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10 de agosto de 2012

Viajar é preciso

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Em plena sexta-feira, cansado de uma longa semana de jornada dupla de trabalho, o jornalista se depara com uma interessante mensagem, publicada no perfil de uma amiga, no Facebook. Dizia a mensagem: "Quer ser feliz. Não compre mais coisas... vá viajar". Foi inevitável, a ele, recordar das últimas férias e também do que lhe disse um conhecido, quando soube do destino escolhido para seu mês de descanso.


— África do Sul?
— Sim.
— E vai fazer o que lá?
— Estudar inglês, num intercâmbio na Cidade do Cabo  —  respondeu o jornalista, para ouvir do conhecido uma gozação a la Fernando Collor de Melo, o "caçador de marajás".
— Hummmmm, tá virando marajá então!
— Marajá nada. Nem som no meu carro 1.0 eu tenho.

Além de ser um destino paradisíaco, a Cidade do Cabo – em inglês, Cape Town – tem custo de vida menor do que outros destinos mais conhecidos para intercâmbio de inglês, como Londres e Nova York, por exemplo. E as passagens de avião para a África do Sul saem mais em conta do que para a os Estados Unidos, Canadá, Inglaterra e outros destinos onde é possível estudar a língua de Shakespeare.

O jornalista tentou explicar ao fanfarrão que estudar inglês no exterior não é mais uma opção reservada à burguesia. Economizando um pouco por mês, até repórter pode. Ambos riram, pois o conhecido também é jornalista e sabe que, na profissão, ganhar um bom salário é para William Bonner e alguns poucos. E a conversa prosseguiu.

— E você, para aonde vai nas férias.
— Não vou viajar. Comprei um videogame e um televisor de tela plana e vou aproveitar.
— Mas nem uma viagem curta, de uma semana?
— Não. Tenho de economizar para pagar as contas  —  respondeu o conhecido, referindo-se às prestações dos aparelhos eletrônicos recém-adquiridos. E do último gole de café, que regava a conversa, ambos retornaram para seus afazeres na redação.

Passados alguns dias, horas antes do embarque para o outro lado do Atlântico, para um mês longe dos problemas, o jornalista conferiu as malas e os documentos. Na mania de sempre, tirou tudo da tomada. Um dia de tempestade poderia queimar seu televisor 21 polegadas, do tipo tela-tubo-de-imagem-nada-plana, e seu aparelho paraguaio de DVD. Seria uma lástima ter de gastar com uma TV nova o dinheiro que ele já guardava para as férias seguintes, quiçá, no Canadá.

Publicado também por Infomacaiba.
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8 de dezembro de 2010

Um dia sem relógio

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Durante o jantar na cantina do jornal, entre desapressadas garfadas em batatas fritas que de tão gordurosas seriam capazes de assustar até a mais liberal das nutricionistas, minha nova namorada quis saber o que eu faria no dia seguinte, o primeiro de meus 30 dias de férias. Havia planejado detalhes da viagem que faria para o estrangeiro, mas sobre o primeiro dia de folga não havia pensado.

Desde 1943, quando o então presidente Getúlio Vargas se empenhou em aprovar a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) os principais direitos dos trabalhadores, os brasileiros sofrem de um salutar “problema” chamado Tensão Pré-férias. Em suma, TPF é aquela dose extra de ansiedade percebida nos dias que antecedem o merecido descanso após um ano todo de trabalho duro. É um momento oportuno para passar mais tempo com a família, colocar a leitura em dia, passear com o cachorro - ou mesmo de ir ao parque para ver as moças dando uma volta com o melhor amigo -, ir mais ao cinema e, por que não, de viajar.

- Quer saber, acho que não vou fazer nada no primeiro dia de férias.
- Então você terá um dia sem relógio - concluiu a namorada.
- Isso mesmo. Sem despertador, sem régio de pulso, sem internet. Talvez desligue até o celular.

Dormiria até o sono acabar e quebraria o despertador se ele ousasse tocar por engano. No primeiro dia de férias, poderia até correr no Parque do Ingá, o que costumo fazer quando tenho tempo, mas isso só no caso de cansar de tanto zapear na TV a cabo recém-instalada. Vi na programação que um dos canais de filmes passaria Avatar, porém, duvido que a opção dublada e na telinha de 21 polegadas de meu velho televisor, sem os efeitos em 3D, valha a pena.

- Deixa eu retornar para o trabalho que ainda preciso fechar uma matéria antes das férias.
- Te vejo no fim de semana?
- Claro, desde que cozinhe algo gostoso pra mim - disse, já imaginando o suculento pernil de porco que ela prepara como poucos.

Minha última matéria do ano foi sobre a falta de investimentos do poder público em transportes alternativos. Entre os entrevistados, falei com um professor de Geografia da Universidade Estadual de Maringá que, tendo carro e moto na garagem, prefere ir ao trabalho de bicicleta. Diz o professor que alunos da graduação e colegas do doutorado, possivelmente influenciados pelo convívio com ele, também adotaram a bicicleta como meio de transporte. Fiquei entusiasmado e passei a cogitar, seriamente, comprar uma magrela dez marchas para começar 2011 com mais saúde.

Ciclovias à parte, aproveitei o último dia no jornal para checar os colegas quais deles gostariam de participar da “vaquinha” para comprar uma cachaça das boas, dessas de procedência mineira e que na Europa é vendida por mais de 50 euros. Levaria o presente dos amigos da redação para Geordano, ex-infografista do jornal que hoje reside em Lima, no Peru. Passaria as férias por lá e, sem precisar gastar com hotel, o mínimo que poderia fazer é levar um bom presente.

Ouvi falar, algumas vezes, que crente não bebe porque a ingestão de bebidas alcoólicas é pecado. Espero que pinga não esteja nessa lista, porque não quero que ninguém vá para o inferno por minha culpa. Aliás, uma amiga me advertiu a no Peru preferir a palavra cachaça. Fiquei curioso, óbvio. Parece que na terra dos incas “pinga” é o nome popular dado ao órgão sexual masculino. Ao menos na frente de quem acha que vai para o inferno por causa de álcool e sexo, nada de pinga no Peru. Do pernil de porco, porém, não abro mão.
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27 de novembro de 2010

Vacina contra febre amarela

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Para quem tem sofrido de TPF (Tensão Pré-férias) nos últimos dias, chegar à redação e ver sobre a mesa o guia de viagem sobre o Peru ajudou a conter a ansiedade. Comprado com bom desconto na internet, o guia trouxe uma informação relevante sobre vacinação: "brasileiros que viajam ao Peru precisam tomar a vacina contra febre amarela, que deve ser aplicada com antecedência de DEZ DIAS antes da viagem".

Brasileiros não precisam de visto para permanência inferior a 90 dias no Peru, porém, sem a vacina contra febre amarela o estrangeiro não desembarca no País vizinho. Até aí tudo bem, o detalhe que desconhecia era essa antecedência de dez dias antes do embarque. Faltando 15 dias para a viagem, apanhei a carteirinha de vacinação e corri para o posto de saúde mais próximo.

Oi. "Vou viajar para fora do País e preciso tomar a vacina contra febre amarela — disse à atendente do posto de saúde, sem precisar esperar muito tempo na fila. O serviço público de saúde em Maringá pode ser considerado ótimo se comparado com o das capitais ou, ainda, das cidades mais pobres do País.

Preciso do teu cartão do SUS e da carteirinha de vacinação — respondeu a atendente.

Nunca tive cartão do SUS e a carteirinha de vacinação eu perdi. Só tenho essa aqui da gripe suína — informei. Havia passado a madrugada procurando o cartão antigo, aquele com o registro das vacinas que tomei desde a infância e que me salvaria da agulhada. Sem êxito na busca, havia me preparado psicologicamente para a injeção. Enquanto fazia meu registro no SUS, a atendente questionou:

Essa aqui é sua carteirinha de vacinação?
Sim.
E cadê o registro das demais vacinas?
Ah, eu perdi aquela carteirinha. Só tenho essa da gripe suína.
Então você vai precisar tomar TODAS as vacinas de novo — informou ela, causando-me repentino frio na espinha.
Só preciso da vacina contra febre amarela para entrar no Peru. Não preciso de TODAS.
Mas pra gente te dar o atestado de vacina, você vai ter de tomar TODAS de novo — reforçou a atendente.

TODAS significava ser imunizado também contra tétano, hepatite B e tríplice viral (sarampo, rubéola e caxumba). Não tinha jeito, porque sem o atestado de vacina não conseguiria no aeroporto a carteirinha internacional de vacinação, que normalmente é cobrada no desembarque em países com florestas, entre eles o Peru. Meu "visto", então, seria na pele e não no passaporte.

Como você foi perder sua carteirinha — disse a enfermeira, já na sala de vacinação.
Perdi este ano, na última mudança que fiz.
Mas tua carteira de identidade você não perdeu, não é mesmo?
Verdade — lamentei o desleixo, enquanto reparava a enfermeira preparando a primeira das quatro vacinas. Mil vezes uma agulhada do que aquela broca estridente do dentista. De certa forma, essa comparação servia de consolo.

Agora você vai precisar tomar TODAS as vacinas de uma vez. Você tem medo de injeção?
Normalmente não, mas vim preparado psicologicamente para uma vacina, não para quatro!
Acho melhor você não olhar — advertiu a enfermeira.
Fica tranquila que eu não desmaio. Já fui doador de sangue.
Não é mais?
Não. Desisti depois que me falaram que meu tipo de sangue (A+) é muito comum.

Subcutâneas, as duas primeiras agulhadas foram no antebraço: febre amarela no esquerdo e tríplice viral, no direito. Foi indolor. A injeção seguinte, da vacina contra hepatite B, assustou.

Por que essa agulha é tão maior do que as outras?
A de hepatite B é maior mesmo — respondeu a enfermeira, enquanto aplicava a injeção no braço direito, sem dó. — Essa é no músculo — detalhou.
No músculo... sei. Essa aí foi no osso — reclamei.

O pior estava por vir. A vacina contra tétano, historicamente relatada como a mais doída, ficou reservada para o braço esquerdo. Mui amiga, a enfermeira não escondeu o jogo e foi logo falando:

A de tétano dói mais.
Sei bem, já fui apresentado a ela no passado.
Relaxa o braço senão é pior.
CARA%$@ — exclamei. — Por acaso tem pimenta nessa vacina?
Você até que foi corajoso. A maioria não consegue olhar para a agulha e tem até casos de gente que desmaia. 
Não faz mal tomar tantas vacinas de uma vez só? — indaguei.
Mal não faz, mas talvez você sinta um mal-estar à noite, por causa da carga viral.

Não deu outra: à noite cabeça ficou pesada e o corpo mole trouxe o sono mais cedo do que o normal. Doze horas depois, a vacina "de pimenta" contra tétano ainda causava algum desconforto. O pior foi saber que nos próximos dois meses terei de tomar a segunda e terceira doses da vacina contra hepatite B, aquela aplicada no "osso" – "salvo em caso de gravidez ou acidentes graves", conforme consta do atestado de vacina. Logo, vou me cuidar para não ficar grávido e para não ser atropelado, o que não é difícil de acontecer nas "pistas" de Maringá.

Agora, está tudo certo para a viagem de férias ao Peru. Contudo, fica a dica: perca a carteira de identidade, mas, NUNCA, a carteirinha de vacinação.
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18 de novembro de 2010

Minhas férias...

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Redação quase sempre foi meu ponto forte nos tempos de colégio e, sendo assim, conseguia um bom desempenho nos vestibulares – mesmo com os 90% de erros nas questões de química. Embora a afinidade com as letras, havia algo que muito me incomodava nas aulas de língua portuguesa: a bendita-redação-anual sobre "minhas férias". Um porre! Mais porre até do que a tabela periódica - da qual só sei decor a localização e símbolo do hidrogênio.

Além da certeza de que as professoras não liam revistas de viagem e turismo, tinha minhas dúvidas se elas, de fato, liam todos aqueles textos repletos de falta de acentos, crases, vírgulas e, claro, desprovidos de criatividade. Ao invés de relatar minhas férias nos campinhos de várzea de Pato Branco – ou diante da televisão, nos dias de chuva, jogando Enduro no Atari –, preferia escrever sobre minhas viagens fake à Cidade Maravilhosa e ao Cristo Redentor, às praias nordestinas, sobre o Natal com neve em Nova York e muito mais, sempre inspirado em exemplares da revista National Geographic de minha mãe.

As professoras sabiam que eu não era burguês. Não parecia um burguês, meus pais tinham carro usado e meus tênis não eram caros, desses de marca. No 2º grau, tinha uma calculadora científica simples, enquanto os burgueses de verdade tinham calculadoras HP. Talvez as boas notas nas redações sobre "minhas férias" fossem pela criatividade ou, quem sabe, pelo fato de eu, já na adolescência, empregar razoavelmente bem as vírgulas. Um colega, que mais tarde veio a se formar em Processamento de Dados, sempre reclamava: "por que a professora não pede uma redação sobre eu e minhas primas?" Ele comia bem e ainda reclamava. O colega não conhecia o mar e nunca viajava nas férias, mas tinha primas gostosas.

Nas férias, numa época em que internet era quase ficção científica, os jogos de tabuleiro estavam entre os passatempos prediletos de meu irmão do meio e eu. Num deles, ganhava quem desse a volta ao mundo primeiro, administrando a verba da viagem entre viagens de avião, trem, navio e ônibus. Perdia quem torrasse o dinheiro sem completar o roteiro, apontado por carta sorteada do baralho.

Lembro-me de uma de minhas vitórias, que passou por Machu Picchu e terminou na Alemanha. Influência do jogo de tabuleiro ou não, cresci com o sonho de viajar à Europa e de conhecer as montanhas sagradas dos incas, nos Andes peruanos.

Entre 2006 e 2007, pude realizar um desses sonhos. Tive o privilégio de ser selecionado para um intercâmbio profissional, na emissora pública Deutsche Welle, e de morar quase cinco meses em Bonn, na Alemanha. Retornei da Europa com 25 anos de idade e o desejo de me preparar para, antes de completar 30 anos, fazer outra viagem marcante. Da promessa feita a Geordano, ex-colega de jornal e grande amigo, de que o visitaria em Lima, veio a recordação do sonho dos tempos de colégio: conhecer Machu Picchu.

No feriado da Proclamação da República, depois de pesquisar sobre o Peru e de conversar a respeito com uma amiga que já esteve em Machu Picchu, tomei coragem e escolhi um voo. Com bom representante da dita geração Y, comprei as passagens em uma agência de viagens na internet. Com o dólar desvalorizado, saiu em conta: São Paulo a Lima (ida e volta) por R$ 774, incluídas taxas de embarque, parcelado em cinco vezes sem juros.

Farei a viagem para Machu Picchu em dezembro, três meses antes de completar 30 anos. Um presente de mim para mim mesmo, sobre o qual terei prazer de escrever a respeito. Pela primeira vez, a redação sobre "minhas férias" não será um incômodo e, o melhor de tudo, não precisarei recorrer à revista da National Geographic.
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3 de abril de 2009

O Pólo Norte, o bilhete e o fim das férias

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Pelo posicionamento dos dois aparelhos de ar-condicionado, minha mesa fica no ponto mais frio da redação de O Diário do Norte do Paraná. Por isso, batizei meu posto operacional de "Pólo Norte".

Ainda antes de sair para as melhores férias da eternidade, aproveitadas em março, dei uma ajeitada no Pólo Norte. Deixei a mesa limpa como nunca, cheirando a álcool, para o caso de algum colega precisar de meu computador. Ninguém precisou dele, mas uma repórter-vizinha me relatou que, certa vez, outra repórter-vizinha utilizou meu telefone.

Antes de viajar, deixei três bilhetes desses que os jornalistas costumam colar nos monitores. Num deles, para quem se interessasse em ler, escrevi em vermelho: "...logo, logo volto do litoral de SC, da Serra Gaúcha e de Pato Branco, claro!" A colega que precisou ligar de minha mesa leu o bilhete, e respondeu.

Ao retornar, em 1° de abril, estava o mesmo bilhete, no mesmo local, com dizeres acrescentados a lápis: "volta logo... você está fazendo falta. Beijos".

Que bom saber que alguém encarou o Pólo Norte em minhas férias, que bom voltar e saber do apreço de alguns colegas de profissão pela minha pessoa. É impressionante como pequenos gestos têm a capacidade de gerar alegria, felicidade. As palavras da colega, as quais não pude agradecer por estar ela de férias, foram como um combustível de ânimo no retorno ao trabalho.

Estava com saudade da redação, dos telefones tocando, dos "tec-tecs" nos teclados, do ritmo agitado regado a cafezinho, das discussões com os colegas... Pode parecer insano, mas estava com saudade do trabalho. "Se meu hobby é escrever, não tenho direito de reclamar do que faço para ganhar a vida", pensei, nos primeiros minutos na volta à redação.

Agora, vamos ver se tiro proveito do hobby para atualizar este tímido blog. Na viagem que fiz com meu irmão do meio - mais de 2 mil quilômetros rodados em sete dias - parei no terceiro dia. Dei uns dias de férias ao Blog do LF, mas vou relatar daqui para frente o restante daquela viagem. Começo, meio e fim.

Convido os amigos a lerem o blog. Agradeço os leitores pelas postagens e a chefia do jornal pela aposta em mim. É por isso que sigo postando de Maringá, a mais encantadora cidade do Paraná.

Clique na foto para ampliar (e observe a "placa" mencionando o "Pólo Norte").
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4 de março de 2009

O sangue do escolhido

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A manhã de domingo era de sol e céu azul, com uma brisa suave que favorecia a consagrada rodinha de amigos na principal cafeteria de Pato Branco, a "boca maldita" da cidade. A viagem de férias, programada para dali alguns dias, era o assunto principal da conversa - inspirada por pequenos goles de café expresso com creme - entre meu irmão do meio e eu.

De dentro da cafeteria, onde também se vendem livros e revistas, podíamos ver o movimento do lado de fora (de veículos e de pessoas), na primeira quadra da Rua Guarani, o metro quadrado mais caro de Pato Branco. Em áreas importantes assim, a ronda policial costuma ser frequente e a criminalidade, o contrário. Não foi isso que se viu naquela manhã.

A calmaria foi quebrada quando um deficiente mental, figura conhecida e benquista dos clientes mais assíduos da cafeteria, correu para perto da entrada do estabelecimento para buscar ajuda. Um piscar de olhos mais tarde, surgem outros dois loucos, ambos maltrapilhos. Um deles, loiro e descabelado, dizia: "é ele que você tem de matar". Aquele que supostamente fora encarregado de matar, um sujeito moreno e impregnado pela sujeira e por um odor nada agradável, gritava: "eu sou o Diabo".

O "Diabo" ficou só no grito, como se quisesse intimidar a todos. Foi o loiro-louco que agiu ao partir para cima do louco do bem, amigo dos clientes. Agarrou-o com as mãos, uma no pescoço e outra no rosto, enquanto os funcionários ligavam para a polícia e alguns fregueses davam os primeiros passos no intuito de apartar a briga.

Ao ser esganado, o louco do bem aplicou uma mordida de pit bull no dedo do agressor, quase causando uma amputação. A Polícia Militar já tinha sido acionada naquele momento. O loiro-louco, transtornado ao ver jorrar sangue do dedo indicador de sua mão direita, passou a esbravejar: "vocês tiraram o sangue do escolhido". E quanto mais as pessoas riam da situação e das frases desconexas, mais o louco repetia que tinham tirado o sangue dele, um "escolhido", e que vingança seria feita.

Devia se tratar de um escolhido do "Diabo", já que tomando as dores do amigo louco, seu comparsa ajuntou duas pedras (grandes, por sinal) para atirar contra a pequena multidão, que observava o lamentável episódio a uma distância de cerca de 25 metros. A primeira investida acertou na parede de um hotel vizinho ao tumulto, a segunda no vidro e no retrovisor do gol branco de um dos clientes.

Ao ver que tinha feito besteira, o louco que dizia ter o Diabo no corpo, deu no pé com medo de ser preso. O louco "escolhido" se afastou sem pressa, "berrando" para todos ouvirem que ele era, óbvio, o escolhido - devia ter sido eleito em alguma votação no hospício de onde havia fugido. A clientela ficou revoltada, alguns cogitaram correr atrás do "Diabo" e aplicar, como se diz em alguns cantões do Paraná, uma "camaçada de pau" nele. Mas ninguém ousou tanto, tendo em vista o risco de levar uma pedrada.

Fiquei com meu irmão ali, reparando a cena de uma distância segura e, mais tarde, checando os estragos das pedradas na parede do hotel e também no veículo. Ficamos no local também por curiosidade, para saber se os loucos agressores seriam detidos. Como em tantas outras cidades brasileiras, em Pato Branco não foi diferente, a polícia chegou ao local apenas quase 20 minutos mais tarde, com o velocímetro da viatura bem pouco empolgado.

Da viatura da PM, desembarcaram dois policiais rechonchudos, um deles bem acima do peso para quem pode, eventualmente, ter de perseguir algum bandido em fuga. O outro, embora não tão gordo nem tão baixo, já aparentava idade para se aposentar. Olhei para meu irmão e disse: "já vi demais por hoje". Embarcamos no carro dele e fomos embora, deixando o último gole do café expresso esfriando na xícara.


23 de fevereiro de 2009

Um orkut para Daibert

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"E aí Sudoeste", exclamou a colega repórter Juliana Daibert, com um abraço gostoso, depois de passar um mês longe da redação de O Diário, em férias - rodando esse Brasil de moto com o marido. Depois que ela descobriu que Pato Branco se autointitula a capital do Sudoeste do Paraná, é assim que ela me chama, sempre enfatizando o E para zoar do sotaque pato-branquense.

Daibert fez falta na redação de O Diário, não apenas pelo fato de ser a repórter setorista de saúde - e escrever com propriedade ímpar sobre o assunto -, mas pela paz de espírito que ela transmite. Trata-se de uma pessoa do bem, isenta de falsidade e leal a seus princípios. Sempre que preciso espairecer, ou desabafar sobre um entrevistado que me tirou do sério, corro na mesa dela trocar meia dúzia de palavras. E por lá, volta e meia, encontro torradinhas com mel.

Vou lhes contar quem é Daibert.

Passei maus bocados no final do primeiro semestre de 2008, na ocasião da minha separação. Sem condições psicológicas para o trabalho, desabafei com o ex-chefe de reportagem de O Diário, Rodrigo Parra, e dele recebi todo o apoio - como se fosse vindo de um irmão mais velho. Fiquei alguns dias sem ir ao jornal e sem falar com mais ninguém a respeito.

Estava em casa, reflexivo, solitário, quando recebi um telefonema de Daibert, que queria saber se eu estava bem e se precisava de alguma coisa. A demonstração de coleguismo foi importante naquele momento de dificuldade e, penso, talvez ela nem saiba disso. Depois de Parra, ela foi a primeira pessoa (fora a família) a quem contei meus problemas. Não tenho irmãs (e sim dois irmãos, mais novos), mas se tivesse gostaria que fosse da mesma "madeira" de Daibert.

Muitos a admiram e clamam a presença dela no orkut, rede de relacionamento que gosto de definir como "a perda de tempo mundial". Contudo, a jornalista que chegou a pegar os tempos da máquina de escrever nas redações, reluta contra o avanço das coisas virtuais. Certo é que Daibert terá de ceder, cedo ou tarde. E na campanha para que isso aconteça, criei a comunidade "Um orkut para Daibert". Não era dono de nenhuma comunidade, nem queria ser, mas para ter Daibert como amiga, também no orkut, tive de abrir uma exceção.
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Daibert em dois momentos na confraternização de fim de ano de O Diário: com o "Sudoeste" e com algumas das meninas da redação.
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10 de fevereiro de 2009

Para marcar a mente e o coração

Dream Theater no som do carro, bagagem no porta-malas, máquina fotográfica sempre ao alcande das mãos, pneus calibrados, roteiro da viagem na cabeça - para ser feita sem pressa -, óculos escuros para dar um charme. Uma semana para marcar a mente e o coração.

Será na semana em que completo 28 anos a viagem que farei com meu irmão do meio (Eduardo, 26, que costumo chamar simplesmente de Piá), ambos de férias, para rachar o combustível, dar boas risadas juntos, compartilhar bons momentos. Uma viagem que um devia ao outro, desde sempre, e que será paga agora, em março.

Sem pais nem parentes nem amigos nem namoradas nem música sertaneja por perto, só irmãos de sangue - tipo A+ os dois, registre-se.

Uma viagem que valeria a pena mesmo se não tivesse rumo, se só chovesse, se faltasse gasolina no meio da estrada... mas os destinos a gente já tem em mente: Bombinhas, Florianópolis, Beto Carrero e Serra Gaúcha. Isso significa, em outras palavras, tostar a pele ao sol, cansar de caminhar nas dunas, ficar rouco de tanto gritar na montanha-russa e, sem cerimônia, beber (moderadamente, claro) onde se produz o melhor vinho do Brasil.

Perguntaram-me: "se o Ronaldo fizer o jogo de estreia em Presidente Prudente (a apenas 175 quilômetros de Maringá), você pretende ir até lá assistir". Sem pensar muito, respondi: "Não será possível, estarei acompanhado de alguém muito mais importante naquele dia (8 de março). E fazendo algo bem mais divertido".

As férias só podem ser melhores se o irmão caçula (João Paulo, 20, que eu chamo de Nanico e que o Eduardo chama de Magrão) conseguir folga no trabalho e, assim, confirmar presença. Vai ser demais. E DEMAIS, numa situação dessas, não é exagero.

Na foto: Piá, LF e Nanico com Dona Clacy e Seu Luiz. Clique nela para ampliar.