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2 de maio de 2010
Um chalé na Serra Gaúcha
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O desembarque em Gramado, principal destino turístico da Serra Gaúcha, cidade que para muitos lembra a Europa, deu-se numa fria manhã de março, com denso nevoeiro e temperatura na casa dos 5°C. Há quem diga que por lá os termômetros são "viciados" para garantir baixas temperaturas, de qualquer forma, Luiggi Oliveira achava bom vestir blusa e tomar um amargo de novo. Para o jornalista, autor de dois contos que, juntos, não venderam 800 exemplares, a sensação de estar novamente no Rio Grande do Sul era como a de ter retornado do exílio. Sentia-se contente e desejava ficar ali, no ar puro da serra, até concluir seu terceiro livro, quiçá um futuro best seller.
Luiggi chegou de ônibus, com uma mochila nas costas, seu notebook em mãos e disposição para recomeçar do zero. E isso significava dispensar um bom tempo para comprar roupas e bem mais para fazer novos amigos. Em São Paulo, deixou tudo: as ridículas piadas de gaúcho, o pseudo-churrasco de grelha, a poluição, os alagamentos, o trânsito infernal, a violência da grande capital, o cobiçado emprego no maior jornal da cidade, o apartamento com home theater – que largou com toda a mobília aos cuidados de uma imobiliária –, livros e, inclusive, a namorada, com quem já cogitava morar junto. Decisões envolvendo laços afetivos são as mais difíceis de tomar.
Elizabeth era uma boa mulher, em mais de um sentido da palavra. Estilista de futuro promissor, sempre tão ocupada com o crescimento profissional, só foi perceber o momento de angústia do namorado no dia da despedida. E ele, o escritor, precisava de um bom motivo para largar tudo e de um melhor ainda para justificar o "exílio" em Gramado. Por que não Porto Alegre ou Caxias do Sul? Estava certo de que ouviria da bela morena alguma pergunta desse gênero.
Uma briga, mais intensa que as anteriores, foi "o início do fim". Elizabeth disse que gostaria de sair para conversar com sua melhor amiga. "Sem problemas", pensou Luiggi, "deve ser assunto de mulher". No dia do anunciado encontro, ao perguntar onde Elizabeth iria, o escritor recebeu inesperada resposta: um show sertanejo. Iria com a amiga ver Victor & Leo e só voltaria de madrugada. "Não creio que ela aprontou essa contigo, Luiggi", exclamou o melhor amigo e colega de redação, numa mesa de bar. "Fosse você, eu terminaria o namoro", disse o irmão lá do Rio Grande, via MSN. O incentivo do amigo e do irmão foi o combustível da coragem de Luiggi, que rompeu o namoro mesmo sob o temor de se arrepender da decisão, mais tarde.
No mesmo dia, deu início aos preparativos da mudança. Mantinha a disposição de investir na busca do sonho de ter seu nome estampado na capa de um best seller. Num primeiro momento, seu editor-chefe do jornal não aceitou o pedido de demissão. Apostava alto no gaúcho – que tantas vezes fora alvo de suas piadas bairristas. Cedeu ao pedido de acordo na semana seguinte, propondo ao jornalista a função de correspondente no Rio Grande. Luiggi estava, enfim, livre para largar aquela rotina, livre para realizar seu objetivo literário. Queria ver seu livro em todas as bancas, publicado em vários idiomas se possível. Se Paulo Coelho pôde, pensava, com persistência e dedicação conseguiria também.
Certa noite, Luiggi teve um daqueles sonhos surreais, no qual era autor de um título de sucesso chamado "Cobain e o Universo Feminino" – coincidentemente o título do livro que estava escrevendo – e residia num chalé em Gramado. Sua agora ex-namorada não acreditaria que a escolha da cidade se dera por esse motivo. Era melhor que ela nem soubesse do detalhe.
Em Gramado, deixou as malas num pequeno hotel e saiu a caminhar sem pressa pela Borges de Medeiros, uma das mais charmosas avenidas do País. Os cabos de energia elétrica soterrados, as folhas a cair das árvores, o frio, as pessoas encasacadas e as casas em estilo enxaimel conferiam àquela cidade, de fato, ares de Europa. Desejava ter, em Gramado, um chalé com lareira, um vinho nas noites de frio, ar puro nas caminhadas matutinas, sossego para escrever e, quem sabe, companhia especial para as noites mais frias. Estava certo de que teria aquilo, incluindo seu best seller.
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O desembarque em Gramado, principal destino turístico da Serra Gaúcha, cidade que para muitos lembra a Europa, deu-se numa fria manhã de março, com denso nevoeiro e temperatura na casa dos 5°C. Há quem diga que por lá os termômetros são "viciados" para garantir baixas temperaturas, de qualquer forma, Luiggi Oliveira achava bom vestir blusa e tomar um amargo de novo. Para o jornalista, autor de dois contos que, juntos, não venderam 800 exemplares, a sensação de estar novamente no Rio Grande do Sul era como a de ter retornado do exílio. Sentia-se contente e desejava ficar ali, no ar puro da serra, até concluir seu terceiro livro, quiçá um futuro best seller.
Luiggi chegou de ônibus, com uma mochila nas costas, seu notebook em mãos e disposição para recomeçar do zero. E isso significava dispensar um bom tempo para comprar roupas e bem mais para fazer novos amigos. Em São Paulo, deixou tudo: as ridículas piadas de gaúcho, o pseudo-churrasco de grelha, a poluição, os alagamentos, o trânsito infernal, a violência da grande capital, o cobiçado emprego no maior jornal da cidade, o apartamento com home theater – que largou com toda a mobília aos cuidados de uma imobiliária –, livros e, inclusive, a namorada, com quem já cogitava morar junto. Decisões envolvendo laços afetivos são as mais difíceis de tomar.
Elizabeth era uma boa mulher, em mais de um sentido da palavra. Estilista de futuro promissor, sempre tão ocupada com o crescimento profissional, só foi perceber o momento de angústia do namorado no dia da despedida. E ele, o escritor, precisava de um bom motivo para largar tudo e de um melhor ainda para justificar o "exílio" em Gramado. Por que não Porto Alegre ou Caxias do Sul? Estava certo de que ouviria da bela morena alguma pergunta desse gênero.
Uma briga, mais intensa que as anteriores, foi "o início do fim". Elizabeth disse que gostaria de sair para conversar com sua melhor amiga. "Sem problemas", pensou Luiggi, "deve ser assunto de mulher". No dia do anunciado encontro, ao perguntar onde Elizabeth iria, o escritor recebeu inesperada resposta: um show sertanejo. Iria com a amiga ver Victor & Leo e só voltaria de madrugada. "Não creio que ela aprontou essa contigo, Luiggi", exclamou o melhor amigo e colega de redação, numa mesa de bar. "Fosse você, eu terminaria o namoro", disse o irmão lá do Rio Grande, via MSN. O incentivo do amigo e do irmão foi o combustível da coragem de Luiggi, que rompeu o namoro mesmo sob o temor de se arrepender da decisão, mais tarde.
No mesmo dia, deu início aos preparativos da mudança. Mantinha a disposição de investir na busca do sonho de ter seu nome estampado na capa de um best seller. Num primeiro momento, seu editor-chefe do jornal não aceitou o pedido de demissão. Apostava alto no gaúcho – que tantas vezes fora alvo de suas piadas bairristas. Cedeu ao pedido de acordo na semana seguinte, propondo ao jornalista a função de correspondente no Rio Grande. Luiggi estava, enfim, livre para largar aquela rotina, livre para realizar seu objetivo literário. Queria ver seu livro em todas as bancas, publicado em vários idiomas se possível. Se Paulo Coelho pôde, pensava, com persistência e dedicação conseguiria também.
Certa noite, Luiggi teve um daqueles sonhos surreais, no qual era autor de um título de sucesso chamado "Cobain e o Universo Feminino" – coincidentemente o título do livro que estava escrevendo – e residia num chalé em Gramado. Sua agora ex-namorada não acreditaria que a escolha da cidade se dera por esse motivo. Era melhor que ela nem soubesse do detalhe.
Em Gramado, deixou as malas num pequeno hotel e saiu a caminhar sem pressa pela Borges de Medeiros, uma das mais charmosas avenidas do País. Os cabos de energia elétrica soterrados, as folhas a cair das árvores, o frio, as pessoas encasacadas e as casas em estilo enxaimel conferiam àquela cidade, de fato, ares de Europa. Desejava ter, em Gramado, um chalé com lareira, um vinho nas noites de frio, ar puro nas caminhadas matutinas, sossego para escrever e, quem sabe, companhia especial para as noites mais frias. Estava certo de que teria aquilo, incluindo seu best seller.
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12 de dezembro de 2009
Adeus, Fundi
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O temporal do fim de outubro de 2009, em Pato Branco, trouxe mais que prejuízo material. Na maior maior enchente da história da cidade, as ruas de vários bairros foram tomadas pelas águas do pequeno Rio Ligeiro – naquela ocasião, já não tão pequeno assim. Em localidades menos abonadas, famílias perderam o pouco que tinham. Fundi, um sujeito que sabia curtir cada tragada de ar, perdeu o bem mais precioso: a própria vida.
Quando a chuva cessou e as ruas deixaram de ser navegáveis, populares lamentavam as perdas e a Defesa Civil contabilizava os prejuízos. Fundi, duro como pedra, não sobrevivera para ver os estragos. Amanheceu estirado, no jardim de sua casa, próximo ao ramo de flores em que costumava se aliviar após um bom prato de ração com sardinhas. Em vida, projetava ele, queria ter a morte dos elefantes: velho e longe dos seus.
Adulto e gozando de boa saúde – nunca fumou e não era chegado a bebidas alcoólicas –, Fundi teria certamente teria se safado da correnteza do Rio Ligeiro, fosse o temporal a causa do óbito. Sua família estava convicta: homicídio doloso! Ele fora envenenado e a polícia, ao que tudo indica, não investigaria a autoria do crime. No país da impunidade, assassinos de bichanos não vão em cana. Fundi não frequentou escola, mas, esperto, sempre soube desse detalhe. Por isso, nunca comia fora de casa.
Impedido de chegar à segurança do lar, ilhado pela correnteza que havia tomado conta das vias públicas, Fundi estava molhado, com fome e com frio. Com azar equivalente ao de alguém que transa sem camisinha, pela primeira vez, e contrai o vírus da aids; dançou no primeiro petisco alheio que comeu, aos cinco anos de idade, completados dias antes, em 15 de outubro. O “tempero” de sabor levemente apimentado era, na verdade, o sabor da morte.
Dzico, como também era chamado, sofreu com a dor dos espasmos musculares, com as convulsões causadas pelo veneno. Tinha certeza: a morte viria ao seu encontro em minutos. Usaria ela capa preta e foice, como no cinema? Preferia não pensar nisso! Cruzou a nado o rio... melhor, a rua. Queria se despedir de seus donos. Se gato tem sete vidas, o valente felino amarelo, de pelos curtos e sedosos, gastou seu sopro final de vida contra a correnteza. Em seus últimos pensamentos, recordou-se da vida boa que tivera e deu graças ao deus dos felinos por tudo.
Fundi nasceu em Planalto, uma pequena cidade do Paraná, que – exceto órgãos como os Correios e a Caixa Econômica – poucos têm noção de onde fica. Filhote de origem humilde e mãe pulguenta, por certo seria um gato de galpão. Em outras palavras, não moraria na rua, mas teria de caçar ratos em meio à pilhagem de milho para ter o que comer. De uma ninhada só de amarelinhos, por obra do destino, Dzico foi o único kitty (como se diz em inglês) entre seus irmãos que cresceu à base de ração.
Em Dois Vizinhos, cidade que se autointitula a capital nacional do frango, um jornalista e sua esposa se julgavam jovens demais para ter um herdeiro. Faltava algo ao casal, que discutia sobre adotar um animal de estimação. Queriam um filhote sem raça definida, “dos bão”, e entre um cão e um gato escolheram a segunda opção.
– Um aluno lá na escola comentou que tem filhotinhos recém-desmamados, na casa dos pais deles, num lugar chamado Planalto – disse a mulher. – Parece que são todos amarelos – acrescentou, assim que se recordou do detalhe.
– Olha só... nunca tive um gato amarelo. Então está decidido, pede para o piá trazer um pra gente – disse o homem.
Desde os tempos de infância e da chupeta, de suas recordações mais antigas, o jornalista lembrava de ter animais de estimação. Gatos, ele perdeu a conta de quantos teve até deixar Pato Branco, após a graduação em Jornalismo. No chute, calculava que foram mais de 50 felinos que, pelo fato de não serem castrados, raramente viviam mais de cinco anos. Robin, um gato malhado que resistira ao primeiro envenenamento, viveu seis.
Na casa de seus pais, era o jornalista quem normalmente batizava os felinos. Com algumas exceções, preferia se esquivar dos nomes de pessoas. Da turma de companheiros, os que mais marcaram se chamavam: Batman, Mimão, Super, Mel, Tom, Parceiro, Batman o Retorno, além do próprio Robin – irmão do primeiro Batman. Fundi, de Fondue "aportuguesado", seria o nome do próximo, independentemente da cara do filhote.
Chegou com cara de gato desnutrido, com mais orelha que qualquer coisa. Tinha listras pretas móveis em meio à pelagem cor-de-caramelo. Pulgas! Centenas delas, gordas e saciadas pelo sangue do pobre coitado. Bem nutridas, tinham força para resistir ao banho e ao xampu. Eram pulgas de vale-tudo e pareciam beber biotônico, ao invés de sangue. Várias rodadas de ensaboa-enxágua foram necessárias para mandar as invasoras pelo ralo.
Sem pulgas e abastecido a carinho, leite morno, ração e sardinha – seu prato preferido –, Fundi cresceu com vigor para se tornar um cara esperto e destemido. Definitivamente, a desnutrição de outrora não havia prejudicado suas habilidades mentais. Se fosse gente, seria um físico... um físico que descobriu a lei da gravidade na prática, ao saltar da janela em investida contra um pardal. Dzico, vale ressaltar, não era muito dado a teorias. O detalhe é que seus “paitotes” (mistura de pais com filhote, que não consta do dicionário) moravam num apartamento. Aos seis meses, Fundi perdeu sua primeira vida e, da forma mais doída, aprendeu que gatos não voam.
Além de físico nato, Fundi era praticamente um diplomata. Transitava bem em qualquer situação e, inclusive, com outras espécies. Provou isso quando o jornalista foi morar na Alemanha e ele, Dzico, teve de se mudar para a casa de seus “avóstotes” (mistura de avós com filhote, que também não consta do dicionário). No novo lar, em Pato Branco, sudoeste do Paraná, tinha a companhia de outros quatro gatos, mas se tornou melhor amigo de um cachorro branco, filhote como ele, chamado Floquinho. O cachorro, outro sem raça definida, cresceu odiando felinos... mas Fundi, como sempre, era uma exceção. Um gato político como ele não poderia, jamais, ser rotulado como os demais de sua espécie. Se fosse preso, exigiria cela especial.
O tempo passou e Dzico se tornou um adulto. Por volta dos dois anos de idade, um gato macho já pode ser considerado adulto. Sem perder tempo e aproveitando o melhor da via, o gato amarelo aplicava sua combustão hormonal nas namoradas... várias, todas gatas. De seu quociente de inteligência (QI), privilegiado, ele fazia bom proveito. Ao invés de namorar na rua e correr o risco de apanhar de gatos mais fortes e experientes, levava as namoradas para comer sua ração, na casa dos avóstotes. E comia elas.
Aos cinco anos, seguia sendo um incorrigível galanteador. Volta e meia levava um corridão de algum vizinho, indignado com o miado do baladeiro Fundi na hora do sono. Ossos do ofício... e que ofício! Com o passar dos anos, o que mais mudou foi a cor dos filhotes da redondeza, mais amarelinhos do que nunca, mais órfãos do que nunca. Ninguém sentirá mais falta do notívago felino do que as gatas que ele seduziu – e não se faz necessário explicar os motivos. Contudo, jornalista e ex-esposa (casamentos também “morrem”) lamentam não ter passado mais tempo com aquele que consideram ser “O Cara” entre os animais de estimação que tiveram.
O jornalista recebeu de sua mãe a trágica notícia, ao telefonar de São Paulo capital para se informar sobre os estragos causados pelo temporal, em Pato Branco. “A boa notícia é que a água não entrou em nossa casa. A má notícia é que Fundi morreu”, contou. (…) Alguns segundos se passaram até que o rapaz conseguisse dizer algo. Custou a assimilar a notícia, enquanto as boas lembranças de Fundi visitavam sua mente. No telefone público de um shopping, deixou escapar uma lágrima, esforçado-se para que aquilo não se repetisse. “Enterrei o corpo dele lá no quintal da tua avó”, acrescentou a mãe do jornalista, já sentindo o baque que a notícia causara em seu filho.
Ele e sua ex-esposa, que já não se viam há mais de um ano, tiveram de se falar novamente, por email. Assim que ela soube da morte de Dzico, respondeu a missiva para dizer o quanto amava aquele gato. Aproveitou para contar novidades: se tornara aeromoça, um sonho antigo, e estava morando na Grande São Paulo. Ele a parabenizou pela conquista e, fora isso, limitou-se a agradecer pelas belas palavras proferidas ao felino. Palavras que teriam emocionado o “Babundo”, outro apelido que o velho gato de guerra recebera de seus paistotes.
– Amava viajar com ele, em cima de meu ombro, no ônibus; amava ver ele dormindo, e babando; amava esmagar ele; amava até mesmo quando ele ficava mordendo minha orelha, no meio da madrugada – escreveu a mãetote (outra que também não consta do dicionário). – Mesmo longe de você, Fundi, nunca te esqueci. Lembrarei de você e te amarei para sempre – encerrou.
Um mês antes do trágico temporal – e do maligno petisco envenenado –, o jornalista visitou seus pais e irmãos. Foi a última vez que viu Fundi, que estava mais adulto, com um olhar compenetrado, porém, com o mesmo jeito de gato malandro. Era um gato feliz e parecia preocupado em seguir uma única orientação: “vida, só se vive uma vez”. Desde então, com uma saudade que bate forte, seu dono se esforça em aproveitar cada dia como se fosse o último, tal como fazia Fundi. No Natal, quando voltar a Pato Branco e não mais encontrar o gato amigo, o jornalista plantará uma árvore onde jaz o felino... para não se esquecer dos bons momentos.
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O temporal do fim de outubro de 2009, em Pato Branco, trouxe mais que prejuízo material. Na maior maior enchente da história da cidade, as ruas de vários bairros foram tomadas pelas águas do pequeno Rio Ligeiro – naquela ocasião, já não tão pequeno assim. Em localidades menos abonadas, famílias perderam o pouco que tinham. Fundi, um sujeito que sabia curtir cada tragada de ar, perdeu o bem mais precioso: a própria vida.
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| Fundi, quando filhote |
Adulto e gozando de boa saúde – nunca fumou e não era chegado a bebidas alcoólicas –, Fundi teria certamente teria se safado da correnteza do Rio Ligeiro, fosse o temporal a causa do óbito. Sua família estava convicta: homicídio doloso! Ele fora envenenado e a polícia, ao que tudo indica, não investigaria a autoria do crime. No país da impunidade, assassinos de bichanos não vão em cana. Fundi não frequentou escola, mas, esperto, sempre soube desse detalhe. Por isso, nunca comia fora de casa.
Impedido de chegar à segurança do lar, ilhado pela correnteza que havia tomado conta das vias públicas, Fundi estava molhado, com fome e com frio. Com azar equivalente ao de alguém que transa sem camisinha, pela primeira vez, e contrai o vírus da aids; dançou no primeiro petisco alheio que comeu, aos cinco anos de idade, completados dias antes, em 15 de outubro. O “tempero” de sabor levemente apimentado era, na verdade, o sabor da morte.
Dzico, como também era chamado, sofreu com a dor dos espasmos musculares, com as convulsões causadas pelo veneno. Tinha certeza: a morte viria ao seu encontro em minutos. Usaria ela capa preta e foice, como no cinema? Preferia não pensar nisso! Cruzou a nado o rio... melhor, a rua. Queria se despedir de seus donos. Se gato tem sete vidas, o valente felino amarelo, de pelos curtos e sedosos, gastou seu sopro final de vida contra a correnteza. Em seus últimos pensamentos, recordou-se da vida boa que tivera e deu graças ao deus dos felinos por tudo.
Fundi nasceu em Planalto, uma pequena cidade do Paraná, que – exceto órgãos como os Correios e a Caixa Econômica – poucos têm noção de onde fica. Filhote de origem humilde e mãe pulguenta, por certo seria um gato de galpão. Em outras palavras, não moraria na rua, mas teria de caçar ratos em meio à pilhagem de milho para ter o que comer. De uma ninhada só de amarelinhos, por obra do destino, Dzico foi o único kitty (como se diz em inglês) entre seus irmãos que cresceu à base de ração.
Em Dois Vizinhos, cidade que se autointitula a capital nacional do frango, um jornalista e sua esposa se julgavam jovens demais para ter um herdeiro. Faltava algo ao casal, que discutia sobre adotar um animal de estimação. Queriam um filhote sem raça definida, “dos bão”, e entre um cão e um gato escolheram a segunda opção.
– Um aluno lá na escola comentou que tem filhotinhos recém-desmamados, na casa dos pais deles, num lugar chamado Planalto – disse a mulher. – Parece que são todos amarelos – acrescentou, assim que se recordou do detalhe.
– Olha só... nunca tive um gato amarelo. Então está decidido, pede para o piá trazer um pra gente – disse o homem.
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| Fundi adolescente |
Na casa de seus pais, era o jornalista quem normalmente batizava os felinos. Com algumas exceções, preferia se esquivar dos nomes de pessoas. Da turma de companheiros, os que mais marcaram se chamavam: Batman, Mimão, Super, Mel, Tom, Parceiro, Batman o Retorno, além do próprio Robin – irmão do primeiro Batman. Fundi, de Fondue "aportuguesado", seria o nome do próximo, independentemente da cara do filhote.
Chegou com cara de gato desnutrido, com mais orelha que qualquer coisa. Tinha listras pretas móveis em meio à pelagem cor-de-caramelo. Pulgas! Centenas delas, gordas e saciadas pelo sangue do pobre coitado. Bem nutridas, tinham força para resistir ao banho e ao xampu. Eram pulgas de vale-tudo e pareciam beber biotônico, ao invés de sangue. Várias rodadas de ensaboa-enxágua foram necessárias para mandar as invasoras pelo ralo.
Sem pulgas e abastecido a carinho, leite morno, ração e sardinha – seu prato preferido –, Fundi cresceu com vigor para se tornar um cara esperto e destemido. Definitivamente, a desnutrição de outrora não havia prejudicado suas habilidades mentais. Se fosse gente, seria um físico... um físico que descobriu a lei da gravidade na prática, ao saltar da janela em investida contra um pardal. Dzico, vale ressaltar, não era muito dado a teorias. O detalhe é que seus “paitotes” (mistura de pais com filhote, que não consta do dicionário) moravam num apartamento. Aos seis meses, Fundi perdeu sua primeira vida e, da forma mais doída, aprendeu que gatos não voam.
Além de físico nato, Fundi era praticamente um diplomata. Transitava bem em qualquer situação e, inclusive, com outras espécies. Provou isso quando o jornalista foi morar na Alemanha e ele, Dzico, teve de se mudar para a casa de seus “avóstotes” (mistura de avós com filhote, que também não consta do dicionário). No novo lar, em Pato Branco, sudoeste do Paraná, tinha a companhia de outros quatro gatos, mas se tornou melhor amigo de um cachorro branco, filhote como ele, chamado Floquinho. O cachorro, outro sem raça definida, cresceu odiando felinos... mas Fundi, como sempre, era uma exceção. Um gato político como ele não poderia, jamais, ser rotulado como os demais de sua espécie. Se fosse preso, exigiria cela especial.
O tempo passou e Dzico se tornou um adulto. Por volta dos dois anos de idade, um gato macho já pode ser considerado adulto. Sem perder tempo e aproveitando o melhor da via, o gato amarelo aplicava sua combustão hormonal nas namoradas... várias, todas gatas. De seu quociente de inteligência (QI), privilegiado, ele fazia bom proveito. Ao invés de namorar na rua e correr o risco de apanhar de gatos mais fortes e experientes, levava as namoradas para comer sua ração, na casa dos avóstotes. E comia elas.
Aos cinco anos, seguia sendo um incorrigível galanteador. Volta e meia levava um corridão de algum vizinho, indignado com o miado do baladeiro Fundi na hora do sono. Ossos do ofício... e que ofício! Com o passar dos anos, o que mais mudou foi a cor dos filhotes da redondeza, mais amarelinhos do que nunca, mais órfãos do que nunca. Ninguém sentirá mais falta do notívago felino do que as gatas que ele seduziu – e não se faz necessário explicar os motivos. Contudo, jornalista e ex-esposa (casamentos também “morrem”) lamentam não ter passado mais tempo com aquele que consideram ser “O Cara” entre os animais de estimação que tiveram.
O jornalista recebeu de sua mãe a trágica notícia, ao telefonar de São Paulo capital para se informar sobre os estragos causados pelo temporal, em Pato Branco. “A boa notícia é que a água não entrou em nossa casa. A má notícia é que Fundi morreu”, contou. (…) Alguns segundos se passaram até que o rapaz conseguisse dizer algo. Custou a assimilar a notícia, enquanto as boas lembranças de Fundi visitavam sua mente. No telefone público de um shopping, deixou escapar uma lágrima, esforçado-se para que aquilo não se repetisse. “Enterrei o corpo dele lá no quintal da tua avó”, acrescentou a mãe do jornalista, já sentindo o baque que a notícia causara em seu filho.
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| Fundi adulto |
– Amava viajar com ele, em cima de meu ombro, no ônibus; amava ver ele dormindo, e babando; amava esmagar ele; amava até mesmo quando ele ficava mordendo minha orelha, no meio da madrugada – escreveu a mãetote (outra que também não consta do dicionário). – Mesmo longe de você, Fundi, nunca te esqueci. Lembrarei de você e te amarei para sempre – encerrou.
Um mês antes do trágico temporal – e do maligno petisco envenenado –, o jornalista visitou seus pais e irmãos. Foi a última vez que viu Fundi, que estava mais adulto, com um olhar compenetrado, porém, com o mesmo jeito de gato malandro. Era um gato feliz e parecia preocupado em seguir uma única orientação: “vida, só se vive uma vez”. Desde então, com uma saudade que bate forte, seu dono se esforça em aproveitar cada dia como se fosse o último, tal como fazia Fundi. No Natal, quando voltar a Pato Branco e não mais encontrar o gato amigo, o jornalista plantará uma árvore onde jaz o felino... para não se esquecer dos bons momentos.
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27 de novembro de 2009
Na fila do Starbucks
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A Avenida Paulista não é o melhor lugar de São Paulo para fazer compras, para comer ou beber. Se considerado o custo, certamente, não o é. Na avenida mais famosa do Brasil, paga-se pelo ar cosmopolita em um dos metros quadrados mais caros da capital paulista. "Paga-se" pela oportunidade de ver gente diferente, bonita (acima da média da cidade), descolada... e tantos outros adjetivos mais.
– É a maior cidade do mundo. Se me falar que não é a maior, garanto que é a melhor – disse, orguhoso, o dono da lojinha de camisetas com estampas iradas, porém, salgadas. Vale destacar: nada na Paulista é barato.
Quem era eu para discordar de um paulistano nato, doente pelo Corithians e mais ainda pela cidade onde nasceu e onde, confessou-me, quer morrer. Comprei dele uma camiseta, tamanho P, do tipo feminino, com verso de Fernando Pessoa, para uma amiga que faria aniversário por aqueles dias. Andei toda a Paulista, de novo, e no caminho de volta entrei no primeiro shopping que encontrei assim que a chuva engrossou...
No momento das reticências, estava numa cafeteria, escrevendo esta crônica. Dei um fôlego à caneta e interrompi a narrativa para observar uma guria passar. Dessa vez, garanto, foi por um motivo quase antropológico. Cabelos metade negros até a raiz, metade oxigenados até as pontas, esquisitos, mas de uma beleza singular. "Fosse em uma cidade provinciana", pensei, "seria taxada de alguma coisa". Bom, nem é preciso explicar o "alguma coisa" nesse contexto. Mas em São Paulo você tem o direito – mais do que em qualquer outra cidade brasileira – de ser diferente.
Voltei a escrever. Percebi que o café tinha acabado e, para seguir inspirado com as palavras, precisava de mais uma dose. Tinha optado por um expresso Vanilla (café com aroma de baunilha) do Starbucks e, novamente na fila do atendimento, reparava no vai e vem de pessoas, do lado de fora da cafeteria. Observar o comportamento de desconhecidos, que nunca tornarei a ver, aliás, é um de meus hobbies. Pode parecer tolice, mas garanto ser possível aprender muito com isso. Quem faz isso se torna, no mínimo, uma pessoa mais tolerante.
Na fila, estava acompanhado do som de músicas de Natal, da lojinha de presentes logo ao lado, e de uma morena magra, pele clara, cabelos compridos, cerca de 1,65 metros de altura – logo à minha frente, na fila. Não conseguia ver o rosto dela, mas suspeitava que tivesse traços orientais. Estava sozinha; e isso me levou a concluir que poderia puxar conversa com a moça, na primeira oportunidade. O afrodisíaco aroma de café, que tomava conta o ambiente, parecia me dizer: "vai firme que estou contigo".
– Gostei do teu estilo, moderno. Tem companhia para o café? – era o que eu teria dito, se ela ao menos tivesse olhado para trás. O detalhe é que, caso o convite tivesse sido feito, ela não teria entendido nenhuma vírgula.
No atendimento, ela pediu um café do tipo Mocha. A atendente perguntou que tamanho de copo – tall, grande ou venti – e ela não compreendeu. A atendente, então, improvisou no inglês, e nada. Também não me pareceu que a estrangeira entendesse italiano ou alemão, logo, não teria chances com ela. Talvez (e a essa altura já tinha visto o rosto dela) fosse sul coreana. São Paulo, todos sabem, recebe gente de todos os continentes.
A moça apanhou seu Caffè Mocha, suponho que similar ao que ela costumava beber no Starbucks lá na Coreia do Sul, e "sumiu do mapa". Uma pressa de levantar suspeitas. E se ela fosse da China e seus familiares tivessem em débito com a máfia chinesa? Era uma possibilidade. O cronista aqui, por sua vez, tornou a escrever e a beber café. Teria repetido a dose, uma terceira vez, se a loja não estivesse encerrando o expediente.
Na torcida para que a chuva tivesse dado uma trégua – e de dentro do shopping não dá para saber –, tomei o rumo da porta principal, de frente para a Paulista e a alguns metros da estação da Consolação, do metrô. Vi no caminho duas moças se beijando, na praça de alimentação; um sujeito com a cabeça raspada, trajando bermuda xadrez, paletó bege e sapatos da mesma cor, mas sem camisa e sem meias; e uma menina de cabelos cor-de-rosa e roupas a la personagem de mangá japonês. Em São Paulo, "pooooode".
Na saída, a constatação: ao invés de gotas, pareciam cair baldes d'água. Um "toró", como se diz lá em Pato Branco. Poderia pegar o metrô, e me molhar mesmo assim. Poderia esperar a chuva ficar menos intensa, e isso demorar a acontecer. Ou poderia pedir uma sacola plástica na loja mais próxima – para revestir dinheiro, documentos e a camiseta que comprei de presente – e encarar a chuva torrencial. Foi isso que fiz, nos 2,5 quilômetros até o hotel. Na minha última semana em São Paulo, no melhor ano de minha vida, a chuva na Avenida Paulista lavou o corpo, e a alma.
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A Avenida Paulista não é o melhor lugar de São Paulo para fazer compras, para comer ou beber. Se considerado o custo, certamente, não o é. Na avenida mais famosa do Brasil, paga-se pelo ar cosmopolita em um dos metros quadrados mais caros da capital paulista. "Paga-se" pela oportunidade de ver gente diferente, bonita (acima da média da cidade), descolada... e tantos outros adjetivos mais.
– É a maior cidade do mundo. Se me falar que não é a maior, garanto que é a melhor – disse, orguhoso, o dono da lojinha de camisetas com estampas iradas, porém, salgadas. Vale destacar: nada na Paulista é barato.
Quem era eu para discordar de um paulistano nato, doente pelo Corithians e mais ainda pela cidade onde nasceu e onde, confessou-me, quer morrer. Comprei dele uma camiseta, tamanho P, do tipo feminino, com verso de Fernando Pessoa, para uma amiga que faria aniversário por aqueles dias. Andei toda a Paulista, de novo, e no caminho de volta entrei no primeiro shopping que encontrei assim que a chuva engrossou...
No momento das reticências, estava numa cafeteria, escrevendo esta crônica. Dei um fôlego à caneta e interrompi a narrativa para observar uma guria passar. Dessa vez, garanto, foi por um motivo quase antropológico. Cabelos metade negros até a raiz, metade oxigenados até as pontas, esquisitos, mas de uma beleza singular. "Fosse em uma cidade provinciana", pensei, "seria taxada de alguma coisa". Bom, nem é preciso explicar o "alguma coisa" nesse contexto. Mas em São Paulo você tem o direito – mais do que em qualquer outra cidade brasileira – de ser diferente.
Voltei a escrever. Percebi que o café tinha acabado e, para seguir inspirado com as palavras, precisava de mais uma dose. Tinha optado por um expresso Vanilla (café com aroma de baunilha) do Starbucks e, novamente na fila do atendimento, reparava no vai e vem de pessoas, do lado de fora da cafeteria. Observar o comportamento de desconhecidos, que nunca tornarei a ver, aliás, é um de meus hobbies. Pode parecer tolice, mas garanto ser possível aprender muito com isso. Quem faz isso se torna, no mínimo, uma pessoa mais tolerante.
Na fila, estava acompanhado do som de músicas de Natal, da lojinha de presentes logo ao lado, e de uma morena magra, pele clara, cabelos compridos, cerca de 1,65 metros de altura – logo à minha frente, na fila. Não conseguia ver o rosto dela, mas suspeitava que tivesse traços orientais. Estava sozinha; e isso me levou a concluir que poderia puxar conversa com a moça, na primeira oportunidade. O afrodisíaco aroma de café, que tomava conta o ambiente, parecia me dizer: "vai firme que estou contigo".
– Gostei do teu estilo, moderno. Tem companhia para o café? – era o que eu teria dito, se ela ao menos tivesse olhado para trás. O detalhe é que, caso o convite tivesse sido feito, ela não teria entendido nenhuma vírgula.
No atendimento, ela pediu um café do tipo Mocha. A atendente perguntou que tamanho de copo – tall, grande ou venti – e ela não compreendeu. A atendente, então, improvisou no inglês, e nada. Também não me pareceu que a estrangeira entendesse italiano ou alemão, logo, não teria chances com ela. Talvez (e a essa altura já tinha visto o rosto dela) fosse sul coreana. São Paulo, todos sabem, recebe gente de todos os continentes.
A moça apanhou seu Caffè Mocha, suponho que similar ao que ela costumava beber no Starbucks lá na Coreia do Sul, e "sumiu do mapa". Uma pressa de levantar suspeitas. E se ela fosse da China e seus familiares tivessem em débito com a máfia chinesa? Era uma possibilidade. O cronista aqui, por sua vez, tornou a escrever e a beber café. Teria repetido a dose, uma terceira vez, se a loja não estivesse encerrando o expediente.
Na torcida para que a chuva tivesse dado uma trégua – e de dentro do shopping não dá para saber –, tomei o rumo da porta principal, de frente para a Paulista e a alguns metros da estação da Consolação, do metrô. Vi no caminho duas moças se beijando, na praça de alimentação; um sujeito com a cabeça raspada, trajando bermuda xadrez, paletó bege e sapatos da mesma cor, mas sem camisa e sem meias; e uma menina de cabelos cor-de-rosa e roupas a la personagem de mangá japonês. Em São Paulo, "pooooode".
Na saída, a constatação: ao invés de gotas, pareciam cair baldes d'água. Um "toró", como se diz lá em Pato Branco. Poderia pegar o metrô, e me molhar mesmo assim. Poderia esperar a chuva ficar menos intensa, e isso demorar a acontecer. Ou poderia pedir uma sacola plástica na loja mais próxima – para revestir dinheiro, documentos e a camiseta que comprei de presente – e encarar a chuva torrencial. Foi isso que fiz, nos 2,5 quilômetros até o hotel. Na minha última semana em São Paulo, no melhor ano de minha vida, a chuva na Avenida Paulista lavou o corpo, e a alma.
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28 de agosto de 2009
Namorei a Paulista
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Estou convencido de que São Paulo quer me provar que é, de fato, a terra da garoa. Há um mês, fez jus ao título ao me privar do sol durante toda uma semana. Meu retorno à grande metrópole da América do Sul foi num domingo, frio e úmido, de céu em tons de cinza, de novo.
Estava na agenda um passeio no Parque do Ibirapuera, mas a garoa ininterrupta, que se esforçava para molhar, levou-me à Avenida Paulista, a primeira pavimentada de São Paulo capital. A mais famosa avenida do Brasil, que concentra o poder econômico e onde são fechados os grandes negócios do País, é sempre uma boa opção de passeio, faça chuva ou faça sol.
Desta vez, fui de metrô – sossegado, sem as “sardinhas” dos dias de semana. Peguei o trem na estação São Joaquim e segui até a estação Paraíso. Tomei outra linha, sentido Consolação, no outro extremo da Avenida Paulista para, de lá, retornar a pé. Talvez daí aquele divertido – e para mim verdadeiro – ditado: “a Paulista é que nem casamento, começa no paraíso e termina na consolação”.
Namorei a Paulista durante toda aquela tarde de domingo, sem pressa. Comecei devagar. De repente, notava que estava num ritmo mais acelerado e, para aproveitar mais bem o momento, “pisava no freio”. A Paulista estava molhadinha – por causa da garoa, claro –, mas isso jamais espantaria um paranaense curioso, que gosta de ver gente. Num dos lugares mais cosmopolitas do País, estava contente por gozar de boa saúde e poder cruzar, a pé, os quase três quilômetros da avenida.
No primeiro shopping que visitei, vi um grupo de alemães – austríacos talvez, porque falavam na língua de Goethe – bebendo chope e rindo, mas com a discrição inerente aos europeus. Da conversa alheia, entendi que estavam impressionados com o tamanho de São Paulo. “Wunderbar” (maravilhoso) foi apenas um dos adjetivos empregados para classificar a capital. O nerd entre eles, o único com máquina fotográfica em mãos, sugeriu uma foto só com as meninas do grupo. Aliás, belas jovens germânicas, loiras e mais altas que nossa média nacional, viciantes! Remeteram minha mente a lembranças do tempo em que morei na Alemanha.
Parei em dois shoppings, para beber o merecido café expresso, sem açúcar. O segundo “pit stop”, para repor a cafeína, foi no Pátio Paulista, onde me deparei com um grupo de turistas japoneses. Estou certo de que não eram coreanos nem chineses, porque mais de um, a maioria para ser sincero, volta e meia sacava do bolso (ou do pescoço) o celular, sempre do tipo “lançado ontem”, para tirar fotos. Conversavam menos que os alemães, e bebiam refrigerante. Riam sem mostrar os dentes, mas não faço a menor ideia do que falavam. Fiquei curioso para saber o que dizia a nipônica com cabelos com mechas cor-de-rosa – linda de uma forma instigante.
Boa parte do tempo, porém, passei a céu aberto e, por pelo menos meia hora, fiquei no pátio do Museu de Arte de São Paulo (Masp), observando tamanha diversidade, num momento antropológico de inspiração. Vi gente de várias cores, Estados, nações, credos. Alguns de gravata, outros despreocupados em combinar a calça laranja com o agasalho azul. Moças de cabelos para todos os gostos: roxo, compridos, loiros, curtos, lisos, cacheados, soltos ou amarrados. Rapazes fazendo acrobacias com ioiôs, a fim de chamar a atenção dessas mesmas moças.
São Paulo me encanta por essa riqueza cultural, de costumes mil. Em Sampa, mais do que em qualquer outra cidade do Brasil, dá para ser você mesmo, por mais estranho que você possa parecer. Não importa se você tem carro ou vai de metrô, se tem emprego fixo ou se é autônomo, se veste terno ou se arrisca um saiote (kilt) como se estivesse na Escócia, se é heterossexual ou se é gay, se fuma maconha ou se é contra a liberalização, se fala como paulistano nato ou se tem sotaque de outro lugar. Do jeito que for, numa cidade nada provinciana, sempre vai haver alguém para curtir teu jeito de ser.
Nessa “salada” de tudo e de todos, percebo na Avenida Paulista um “tempero” único. Na via que é a cara de São Paulo, sinto-me em casa e nem noto o tempo passar. Molhadinha ou não, gosto de pegar a Paulista sem pressa, para curtir cada passo. O relógio... só olhei quando alguém me perguntou as horas.
Publicado também em: Recanto das Letras e jornal O Diário (Cultura, 13/01/2016)
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Estava na agenda um passeio no Parque do Ibirapuera, mas a garoa ininterrupta, que se esforçava para molhar, levou-me à Avenida Paulista, a primeira pavimentada de São Paulo capital. A mais famosa avenida do Brasil, que concentra o poder econômico e onde são fechados os grandes negócios do País, é sempre uma boa opção de passeio, faça chuva ou faça sol.
Desta vez, fui de metrô – sossegado, sem as “sardinhas” dos dias de semana. Peguei o trem na estação São Joaquim e segui até a estação Paraíso. Tomei outra linha, sentido Consolação, no outro extremo da Avenida Paulista para, de lá, retornar a pé. Talvez daí aquele divertido – e para mim verdadeiro – ditado: “a Paulista é que nem casamento, começa no paraíso e termina na consolação”.
Namorei a Paulista durante toda aquela tarde de domingo, sem pressa. Comecei devagar. De repente, notava que estava num ritmo mais acelerado e, para aproveitar mais bem o momento, “pisava no freio”. A Paulista estava molhadinha – por causa da garoa, claro –, mas isso jamais espantaria um paranaense curioso, que gosta de ver gente. Num dos lugares mais cosmopolitas do País, estava contente por gozar de boa saúde e poder cruzar, a pé, os quase três quilômetros da avenida.
No primeiro shopping que visitei, vi um grupo de alemães – austríacos talvez, porque falavam na língua de Goethe – bebendo chope e rindo, mas com a discrição inerente aos europeus. Da conversa alheia, entendi que estavam impressionados com o tamanho de São Paulo. “Wunderbar” (maravilhoso) foi apenas um dos adjetivos empregados para classificar a capital. O nerd entre eles, o único com máquina fotográfica em mãos, sugeriu uma foto só com as meninas do grupo. Aliás, belas jovens germânicas, loiras e mais altas que nossa média nacional, viciantes! Remeteram minha mente a lembranças do tempo em que morei na Alemanha.
Parei em dois shoppings, para beber o merecido café expresso, sem açúcar. O segundo “pit stop”, para repor a cafeína, foi no Pátio Paulista, onde me deparei com um grupo de turistas japoneses. Estou certo de que não eram coreanos nem chineses, porque mais de um, a maioria para ser sincero, volta e meia sacava do bolso (ou do pescoço) o celular, sempre do tipo “lançado ontem”, para tirar fotos. Conversavam menos que os alemães, e bebiam refrigerante. Riam sem mostrar os dentes, mas não faço a menor ideia do que falavam. Fiquei curioso para saber o que dizia a nipônica com cabelos com mechas cor-de-rosa – linda de uma forma instigante.
São Paulo me encanta por essa riqueza cultural, de costumes mil. Em Sampa, mais do que em qualquer outra cidade do Brasil, dá para ser você mesmo, por mais estranho que você possa parecer. Não importa se você tem carro ou vai de metrô, se tem emprego fixo ou se é autônomo, se veste terno ou se arrisca um saiote (kilt) como se estivesse na Escócia, se é heterossexual ou se é gay, se fuma maconha ou se é contra a liberalização, se fala como paulistano nato ou se tem sotaque de outro lugar. Do jeito que for, numa cidade nada provinciana, sempre vai haver alguém para curtir teu jeito de ser.
Nessa “salada” de tudo e de todos, percebo na Avenida Paulista um “tempero” único. Na via que é a cara de São Paulo, sinto-me em casa e nem noto o tempo passar. Molhadinha ou não, gosto de pegar a Paulista sem pressa, para curtir cada passo. O relógio... só olhei quando alguém me perguntou as horas.
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