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7 de novembro de 2019

Tio Beto

O romancista John Grisham, 64 anos, é meu escritor norte-americano favorito, depois de Ernest Hemingway. Lembro-me bem do momento exato em que fui apresentado ao autor dos best-sellers "Tempo de Matar" e de "O Dossiê Pelicano". Foi em 2006, num pequeno quarto de uma república a um oceano de distância.

Folhas a cair no outono alemão, temperatura abaixo dos 10°C e aquela vontade de tomar logo um cafezinho para esquentar o corpo. No retorno do trabalho, uma correspondência enviada pelos meus tios Alberto e Iara me aguardava. A carta, que me encheu de alegria, estava acompanhada de um presente: o livro "Nas Arquibancadas", um dos melhores de Grisham (na minha modesta opinião).

Haviam-se passado 20 dias desde minha chegada a Bonn para um estágio na Deutsche Welle, a renomada emissora pública alemã. Apesar de morar na Alemanha e de estagiar num importante veículo de comunicação no exterior representarem a realização de um sonho, eu sentia uma forte solidão, especialmente à noite, quando retornava para meu pequeno quarto. Naquela minha primeira experiência internacional, aos 25 anos, mais de 11 mil quilômetros me separavam da família, em Pato Branco.

Aquela carta, que guardo até hoje, com imenso carinho, trazia uma mensagem reconfortante, otimista, com votos de sucesso. Diz um trecho da missiva:

"Você está tendo uma iniciativa maravilhosa. Aproveite esse momento ao máximo, capitalize as experiências, amplie os contatos e os horizontes. Lembre-se que todos torcemos muito pelo seu sucesso e acreditamos em você. Porém, quando der aquela saudade, sentir medo ou solidão, lembre dos ensinamentos e conselhos dos seus pais, seus tios e seus irmãos. Parabéns pela coragem e decisão". 

Mensagens de apoio como aquela foram fundamentais para meu crescimento pessoal e profissional. Agora, aos 38 anos, vejo que fui um privilegiado por ter tido sempre esse suporte familiar. Nunca me faltaram referências positivas na minha família. Parte dos bons exemplos vieram do meu tio Alberto ou, simplesmente, tio Beto – como sempre chamei o irmão mais novo de minha mãe. Minhas lembranças dele vêm da mais remota infância, de quando eu entrava em seu quarto – ele ainda morava na casa dos meus avós – para espiar suas coisas, sem que ele soubesse. Nunca quebrei nada, registre-se!

Lembro-me que Tio Beto tinha um relógio de pulso que vinha acompanhado de várias pulseiras, algo bem descolado para os anos 80. Mais legal que isso era seu Alfa Romeo amarelo de quatro portas. Naqueles tempos, se uma Caloi 10 já colocava o rapaz em evidência, imagine só o efeito social de um carro quatro portas! É certo que meu tio, boa pinta, inteligente, funcionário de banco, datilógrafo de primeira (na época, isso importava mais que falar inglês) tinha inúmeras pretendentes.

Hoje com mais de 82 mil habitantes, Pato Branco devia ter menos da metade dessa população nos anos 80. Era uma cidade de pouca infraestrutura e sem opções de ensino superior. Quem quisesse prosseguir nos estudos precisava partir para centros maiores – uma opção pouco provável para maioria dos jovens pato-branquenses da época, exceto para os filhos dos ricos. Tio Beto desconsiderou as limitações e foi estudar em Porto Alegre.

Fico a imaginar as dificuldades pelas quais passou meu tio para estudar na capital gaúcha. Meu avô, Armando Cardoso, apesar de ser um homem de muita leitura, não era pessoa de posses. As conquistas de minha mãe e meus tios foram, em grande parte, mérito deles mesmos. Os desafios que enfrentei na Alemanha, com todo o suporte da família, por exemplo, em nada se comparam àquela jornada de um jovem do interior, sem recursos, na grande cidade. 

Pela história que me foi contada, tio Beto retornou solteiro do Rio Grande do Sul, para sorte da minha tia Iara, uma moça de ótima família, uns dez anos mais jovem que ele. Eu era bem pequeno quando ele a apresentou aos meus pais. Todos logo gostaram dela. Alberto e Iara sempre formaram um belo e admirável casal, a ponto de – muito provavelmente – causarem aquela invejinha básica aos ex-pretendentes dela e às ex-pretendentes dele. Nos relacionamentos é assim mesmo, a maior parte fica chupando dedo.

Os anos foram se passando e a convivência com meu tio foi sempre uma constante. Foi com ele que aprendi a jogar xadrez, por volta dos dez anos, e a gostar de Fórmula 1. Nas festas de família eu, meu irmão e primos sempre desafiávamos os tios nos jogos de conhecimentos gerais, como o Perfil, e sempre perdíamos. Tivemos muitos acampamentos e viagens juntos, em família. Na minha formatura em Jornalismo, tio Beto estava presente. No casamento que não deu certo, também. Nos cinco meses que estive na Alemanha, também, ainda que em pensamento.

Por tudo isso, a descoberta de um câncer no pâncreas, há alguns meses, foi um baque para toda a família. Com grande tristeza minha mãe me telefonou para contar a notícia. Recém-aposentado da Caixa, tio Beto tinha uma série de planos. Gente ativa como ele sempre tem muitos planos. Nesta quarta-feira, 6 de novembro de 2019, ele partiu, aos 58 anos. Num primeiro momento, faltaram-me as palavras para os pêsames. Esses parágrafos todos foram escritos com lágrimas nos olhos.

Há alguns meses, estive em Pato Branco para visitá-lo. Tio Beto já encarava as sessões de quimioterapia, com a coragem de sempre. Minha viagem não teve tom de despedida. Todos tínhamos fé em sua cura, apesar de saber que a situação era bem grave. Foi a última vez que o vi pessoalmente. Triste.

Foi uma inestimável perda. Alguém já disse que "nunca estamos preparados para perder alguém que amamos". Deveria haver alguma lei celestial que impedisse pessoas de bom coração e caráter de morrerem tão cedo. À minha tia Iara e meus primos Miguel e Vitor Cardoso, meus sinceros sentimentos. Tio Beto, descanse em paz.
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Tio Beto com os irmãos Clacy (minha mãe) e Paulo
 
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26 de fevereiro de 2013

Amigo de Fé

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Já se passaram quase duas décadas desde a época que o irmão do meio dos três filhos de Dona Clacy costumava dizer que, quando fosse adulto, moraria em Maringá, a cidade mais arborizada e encantadora do Paraná. Terra onde tudo que se planta dá, cidade daquela catedral em formato de cone, de belas moças, bom clima e gente acolhedora. Mas Deus tinha outros planos para os três irmãos.

O do meio permaneceu na cidade natal de seus pais. Foram o primogênito e o caçula de Dona Clacy a desembarcar em Maringá. Primeiro o mais velho, dois anos mais tarde o caçula. Dividiram apartamento e viveram bons momentos juntos. Foram um para o outro o mais certo das horas incertas, sempre com “palavras de força, de fé e de carinho”, como já dizia Roberto Carlos em uma de suas canções mais famosas.

O mais velho da história, já careca aos trinta e poucos, é este que vos escreve. Lembro-me, como se fosse hoje, do dia em que meu irmão mais novo, semanas depois de terminar a faculdade de Publicidade lá no outro lado do Estado, chegou a Maringá em busca de melhores oportunidades na profissão. Depois daquilo e até então, vivi o que considero a melhor fase da minha vida. Ninguém deveria ser filho único, porque um irmão é uma das maiores bênçãos que alguém pode ter.

Não é preciso ter um milhão de amigos. A presença de quem se ama, do irmão sempre por perto, na maioria das vezes mais do que basta. Nos bons momentos, a felicidade conseguia ser plena, mesmo que fosse nas coisas mais pequenas, como nas noites de queijo e vinho antes dos combates da madrugada, na TV; na preocupação quando o outro estava doente; nas partidas de basquete na tabela vergonhosamente mal conservada da Vila Olímpica; no boteco de chope com colarinho e espetinho barato; nas partidas de futebol ou de Street Fighter no videogame, que eu sempre perdia, mas gostava de alardear que ganhava.

Depois de três anos juntos, meu brother, por quem sempre tive aquele sentimento de responsabilidade típico de irmão mais velho, partiu para uma nova caminhada. Provou mais uma vez que é um grande guerreiro. Sem emprego ou lugar certo para morar, mudou-se para Buenos Aires para um ano de estudos. Na certeza de que alguma portenha há de conquistar seu coração, penso que o jovem publicitário ficará na Argentina por bem mais que onze ou doze meses.

Na primeira noite após sua partida, a sensação foi de nó na garganta. Um sentimento difícil de explicar. Para fazê-lo, precisaria de ao menos um farelo do talento de Hemingway ou de Shakespeare. Sei que meu irmão João Paulo, a quem ajudei minha mãe na escolha do nome, não é um grande fã de Roberto Carlos, mas foi em uma canção do rei - ou melhor, uma verdadeira poesia do rei e de seu amigo Erasmo Carlos - que encontrei as palavras certas para expressar o que sinto.

“Não preciso nem dizer, tudo isso que eu lhe digo, mas é muito bom saber, que você é meu amigo. Não preciso nem dizer, tudo isso que eu lhe digo, mas é muito bom saber que eu tenho um grande amigo.” Irmão e grande amigo. Benditas sejam as amizades eternas!
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25 de janeiro de 2012

Amnésia literária

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Um bombom de chocolate com avelãs, alguns biscoitos com recheio de goiabada, três expressos depois e... nada! Sem nenhuma boa ideia para apresentar à folha de papel, ociosamente em branco, o lápis recém-apontado seguia em repouso. Se lápis pudesse falar, aquele um teria dito: “Vamos lá, você consegue. Já escreveu antes, por que não escreveria agora?”

Um frase memorável, pensei, deve ser tudo na vida de um lápis. E aquele HB queria fazer seu grafite valer a pena.

Amnésia literária é o que de pior pode ocorrer com um escritor. Num passe de mágica, você transborda de boas ideias, de estórias sedentas para serem contadas. Claro, isso costuma acontecer no chuveiro; na fila do banco; no trânsito; no almoço de família; na cama, em especial quando o sono bate à porta. Noutro passe de mágica, esquece-se de tudo na companhia do lápis ou defronte o computador, tão logo os dedos tocam o teclado.

A xícara fora esvaziada 15 minutos antes e a cafeína na corrente sanguínea tornara inquietas minhas pernas. Era chegada a hora de encarar o papel em branco e escrever. O quê? Qualquer coisa que, posteriormente, pudesse ser lido pela namorada, sem conflitos. Ali ao lado, quase sem piscar, ela folheava um livro com centenas de fotos de gatos, adultos e filhotes. O livro parecia dar dicas do universo dos felinos.

— Falei pra minha irmã que não pode assustar o Alfredinho quando ele está dormindo — disse Ines, que insiste em chamar seu gato cores preto e branco, de mais de cinco quilos, pelo diminutivo.
— Mas teu gato vive dormindo — respondi.
— Só de dia. À noite, ele sai atrás das gatas.
— Sei bem como é — comentei. — O último gato que eu tive, o Fundi, também era pegador. Ele morreu numa enchente, lá em Pato Branco.
— Que dó.
— É.

Por falar em gatos e gatas, entre sucessivos goles de café, foi impossível não notar a ruiva com lábios de Angelina Jolie em uma mesa próxima. Um tipo exótico de mulher. Pele bem clara e com sardas, unhas pintadas de preto, batom vermelho Ferrari, óculos escuros prendendo os cabelos lisos e coluna ereta, tipo manequim. Ofuscava quase que completamente uma amiga pouco produzida, cabelos curtos e unhas por fazer. A protagonista bebia água tônica e a coadjuvante, cappuccino gelado com creme.

A Angelia Jolie versão Irlanda estava vestida comportadamente, sem decotes nem minissaia. Uma prova de que mulher não precisa “usar uniforme de biscate”, como diria o jornalista Marco Antonio Araujo, para ser notada. Nessa linha de conduta, há um ano, os belos olhos azuis e o jeito delicado de Ines me conquistaram. No papo de boteco com amigos, sempre rola o comentário de que mulher ideal é aquela que não faz o homem passar vergonha.

As lembranças do início do namoro me arrebataram da cafeteria para o passado. Quando retornei, a ruiva já tinha partido. Melhor assim. Com a namorada ao lado, era preciso redobrar a cautela para evitar uma “guerra mundial” por coisa pouca. Bem pouca.

Li na internet que a cada 100 habitantes no mundo um, no máximo dois, são ruivos. E mais: os cabelos avermelhados, provenientes de um gene recessivo, correm o risco de desaparecer até 2060. E se o rutilismo é exceção, então, jovens e belas ruivas como aquela “irlandesa” são raridade. Certamente, precisam ser "estudadas" antes que acabem. Em dia de amnésia literária, em que o lápis pouco trabalhou, Alfredinho há de concordar comigo.
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18 de janeiro de 2011

Santo de casa não faz milagre

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Popularidade é algo que mexe com o ego das pessoas – com algumas mais, com outras menos. Na escola, quem não se preocupou em ser aceito perante os colegas, em fazer parte da turma, em atrair a atenção da menina mais bela da classe? Na vida adulta as preocupações são outras, porém, o objetivo da maioria segue sendo o mesmo: agradar e ser aceito. Para todo puxa-saco (e conheço vários), por exemplo, isso significará lamber o chão que o chefe pisa, ser for preciso.

Quadro com imagem de Jesus Cristo
em exposição no Centro de
Pato Branco (Foto: LF Cardoso)
Prefiro não agradar tanto, mas não nego: curto esse lance de índice de popularidade. Com alguma frequência, confiro o desempenho de meus blogs no Google Analytics. Analisando as métricas dos blogs, fico sabendo de detalhes importantes, tais como a origem da audiência e o total de visitantes em determinado período.

Importo-me mais com o que o Analytics revela sobre minhas crônicas do que a respeito das "postagens jornalísticas". Em recente checagem, descobri que foram 800 acessos únicos nos últimos 30 dias – um aumento de 11% no período. Bons números para um blog que tem em média quatro atualizações por mês e um público seleto: pessoas que gostam de ler.

Da última vez, quis saber quais cidades compõem o Top 10 de visitas ao blog. Para minha surpresa, a cidade de onde venho e onde vivi até os 23 anos ficou de fora. Em outras palavras, não estou agradando meus conterrâneos. O ditado, que não “perdoou” nem Jesus, segue firme e forte nos dias de hoje: “santo de casa não faz milagre”.

Em 30 dias, tive 106 acessos únicos em Maringá, isto é, as crônicas foram lidas a partir de 106 endereços de IP (máquinas distintas) na cidade onde moro há três anos – e onde tenho mais audiência. Em segundo ficou São Paulo (103 acessos únicos), com Cascavel (47) em terceiro e Curitiba (39), em quarto.

Considerando familiares, amigos, ex-colegas de aula e de trabalho, tenho mais conhecidos em Pato Branco do que o dobro dessas quatro cidades, juntas. Contudo, Pato Branco aparece na 20ª colocação no relatório do Google. Foram apenas seis acessos únicos em 30 dias, 20 a menos do que Lima, capital do Peru, onde meus amigos não passam de meia dúzia.

Dizem que a bíblia tem explição para tudo. Verdade ou exagero, sei que para esse caso as escrituras me serviram. Vamos à teoria:

Jesus era da Galileia. Na região onde nasceu, não operava milagres. Não porque preferia outras cidades, mas, sim, porque os nazarenos não tinham fé nele. Certa vez, em uma sinagora, ele deu a entender que era filho de Deus, deixando seus conterrâneos furiosos. Moisés havia ensinado: "não matarás", mas os fieis da sinagoga não pensaram duas vezes em atentar contra a vida de Jesus. Disseram (em adaptação livre, de minha parte): "este aí não é o carpinteiro, filho de José? Vamos atirá-lo do penhasco!"

Se quem dividiu o ocidente em AC e DC não era aceito em sua própria terra, quem sou eu para querer ser lido em Pato Branco. Não tem jeito, as pessoas vivem e morrem, mas os ditados permanecem.
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Baseado em texto publicado no Café com Jornalista.
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12 de dezembro de 2009

Adeus, Fundi

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O temporal do fim de outubro de 2009, em Pato Branco, trouxe mais que prejuízo material. Na maior maior enchente da história da cidade, as ruas de vários bairros foram tomadas pelas águas do pequeno Rio Ligeiro – naquela ocasião, já não tão pequeno assim. Em localidades menos abonadas, famílias perderam o pouco que tinham. Fundi, um sujeito que sabia curtir cada tragada de ar, perdeu o bem mais precioso: a própria vida.

Fundi, quando filhote
Quando a chuva cessou e as ruas deixaram de ser navegáveis, populares lamentavam as perdas e a Defesa Civil contabilizava os prejuízos. Fundi, duro como pedra, não sobrevivera para ver os estragos. Amanheceu estirado, no jardim de sua casa, próximo ao ramo de flores em que costumava se aliviar após um bom prato de ração com sardinhas. Em vida, projetava ele, queria ter a morte dos elefantes: velho e longe dos seus.

Adulto e gozando de boa saúde – nunca fumou e não era chegado a bebidas alcoólicas –, Fundi teria certamente teria se safado da correnteza do Rio Ligeiro, fosse o temporal a causa do óbito. Sua família estava convicta: homicídio doloso! Ele fora envenenado e a polícia, ao que tudo indica, não investigaria a autoria do crime. No país da impunidade, assassinos de bichanos não vão em cana. Fundi não frequentou escola, mas, esperto, sempre soube desse detalhe. Por isso, nunca comia fora de casa.

Impedido de chegar à segurança do lar, ilhado pela correnteza que havia tomado conta das vias públicas, Fundi estava molhado, com fome e com frio. Com azar equivalente ao de alguém que transa sem camisinha, pela primeira vez, e contrai o vírus da aids; dançou no primeiro petisco alheio que comeu, aos cinco anos de idade, completados dias antes, em 15 de outubro. O “tempero” de sabor levemente apimentado era, na verdade, o sabor da morte.

Dzico, como também era chamado, sofreu com a dor dos espasmos musculares, com as convulsões causadas pelo veneno. Tinha certeza: a morte viria ao seu encontro em minutos. Usaria ela capa preta e foice, como no cinema? Preferia não pensar nisso! Cruzou a nado o rio... melhor, a rua. Queria se despedir de seus donos. Se gato tem sete vidas, o valente felino amarelo, de pelos curtos e sedosos, gastou seu sopro final de vida contra a correnteza. Em seus últimos pensamentos, recordou-se da vida boa que tivera e deu graças ao deus dos felinos por tudo.

Fundi nasceu em Planalto, uma pequena cidade do Paraná, que – exceto órgãos como os Correios e a Caixa Econômica – poucos têm noção de onde fica. Filhote de origem humilde e mãe pulguenta, por certo seria um gato de galpão. Em outras palavras, não moraria na rua, mas teria de caçar ratos em meio à pilhagem de milho para ter o que comer. De uma ninhada só de amarelinhos, por obra do destino, Dzico foi o único kitty (como se diz em inglês) entre seus irmãos que cresceu à base de ração.

Em Dois Vizinhos, cidade que se autointitula a capital nacional do frango, um jornalista e sua esposa se julgavam jovens demais para ter um herdeiro. Faltava algo ao casal, que discutia sobre adotar um animal de estimação. Queriam um filhote sem raça definida, “dos bão”, e entre um cão e um gato escolheram a segunda opção.

– Um aluno lá na escola comentou que tem filhotinhos recém-desmamados, na casa dos pais deles, num lugar chamado Planalto – disse a mulher. – Parece que são todos amarelos – acrescentou, assim que se recordou do detalhe.

– Olha só... nunca tive um gato amarelo. Então está decidido, pede para o piá trazer um pra gente – disse o homem.

Fundi adolescente
Desde os tempos de infância e da chupeta, de suas recordações mais antigas, o jornalista lembrava de ter animais de estimação. Gatos, ele perdeu a conta de quantos teve até deixar Pato Branco, após a graduação em Jornalismo. No chute, calculava que foram mais de 50 felinos que, pelo fato de não serem castrados, raramente viviam mais de cinco anos. Robin, um gato malhado que resistira ao primeiro envenenamento, viveu seis.

Na casa de seus pais, era o jornalista quem normalmente batizava os felinos. Com algumas exceções, preferia se esquivar dos nomes de pessoas. Da turma de companheiros, os que mais marcaram se chamavam: Batman, Mimão, Super, Mel, Tom, Parceiro, Batman o Retorno, além do próprio Robin – irmão do primeiro Batman. Fundi, de Fondue "aportuguesado", seria o nome do próximo, independentemente da cara do filhote.

Chegou com cara de gato desnutrido, com mais orelha que qualquer coisa. Tinha listras pretas móveis em meio à pelagem cor-de-caramelo. Pulgas! Centenas delas, gordas e saciadas pelo sangue do pobre coitado. Bem nutridas, tinham força para resistir ao banho e ao xampu. Eram pulgas de vale-tudo e pareciam beber biotônico, ao invés de sangue. Várias rodadas de ensaboa-enxágua foram necessárias para mandar as invasoras pelo ralo.

Sem pulgas e abastecido a carinho, leite morno, ração e sardinha – seu prato preferido –, Fundi cresceu com vigor para se tornar um cara esperto e destemido. Definitivamente, a desnutrição de outrora não havia prejudicado suas habilidades mentais. Se fosse gente, seria um físico... um físico que descobriu a lei da gravidade na prática, ao saltar da janela em investida contra um pardal. Dzico, vale ressaltar, não era muito dado a teorias. O detalhe é que seus “paitotes” (mistura de pais com filhote, que não consta do dicionário) moravam num apartamento. Aos seis meses, Fundi perdeu sua primeira vida e, da forma mais doída, aprendeu que gatos não voam.

Além de físico nato, Fundi era praticamente um diplomata. Transitava bem em qualquer situação e, inclusive, com outras espécies. Provou isso quando o jornalista foi morar na Alemanha e ele, Dzico, teve de se mudar para a casa de seus “avóstotes” (mistura de avós com filhote, que também não consta do dicionário). No novo lar, em Pato Branco, sudoeste do Paraná, tinha a companhia de outros quatro gatos, mas se tornou melhor amigo de um cachorro branco, filhote como ele, chamado Floquinho. O cachorro, outro sem raça definida, cresceu odiando felinos... mas Fundi, como sempre, era uma exceção. Um gato político como ele não poderia, jamais, ser rotulado como os demais de sua espécie. Se fosse preso, exigiria cela especial.

O tempo passou e Dzico se tornou um adulto. Por volta dos dois anos de idade, um gato macho já pode ser considerado adulto. Sem perder tempo e aproveitando o melhor da via, o gato amarelo aplicava sua combustão hormonal nas namoradas... várias, todas gatas. De seu quociente de inteligência (QI), privilegiado, ele fazia bom proveito. Ao invés de namorar na rua e correr o risco de apanhar de gatos mais fortes e experientes, levava as namoradas para comer sua ração, na casa dos avóstotes. E comia elas.

Aos cinco anos, seguia sendo um incorrigível galanteador. Volta e meia levava um corridão de algum vizinho, indignado com o miado do baladeiro Fundi na hora do sono. Ossos do ofício... e que ofício! Com o passar dos anos, o que mais mudou foi a cor dos filhotes da redondeza, mais amarelinhos do que nunca, mais órfãos do que nunca. Ninguém sentirá mais falta do notívago felino do que as gatas que ele seduziu – e não se faz necessário explicar os motivos. Contudo, jornalista e ex-esposa (casamentos também “morrem”) lamentam não ter passado mais tempo com aquele que consideram ser “O Cara” entre os animais de estimação que tiveram.

O jornalista recebeu de sua mãe a trágica notícia, ao telefonar de São Paulo capital para se informar sobre os estragos causados pelo temporal, em Pato Branco. “A boa notícia é que a água não entrou em nossa casa. A má notícia é que Fundi morreu”, contou. (…) Alguns segundos se passaram até que o rapaz conseguisse dizer algo. Custou a assimilar a notícia, enquanto as boas lembranças de Fundi visitavam sua mente. No telefone público de um shopping, deixou escapar uma lágrima, esforçado-se para que aquilo não se repetisse. “Enterrei o corpo dele lá no quintal da tua avó”, acrescentou a mãe do jornalista, já sentindo o baque que a notícia causara em seu filho.

Fundi adulto
Ele e sua ex-esposa, que já não se viam há mais de um ano, tiveram de se falar novamente, por email. Assim que ela soube da morte de Dzico, respondeu a missiva para dizer o quanto amava aquele gato. Aproveitou para contar novidades: se tornara aeromoça, um sonho antigo, e estava morando na Grande São Paulo. Ele a parabenizou pela conquista e, fora isso, limitou-se a agradecer pelas belas palavras proferidas ao felino. Palavras que teriam emocionado o “Babundo”, outro apelido que o velho gato de guerra recebera de seus paistotes.

– Amava viajar com ele, em cima de meu ombro, no ônibus; amava ver ele dormindo, e babando; amava esmagar ele; amava até mesmo quando ele ficava mordendo minha orelha, no meio da madrugada – escreveu a mãetote (outra que também não consta do dicionário). – Mesmo longe de você, Fundi, nunca te esqueci. Lembrarei de você e te amarei para sempre – encerrou.

Um mês antes do trágico temporal – e do maligno petisco envenenado –, o jornalista visitou seus pais e irmãos. Foi a última vez que viu Fundi, que estava mais adulto, com um olhar compenetrado, porém, com o mesmo jeito de gato malandro. Era um gato feliz e parecia preocupado em seguir uma única orientação: “vida, só se vive uma vez”. Desde então, com uma saudade que bate forte, seu dono se esforça em aproveitar cada dia como se fosse o último, tal como fazia Fundi. No Natal, quando voltar a Pato Branco e não mais encontrar o gato amigo, o jornalista plantará uma árvore onde jaz o felino... para não se esquecer dos bons momentos.
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9 de outubro de 2009

"Orfeu e Violeta", a melhor segundo os leitores

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"Orfeu e Violeta", que já liderava o ranking da mais comentadas deste blog, foi eleita a melhor crônica na avaliação dos leitores. O conto, que discorre sobre o encontro entre um jovem de Pato Branco e uma bela moça de Realeza num ônibus a caminho de Maringá, obteve 7 pontos, contra 4 pontos de "Uma linda mulher" – a segunda crônica mais lembrada.

Ao votarem em seus textos preferidos, os amigos contribuíram com a seleção das 12 melhores crônicas do Blog do LF, que vão compor um livreto mais adiante. Na fase decisiva, jornalistas convidados vão avaliar as 17 mais bem classificadas até o momento. Veja quais são elas no Café com Jornalista.

A pontuação corresponde à somatória da primeira fase (número de comentários) com a segunda fase (pontos dados pelos leitores).
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4 de setembro de 2009

Vinte dias com Angela

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Era inverno. Pelo que sugere a estação, devia estar frio, mas, na prática, o calor daquele início de tarde, em Maringá, permitia ficar a vontade com pouca roupa. O desconforto não estava no clima, tampouco no pagode de quinta que tocava no alto-falante da rodoviária e, sim, no atraso em quase duas horas do ônibus da linha Palmas-TO/Santa Maria-RS. Foi na longa espera, de causar raiva, que Angela notou Francisco pela primeira vez.

Quase 30, quase 1,80m, quase careca, quase desmaiado de sono - pela insônia da noite anterior -, Chico nunca teve panca de galã. Era do tipo que, com alguma frequência, passava despercebido nas festas. Porém, de jeans, camiseta, boné, óculos escuro e, sobretudo, tênis All Star, ele pareceu interessante aos olhos dela. Há pesquisas que afirmam que uma mulher, quando não está comprometida, repara da cabeça aos pés em até sete homens que a atraem, todo dia. Por sorte - no dicionário dele "destino" e no dela, "acaso" - Chico havia entrado na lista de bem-apessoados na avaliação da moça com não mais de 20, cinturinha de modelo, cabelos curtos e pele lisa.

A troca de olhares, do tipo capaz de causar frio no estômago e calor abrupto em outras partes, aconteceria instantes mais tarde e eles, solteiros, aproveitariam cada instante da oportunidade concedida pelo acaso - ou pelo destino. Se a vida fosse como no cinema ou nas novelas, pelo início da história, Francisco e Angela passariam por dificuldades para ficar juntos e, no final, viveriam felizes para sempre. Na vida real, não foi isso que a história reservou para eles, não em uma trama que envolve também um sujeito chamado Humberto - guarde bem esse nome!

Chico não costuma ser um cara apressado, mas o sono que tanto o torturava o fez ser o primeiro a despachar a mala para, o quanto antes, tomar seu lugar na poltrona 3 do ônibus. Já havia se acomodado quando decidiu buscar água no final do corredor, antes de cair no sono. Ao se levantar, seus olhos brilharam para Angela, que se sentaria na poltrona 4, ao lado da sua. Ele custava a acreditar na bondade divina. Toda vida teve problemas com "vizinhos" de viagem e, desta vez, parecia que a sorte estava a fim de compensá-lo. Angela ajeitava a mochila no bagageiro interno quando ouviu a pergunta:

- Vou ali ao fundo buscar água, posso trazer para ti também? - disse Chico, certo de que ela aceitaria e, mais, que gostaria da atitude. Ser gentil com aquela desconhecida jovem foi mais que um ato de cavalheirismo, em uma situação como aquela foi uma oportunidade, bem aproveitada, de quebrar o gelo.

Ela aceitou e, pelo sorriso ainda inibido, demonstrou ter curtido a atitude. Gaúcha, atraída a Maringá pelos estudos na universidade estadual, notou algo familiar no sotaque de Chico. Neto de gaúchos e repórter do maior jornal de Maringá, ele passaria o fim de semana em sua terra natal, Pato Branco, no sudoeste do Paraná. Uma cidade de colonização gaúcha que, bem por isso, é mais apegada aos costumes do Rio Grande do Sul do que do próprio Paraná.

Em férias na universidade, Angela passaria um mês na longínqua Alegrete, tão distante de tudo que um pouco além - bem pouco - fica o Uruguai. Ao lado dela, o sono de Chico passou de repente e ambos conversaram desde o copo d'água até o desembarque na "Capital do Sudoeste", que é a figura de linguagem utilizada pelos "nativos" para autoproclamar Pato Branco capital de alguma coisa. Nas 11 horas de viagem do trecho - que passaram como se fossem 2 horas - a estudante de Biologia e o repórter só interrompiam o bate-papo mediante apropriados e uníssonos "chiiiiiii" dos outros passageiros. Fora os dois, num ônibus sem televisores e sem filme para ajudar a passar o tempo, os demais queriam dormir.

Da turma do "chiiiiiii", quem não conseguiu pegar no sono ao menos ouviu boas histórias. Angela e Chico foram ecléticos e não economizaram saliva. Falaram sobre estudos, trabalho, religião, família, amigos, saudades da família e dos amigos, da cidade-natal, relacionamentos anteriores, sexo, drogas e rock and roll. Bate-papo que incluiu peculiaridades culinárias, como o fato de ambos gostarem de fígado de galinha e, mais que isso, saberem cozinhar o prato ainda tão pouco apreciado. O assunto sobre o preparo do fígado foi, de longe, o que mais recebeu pedidos de silêncio. Quando eles falaram de sexo e relacionamentos, porém, ninguém no ônibus se manifestou. Curiosidade, talvez.

Na afinada troca de palavras, o tom de voz e os olhares trocados na penumbra sinalizavam que o encontro daquele casal - unido por uma força maior ou por força nenhuma - teria um segundo tempo, de muitos gols. Na primeira despedida, nada de beijo, apenas um olhar prolongado e silencioso, repleto de boas e "más" (no melhor sentido da palavra) intenções. No desembarque em Pato Branco, numa madrugada de céu estrelado, com temperatura na casa dos 10°C, o indiscreto motorista perguntou:

- E aí, companheiro, pegou o telefone da moça? - Chico respondeu com um desinibido sorriso, de modo a dispensar as palavras. Angela ouviu o que dissera o motorista, de dentro do ônibus, enquanto observava o repórter apanhar sua bagagem. Também sorriu, embora um pouco envergonhada, menos pela curiosidade do motorista, mais por notar que todos os demais passageiros estavam em silêncio. Ou dormiam ou, acordados, tinham ouvido pormenores da conversa.

O jovem de Pato Branco havia esquecido de pedir o telefone da guria de Alegrete. O que na geração de seus pais teria sido um problema, na deles era um mero detalhe. Chico tomou nota do endereço de email, do MSN e do orkut de Angela, tudo para se certificar de que eles não perderiam contato. A bela de corpo delgado abanou com a mão esquerda assim que o ônibus partiu, já na expectativa de receber o primeiro email - que não demoraria a ser enviado.

Angela nunca acreditou em simpatias, porém, o encontro no ônibus a deixou pensativa. Seria possível que, mesmo com sua falta de fé, uma simpatia desse certo? No dia de Santo Antônio, na paróquia homônima em Maringá, a gaúcha comprara 12 pedaços de bolo para ela, as primas e os tios, com quem mora desde que ingressou na universidade, três anos antes. Reza a lenda que encontrar uma medalhinha de Santo Antônio no bolo significa - para as solteiras - namorado à vista. Das fatias que comprara, Angela comera três e, apenas esses, continham as ditas medalhinhas no recheio.

Já em Alegrete, recordou-se do recorde da Paróquia Santo Antônio, que agora lhe pertencia e do qual preferia não se orgulhar: três pedaços de bolo, três medalhinhas. E se, por acaso, a simpatia providenciasse a ela um namorado trilegal? Tentando se manter incrédula, seguiu trocando emails com Chico, todos os dias, até o dia em que seus olhares tornassem a se encontrar.

O reencontro foi em um banco de concreto com formato de onça-pintada, diante da entrada principal de um shopping de Maringá. Trocaram mimos - lembrancinhas, como se diz no Rio Grande -, beijos não. Não ali, diante de um conglomerado de lojas, de uma plateia de desconhecidos, da onça inanimada. Não antes de um passeio a dois, pelas ruas arborizadas da cidade. Não sem antes brindar o momento com chope gelado e música ao vivo. Sob a bênção de um céu estrelado, sem Lua, mas com outra longa e descontraída conversa, ele a acompanhou até a casa dos tios.

Chico sabia que seria correspondido. Angela sabia que bastava se virar de costas para ele, para ser abraçada e beijada no pescoço, antes do presumível beijo de cinema. Foi o primeiro grande momento de um romance que, já foi dito, não terminaria com o batido "e viveram felizes para sempre" e que teria ainda a figura de Humberto - repito: guarde bem esse nome!

Combinaram de ir ao parque, na tarde seguinte, caso fizesse sol. Contudo, a previsão era de chuva. E do céu derramou água, mas Chico foi ao encontro de sua gaúcha, com seu possante 1.0, mesmo assim. Questionou o que faria, pois chovia, e recebeu de Angela a melhor resposta:

- Com o tempo ruim assim, já era o passeio no parque - disse a bióloga.
- O que você sugere? - questionou o rapaz.
- A gente poderia ver um filme em sua casa - respondeu Angela, sem delonga. Para Chico, que morava sozinho, a ideia foi brilhante.

A gaúcha e o paranaense não combinavam em muita coisa, aliás, combinavam bem pouco. Ele, cristão protestante; ela, católica nada praticante. Ele, sonhador; ela, pés no chão. Ele, favorável à liberalização da maconha, embora nunca tivesse experimentado; ela, contrária à descriminalização, ainda que conhecesse os efeitos da Cannabis. As diferenças eram gritantes, mas um bom filme, sem pressa, eles curtiam muito assistir juntos. No segundo grande momento, beberam vinho. Bom esclarecer, não era um vinho qualquer.

Certa vez, na redação do jornal, Chico foi presenteado por Humberto - olha ele aí -, seu editor, com um chileno Santa Helena. Uma retribuição a um vinho que trouxera para o amigo de uma vinícola que visitara durante as férias, na Serra Gaúcha. Em uma comprometida troca de olhares, e admirado com a beleza de Angela, o pato-branquense se lembrou da sábia recomendação de Humberto.

- Deguste esse vinho com alguém especial, que faça por merecer cada gole - disse o experiente editor. Pela intensidade do encontro, Chico não tinha dúvidas: Angela fizera por merecer cada gota do fruto da videira. E foram vários goles, de modo a faltar tempo para o filme, no sentido literal da palavra. Quem dera durasse para sempre, porém, aos dois, nenhum ditado serviu tão bem quanto este: "os dispostos se atraem e os opostos se distraem". A gaúcha e o paranaense eram como água e óleo e, por consequência, não estavam verdadeiramente atraídos, mas, sim, se distraindo.

Tal como na noite do primeiro beijo, 20 dias depois, estavam novamente numa mesa de bar, frente a frente, mas já não tão próximos. Desta vez, o encontro era para desmanchar o namoro. No meteórico romance, Angela não se sentia como Julieta, tampouco Francisco como Romeu. Faltava a paixão genuína, o "combustível" sem o qual não é possível chegar ao amor. Deveriam insistir no namoro e desistir da busca pelo verdadeiro amor? A pergunta que não quis calar, calou sem dó o relacionamento recém-iniciado.

Angela se foi, sem dizer adeus. Chico, em busca de consolo, foi contar a história a Humberto. Experientes escritores, como ele, entendem bem os dramas da vida e do coração e, por isso, têm a palavra certa para quando um romance acaba.

- Você aproveitou bem o vinho, naquela noite? - quis saber Humberto. Ainda cabisbaixo, Chico respondeu que sim, que o vinho não tinha sido em vão. - É isso que importa. Levanta a cabeça e vai beber outro vinho, com outra companhia especial - sentenciou o amigo editor.

Feliz por ter conhecido Angela, e sem saber onde está sua Julieta, Chico levantou a cabeça, pensou no próximo vinho, e tocou o barco. Mais decidida do que ele no término do namoro, Angela seguiu com uma dúvida cruel: seria o amor de anos antes o Romeu que ela viu ir embora, sem se despedir? Ambos, em caminhos distintos, ajudados pelo destino - ou pelo acaso -, seguem em busca de uma paixão genuína, para escrever uma história que termine com "felizes para sempre".
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28 de junho de 2009

Cobain e o universo feminino

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Poucas pessoas que conheço têm autoestima tão elevada quanto Cobain, um amigo de faculdade com quem editei, no início da década, um folhetim acadêmico chamado "O Contiúdo". Publicitário, dono de ideias mirabolantes, afirmava com convicção que "supermercado é o melhor lugar que existe para arrumar namorada". Por experiências malsucedidas, sempre discordei da "máxima" criada por ele, porém, jamais ousei duvidar das verdades ditas por um colega que conhece como poucos o universo feminino.

José Mayer
Panca de galã, moreno de pele clara, 1,82m de altura, Cobain é um cara desinibido, mesmo perto das mais belas mulheres. Em número de namoradas, é possível que só perca para James Bond, Don Juan e José Mayer, com o pertinente detalhe: o publicitário nunca fez novelas, não é agente secreto nem tem emprego fixo nem um esportivo Aston Martin na garagem – aliás, nem carro ele tem. Nada disso, no entanto, pesa nas investidas de um conquistador de seu calibre.

Certa vez no Sabiá, o bar que serve o melhor e mais reforçado café da manhã de Pato Branco, questionei o ex-colega de "O Contiúdo" sobre como é possível o supermercado ser o melhor lugar para paquerar se a maioria das mulheres que fazem as compras são casadas. O amigo do ditado fácil – "solteiro sim, sozinho nunca" – respondeu: "não sou ciumento". Difícil acreditar na cara-de-pau do cidadão? Não se você conhece Cobain pessoalmente.

Muitas dicas depois, passei a reparar mais nas jovens clientes – no meu caso apenas as solteiras, porque odeio confusão – nas idas ao supermercado. Da última vez, estava no setor onde ficam os objetos de papelaria quando, de repente, surge uma linda garota, de cabelos ondulados e olhos verdes, de 17 anos (talvez 18). Pensei ser meu dia de sorte, doce ilusão.

"Se eu comprar uma lapiseira, precisa ser 0.7, porque 0.5 já tenho duas. Mas tem de ser uma lapiseira, porque se comprar um lápis vou precisar também de apontador", falava a guria, consigo mesma. "Acho que vou levar uma caneta também. Oooooolha essa do Mickey que legal", e fazia pausas como se ouvisse alguém do lado dela, ajudando-a a escolher o produto. Antes mesmo que a linda e assustadora guria notasse minha presença, "piquei a mula".

Ao contrário de Cobain, capaz de distribuir cantadas inclusive na prateleira do leite ninho, logo percebi que esse negócio de paquerar em supermercado não é minha praia. Numa outra oportunidade, rolava o maior papo com uma bela loira balzaquiana, sem anel nos dedos, promotora de uma marca de café, quando ela disse: "o tipo Gourmet é o favorito de meu marido, que é policial". Que safada, casada e jogando charme! Desconversei e fui embora, mas creio que Cobain, em meu lugar, teria ficado e traçado a mulher do tira – e sem o menor receio de acordar com a boca cheia de formiga.

Pingado em copo americano para beber e, para comer, ovo frito, costelinha de porco e "sanduíche" de polenta com queijo. Enquanto degustávamos o café da manhã do Sabiá, Cobain me confidenciou uma de suas mais mirabolantes aventuras. Na minha opinião, até então, o grande feito dele tinha sido se envolver com mais de uma de minhas colegas do curso de Jornalismo e com mais de uma das colegas dele, de Publicidade e Propaganda, ao mesmo tempo, sem que alguma delas desconfiasse estar dividindo o amado com a amiga de classe. A nova proeza, entretanto, vencia fácil a anterior.

Meses antes daquele café sem pressa, Cobain havia viajado com amigos, em férias, para o litoral paranaense. Já no segundo dia de praia, talvez por piscar demais para a mulher de alguém, foi expulso da casa alugada pelo grupo. Sem grana, sem amigos e dependendo de carona para voltar para casa, rumou à praia, onde planejou passar a noite. Com calma, pensaria em alguma saída na manhã seguinte.

O sol se pôs, dando lugar a uma bela noite de lua cheia. Sentado na areia, sobre sua camiseta e com a mochila ao lado, Cobain admirava a paisagem, com os olhos fitos no horizonte e os ouvidos concentrados no quebrar das ondas. "Oi", foi o que ele ouviu antes de mudar o foco de uma para outra paisagem. Quase como se tivesse surgido do além, estava ali ao seu lado, cumprimentando-o com uma simpatia fora de série, uma morena (também fora de série) de parar o trânsito. Mesmo o preparado Cobain, de tantas histórias, sentiu um frio na barriga naquele momento.

– Reparei que você está há mais de duas horas aí sentado, sozinho. Algum problema? – perguntou a moça.

– Parei para admirar o pôr-do-sol e gostei tanto que acho que vou dormir por aqui, na areia – respondeu Cobain, sincero, até aquele momento.

Indignada com a situação do pobre (porém bem apessoado) rapaz, quis saber mais sobre Cobain. Como em nada se parecia com um mendigo ou sem-teto, por que haveria de passar por aquilo, deve ter se perguntado a moça, filha de um conhecido médico da redondeza – mas que estava fora da cidade curtindo bodas-de-alguma-coisa com a esposa. O galanteador de plantão soube, então, que ela estava sozinha em casa. Os problemas dele tinham acabado.

– Assim que me formei em Publicidade, pus a mochila nas costas e saí por esse mundão, sem rumo. Durmo ao relento quando ninguém me dá abrigo – inventou... e prosseguiu – mas tem valido a pena por causa de noites maravilhosas como essa e de mulheres lindas como você – lançou seu charme, usando doces palavras para conquistar a jovem filha do médico.

Algumas vezes Cobain me aconselhou: "tu tens de falar aquilo que as mulheres desejam ouvir, e só". O conquistador-mor de Pato Branco disse tudo o que aquela bela jovem, de curvas perfeitamente esculpidas, queria ardentemente ouvir. E sussurrou ao pé do ouvido, enquanto acariciava a pele macia dela. Falou frases românticas, falou frases picantes, falou frases impróprias para menores e deixou que ela "falasse" no momento em que a levou ao estado de nirvana.

Na casa do médido, de incontáveis quartos, Cobain dormiu pouco, mas dormiu bem; comeu bastante, e comeu bem (e em mais de um sentido da palavra); e se safou de passar a noite ao relento. Na manhã seguinte, foi acompanhado à rodoviária pela encantadora companhia que, pasmem, pagou sua passagem de volta. Tinham curtido se conhecer, embora sem apresentações mais detalhadas. "Posso saber o teu nome", perguntou a moça. "Melhor do jeito que está, para que meu coração não sofra de saudades", respondeu Cobain, antes de embarcar, antes de nunca mais se verem.

Naquele mesmo café da manhã, sugeri a Cobain: "conte-me mais dessas histórias para que eu possa escrever um livro". A obra poderia se chamar: "Como levar as mulheres ao 'nirvana'". Sobre paquerar no supermercado, estou certo de que é uma boa estratégia, desde que o galã seja do nível de James Bond, Don Juan, Zé Mayer e Cobain. Este, vale ressaltar, nunca precisou de um Aston Martin nem de "licença para matar".


14 de março de 2009

LF & Edu: a praia top do Sul do Brasil

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3º DIA

Uma busca pelo ranking das melhores praias do Brasil, Bombinhas (SC) figura sempre no top 10 das revistas especializadas. Na classificação de 1 a 5 do Guia Quatro Rodas, duas praias do município de Bombinhas recebem quatro estrelas: Tainha e Quatro Ilhas. Foi onde passamos o terceiro dia da viagem, na sexta-feira (13).

Estamos hospedados na casa de um primo, a 300 metros da praia de Zimbros, ponto de partida para os principais pontos turísticos de Bombinhas. Isso incluiu a subida ao topo do maior morro da cidade, onde fica o Eco 360°, um mirante que permite ver todas das praias da redondeza e, devido à altura, também a Ilha de Florianópolis.

Quero (e vou) escrever mais sobre Zimbros - onde a farra do boi está no sangue dos nativos, embora a proibição da "brincadeira"-, sobre as belezas de Bombinhas e as curiosidades de sua mais bela praia, Quatro Ilhas, invadida todo verão pelos argentinos. Contudo, estou exausto e preciso dormir - o que Eduardo já está fazendo há duas horas.

A viagem segue neste sábado (14) para Florianópolis e, no dia seguinte, para o Rio Grande do Sul. Até o momento, desde a saída de Pato Branco na manhã da quarta-feira (11), já passamos por Palmas (Usina Eólica), Penha (Beto Carrero e Praia de Armação), Balneário Camboriú e Bombinhas.

Peço para que os amigos divulguem o blog. E para não ficar "pescando" durante o dia, vou dormir.
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Eduardo no Eco 360°, mirante do ponto mais alto de Bombinhas, cujo acesso se dá mediante taxa de R$ 1.
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11 de março de 2009

LF & Edu: praia nove anos depois

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1º DIA

Disse a mim mesmo que não entraria no MSN por esses dias, porém, não resisti e acessei minha conta após um dia de mais de 600 quilômetros rodados. Aí uma bela moça de Maringá, que apareceu online para dar os parabéns pelos 28 anos em cada joelho, perguntou-me: "onde você está agora?". A resposta veio com o bom sentimento de que a viagem planejada há algums meses está se concretizando, tal como pensada inicialmente.

"Estou no quarto de uma pensão, a exatos 50 metros da entrada do Beto Carrero World". Digo "exatos" porque pensões e hotéis sempre forçam a barra ao mencionar a proximidade de suas instalações em relação aos pontos turísticos. Desta vez não houve propaganda enganosa. Do quarto dá para ver o trinco da porta principal do castelo de entrada do maior parque temático da América Latina.

No Beto Carrero, período de aula é baixa temporada e, nessa época, o parque abre apenas de quinta-feira a domingo. Saímos de Pato Branco (PR) às 8 horas e chegamos a Penha (SC) por volta das 16 horas. No itinerário da viagem, a ideia era aproveitar o parque na quinta-feira (12), data do meu aniversário. Logo, não pagaria a entrada - que é grátis para quem está ficando mais velho no dia - e racharia o valor do ingresso de meu irmão. No entanto, para me presentear ele insistiu em pagar a dele sozinho.

Será um aniversário diferente, sem bolo, sem velas, sem aqueles zilhões de cumprimentos de parabéns (com abraços e tapinhas nas costas), mas terá muita adrenalina. Agora que podemos ver o parque da janela, não tem jeito, teremos de encarar a montanha-russa, o elevador e outros brinquedos radicais. E ficar de ponta-cabeça em vários deles, várias vezes, até cansar.

O melhor da quarta-feira, no entanto, não foi descobrir uma pensão tão bem localizada e com diária de R$ 30 por pessoa - para quarto duplo, com ar-condicionado e direito a café da manhã -, e sim a praia. Desde 2000, quando estive no Rio de Janeiro, não via o mar. No período, cruzei o oceano de avião, mas não provei da água salgada e não ouvi o incansável som das ondas.

Tímido, o sol estava encoberto por nuvens. Fazia calor e a água estava quente, convidativa para algumas braçadas. "Preciso dar um bicaço", disse para meu irmão. Ele não topou a ideia, assim, pulei sozinho bem mais de sete ondas. Tínhamos encontrado o mar a partir de uma vila de pescadores e, caminhando pela areia, chegamos à praia da Armação. Lá, quase sem ninguém à vista - além de um velhinhos jogando bocha de praia e de um pai e uma filha (bela a filha, horrível o pai) curtindo o mar -, tive meu reencontro com a água salgada (que fiz questão de provar, outra vez) depois de nove anos.

Por fim, com o chegar da noite, descansaríamos até a manhã seguinte. Era o que estava nos planos, até a mente brilhante de Eduardo cogitar um giro em Balneário Camboriú (SC), a pouco mais de meia hora de carro da pensão. Uma cidade com vida noturna intensa, calçadão beira-mar movimentado, inúmeras opções em bares e restaurantes... só isso já soava bem melhor do que uma cama de pensão. E assim terminou a quarta-feira. Para que a namorada de meu irmão (leitora assídua deste blog) durma sossegada, vale ressaltar que fomos comportadaos e retornamos cedo, bem cedo, para a pensão Duas Irmãs.
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Na foto superior, LF na praia da Armação. Na segunda foto, Edu próximo à pensão, com a entrada do Beto Carrero logo ao fundo.
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4 de março de 2009

O sangue do escolhido

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A manhã de domingo era de sol e céu azul, com uma brisa suave que favorecia a consagrada rodinha de amigos na principal cafeteria de Pato Branco, a "boca maldita" da cidade. A viagem de férias, programada para dali alguns dias, era o assunto principal da conversa - inspirada por pequenos goles de café expresso com creme - entre meu irmão do meio e eu.

De dentro da cafeteria, onde também se vendem livros e revistas, podíamos ver o movimento do lado de fora (de veículos e de pessoas), na primeira quadra da Rua Guarani, o metro quadrado mais caro de Pato Branco. Em áreas importantes assim, a ronda policial costuma ser frequente e a criminalidade, o contrário. Não foi isso que se viu naquela manhã.

A calmaria foi quebrada quando um deficiente mental, figura conhecida e benquista dos clientes mais assíduos da cafeteria, correu para perto da entrada do estabelecimento para buscar ajuda. Um piscar de olhos mais tarde, surgem outros dois loucos, ambos maltrapilhos. Um deles, loiro e descabelado, dizia: "é ele que você tem de matar". Aquele que supostamente fora encarregado de matar, um sujeito moreno e impregnado pela sujeira e por um odor nada agradável, gritava: "eu sou o Diabo".

O "Diabo" ficou só no grito, como se quisesse intimidar a todos. Foi o loiro-louco que agiu ao partir para cima do louco do bem, amigo dos clientes. Agarrou-o com as mãos, uma no pescoço e outra no rosto, enquanto os funcionários ligavam para a polícia e alguns fregueses davam os primeiros passos no intuito de apartar a briga.

Ao ser esganado, o louco do bem aplicou uma mordida de pit bull no dedo do agressor, quase causando uma amputação. A Polícia Militar já tinha sido acionada naquele momento. O loiro-louco, transtornado ao ver jorrar sangue do dedo indicador de sua mão direita, passou a esbravejar: "vocês tiraram o sangue do escolhido". E quanto mais as pessoas riam da situação e das frases desconexas, mais o louco repetia que tinham tirado o sangue dele, um "escolhido", e que vingança seria feita.

Devia se tratar de um escolhido do "Diabo", já que tomando as dores do amigo louco, seu comparsa ajuntou duas pedras (grandes, por sinal) para atirar contra a pequena multidão, que observava o lamentável episódio a uma distância de cerca de 25 metros. A primeira investida acertou na parede de um hotel vizinho ao tumulto, a segunda no vidro e no retrovisor do gol branco de um dos clientes.

Ao ver que tinha feito besteira, o louco que dizia ter o Diabo no corpo, deu no pé com medo de ser preso. O louco "escolhido" se afastou sem pressa, "berrando" para todos ouvirem que ele era, óbvio, o escolhido - devia ter sido eleito em alguma votação no hospício de onde havia fugido. A clientela ficou revoltada, alguns cogitaram correr atrás do "Diabo" e aplicar, como se diz em alguns cantões do Paraná, uma "camaçada de pau" nele. Mas ninguém ousou tanto, tendo em vista o risco de levar uma pedrada.

Fiquei com meu irmão ali, reparando a cena de uma distância segura e, mais tarde, checando os estragos das pedradas na parede do hotel e também no veículo. Ficamos no local também por curiosidade, para saber se os loucos agressores seriam detidos. Como em tantas outras cidades brasileiras, em Pato Branco não foi diferente, a polícia chegou ao local apenas quase 20 minutos mais tarde, com o velocímetro da viatura bem pouco empolgado.

Da viatura da PM, desembarcaram dois policiais rechonchudos, um deles bem acima do peso para quem pode, eventualmente, ter de perseguir algum bandido em fuga. O outro, embora não tão gordo nem tão baixo, já aparentava idade para se aposentar. Olhei para meu irmão e disse: "já vi demais por hoje". Embarcamos no carro dele e fomos embora, deixando o último gole do café expresso esfriando na xícara.


14 de fevereiro de 2009

O que MacGyver faria?

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A visão predominante ao se abrir a janela da cabana, logo pela manhã, era de uma verdadeira floresta. Estava ali há quase um ano e a variedade de plantas era cada vez maior. "Talvez algumas delas ainda nem tenham sido catalogadas", disse para mim mesmo, cogitando chamar uma amiga bióloga que lida com vendas para analisar a situação.

Sempre tomo os devidos cuidados para evitar criadouros do mosquito da dengue, mas fora o Aedes aegypti, havia insetos de toda sorte naquela cobertura verde, desde os sempre presentes "tatuzinhos" às belas joaninhas.

Seria merecedor de uma medalha do Greenpeace como ativista-voluntário não fosse a dita floresta um verdadeiro matagal e a cabana, minha casa. O mato parecia ter crescido um mês em uma noite e, quando me dei conta, a calçada ligando o portão à casa dos fundos já estava tomada. Um bom sinal de que, se preservada, a natureza faz sua parte, e a erva daninha o faz ainda mais rápido.

No canteiro central, o mato já começava a "raspar" o assoalho do Sólido - nome de meu Fusca 1975, azul-escuro com branco-gelo nas laterais, pintura perolizada e interior combinando com as cores do lado de fora -, carro que está comigo desde 2006 e que colocarei à venda em março. Voltando a falar do mato, na lateral do corredor, algumas espécies atingiam a altura do Fusca.

Era fácil imaginar o cansaço que daria para pôr fim àquela selva, difícil era calcular quantos mililitros de suor teria de derramar. Tinha permitido o desenvolvimento daquelas espécies, sem impor controle, então não seria justo pagar para alguém fazer o trabalho sujo. O jeito era vestir uma camisa regata e um calção confortáveis e calibrar uma Coca-Cola na geladeira.

Ainda não mencionei: o episódio se deu dias antes do Natal de 2008. Passaria o feriado cristão em Pato Branco e, se deixasse para desmatar aquela área verde mais tarde, quando retornasse é certo que precisaria de um mapa, uma bússola e, quem sabe, um guia (digo, uma guia) indígena para fazer o percurso da rua até a porta de casa, sem me perder.

Se dispusesse do arsenal de ferramentas do galpão de meu falecido avô, Armando Cardoso, começaria o carpido com uma foice - uns dias a mais e seria necessário um machado - e liquidaria a fatura com uma enxada. Sem um artefato "bélico" à altura da ocasião, precisei queimar algumas calorias a mais (sorte minha ter reservas) para dar conta do recado com uma pequena faca de cozinha, de ponta pouco afiada e com cabo de plástico, daquelas que penam até para cortar carne de frango. Adianto que a pobre ficou um bagaço após o serviço.

Como por aqueles dias estava iniciando no jornal às 13 horas, devotei duas manhãs inteiras ao meio ambiente. Algo me diz que, agora, tenho currículo para me candidatar a uma temporada no Greenpeace. Tinha tudo planejado, roçaria o mato, deixaria o amontoado secando ao sol para, no domingo, queimá-lo sem piedade. O volume era grande e, desse modo, seriam necessárias dúzias de sacolas recicláveis caso optasse em empacotar o mato para ser levado pelo caminhão da coleta.

Devastei 90% da selva, deixando um refúgio seguro de 10% da "mata" aos insetos. Do contrário, eles poderiam reivindicar abrigo em minha residência.

Não choveu por aqueles dias e o mato empilhado secou rápido. No domingo, as folhas secas clamavam por um palito de fósforo tanto quanto um fumante assíduo - daqueles que escurecem o pulmão desde as primeiras horas do dia - que tem o tabaco em mãos, mas não tem o fogo.

Antes de atear fogo no material orgânico ressecado, com o gosto da vingança pelas horas na lida, tomei o cuidado para que a fumaça não fugisse do controle. A vizinha dos fundos tinha saído e as janelas estavam fechadas, não havia roupas no varal e, o melhor, quase não ventava. Fora os insetos que preferiram ficar na palha seca, e que pela teimosia tostariam em instantes, eu era a única alma viva nas proximidades.

Pus fogo e fiquei ali, a alguns passos, sentindo o calor, ouvindo os ramos secos estalarem, admirando as chamas como deviam fazer os homens das cavernas nos tempos em que as mulheres eram puxadas pelos cabelos. Cheguei a me sentar no piso, sem me importar com o chão sujo e a bermuda semilimpa. Naquele momento, sentia-me como um imperador. Nero, talvez.

O império, no entanto, sucumbiu três minutos depois quando, do centro das chamas, surgiu um fino esguicho d'água, que pela pressão vencia a gravidade por cerca de quatro metros de altura antes de cair como chuva. "Porcheria", exclamei no impulso (e no susto), em italiano mesmo, ao perceber que o fogo rompera algum encanamento. Felizmente, pude contar com três baldes cheios d'água, remanescentes da roupa que lavara horas antes de atear fogo em "Roma". O mesmo episódio me fez sentir, primeiramente, um militante do Greenpeace, depois um imperador romano e, por último, um bombeiro.

Custava a acreditar na falta de sorte. Todo o encanamento que leva água do registro à casa, numa extensão de 15 metros - num cálculo puramente visual - ficava sob o concreto. Sem perceber, tinha escolhido, para amontoar o mato, o único meio metro em que o cano ficava a mostra.

O rompimento no cano, do tamanho da circunferência de um prego grande, foi no domingo (21), dia de comércio fechado; viajaria na quarta-feira (24). Precisava consertar aquilo o quanto antes para, sem preocupações, comer peru assado em Pato Branco, com a família. Poderia chamar um encanador na segunda-feira (para levar uma facada, no bolso), porém, preferi improvisar no conserto do vazamento.

Não dispunha dos apetrechos usuais para consertar um vazamento d'água, mas precisava fazê-lo. Era uma questão de honra. Fã de séries norte-americanas, e com 27 anos de idade, foi inevitável pensar: "o que MacGyver faria?" Menciono minha idade porque alguém com menos de 23 anos dificilmente pensaria o mesmo - por ser muito jovem na época em que a série foi transmitida. MacGyver era um agente secreto americano que se recusava a utilizar armas de fogo. Sempre acompanhado de seu canivete suíço, era capaz de fazer um explosivo sem usar pólvora. Duas semanas antes, tinha procurado na internet um box da série, mas a primeira temporada estava esgotada.

Não sem antes fechar o registro, corri para diante de minha caixa de ferramentas, dotada de estanho, ferro de solda, alicates para lidar com pequenas e grandes fiações e vários tipos de chaves. Materiais esses que mantenho desde que estudei Eletrônica no 2º grau técnico no Centro Federal de Educação Tecnológica do Paraná (Cefet-PR, hoje UTFPR), em Pato Branco, além de um ano da faculdade de Tecnologia em Automação Industrial, na mesma instituição.

Arrisquei, primeiro, o óbvio: durapox (já vi escrito de várias formas). No final da noite, com a pasta-colante seca, liguei o registro para acabar "apreciando" um novo gêiser. Fui dormir desgostoso com a situação e acordei com uma ideia brilhante, daquelas que MacGyver teria tido em segundos, mas que precisei de horas - algumas das quais sonhando. Animado, cheguei a recordar a música tema da série naquele instante.

Apanhei fita veda-rosca, chave de fenda, durapox e um parafuso, um pouco mais grosso do que o furo no encanamento. Envolvi o parafuso com veda-rosca (sem economizar) e utilizei a chave de fenda para parafusá-lo no cano. Então, cobri tudo com durapox. Esperei secar e, pouco antes de ir ao jornal, religuei o registro, temendo que o parafuso fosse lançado ao espaço como um foguete tripulado. Que nada! O bendito ficou lá, tal como se tivesse sido colocado pelo próprio Richard Dean Anderson, ator protagonista da famosa série.

Fui a Pato Branco, voltei a Maringá, e o parafuso continuava preso ao cano, como se tivessem nascido um para o outro. Ficou tão bom que preferi nem chamar o encanador. Toda vez que voltava para casa, fosse do trabalho ou de um passeio, ficava orgulhoso ao avistar o parafuso, tecnicamente afixado. Sentia-me o MacGyver em pessoa e não queria que aquele sentimento holywoodiano de capacidade passasse.

Um dia desses, no final de janeiro, inventei de mostrar a proeza a um vizinho metido a encanador. Para minha surpresa, ele - um senhor de quase 60 anos - ficou transtornado ao ver um parafuso contendo o vazamento, como se aquilo fosse uma heresia. "Vou fazer um serviço decente aí, nem que seja de graça", resmungou. Preferi não me opor à iniciativa e ainda paguei (insistindo para que ele aceitasse) R$ 25 pelo serviço. "Com a 'fé' das pessoas não se brinca", pensei.

O casamento entre cano e parafuso foi curto, mas bom enquanto durou. Para ninguém mais ficar magoado, melhor que MacGyver não saiba da parte final dessa história, que fique entre nós.


29 de janeiro de 2009

Orfeu e Violeta

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A véspera de Natal não tinha sido das melhores. Passar a "ceia" dentro de um ônibus praticamente vazio não foi uma experiência agradável. Ter ao lado um senhor com hálito duvidoso, com "síndrome" de moto-serra na garganta, apenas piorou a situação. Orfeu, um quase balzaquiano com quase 1,80 metro, sempre preferiu a poltrona nove, na janela do lado do motorista, ou a 12 na janela do outro lado do corredor. Tinha fobia dos demais assentos, assim, esperava que o velhinho fosse, ao menos no Natal, um bom velhinho.

Mas não houve piedade, o idoso que vestia uma surrada camisa do São Paulo, com Raí e seu número 10 estampado nas costas, quis viajar na poltrona dez, talvez para combinar. Como a 12 estava ocupada, indignado, Orfeu tomou um Dramin e meio para ficar "surdo" por algumas horas.

O rapaz tinha ido passar as festas com a família, em Pato Branco, no sudoeste do Paraná. Com alguma dificuldade e uma boa dose de diplomacia, havia conseguido uma breve folga no trabalho, para compensar "meses" de hora extra. Contudo, depois de beber espumante e comer peru com os pais e os dois irmãos, estava de malas prontas para retornar a Maringá, no noroeste do Paraná. Novamente, a viagem seria na poltrona nove, sob torcida de que na dez não surgisse outro “Papai Noel” com camisa tricolor.

Entre as duas cidades, 11 horas de viagem, ônibus quase lotado, com lugares livres apenas próximo ao banheiro. Era 28 de dezembro, um domingo de calor e céu nublado, 18h30 quando Orfeu apresentou passagem e documento para o embarque. Queria permanecer alguns dias a mais na cidade de Alexandre Pato, Rogério Ceni, Alceni Guerra, Bozena e Zezinho (aquele que perdeu um gol decisivo na marca fatal), mas o dever o chamava em Maringá, a cidade das árvores floridas, que havia escolhido para ser feliz.

Ao entrar no ônibus, como de praxe, e devidamente equipado com seus óculos – para corrigir um grau de astigmatismo em cada vista –, Orfeu fez um apanhado geral do cenário. Algumas pedras a lapidar, nada de esmeraldas ou ametistas. Na poltrona dez, que dias antes havia pertencido ao Raí de 2050, figurava então um agrônomo simpático, mas que não se interessava nem por esportes nem por política, apenas pelos novos híbridos de soja e de milho, segundo ele mais resistentes às pragas. Um bom sinal: o "sucrilhos" com leite de soja, no café da manhã, estaria garantido às futuras gerações.

Ainda não tinha escurecido quando o ônibus parou na rodoviária da cidade rival de Pato Branco... Francisco Beltrão. Terra de mulheres bonitas, com tanto potencial para formar misses (Miss Brasil tiveram uma, Miss Paraná, várias) quanto Pato Branco para lançar jogadores de futebol. Levado a refletir sobre o porquê de as misses beltronenses não se casarem com os jogadores pato-branquenses, Orfeu sacou da mochila um livro que havia ganhado de presente de Natal, de um amigo de infância. "Anjos Brancos à beira do inferno", a história dos bastidores daquele Real Madrid dos galácticos Ronaldo, Zidane, Figo, Raul, Beckham e Roberto Carlos.

Ler. Foi o que fez Orfeu de Beltrão até a parada para o jantar, lá pelas 22 horas, num restaurante de beira de estrada entre uma pequena cidade, chamada Realeza, e Cascavel. Além de ler, fez pouco mais do que respirar. Centrado na história dos galácticos, não prestou atenção nas paradas anteriores do ônibus. Quando o motorista falou em bom tom: "paraaaaaada para o jantar, 30 minutos", fechou o livro num piscar de olhos. A fome do estômago, naquela altura, era bem maior do que a fome do conhecimento.

Mais uma vez, Orfeu estava convicto de que, se viajasse de carro, não pararia para comer naquele restaurante. O café era bom, mas no repertório de lanches nada de assados; pão de batata com catupiry nem pensar. Só salgados fritos, reluzentes de tanto óleo. Como um eleitor que se depara com candidatos despreparados – e tem a árdua tarefa de escolher o menos mau –, pediu pão-de-queijo para o jantar. Comeu engolindo, mas o café ele bebeu saboreando cada gole, e repetiu, duas vezes. Certamente teria de utilizar o banheiro do ônibus, mais tarde.

Da parada de meia hora, precisou apenas de 15 minutos para alegrar o estômago, ir ao banheiro, provar uns bonés made in China vindos do Paraguai – revendidos na lojinha de miudezas do restaurante, onde os fiscais, como todos os outros, só param para comer – e, por fim, pagar a conta. Quando estava para deixar o recinto com aroma de fritura, Orfeu fez o devido reconhecimento do cenário, desta vez, involuntariamente, como se estivesse condicionado a garimpar pedras preciosas durante aquela viagem.

As esmeraldas, encontradas principalmente em jazidas no Brasil, na Colômbia e no Zimbábue, estão entre as pedras preciosas mais valiosas do mundo. São derivadas de um mineral chamado berilo, mas ali, naquele restaurante com bancos de madeira pouco confortáveis, a esmeralda era de carne e osso, com olhos claros (um misto entre o verde das esmeraldas e o azul das safiras), lindos cabelos lisos esvoaçantes, dourados, como se tivessem saído de uma fábrica de bonecas.

A conta já tinha sido paga, mas restavam ainda dez minutos até a partida do ônibus. Orfeu teve de pensar rápido, para não ficar ali, na porta, dando bandeira feito bobo. Foi tomar mais um café, a quarta xícara da noite. Pediu com leite e bebeu sentado a poucos metros de Violeta, o nome de batismo da moça, de 20 anos – informações que Orfeu ainda desconhecia.

O brilho da esmeralda havia mexido com Orfeu. E ele, certo de que nunca mais a veria, tentava adivinhar em qual dos sete ônibus estacionados ela embarcaria. Algo em sua mente clamava, com o sotaque gaúcho de seus avós: "se ela entrar em seu ônibus, tu vais falar com ela". Orfeu não ousava discordar de sua mente, mas estava certo de que a moça tomaria qualquer veículo, menos aquele que vinha de Santa Maria (RS) com destino a Palmas (TO), passando por Maringá. "Se estivesse com sorte", pensou Orfeu, "teria acertado os números da loteria, ontem".

Do lado de fora do restaurante, esperou para descobrir o destino de Violeta, como se aquilo fosse mudar o fato de que nunca mais tornaria a vê-la. Para sua surpresa, porém, a loira que desfilava sem anel algum nos dedos, seguiu com passos suaves até o ônibus de Orfeu, que custava acreditar no que via. A situação era como uma nota de R$ 100, os trabalhadores sabem que existe, mas nunca se deparam com uma delas. "Agora tu vais falar com ela", cobrava a mente do rapaz. "Só se a poltrona do lado dela estiver desocupada", respondia Orfeu para si mesmo, com o sorriso na orelha e com os dentes provavelmente à mostra.

Orfeu entrou só depois de o motorista dar a partida no motor. Rumou para a poltrona nove, para ver na dez o agrônomo, na 11 a toda linda Violeta, na 12 um cidadão qualquer. Não conseguiu retomar a leitura de seu livro nem prestar atenção no que dizia o vizinho da soja transgênica, mas ouviu bem quando o indivíduo da 12 disse que desembarcaria em Cascavel, a 30 minutos dali, e Violeta que desceria em Umuarama – entre Cascavel e Maringá. Era a chance que pedia Orfeu, que cismava com o fato de Violeta estar quase ao seu lado e, ainda assim, não tê-la notado durante a viagem.

Quando o ônibus finalmente chegou à rodoviária de Cascavel, e o "homem da cobra" desceu, a bela loira passou para a janela, deixando livre a poltrona 11. Um fora era o máximo que poderia acontecer, o mínimo para Orfeu era ter, dali em diante, uma companhia de altíssimo nível – sem desmerecer o amigo da poltrona dez. Tudo estava conspirando a favor de Orfeu e, sob o peso de desperdiçar a ajuda dada pelo "universo", ele precisava tomar a iniciativa.

O agrônomo tinha descido para esticar as pernas. Orfeu tinha ficado, fingindo ler seu livro, enquanto bolava uma estratégia. Numa fração de segundo, como se os signos de Orfeu e Violeta desejassem um ao outro, os olhares deles se cruzaram, tempo suficiente para surgir a indescritível sensação de frio na barriga. Como se a ousadia sempre tivesse sido o ponto forte de Orfeu, ele sacou da mochila uma caneta esferográfica azul, com a tampa toda mordida, e escreveu em seu cartão de apresentação:

- Se ninguém ocupar a poltrona, posso me sentar ao seu lado?

Havia, é claro, o risco de alguém em Cascavel ter comprado aquela poltrona, o que, pela existência deste conto, não ocorreu. “Oi moça, dá uma olhadinha por favor”, disse ele, ao entregar o cartão-bilhete a ela. Violeta leu, sorriu e olhou sem pressa para Orfeu: "pode sim". Poucas vezes na vida o rapaz tinha respirado tão profundamente quanto naquele momento. Ele já tinha se preparado para o pior. “Caso ela diga não”, pensou, “nunca mais vou vê-la mesmo”.

Orfeu e Violeta estavam juntos, unidos possivelmente por uma força maior – mesmo que essa “força maior” se resumisse, porventura, ao restaurante das frituras. A probabilidade deles não terem se encontrado era enorme, difícil de ser calculada até pelo mais experiente dos matemáticos. Ela estava de férias, mas por um mero detalhe teve de retornar a Umuarama. Ele tinha de voltar a Maringá, porém, poderia ter optado por outro horário ou ainda por outra linha.

Naquele momento, em que não havia mais distância física entre os dois – seus braços se tocavam, com alguma freqüência –, era preciso quebrar o gelo, sem pôr o drink a perder. Orfeu, que na adolescência sonhou ser jogador de futebol, sentia-se como numa final de Copa do Mundo decidida nas penalidades, como se o mundo tivesse parado para vê-lo cobrar o pênalti. A "pontaria" de Roberto Baggio era tudo o que Orfeu não precisava naquele instante.

Com a voz grave, porém, ligeiramente trêmula, Orfeu arriscou: "sei que parece loucura de minha parte, mas o colega da poltrona ao lado estava dando indícios de que roncaria a noite toda", disse. Ambos riram. Ele emendou: "como é que não notei você no ônibus antes do jantar?". Orfeu estava sendo sincero. Concentrado na leitura, não tinha percebido Violeta embarcar na rodoviária de Realeza.

"Mas eu notei você", disse Violeta. "Você estava lendo um livro, hoje em dia é raro ver alguém ler durante a viagem", acrescentou. O livro dado pelo amigo de infância tinha garantido alguns pontos a Orfeu. O gelo havia sido quebrado. Com respingos de timidez, eles prosseguiram conversando, baixinho para não acordar os demais. Orfeu soube que ela era neta de poloneses. Com algum receio relembrou do passado, de uma história não muito agradável que teve com uma polonesa. Violeta soube que ele era descendente de portugueses, embora a pele morena se esforçasse para negar isso.

Não dormiram nos poucos minutos que tiveram juntos. E no pouco tempo ali, riram diante da “desgraça” alheia. Uma mulher, da poltrona de trás, acordou falando alto, assustada, com os olhos arregalados, quase saltando da face. Foi impossível não rir. A sonâmbula se desculpou, como se isso fosse necessário: tantos outros soltam gases e não se desculpam.

Orfeu tinha a impressão de que a conhecia há mais tempo, pediu a Violeta o endereço de mensagens instantâneas e recebeu também uma carinhosa anotação em seu livro. Contudo, nunca tornaram a se falar. A rodoviária de Umuarama foi, de certa forma, para aqueles jovens do sudoeste do Paraná, como a dose letal de veneno que pôs fim ao romance de Romeu e Julieta. Como se fosse possível encontrar mais de uma pepita de ouro no mesmo lugar, Orfeu ainda espera entrar no ônibus e rever Violeta, toda vez que viaja a Pato Branco.