivo, poderia vir a lamentar por algo que deixei de fazer.

Sujeito daqueles que crê que nada acontece por acaso, nem mesmo a repetição da fonte do número 28, tive de agir, sem ser inconveniente. A moça estava concentrada na leitura (ou bem fingia estar), talvez tanto quanto meus olhos estavam nela, e no shorts dela. Optei pela clássica estratégia do bilhete, que no futebol seria correspondente à formação 4-4-2, um tanto defensiva, sem ser retranqueira. No bilhete, assinado com meu endereço de MSN, escrevi:

Como é raro, hoje, mulheres irem ao shopping para ler um bom livro e beber café! Mais raro, ainda, é encontrar com essas mulheres, lindas como você. Gostei de ti e quero te conhecer, mas não quis atrapalhar a leitura.

Corri à papelaria ao lado comprar um pequeno envelope. Depositei o bilhetinho nele e, com os dedos cruzados, pedi a um dos atendentes da livraria que entregasse a "encomenda" à ruiva da mesa próxima à janela. "Não vejo nenhuma ruiva perto da janela", disse o rapaz, para minha surpresa.

A estratégia havia falhado, a moça não estava mais na mesa. Com os óculos bem calibrados, vi o "oásis" na fila do caixa, do outro lado da loja, aguardando para pagar a conta. O único plano B seria pegar a fila e, na primeira oportunidade, puxar conversa. Foi o que fiz. Ela respondeu o tímido "oi" com um "oiiii" sorridente e meigo, olhando-me nos olhos, com seus perolados olhos verdes. Num lapso de falta de reação de minha parte e para fazer valer o imbecil ditado de que "alegria de pobre dura pouco", o atendente lançou o aviso em bom tom: "próximooo!"

E Liana pagou a conta no caixa 1, enquanto eu acertava meu café (e o envelope do plano do bilhete) no caixa 3. Na demora do equipamento em ler meu cartão de crédito, ela foi embora sem que eu notasse, sem que eu soubesse seu verdadeiro nome, sem me dar a chance de entregar o bilhete. Saí dali, dei algumas voltas nos quatro pisos do shopping e não mais a vi.

Dentre tantas lindas maringaenses, a ruiva – de cintura bem definida e cabelos esvoaçantes – destacou-se de todas aos meus olhos. Ao menos naquele dia, eram dela as mais belas curvas da cidade. Na expectativa de vê-la passar, aguardei em vão no banco de concreto em formato de onça-pintada, em frente à entrada principal do shopping. A mesma onça que já testemunhou inúmeros inícios de namoro, desta vez, não pôde fazer nada, senão servir de consolo.
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