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4 de setembro de 2009
Vinte dias com Angela
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Era inverno. Pelo que sugere a estação, devia estar frio, mas, na prática, o calor daquele início de tarde, em Maringá, permitia ficar a vontade com pouca roupa. O desconforto não estava no clima, tampouco no pagode de quinta que tocava no alto-falante da rodoviária e, sim, no atraso em quase duas horas do ônibus da linha Palmas-TO/Santa Maria-RS. Foi na longa espera, de causar raiva, que Angela notou Francisco pela primeira vez.
Quase 30, quase 1,80m, quase careca, quase desmaiado de sono - pela insônia da noite anterior -, Chico nunca teve panca de galã. Era do tipo que, com alguma frequência, passava despercebido nas festas. Porém, de jeans, camiseta, boné, óculos escuro e, sobretudo, tênis All Star, ele pareceu interessante aos olhos dela. Há pesquisas que afirmam que uma mulher, quando não está comprometida, repara da cabeça aos pés em até sete homens que a atraem, todo dia. Por sorte - no dicionário dele "destino" e no dela, "acaso" - Chico havia entrado na lista de bem-apessoados na avaliação da moça com não mais de 20, cinturinha de modelo, cabelos curtos e pele lisa.
A troca de olhares, do tipo capaz de causar frio no estômago e calor abrupto em outras partes, aconteceria instantes mais tarde e eles, solteiros, aproveitariam cada instante da oportunidade concedida pelo acaso - ou pelo destino. Se a vida fosse como no cinema ou nas novelas, pelo início da história, Francisco e Angela passariam por dificuldades para ficar juntos e, no final, viveriam felizes para sempre. Na vida real, não foi isso que a história reservou para eles, não em uma trama que envolve também um sujeito chamado Humberto - guarde bem esse nome!
Chico não costuma ser um cara apressado, mas o sono que tanto o torturava o fez ser o primeiro a despachar a mala para, o quanto antes, tomar seu lugar na poltrona 3 do ônibus. Já havia se acomodado quando decidiu buscar água no final do corredor, antes de cair no sono. Ao se levantar, seus olhos brilharam para Angela, que se sentaria na poltrona 4, ao lado da sua. Ele custava a acreditar na bondade divina. Toda vida teve problemas com "vizinhos" de viagem e, desta vez, parecia que a sorte estava a fim de compensá-lo. Angela ajeitava a mochila no bagageiro interno quando ouviu a pergunta:
- Vou ali ao fundo buscar água, posso trazer para ti também? - disse Chico, certo de que ela aceitaria e, mais, que gostaria da atitude. Ser gentil com aquela desconhecida jovem foi mais que um ato de cavalheirismo, em uma situação como aquela foi uma oportunidade, bem aproveitada, de quebrar o gelo.
Ela aceitou e, pelo sorriso ainda inibido, demonstrou ter curtido a atitude. Gaúcha, atraída a Maringá pelos estudos na universidade estadual, notou algo familiar no sotaque de Chico. Neto de gaúchos e repórter do maior jornal de Maringá, ele passaria o fim de semana em sua terra natal, Pato Branco, no sudoeste do Paraná. Uma cidade de colonização gaúcha que, bem por isso, é mais apegada aos costumes do Rio Grande do Sul do que do próprio Paraná.
Em férias na universidade, Angela passaria um mês na longínqua Alegrete, tão distante de tudo que um pouco além - bem pouco - fica o Uruguai. Ao lado dela, o sono de Chico passou de repente e ambos conversaram desde o copo d'água até o desembarque na "Capital do Sudoeste", que é a figura de linguagem utilizada pelos "nativos" para autoproclamar Pato Branco capital de alguma coisa. Nas 11 horas de viagem do trecho - que passaram como se fossem 2 horas - a estudante de Biologia e o repórter só interrompiam o bate-papo mediante apropriados e uníssonos "chiiiiiii" dos outros passageiros. Fora os dois, num ônibus sem televisores e sem filme para ajudar a passar o tempo, os demais queriam dormir.
Da turma do "chiiiiiii", quem não conseguiu pegar no sono ao menos ouviu boas histórias. Angela e Chico foram ecléticos e não economizaram saliva. Falaram sobre estudos, trabalho, religião, família, amigos, saudades da família e dos amigos, da cidade-natal, relacionamentos anteriores, sexo, drogas e rock and roll. Bate-papo que incluiu peculiaridades culinárias, como o fato de ambos gostarem de fígado de galinha e, mais que isso, saberem cozinhar o prato ainda tão pouco apreciado. O assunto sobre o preparo do fígado foi, de longe, o que mais recebeu pedidos de silêncio. Quando eles falaram de sexo e relacionamentos, porém, ninguém no ônibus se manifestou. Curiosidade, talvez.
Na afinada troca de palavras, o tom de voz e os olhares trocados na penumbra sinalizavam que o encontro daquele casal - unido por uma força maior ou por força nenhuma - teria um segundo tempo, de muitos gols. Na primeira despedida, nada de beijo, apenas um olhar prolongado e silencioso, repleto de boas e "más" (no melhor sentido da palavra) intenções. No desembarque em Pato Branco, numa madrugada de céu estrelado, com temperatura na casa dos 10°C, o indiscreto motorista perguntou:
- E aí, companheiro, pegou o telefone da moça? - Chico respondeu com um desinibido sorriso, de modo a dispensar as palavras. Angela ouviu o que dissera o motorista, de dentro do ônibus, enquanto observava o repórter apanhar sua bagagem. Também sorriu, embora um pouco envergonhada, menos pela curiosidade do motorista, mais por notar que todos os demais passageiros estavam em silêncio. Ou dormiam ou, acordados, tinham ouvido pormenores da conversa.
O jovem de Pato Branco havia esquecido de pedir o telefone da guria de Alegrete. O que na geração de seus pais teria sido um problema, na deles era um mero detalhe. Chico tomou nota do endereço de email, do MSN e do orkut de Angela, tudo para se certificar de que eles não perderiam contato. A bela de corpo delgado abanou com a mão esquerda assim que o ônibus partiu, já na expectativa de receber o primeiro email - que não demoraria a ser enviado.
Angela nunca acreditou em simpatias, porém, o encontro no ônibus a deixou pensativa. Seria possível que, mesmo com sua falta de fé, uma simpatia desse certo? No dia de Santo Antônio, na paróquia homônima em Maringá, a gaúcha comprara 12 pedaços de bolo para ela, as primas e os tios, com quem mora desde que ingressou na universidade, três anos antes. Reza a lenda que encontrar uma medalhinha de Santo Antônio no bolo significa - para as solteiras - namorado à vista. Das fatias que comprara, Angela comera três e, apenas esses, continham as ditas medalhinhas no recheio.
Já em Alegrete, recordou-se do recorde da Paróquia Santo Antônio, que agora lhe pertencia e do qual preferia não se orgulhar: três pedaços de bolo, três medalhinhas. E se, por acaso, a simpatia providenciasse a ela um namorado trilegal? Tentando se manter incrédula, seguiu trocando emails com Chico, todos os dias, até o dia em que seus olhares tornassem a se encontrar.
O reencontro foi em um banco de concreto com formato de onça-pintada, diante da entrada principal de um shopping de Maringá. Trocaram mimos - lembrancinhas, como se diz no Rio Grande -, beijos não. Não ali, diante de um conglomerado de lojas, de uma plateia de desconhecidos, da onça inanimada. Não antes de um passeio a dois, pelas ruas arborizadas da cidade. Não sem antes brindar o momento com chope gelado e música ao vivo. Sob a bênção de um céu estrelado, sem Lua, mas com outra longa e descontraída conversa, ele a acompanhou até a casa dos tios.
Chico sabia que seria correspondido. Angela sabia que bastava se virar de costas para ele, para ser abraçada e beijada no pescoço, antes do presumível beijo de cinema. Foi o primeiro grande momento de um romance que, já foi dito, não terminaria com o batido "e viveram felizes para sempre" e que teria ainda a figura de Humberto - repito: guarde bem esse nome!
Combinaram de ir ao parque, na tarde seguinte, caso fizesse sol. Contudo, a previsão era de chuva. E do céu derramou água, mas Chico foi ao encontro de sua gaúcha, com seu possante 1.0, mesmo assim. Questionou o que faria, pois chovia, e recebeu de Angela a melhor resposta:
- Com o tempo ruim assim, já era o passeio no parque - disse a bióloga.
- O que você sugere? - questionou o rapaz.
- A gente poderia ver um filme em sua casa - respondeu Angela, sem delonga. Para Chico, que morava sozinho, a ideia foi brilhante.
A gaúcha e o paranaense não combinavam em muita coisa, aliás, combinavam bem pouco. Ele, cristão protestante; ela, católica nada praticante. Ele, sonhador; ela, pés no chão. Ele, favorável à liberalização da maconha, embora nunca tivesse experimentado; ela, contrária à descriminalização, ainda que conhecesse os efeitos da Cannabis. As diferenças eram gritantes, mas um bom filme, sem pressa, eles curtiam muito assistir juntos. No segundo grande momento, beberam vinho. Bom esclarecer, não era um vinho qualquer.
Certa vez, na redação do jornal, Chico foi presenteado por Humberto - olha ele aí -, seu editor, com um chileno Santa Helena. Uma retribuição a um vinho que trouxera para o amigo de uma vinícola que visitara durante as férias, na Serra Gaúcha. Em uma comprometida troca de olhares, e admirado com a beleza de Angela, o pato-branquense se lembrou da sábia recomendação de Humberto.
- Deguste esse vinho com alguém especial, que faça por merecer cada gole - disse o experiente editor. Pela intensidade do encontro, Chico não tinha dúvidas: Angela fizera por merecer cada gota do fruto da videira. E foram vários goles, de modo a faltar tempo para o filme, no sentido literal da palavra. Quem dera durasse para sempre, porém, aos dois, nenhum ditado serviu tão bem quanto este: "os dispostos se atraem e os opostos se distraem". A gaúcha e o paranaense eram como água e óleo e, por consequência, não estavam verdadeiramente atraídos, mas, sim, se distraindo.
Tal como na noite do primeiro beijo, 20 dias depois, estavam novamente numa mesa de bar, frente a frente, mas já não tão próximos. Desta vez, o encontro era para desmanchar o namoro. No meteórico romance, Angela não se sentia como Julieta, tampouco Francisco como Romeu. Faltava a paixão genuína, o "combustível" sem o qual não é possível chegar ao amor. Deveriam insistir no namoro e desistir da busca pelo verdadeiro amor? A pergunta que não quis calar, calou sem dó o relacionamento recém-iniciado.
Angela se foi, sem dizer adeus. Chico, em busca de consolo, foi contar a história a Humberto. Experientes escritores, como ele, entendem bem os dramas da vida e do coração e, por isso, têm a palavra certa para quando um romance acaba.
- Você aproveitou bem o vinho, naquela noite? - quis saber Humberto. Ainda cabisbaixo, Chico respondeu que sim, que o vinho não tinha sido em vão. - É isso que importa. Levanta a cabeça e vai beber outro vinho, com outra companhia especial - sentenciou o amigo editor.
Feliz por ter conhecido Angela, e sem saber onde está sua Julieta, Chico levantou a cabeça, pensou no próximo vinho, e tocou o barco. Mais decidida do que ele no término do namoro, Angela seguiu com uma dúvida cruel: seria o amor de anos antes o Romeu que ela viu ir embora, sem se despedir? Ambos, em caminhos distintos, ajudados pelo destino - ou pelo acaso -, seguem em busca de uma paixão genuína, para escrever uma história que termine com "felizes para sempre".
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Era inverno. Pelo que sugere a estação, devia estar frio, mas, na prática, o calor daquele início de tarde, em Maringá, permitia ficar a vontade com pouca roupa. O desconforto não estava no clima, tampouco no pagode de quinta que tocava no alto-falante da rodoviária e, sim, no atraso em quase duas horas do ônibus da linha Palmas-TO/Santa Maria-RS. Foi na longa espera, de causar raiva, que Angela notou Francisco pela primeira vez.
Quase 30, quase 1,80m, quase careca, quase desmaiado de sono - pela insônia da noite anterior -, Chico nunca teve panca de galã. Era do tipo que, com alguma frequência, passava despercebido nas festas. Porém, de jeans, camiseta, boné, óculos escuro e, sobretudo, tênis All Star, ele pareceu interessante aos olhos dela. Há pesquisas que afirmam que uma mulher, quando não está comprometida, repara da cabeça aos pés em até sete homens que a atraem, todo dia. Por sorte - no dicionário dele "destino" e no dela, "acaso" - Chico havia entrado na lista de bem-apessoados na avaliação da moça com não mais de 20, cinturinha de modelo, cabelos curtos e pele lisa.
A troca de olhares, do tipo capaz de causar frio no estômago e calor abrupto em outras partes, aconteceria instantes mais tarde e eles, solteiros, aproveitariam cada instante da oportunidade concedida pelo acaso - ou pelo destino. Se a vida fosse como no cinema ou nas novelas, pelo início da história, Francisco e Angela passariam por dificuldades para ficar juntos e, no final, viveriam felizes para sempre. Na vida real, não foi isso que a história reservou para eles, não em uma trama que envolve também um sujeito chamado Humberto - guarde bem esse nome!
Chico não costuma ser um cara apressado, mas o sono que tanto o torturava o fez ser o primeiro a despachar a mala para, o quanto antes, tomar seu lugar na poltrona 3 do ônibus. Já havia se acomodado quando decidiu buscar água no final do corredor, antes de cair no sono. Ao se levantar, seus olhos brilharam para Angela, que se sentaria na poltrona 4, ao lado da sua. Ele custava a acreditar na bondade divina. Toda vida teve problemas com "vizinhos" de viagem e, desta vez, parecia que a sorte estava a fim de compensá-lo. Angela ajeitava a mochila no bagageiro interno quando ouviu a pergunta:
- Vou ali ao fundo buscar água, posso trazer para ti também? - disse Chico, certo de que ela aceitaria e, mais, que gostaria da atitude. Ser gentil com aquela desconhecida jovem foi mais que um ato de cavalheirismo, em uma situação como aquela foi uma oportunidade, bem aproveitada, de quebrar o gelo.
Ela aceitou e, pelo sorriso ainda inibido, demonstrou ter curtido a atitude. Gaúcha, atraída a Maringá pelos estudos na universidade estadual, notou algo familiar no sotaque de Chico. Neto de gaúchos e repórter do maior jornal de Maringá, ele passaria o fim de semana em sua terra natal, Pato Branco, no sudoeste do Paraná. Uma cidade de colonização gaúcha que, bem por isso, é mais apegada aos costumes do Rio Grande do Sul do que do próprio Paraná.
Em férias na universidade, Angela passaria um mês na longínqua Alegrete, tão distante de tudo que um pouco além - bem pouco - fica o Uruguai. Ao lado dela, o sono de Chico passou de repente e ambos conversaram desde o copo d'água até o desembarque na "Capital do Sudoeste", que é a figura de linguagem utilizada pelos "nativos" para autoproclamar Pato Branco capital de alguma coisa. Nas 11 horas de viagem do trecho - que passaram como se fossem 2 horas - a estudante de Biologia e o repórter só interrompiam o bate-papo mediante apropriados e uníssonos "chiiiiiii" dos outros passageiros. Fora os dois, num ônibus sem televisores e sem filme para ajudar a passar o tempo, os demais queriam dormir.
Da turma do "chiiiiiii", quem não conseguiu pegar no sono ao menos ouviu boas histórias. Angela e Chico foram ecléticos e não economizaram saliva. Falaram sobre estudos, trabalho, religião, família, amigos, saudades da família e dos amigos, da cidade-natal, relacionamentos anteriores, sexo, drogas e rock and roll. Bate-papo que incluiu peculiaridades culinárias, como o fato de ambos gostarem de fígado de galinha e, mais que isso, saberem cozinhar o prato ainda tão pouco apreciado. O assunto sobre o preparo do fígado foi, de longe, o que mais recebeu pedidos de silêncio. Quando eles falaram de sexo e relacionamentos, porém, ninguém no ônibus se manifestou. Curiosidade, talvez.
Na afinada troca de palavras, o tom de voz e os olhares trocados na penumbra sinalizavam que o encontro daquele casal - unido por uma força maior ou por força nenhuma - teria um segundo tempo, de muitos gols. Na primeira despedida, nada de beijo, apenas um olhar prolongado e silencioso, repleto de boas e "más" (no melhor sentido da palavra) intenções. No desembarque em Pato Branco, numa madrugada de céu estrelado, com temperatura na casa dos 10°C, o indiscreto motorista perguntou:
- E aí, companheiro, pegou o telefone da moça? - Chico respondeu com um desinibido sorriso, de modo a dispensar as palavras. Angela ouviu o que dissera o motorista, de dentro do ônibus, enquanto observava o repórter apanhar sua bagagem. Também sorriu, embora um pouco envergonhada, menos pela curiosidade do motorista, mais por notar que todos os demais passageiros estavam em silêncio. Ou dormiam ou, acordados, tinham ouvido pormenores da conversa.
O jovem de Pato Branco havia esquecido de pedir o telefone da guria de Alegrete. O que na geração de seus pais teria sido um problema, na deles era um mero detalhe. Chico tomou nota do endereço de email, do MSN e do orkut de Angela, tudo para se certificar de que eles não perderiam contato. A bela de corpo delgado abanou com a mão esquerda assim que o ônibus partiu, já na expectativa de receber o primeiro email - que não demoraria a ser enviado.
Angela nunca acreditou em simpatias, porém, o encontro no ônibus a deixou pensativa. Seria possível que, mesmo com sua falta de fé, uma simpatia desse certo? No dia de Santo Antônio, na paróquia homônima em Maringá, a gaúcha comprara 12 pedaços de bolo para ela, as primas e os tios, com quem mora desde que ingressou na universidade, três anos antes. Reza a lenda que encontrar uma medalhinha de Santo Antônio no bolo significa - para as solteiras - namorado à vista. Das fatias que comprara, Angela comera três e, apenas esses, continham as ditas medalhinhas no recheio.
Já em Alegrete, recordou-se do recorde da Paróquia Santo Antônio, que agora lhe pertencia e do qual preferia não se orgulhar: três pedaços de bolo, três medalhinhas. E se, por acaso, a simpatia providenciasse a ela um namorado trilegal? Tentando se manter incrédula, seguiu trocando emails com Chico, todos os dias, até o dia em que seus olhares tornassem a se encontrar.
O reencontro foi em um banco de concreto com formato de onça-pintada, diante da entrada principal de um shopping de Maringá. Trocaram mimos - lembrancinhas, como se diz no Rio Grande -, beijos não. Não ali, diante de um conglomerado de lojas, de uma plateia de desconhecidos, da onça inanimada. Não antes de um passeio a dois, pelas ruas arborizadas da cidade. Não sem antes brindar o momento com chope gelado e música ao vivo. Sob a bênção de um céu estrelado, sem Lua, mas com outra longa e descontraída conversa, ele a acompanhou até a casa dos tios.
Chico sabia que seria correspondido. Angela sabia que bastava se virar de costas para ele, para ser abraçada e beijada no pescoço, antes do presumível beijo de cinema. Foi o primeiro grande momento de um romance que, já foi dito, não terminaria com o batido "e viveram felizes para sempre" e que teria ainda a figura de Humberto - repito: guarde bem esse nome!
Combinaram de ir ao parque, na tarde seguinte, caso fizesse sol. Contudo, a previsão era de chuva. E do céu derramou água, mas Chico foi ao encontro de sua gaúcha, com seu possante 1.0, mesmo assim. Questionou o que faria, pois chovia, e recebeu de Angela a melhor resposta:
- Com o tempo ruim assim, já era o passeio no parque - disse a bióloga.
- O que você sugere? - questionou o rapaz.
- A gente poderia ver um filme em sua casa - respondeu Angela, sem delonga. Para Chico, que morava sozinho, a ideia foi brilhante.
A gaúcha e o paranaense não combinavam em muita coisa, aliás, combinavam bem pouco. Ele, cristão protestante; ela, católica nada praticante. Ele, sonhador; ela, pés no chão. Ele, favorável à liberalização da maconha, embora nunca tivesse experimentado; ela, contrária à descriminalização, ainda que conhecesse os efeitos da Cannabis. As diferenças eram gritantes, mas um bom filme, sem pressa, eles curtiam muito assistir juntos. No segundo grande momento, beberam vinho. Bom esclarecer, não era um vinho qualquer.
Certa vez, na redação do jornal, Chico foi presenteado por Humberto - olha ele aí -, seu editor, com um chileno Santa Helena. Uma retribuição a um vinho que trouxera para o amigo de uma vinícola que visitara durante as férias, na Serra Gaúcha. Em uma comprometida troca de olhares, e admirado com a beleza de Angela, o pato-branquense se lembrou da sábia recomendação de Humberto.
- Deguste esse vinho com alguém especial, que faça por merecer cada gole - disse o experiente editor. Pela intensidade do encontro, Chico não tinha dúvidas: Angela fizera por merecer cada gota do fruto da videira. E foram vários goles, de modo a faltar tempo para o filme, no sentido literal da palavra. Quem dera durasse para sempre, porém, aos dois, nenhum ditado serviu tão bem quanto este: "os dispostos se atraem e os opostos se distraem". A gaúcha e o paranaense eram como água e óleo e, por consequência, não estavam verdadeiramente atraídos, mas, sim, se distraindo.
Tal como na noite do primeiro beijo, 20 dias depois, estavam novamente numa mesa de bar, frente a frente, mas já não tão próximos. Desta vez, o encontro era para desmanchar o namoro. No meteórico romance, Angela não se sentia como Julieta, tampouco Francisco como Romeu. Faltava a paixão genuína, o "combustível" sem o qual não é possível chegar ao amor. Deveriam insistir no namoro e desistir da busca pelo verdadeiro amor? A pergunta que não quis calar, calou sem dó o relacionamento recém-iniciado.
Angela se foi, sem dizer adeus. Chico, em busca de consolo, foi contar a história a Humberto. Experientes escritores, como ele, entendem bem os dramas da vida e do coração e, por isso, têm a palavra certa para quando um romance acaba.
- Você aproveitou bem o vinho, naquela noite? - quis saber Humberto. Ainda cabisbaixo, Chico respondeu que sim, que o vinho não tinha sido em vão. - É isso que importa. Levanta a cabeça e vai beber outro vinho, com outra companhia especial - sentenciou o amigo editor.
Feliz por ter conhecido Angela, e sem saber onde está sua Julieta, Chico levantou a cabeça, pensou no próximo vinho, e tocou o barco. Mais decidida do que ele no término do namoro, Angela seguiu com uma dúvida cruel: seria o amor de anos antes o Romeu que ela viu ir embora, sem se despedir? Ambos, em caminhos distintos, ajudados pelo destino - ou pelo acaso -, seguem em busca de uma paixão genuína, para escrever uma história que termine com "felizes para sempre".
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18 de agosto de 2009
Enfim, habilitado!
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"Será que dá para desligar a seta?"
Ao invés de "aprovado" (ou "reprovado") foi isso que ouvi, com uma rispidez de grosso calibre, ao cruzar a "linha de chegada" do teste para a carteira de moto. Para ser franco, tratava-se do terceiro teste: já que havia reprovado nas duas primeiras tentativas e não suportava mais ver o fiscal descedente de japoneses que, ao julgar pela cara amarrada, chupa limão verde no café da manhã.
Sem saber o resultado e devidamente apreensivo, estacionei a moto no local pré-determinado e, com o capacete em mãos, fui ao encontro do japa para conhecer o veredicto. Com dores no corpo, dificuldade para respirar e medo de estar com a gripe suína, tinha saído de casa certo de que, naquela manhã, reprovaria no teste pela terceira vez. Não aguentava com meu próprio corpo, logo, tinha uma boa desculpa caso não aguentasse com a moto.
O céu estava azul, o clima agradável e a cara do japa, a mesma de sempre. Carrancudo, perguntou meu nome, olhou para a prancheta, olhou para mim, outra vez para a prancheta e, sem olhar novamente para mim, lançou a sentença: "Errou a seta, menos três pontos. E só, está aprovado". Na frente dele, esforcei-me para não dar um brado de felicidade.
Na avaliação prática para a carteira de moto, o candidato a motoqueiro pode perder, no máximo, três pontos. Mal de saúde a ponto de cogitar estar com a nova gripe, a aprovação - com a punição que fosse - era algo a comemorar. Após duas negativas vergonhosas, aqueles três pontos não seriam capazes de ferir meu orgulho - e não feriram.
Ergui a cabeça e, com o sorrido que alcançava a orelha - e com os olhos quentes, acho que de febre -, tomei apressado o rumo do portão de saída do circuito, para deixar o recinto antes que o avaliador pudesse mudar de ideia. Do lado de fora, tentei sem êxito fazer uma expressão de desânimo, para enganar o instrutor. "É isso aí rapaz! Já notei que você passou", disse aquele que me ensinou a guiar uma moto, ao me ver.
Ali, no momento de euforia, lembrei das palavras de apoio da noite anterior, quando o receio de não passar, de novo, bateu à porta. "Tu tens que querer passar. E tenho certeza que vais passar", disse a namorada, com seu agradável sotaque gaúcho, ao dar bem mais que palavras de apoio. Na companhia dela, com um bom filme regado a vinho, pulverizei o problema que acarretou na segunda reprovação: a ansiedade.
Para obter a carteira de moto, entregue em até oito dias úteis após a aprovação, precisei de um teste, dois retestes, três meses de espera, R$ 200 a mais que o normal e ajuda contra a ansiedade. Certo de que para tudo há um propósito, não há do que reclamar: nem da grana que desperdicei nem da gripe que me atrapalhou. Como a namorada teve os sintomas antes, sei bem como fiquei gripado. E se tive mesmo a influenza A, então foi a gripe suína mais bem pega da história.
Aliás, a nova carteira de motorista, agora também com a habilitação tipo A, não chegou até esta data. Desta vez, para compensar os tropeços nos testes, espero não sair parecido com o Shrek na foto. Tomara!
Crônica publicada no Jornal de Beltrão.
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"Será que dá para desligar a seta?"
Ao invés de "aprovado" (ou "reprovado") foi isso que ouvi, com uma rispidez de grosso calibre, ao cruzar a "linha de chegada" do teste para a carteira de moto. Para ser franco, tratava-se do terceiro teste: já que havia reprovado nas duas primeiras tentativas e não suportava mais ver o fiscal descedente de japoneses que, ao julgar pela cara amarrada, chupa limão verde no café da manhã.
Sem saber o resultado e devidamente apreensivo, estacionei a moto no local pré-determinado e, com o capacete em mãos, fui ao encontro do japa para conhecer o veredicto. Com dores no corpo, dificuldade para respirar e medo de estar com a gripe suína, tinha saído de casa certo de que, naquela manhã, reprovaria no teste pela terceira vez. Não aguentava com meu próprio corpo, logo, tinha uma boa desculpa caso não aguentasse com a moto.
O céu estava azul, o clima agradável e a cara do japa, a mesma de sempre. Carrancudo, perguntou meu nome, olhou para a prancheta, olhou para mim, outra vez para a prancheta e, sem olhar novamente para mim, lançou a sentença: "Errou a seta, menos três pontos. E só, está aprovado". Na frente dele, esforcei-me para não dar um brado de felicidade.
Na avaliação prática para a carteira de moto, o candidato a motoqueiro pode perder, no máximo, três pontos. Mal de saúde a ponto de cogitar estar com a nova gripe, a aprovação - com a punição que fosse - era algo a comemorar. Após duas negativas vergonhosas, aqueles três pontos não seriam capazes de ferir meu orgulho - e não feriram.
Ergui a cabeça e, com o sorrido que alcançava a orelha - e com os olhos quentes, acho que de febre -, tomei apressado o rumo do portão de saída do circuito, para deixar o recinto antes que o avaliador pudesse mudar de ideia. Do lado de fora, tentei sem êxito fazer uma expressão de desânimo, para enganar o instrutor. "É isso aí rapaz! Já notei que você passou", disse aquele que me ensinou a guiar uma moto, ao me ver.
Ali, no momento de euforia, lembrei das palavras de apoio da noite anterior, quando o receio de não passar, de novo, bateu à porta. "Tu tens que querer passar. E tenho certeza que vais passar", disse a namorada, com seu agradável sotaque gaúcho, ao dar bem mais que palavras de apoio. Na companhia dela, com um bom filme regado a vinho, pulverizei o problema que acarretou na segunda reprovação: a ansiedade.
Para obter a carteira de moto, entregue em até oito dias úteis após a aprovação, precisei de um teste, dois retestes, três meses de espera, R$ 200 a mais que o normal e ajuda contra a ansiedade. Certo de que para tudo há um propósito, não há do que reclamar: nem da grana que desperdicei nem da gripe que me atrapalhou. Como a namorada teve os sintomas antes, sei bem como fiquei gripado. E se tive mesmo a influenza A, então foi a gripe suína mais bem pega da história.
Aliás, a nova carteira de motorista, agora também com a habilitação tipo A, não chegou até esta data. Desta vez, para compensar os tropeços nos testes, espero não sair parecido com o Shrek na foto. Tomara!
Crônica publicada no Jornal de Beltrão.
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3 de abril de 2009
O Pólo Norte, o bilhete e o fim das férias
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Pelo posicionamento dos dois aparelhos de ar-condicionado, minha mesa fica no ponto mais frio da redação de O Diário do Norte do Paraná. Por isso, batizei meu posto operacional de "Pólo Norte".
Ainda antes de sair para as melhores férias da eternidade, aproveitadas em março, dei uma ajeitada no Pólo Norte. Deixei a mesa limpa como nunca, cheirando a álcool, para o caso de algum colega precisar de meu computador. Ninguém precisou dele, mas uma repórter-vizinha me relatou que, certa vez, outra repórter-vizinha utilizou meu telefone.
Antes de viajar, deixei três bilhetes desses que os jornalistas costumam colar nos monitores. Num deles, para quem se interessasse em ler, escrevi em vermelho: "...logo, logo volto do litoral de SC, da Serra Gaúcha e de Pato Branco, claro!" A colega que precisou ligar de minha mesa leu o bilhete, e respondeu.
Ao retornar, em 1° de abril, estava o mesmo bilhete, no mesmo local, com dizeres acrescentados a lápis: "volta logo... você está fazendo falta. Beijos".
Que bom saber que alguém encarou o Pólo Norte em minhas férias, que bom voltar e saber do apreço de alguns colegas de profissão pela minha pessoa. É impressionante como pequenos gestos têm a capacidade de gerar alegria, felicidade. As palavras da colega, as quais não pude agradecer por estar ela de férias, foram como um combustível de ânimo no retorno ao trabalho.
Estava com saudade da redação, dos telefones tocando, dos "tec-tecs" nos teclados, do ritmo agitado regado a cafezinho, das discussões com os colegas... Pode parecer insano, mas estava com saudade do trabalho. "Se meu hobby é escrever, não tenho direito de reclamar do que faço para ganhar a vida", pensei, nos primeiros minutos na volta à redação.
Agora, vamos ver se tiro proveito do hobby para atualizar este tímido blog. Na viagem que fiz com meu irmão do meio - mais de 2 mil quilômetros rodados em sete dias - parei no terceiro dia. Dei uns dias de férias ao Blog do LF, mas vou relatar daqui para frente o restante daquela viagem. Começo, meio e fim.
Convido os amigos a lerem o blog. Agradeço os leitores pelas postagens e a chefia do jornal pela aposta em mim. É por isso que sigo postando de Maringá, a mais encantadora cidade do Paraná.
Clique na foto para ampliar (e observe a "placa" mencionando o "Pólo Norte").
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Pelo posicionamento dos dois aparelhos de ar-condicionado, minha mesa fica no ponto mais frio da redação de O Diário do Norte do Paraná. Por isso, batizei meu posto operacional de "Pólo Norte".
Ainda antes de sair para as melhores férias da eternidade, aproveitadas em março, dei uma ajeitada no Pólo Norte. Deixei a mesa limpa como nunca, cheirando a álcool, para o caso de algum colega precisar de meu computador. Ninguém precisou dele, mas uma repórter-vizinha me relatou que, certa vez, outra repórter-vizinha utilizou meu telefone.
Antes de viajar, deixei três bilhetes desses que os jornalistas costumam colar nos monitores. Num deles, para quem se interessasse em ler, escrevi em vermelho: "...logo, logo volto do litoral de SC, da Serra Gaúcha e de Pato Branco, claro!" A colega que precisou ligar de minha mesa leu o bilhete, e respondeu.
Ao retornar, em 1° de abril, estava o mesmo bilhete, no mesmo local, com dizeres acrescentados a lápis: "volta logo... você está fazendo falta. Beijos".
Que bom saber que alguém encarou o Pólo Norte em minhas férias, que bom voltar e saber do apreço de alguns colegas de profissão pela minha pessoa. É impressionante como pequenos gestos têm a capacidade de gerar alegria, felicidade. As palavras da colega, as quais não pude agradecer por estar ela de férias, foram como um combustível de ânimo no retorno ao trabalho.
Estava com saudade da redação, dos telefones tocando, dos "tec-tecs" nos teclados, do ritmo agitado regado a cafezinho, das discussões com os colegas... Pode parecer insano, mas estava com saudade do trabalho. "Se meu hobby é escrever, não tenho direito de reclamar do que faço para ganhar a vida", pensei, nos primeiros minutos na volta à redação.
Agora, vamos ver se tiro proveito do hobby para atualizar este tímido blog. Na viagem que fiz com meu irmão do meio - mais de 2 mil quilômetros rodados em sete dias - parei no terceiro dia. Dei uns dias de férias ao Blog do LF, mas vou relatar daqui para frente o restante daquela viagem. Começo, meio e fim.
Convido os amigos a lerem o blog. Agradeço os leitores pelas postagens e a chefia do jornal pela aposta em mim. É por isso que sigo postando de Maringá, a mais encantadora cidade do Paraná.
Clique na foto para ampliar (e observe a "placa" mencionando o "Pólo Norte").
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