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7 de julho de 2009

A turma da 6ª Série

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Desde seu nascimento, em março de 1981, nunca antes Mortal envelhecera tão rápido como entre junho e julho de 2009: cinco anos em 30 dias. O ganho de idade não é biológico, evidente, mas sim metabólico. Aos 28 anos, o metabolismo de Mortal estava trabalhando como o de alguém de 37 – contra 32 do mês anterior –, ou seja, era capaz de engordar se bebesse muita água. Com algum exagero na expressão, sentia-se um idoso.

Taxa metabólica que é calculada por uma balança portátil, de chão, companheira inseparável da nutricionista que faz o acompanhamento dos funcionários do jornal – lógico, apenas de quem permite ser examinado, já que há aqueles (aquelas, geralmente) que têm fobia de balança e, no dia da avaliação, fogem da avaliação como o diabo foge da cruz.

A nutricionista digita a idade e a altura e o dono das medidas, sem calçado e sem meias, sobe na balança. Em alguns segundos, sabe-se peso, índice de massa corporal (IMC), percentual de gordura e muito mais que isso. "Posso ver aqui que você está bebendo pouco água", disse a nutricionista a Mortal, um dos primeiros dos colegas de redação a se submeter à avaliação naquele dia.

A profissional prosseguiu: "tua idade metabólica aumentou, o que houve, parou de praticar esportes?" Não apenas Mortal ficou pasmo com aquele equipamento, mas também alguns de seus colegas de redação. É certo que Mãe Diná não tem uma balança como aquela, do contrário não estaria errando tanto em suas previsões.

Mercúrio, o editor de Cultura do jornal, ficara indignado já da primeira vez que se passou por tal avaliação, meses antes. "Essa balança é mágica por acaso, como pode saber tudo isso?" Incrédulo, prosseguiu: "só acredito mesmo no resultado da minha pressão, que foi medida com aquele aparelhinho antigo".

Quem gostou do que viu foi Graciosa. A jovem repórter, que volta e meia surge na redação vestida de rosa – e que faz jus a seu nome –, submeteu-se à avaliação logo após Mortal. "Seu peso está bom... seu percentual de gordura está ótimo... tua massa magra, melhor ainda... você pratica esportes?", perguntou a nutricionista. Resumindo, Graciosa está boa demais, graças a seus metabolismo de 12 anos.

Ao retornar à redação, ela descobriu outros dois colegas com a mesma "idade": O Cara e Dzã-dzã-dzã. Todos os três são capazes de comer bacon com ovos no café da manhã, feijoada no almoço, uma caixa de bombons no jantar e, mesmo assim, por "culpa" do metabolismo acelerado de alguém na pré-adolescência, não engordar. "Nós três estamos na 6ª série", brincou O Cara. "Logo estraremos na puberdade", emendou Dzã-dzã-dzã. Graciosa apenas riu, enquanto redigia uma matéria.

O metabolismo acelerado parece ser o segredo de uma aparência jovial. O trio aparenta ter bem menos idade do que a certidão de nascimento relata. Dzã-dzã-dzã e Graciosa se aproximam dos 25, mas aparentam algo entre 18 e 20 anos. O Cara, que está em contagem regressiva para entrar na casa dos 30, parece ter 25. O mesmo pode-se dizer de OFFíssima, 27 anos, a repórter campeã em “levantamento de garfo”, que mesmo com a calórica dieta consegue manter um abdômen “0% de gordura” – no caso dela, culpa dos 16 anos metabólicos.

Exemplo maior de que metabolismo acelerado combate o envelhecimento precoce e evita rugas está na panificadora preferida de O Cara e de Mortal. Por lá, a atendente ruiva deixa qualquer um boquiaberto quando revela a idade: 36 anos, para corpinho e pele de, no máximo, 25. De três uma: ou toma banho no formol; ou dorme em uma câmara de gás, como fazia Michael Jackson; ou tem um metabolismo de locomotiva. A resposta parece óbvia, tanto que, desde a avaliação com a nutricionista e até a conclusão desta crônica, a turma da 6ª Série parece ainda mais jovem.
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19 de maio de 2009

Canáááááááários!

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Há quem diga que jornalista só anda junto. Não é verdade, mas quando andam em grupo, fora da rotina de trabalho, costumam aproveitar com intensidade cada momento. Isso, sim, é verdade. Foi o que aconteceu no domingo, último dia da Expoingá 2009.

“Vou levar minha sobrinha nos brinquedos do parque, vamos juntos?” A ideia foi da repórter setorista de saúde, Lois Lane, que recebeu a demonstração de interesse de um bom número de colegas. Contudo, na hora de enfrentar o desafio apenas O Cara, Dzã-dzã-dzã, Mortal e Sensação – além de Lois e a pequena sobrinha – marcaram presença no ponto de encontro: o próprio jornal.

Já no Parque de Exposições de Maringá, por volta das 18 horas, o jeito foi encarar longas filas em cada um dos brinquedos. O primeiro deles foi eleito por unanimidade: o bate-bate ou tromba-tromba – que lá em Pato Branco se chama carrinho de choque. Um clássico dos parques de diversão, capaz de fazer qualquer marmanjo se sentir dez anos mais jovem, no mínimo.

A julgar pelo trânsito da cidade, Mortal questionou os colegas se não seria ali o local onde os maringaenses aprendem a dirigir. Na “autoescola”, ou melhor, no bate-bate a maioria dos “clientes” geralmente são crianças, mas chegada a vez dos jornalistas, por coincidência ou não, a maior parte dos “motoristas” eram adultos. Dzã-dzã-dzã, que tirou em Maringá a habilitação para dirigir, parecia o mais familiarizado com os carros de um único pedal, movidos à eletricidade. O Cara, o mais alto da turma, teve certa dificuldade para acomodar as pernas dentro do cockpit.


Na literatura, fala-se muito da fonte da juventude. Essa é, quem sabe, a melhor analogia para definir um brinquedo feito para crianças, mas que segue encantando pessoas de todas as idades. Dali, os rejuvenescidos amigos partiram para os brinquedos mais radicais. O mais impressionante deles era também o mais caro. O ingresso do extreme custava R$ 5, dos demais brinquedos R$ 3.

Trata-se de um pêndulo com quatro bancos, cada qual com quatro assentos. Atinge altura maior que o barco viking e velocidade superior ao kamikaze. Para piorar, além do movimento pêndulo, o aparelho gira os assentos no sentido horário, proporcionando mais: emoção, frio no estômago, náuseas, falta de fôlego, medo, tontura, entre outros efeitos colaterais. Na fila, o jeito era não fitar os olhos no brinquedo, para não correr o risco de uma desistência súbita.

Chegada a hora de encarar o extreme, Lois sugeriu o seguinte grito de guerra: “canáááááááários”, com um 'A' acentuado para cada integrante da galera – reforçada com a chegada de OFFíssima e de seu noivo argentino. E foi o que mais se ouviu do grupo, tão logo o botão “on” do aparelho foi acionado. Quanto mais altitude e velocidade tomava o pêndulo, mais canários eram ouvidos. É em horas como aquela que surgem três inevitáveis e pertinentes perguntas: “que diabos estou fazendo aqui? Será que vou aguentar sem vomitar? Quando é que essa M. vai parar? Para quem vê de fora é questão de segundos; para quem resolve encarar, a “bagaça” leva uma eternidade.

Todos sobreviveram, lógico que com doses de pânico e adrenalina distintos. Não satisfeito com a liquidificante experiência, O Cara bradou: “vamos na montanha-russa agora?” Para o estômago de OFFíssima e seu noivo, o extreme foi o suficiente, mas os demais toparam a ideia de O Cara. Como diz a nova máxima: brasileiro não desiste nunca!

Por mais que os engenheiros se dediquem a projetar novos brinquedos, a montanha russa segue com o status de “Pelé” dos parques de diversão, veste sempre a "camisa 10" e se destaca fácil entre os demais brinquedos. Parte da adrenalina que ela proporciona, vale ressaltar, vem do som dos carrinhos sobre os trilhos e do deslocamento de ar dos bólidos em alta velocidade. Provavelmente são projetadas por sujeitos dementes que, nos tempos de faculdade de Engenharia, passavam horas projetando instrumentos de tortura para testar nos calouros.

Na montanha-russa composta por uma grande descida inicial, um looping e várias curvas fechadas, a sensação de medo foi maior que no extreme. Mortal e Lois, que em oportunidades anteriores já haviam encarado as cruéis montantas-russas invertidas, que o digam. Sensação ficou pálida, a pressão arterial de Mortal desceu para amarrar seus cadarços e O Cara, após segundos de gritos sem tomar ar, ficou em silêncio – sabe lá quais efeitos colaterais acometeram o pobre homem. Enquanto isso, Lois, sua sobrinha e Dzã-dzã-dzã já pensavam na próxima aventura.

Os três incansáveis (loucos, por que não) foram numa “roda gigante velocista”, mais rápida que todos os demais brinquedos. O "trem" girava sem piedade e sem preguiça, a princípio na horizontal, inclinando para a vertical aos poucos. Sensação tirava fotos, O Cara reparava na aparência dos três – Lois de olhos fechados, sua sobrinha de olhos arregalados e Dzã-dzã-dzã vermelho como um pimentão –, enquanto Mortal contava o número de voltas rápidas, capazes de fazer Rubens Barrichello voltar a vencer uma corrida.

Alguém ainda ousou, e desta vez não foi O Cara, comentar: "não vamos no kamikaze?" A infeliz ideia foi seguida de um uníssono "nããããão!" Pudera, naquela altura do campeonato ninguém queria encarar um "piloto suicida japonês", todos queriam mesmo era um pastel banhento com Coca-Cola, para ajudar a descer. Extreme, montanha-russa e similares... deixa para o próximo ano.
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21 de abril de 2009

Sensação na calada da noite

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O que Sensação faz quando está acompanhada, entre quatro paredes, ninguém fica sabendo - a não ser que a companhia seja de uma turma de amigos. Na véspera do feriado, certa altura da madrugada, o porteiro bateu à porta para avisar que alguns vizinhos estavam reclamando dos decibéis acima da conta. A sexta-feira, todos ali sabiam, era santa, mas ninguém disse que precisava ser silenciosa.

A protagonista da vez é uma mulher bem resolvida. Pouco mais de 30 anos, morena de pele clara, alta e magra, Sensação tem um bom emprego, carro e apartamento próprio, enfim, paga suas contas. Não é casada e, dizem os amigos, melhor que seja assim - do contrário, temem perder uma grande companhia. Enquanto ela não engata um namoro firme, aproveita a vida de solteira para receber em sua ultra-bem-ajeitada residência os amigos e amigas mais "vips" (como ela bem diz).

A primeira a chegar foi Diliça, a autoestima em pessoa, que surgiu acompanhada de Fanta Uva e Mortal. Ele trouxe vinho e Fanta Uva, uma fome de leão. Platini e sua noiva Rafaella também não demoraram a chegar, com um engradado de cerveja e dois pacotinhos de amendoim. "Convidei o Zidane, será que ligo para ele", questionou Sensação, pouco antes da meia-noite, toda preocupada com uma possível ausência do "craque francês". Diliça e Mortal se olharam, numa fração telepática de segundo, como se tivessem em mente a mesma sentença: "quanto interesse no Zidane, aí tem coisa hein".

Zidane surgiu, mais careca do que nunca, porém, com a mesma boa forma dos tempos de Copa do Mundo. Certamente, ganhou alguns pontinhos com a anfitriã da noite. Sensação é uma mulher doce, de lida fácil, mas tende a sofrer alterações bruscas de humor quando seus amigos aceitam o convite e, depois, não comparecem. Foi o caso de OFFíssima, O Cara e Lois Lane. Esta, do alto de sua aguçada esperteza, enviou uma suculenta torta salgada para compensar a ausência e, assim, garantir mais alguns anos de vida. OFFíssima e O Cara agendaram outros compromissos e, infelizmente, a uma altura dessas já devem ter perdido o pescoço.

No calar da noite, o apartamento de Sensação era um alto-falante. Diliça dizia que precisava encontrar o botão do volume de Mortal e Platini, mas era ela quem tagarelava mais alto. Bebendo vinho ou cerveja, comendo amendoim ou torta, todos riam, todos falavam, todos contavam um causo engraçado, todos choravam (claro, de tanto rir).

Já pelas tantas da madrugada, Platini, o exagero-man em pessoa, relatava algumas de suas mirabolantes histórias, quase todas desmentidas ou diminuídas por Rafaella. Verdade ou mentira, ele garantia à galera gargalhadas de fazer faltar fôlego. Platini não é o cara, mas, quatro garrafas de vinho depois, todos o achavam o mais divertido, todos precisavam respirar fundo ao fim de cada "piada".

O ápice do show amador de humor ainda estava por vir. Não se sabe por que, Sensação resolveu mostrar ao pessoal um presente indiscreto que havia ganhado dias antes: uma caixa de bombons proveniente de um sex shop. O único chocolate que sobrara na caixa foi, num piscar de olhos, arrebatado por Platini. De repente, estava ele com o pinto de chocolate na mão, todo faceiro, apontando o "trubisco" para Zidane. Aí sim, faltou fôlego.

Sem sucesso, Rafaella insistia: "larga esse negócio aí". Platini segurava o "negócio" como ser fosse uma pistola, bem mirada contra Zidane, que por sua vez disfarçava o sorriso - não queria que percebessem que estava gostando da cena. Mortal procurava, urgentemente, uma máquina fotográfica para registrar o momento. Diliça foi flagrada pelas lentes de tal modo que seu pensamento parecia legendado: "esse eu pegava!". Sensação e Fanta Uva se esforçavam, em vão, para conter a barulheira generalizada.

Já era passado das 4 horas quando, com alguma insistência, Platini se decidiu pelo desarmamento. E só o fez porque a pistola começara a se derreter na mão dele. Isso tudo, e muito mais, ficou documentado em fotos, para a posteridade, para que os netos de cada um possam ver - muito lá no futuro - o quanto bacanas eram seus avós. Pena que as imagens, que dizem valer por mil palavras, não consigam guardar o som daquelas boas e intermináveis risadas. Todos se divertiram muito, exceto os vizinhos.


21 de fevereiro de 2009

Vinte e tantos anos mais um

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É difícil ter sono antes das 2 horas, especialmente no mormaço de algumas noites, quando o vento parece fazer a curva quilômetros antes de chegar a Maringá. Em madrugadas assim, escrevo até encher os olhos de "areia" e, posso garantir, é daí que surgem os melhores textos - ou os piores (depende de quem lê).

Numa noite escaldante dessas, sem ânimo para as crônicas e os contos - e sem vinho em casa para criar ânimo -, gastei meia dúzia de horas na "perda de tempo mundial", o orkut. No final das contas, porém, foi produtivo.

Li e apaguei meu recados, bisbilhotei as fotos de meus cem amigos, quis saber quem seriam os dois novos loucos da internet (que se juntaram aos demais que se dizem meus fãs), postei duas ou três fotos e percebi que não tenho mais 100% de aproveitamento no campeonato. Agora, o orkut me diz que sou 90% confiável, 90% legal e 100% sexy. Sinal de que muita gente precisa se consultar com um oftalmologista urgentemente, e não sabe.

Só quando o sono deu as caras, notei que uma colega de trabalho estava de idade nova. Eis a grande serventia do orkut: lembrar os usuários da data de aniversário dos amigos. Quase precisando do auxílio de palitos para manter os olhos abertos, não deixei de desejar felicidades àquela que costumei chamar de OFFíssima. Escrevi cambaleando de sono, "pescando" em frente ao computador, mas marquei presença. Deu no que deu.

Foi uma minicrônica de feliz aniversário. A OFFíssima disse que gostou e, mais que isso, postou os parabéns no "quem sou eu" do orkut dela. De duas uma: ou ela também estava com muito sono quando fez isso ou tinha degustado algum fermentado de uva ou de cevada.

Eu escrevi e ela postou:

"Vanessa, talvez não se lembres, mas antes de você nascer Deus olhou para ti e disse: "desce lá e detona. Seja feliz e faça seus parentes e amigos igualmente felizes". Aí você respondeu: "ok, mas posso fazer isso tudo e, ainda, lutar capoeira?" O Todo Poderoso disse: "claro que sim, desde que você não se esqueça de enviar um cartão-postal para um colega chato de redação, que você vai conhecer lá pelos seus vinte e tantos anos, quando for ao Havaí".

Alegre e extrovertida, tu tens feito tudo o que combinou com o Altíssimo: fazes as pessoas ao teu redor mais felizes, sem se esquecer do dito postal da ilha de LOST. Por isso, no aniversário de teus vinte e tantos mais um, você merece os melhores parabéns".


Merece mesmo. Um Concha y Toro para brindar a saúde dela e de todos os meus amigos.
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12 de fevereiro de 2009

O universo hiper-realista de Gabriel T.

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Esta semana, uma amiga conhecida por alguns poucos como "OFFíssima" retornou ao trabalho, toda sorridente. Estava ela de férias, numa terra bem, bem distante: na ilha de LOST, aprendendo a surfar.

Não, a OFFíssima não estava no vôo 815 da Oceanic nem contracenou com Rodrigo Santoro, muito menos foi socorrida pelo doutor Jack Shephard. A colega repórter retornou, sim, de onde a famosa série foi gravada: Havaí (foto). Não sem antes, lá do meio do Oceano Pacífico, mais próximo do Japão do que dos Estados Unidos, enviar um cartão-postal endereçado ao amigo blogueiro (vai para a coleção).

O pessoal da redação é chique demais. Outra colega, a Traguetíssima - uma das maiores incentivadoras deste pobre blog - passou, sei lá, mais de uma semana em um cruzeiro pela costa brasileira. As férias de ambas me fizeram lembrar de um amigo que formou comigo a primeira dupla da Agência Experimental de Jornalismo da Faculdade de Pato Branco (Fadep), em 2002.

Loiro de cabelos cacheados, cerca de 1,80 metros de altura, Gabriel T. Comin - o 'T' é de um sobrenome polonês, daqueles com 20 consoantes para cada vogal - é um sonhador, culto e destemido, sujeito que no ditado popular: "mata a cobra e mostra o pau". Vou explicar.

Fui da primeira turma de Jornalismo da Fadep, o 20º acadêmico a receber o diploma da então nova instituição. Calouro da turma subsequente, Gabriel queria mais, queria ares mais cosmopolitas e menos provincianos. Dito e feito. Na metade final do curso, convenceu seus pais de que precisava se mudar para Curitiba, alegando que na capital do Estado teria mais oportunidades. Por lá, salvo engano, concluiu seus estudos em Jornalismo no final de 2005.

Gabriel se formou para, daí, aventurar-se em algo que eu gostaria de ter feito na época, e não fiz. O impulsivo estudante - que nos tempos de Fadep paquerou a belíssima filha do nobre diretor - guardou o canudo na estante para embarcar num cruzeiro, ou melhor, em vários.

Não foi a passeio. Sem grana como 99% dos estudantes recém-formados no Brasil, conseguiu descolar (por falar bem inglês e pela aparência a la Beckham) uma vaga de garçom em um grande navio. Enquanto os mais abastados desinchavam os bolsos no luxo do grande "barco", Gabriel ralava (a la operário chinês) não menos de dez horas por dia em um cruzeiro que, vejam só, tinha em seu itinerário os principais destinos turísticos do Mar Mediterrâneo. Dizem que ele chegou a enjoar do litoral da Espanha, da Itália, da França.

O rapaz natural de Coronel Vivida, uma pequena cidade do sudoeste do Paraná - onde os jovens mais "normais" parecem presos ao destino de se casar e passar a vida toda no mesmo emprego -, registrou a experiência em seu blog. No site, relembrou uma ocasião em que teve de pegar um avião até a ilha de Malta, de onde zarparia o navio. No voo, estraviaram a bagagem dele e, sem tempo de comprar o essencial, precisou de roupas emprestadas dos colegas garçons, inclusive de cuecas. Parece que a mala foi entregue alguns dias depois, só não sei se os amigos aceitaram as cuecas de volta.

Atualmente, Gabriel se define como "garçom de navio aposentado e jornalista nas horas vagas". Não sei por aonde ele anda, infelizmente, perdi contato. De qualquer forma, Gabriel deixou uma importante lição aos seus conhecidos e aos leitores de seu blog: os destemidos aproveitam melhor a vida do que os "normais" - e gastam menos dinheiro. Mesmo sem ter precisado de um boca-a-boca do dr. Shephard, OFFíssima (que já morou um ano nos Estados Unidos como intercambista) que o diga.

Errata!
O quinto parágrafo foi alterado onde mencionava que Gabriel se formou em Jornalismo na UFPR, enquanto na verdade ele se graduou na UnicenP (ver comentários). Agradeço a colega jornalista Aleta Dreves, professora universitária no Acre (e seguidora deste blog), pela correção.