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31 de janeiro de 2019

Big Brother Brasil 119

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Você do futuro, peço um pouco de sua atenção! O ano é 2019.

Um dólar vale em torno de R$ 3,80; o salário mínimo de fome no Brasil subiu de R$ 954 para R$ 998 no governo Bolsonaro (R$ 8 abaixo do valor previsto no orçamento de 2019); carros elétricos ainda são raros; os políticos mantêm gordos salários e avantajados benefícios; as ações da Vale despencaram após o criminoso desastre em Brumadinho (MG) – enquanto escrevo, inúmeros corpos seguem soterrados nos rejeitos de minério de ferro –; o homem ainda não pisou em Marte; ovo faz bem à saúde; banha de porco é mais saudável que óleo de soja; o lanche prensado de Maringá segue sendo o melhor do planeta; e o Big Brother Brasil (BBB) chega à sua 19ª edição.

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Vivemos numa época em que youtubers são tão populares entre os jovens quanto os poetas foram em outra época. Isso talvez explique o fato de termos grandes livrarias em recuperação judicial, editoras demitindo, jornais fechando as portas e bibliotecas vazias. Enquanto isso, os "heróis mais vigiados do Brasil" garantem fabulosa audiência à principal emissora de TV do País. São 18 anos consecutivos de BBB, sendo que o primeiro ano contou com duas edições.

Dia desses, um grupo de cientistas descobriu que é possível diagnosticar alzheimer antes do surgimento da doença. Outros pesquisadores chegaram à conclusão que beber café diariamente pode prevenir alguns tipos de câncer. Para você, que vive num futuro em que alzheimer e câncer provavelmente sejam doenças curáveis, isso pode não parecer grande coisa, mas para nós, meros mortais do passado, são fatos a serem comemorados.
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Do ponto de vista tecnológico, os avanços são inegáveis. Meus avós, por exemplo, só viram energia elétrica e água encanada quando já eram adultos. Nem fogão a gás tinham. Contudo, apesar das inovações, em alguns momentos temos a impressão de ter retrocedido à Idade Média. Você, caro leitor do futuro, pode acreditar que o povo do meu tempo acabou de eleger um presidente que mede negros por arroba e que não empregaria mulher com o mesmo salário de homem? E, pasme, milhares de mulheres votaram nele! Procura aí nos livros de história para confirmar. O cidadão se chama Jair Bolsonaro, e tem um vice general mais esperto que ele. Como estamos vivendo a história, não faço ideia de como ela vai terminar, mas a impressão é de que são poucas as chances de um final feliz.

8 de fevereiro de 2013

Boa Viagem

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Era para ser mais uma sexta-feira de verão. Em Maringá, normalmente, isso significa calor e temperaturas máximas acima de 30 graus, ótimo para quem está na praia e péssimo para quem não tem ar-condicionado no escritório. Ainda bem, o que era para ser não foi. Fez frio!

Aquela manhã começou com cara de chuva e clima ameno. Ótimo para um café bem quente e um pão com chimia. Acordei cedo, com tempo de alguma leitura antes de partir para o trabalho. "Será que tem revista para mim na portaria", pensei. Desci na recepção do prédio para conferir e aproveitei para levar algumas sacolas de lixo. Deixei a água fervendo para passar o café. Um dia fresquinho daqueles merecia algo melhor que um mero solúvel.

Na portaria, nenhuma revista, mas uma grata novidade. O carteiro havia entregado um cartão postal de uma amiga viajante, jornalista, ex-colega de redação no maior jornal da cidade. De sorriso ímpar, por sorte, era minha vizinha de mesa. No jornal, eu costumava pegar pautas de política e ela, de assuntos mais honestos. Às vezes, flagrava-me olhando para a bela jornalista. Quando se trabalha por longas horas e sucessivos dias diante do computador, colírio se faz necessário.

Depois de encher o coração dos maringaenses de saudades, numa despedida sem alardes, Cristiane ganhou o mundo. Morou em Curitiba, São Paulo, Rio de Janeiro e sei lá onde mais. Quase a perdemos para Londres. Por fim, descobri no postal, estava ela em Recife. Logo imaginei as praias, a boa comida, gente receptiva e tantas paisagens de tirar o fôlego. É o que eu vejo nas fotos de amigos, nas revistas e na TV, já que, por infortúnio, nunca estive no Nordeste do País.

"Estou adorando Pernambuco! Recife tem um vento bom que balança os cabelos e faz a gente pensar na vida", escreveu a amiga, de cabelo longos, pretos e lisos. Fã de Chico Buarque, moça de bom gosto, fina e ao mesmo tempo simples. Tanto é que certa vez, já faz alguns bons anos, convidei-a para sair comer um "dógão" desses de esquina, com direito a molho de maionese temperado com ervas, e tubaína para acompanhar. E ela topou sem titubear. Recordar bons tempos do passado nos faz revigorar a alma.

Para um colecionador de postais, aquela correspondência foi um deleite. Na foto, Boa Viagem, a praia urbana mais famosa e badalada da capital pernambucana. Li que são quase sete quilômetros de extensão, de areia dourada e convidativa, com parte da costa protegida por uma barreira de recifes, responsável pela formação de belas piscinas naturais.

Entre goles de café e mordiscadas no pão com chimia, li e reli o postal. Apanhei um alfinete e marquei Recife no mapa-múndi que tenho na parede da sala. No quadro estão marcados todos os lugares de onde amigos me enviaram postais. Isso inclui destinos exóticos como as capitais Honolulu, do Havaí, e Nuuk, da Groenlândia. Como decoração, combinou com a bicicleta que tenho na parede.

Com a alma e o estômago alimentados, parti para o trabalho, sem blusa, para aproveitar o clima ameno. Como postais não anunciam detalhes do remetente, terei de descobrir por outros meios o endereço para retribuir, com outro postal, essa pequena lembrança que tornou um dia cinzento muito mais agradável.

E antes que me perguntem o que é "dógão" e chimia, digo-lhes que o primeiro, também conhecido como cachorrão, é o lanche típico de Maringá, um tipo de cachorro quente prensado que nenhuma outra cidade no mundo sabe fazer melhor. Nessa bela cidade arborizada, Big Mac é para os fracos. O segundo é o nome gaúcho, aportuguesado de schmier em alemão, para doce ou geleia de passar no pão. Detalhe, nossa schmier é doce e a dos alemães, salgada e preparada com queijo (Shimierkasse).
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1 de novembro de 2012

In memoriam

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Primeiro de novembro, véspera de Finados. Primeiro dia de uma eternidade sem a Livraria Espaço Maringá Park, que fechou as portas após liquidação relâmpago – tão relâmpago que, quando cheguei, Hemingway já tinha "ido embora" – de seu acervo de livros. Um fim sem cerimônias e com boa dose de lamentação dos viciados em café que, agora, sentem-se órfãos nessa cidade sem grandes opções em cafeterias.


Tudo bem que a qualidade no atendimento por lá, talvez por conta do fechamento que estava por vir, havia decaído muito. O pedido demorava a chegar, os músicos contratados não tocavam mais Pink Floyd, as atendentes já não tinham os mesmos olhos e pareciam menos apetitosas. Nesse caso, referindo-me às tortas, inclusive à alemã, minha preferida.

Saudades. Arrependo-me das tantas vezes que, por conta do atendimento, troquei a melhor cafeteria da cidade pelo "méque-café" do andar de cima. Sem comentários. Não se pode comparar um prato de feijoada a qualquer sanduíche com gosto de plástico ou um bom vinho a uma latinha de cerveja. No hemisfério dos cafés, o ambiente faz parte de um todo que, em Maringá, só a Livraria Espaço tinha.

Perguntei-me uma dúzia de vezes: onde os aficionados por café degustarão um bom expresso, lendo algum livro e ouvindo música instrumental ao vivo? É nessas horas que os adeptos de um expresso sem pressa percebem a grande diferença entre morar na capital e no interior. Em Maringá, não há uma alternativa ao espaço que acaba de fechar as portas. Dizem que no local será inaugurada uma grande rede de livrarias, dessas que têm livros demais e café de menos.

Sentia-me tão à vontade naquele café que de minha última centena de crônicas, penso que um terço foram escritas de lá. Escolhia sempre a mesa de canto, ao lado dos vidros temperados com vista para o Parque do Ingá. Nos tempos de solteiro, um olho focava nos manuscritos outro, nos "violões". O local sempre foi bem frequentado. E o expresso de lá sempre agradou.


PS.: foto de Andye Iore.


30 de setembro de 2010

Sabores e dissabores do jornalismo

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"Ser jornalista tem seus dissabores". Mortal perdeu as contas de quantas vezes ouviu essa frase o dono do jornal onde trabalhara após concluir a faculdade de Jornalismo. Preferia não acreditar na sentença, porém, passados sete anos desde que o "canudo" lhe foi entregue em mãos na colação de grau, dava a cada nova semana de trabalho mais razão ao ex-patrão. Nem sempre viver da escrita seria prazeroso.

O jovem repórter de Política havia tido um dia de merda, profissionalmente falando. Para piorar, uma infecção na garganta o impedia de recorrer ao melhor anti-stress já inventado: chope trincando de gelado, com colarinho. Além do mais, o álcool cortaria o efeito dos antibióticos. Vale um Prêmio Nobel, no mínimo, a quem inventar um antibiótico efervescente para ser diluído em caneca de chope ou taça de vinho.

- O senhor já foi atendido? - questionou a atendente da cafeteria.
- Não me chame de senhor, nem 30 anos eu tenho.
- Você já foi atendido? - insistiu, educadamente, a atendente.
- Me desculpe, tive um péssimo dia. Quero um café com álcool, o mais forte que você tiver. E que se dane os antibióticos.
- Como?
- Nada não. O café demora?
- Dois minutinhos, no máximo.

Aquela sexta-feira teve tudo para ser a melhor do ano para Mortal. Na pauta, ele precisava entregar uma reportagem sobre o gasto excessivo de alguns dos deputados federais da bancada paranaense durante o recesso parlamentar. Na apuração das verbas indenizatórias, o repórter descobriu que um único deputado havia gastado mais de R$ 20 mil com passagens aéreas. No mês de descanso dos deputados, gastos com combustível e locação de veículos indicavam que o dinheiro público, restrito à atividade parlamentar, fora usado na campanha eleitoral.

Mortal tinha uma baita história em mãos e, melhor, tinha como sustentar o conteúdo da reportagem. Os dados eram públicos e constavam da página da Transparência da Câmara, na internet. Um pouco de paciência e tabulação dos dados haviam apontado dados curiosos. No recesso, deputados que concorriam à reeleição haviam gastado até 75 vezes mais do que parlamentares que não estavam em campanha.

- E tua matéria, como anda? - perguntou Moisés, o repórter de polícia, vizinho de mesa de Mortal.
- Está quase pronta. Aposto que vai virar manchete.

Em redações de pequeno e médio porte, repórteres de jornal diário raramente podem se dedicar a apenas uma matéria por dia. Mortal teve três dias para trabalhar nos gastos dos parlamentares. A expectativa era grande, talvez até maior do que a do primeiro encontro com uma mulher especial.

Ao final do expediente, já no início da noite, a vinda do editor-chefe até o posto de trabalho de Mortal era sinal de que algo havia dado errado. "Onde há fumaça há fogo"... e o ditado se aplica também, e muito bem, ao jornalismo. Sr. Reuters costumava se dirigir à mesa de um repórter apenas para levar alguma má notícia. Teria sido a reportagem investigativa demais para ganhar as páginas do jornal?

- Rapaz, lutei pela publicação da tua matéria, mas não teve jeito - disse Reuters, aparentemente desapontado com o veto editorial.
- Qual o problema com a matéria. Algum erro? - questionou Mortal.
- O conteúdo da reportagem traria sérios problemas para o jornal.
- Problemas políticos?
- Políticos e financeiros - comentou o editor-chefe.

A matéria era, sim, investigativa demais. Dois deputados, muito chegados do dono do jornal, estavam entre os gastões do período de recesso parlamentar e a reportagem, certamente, acarretaria prejuízo eleitoral a ambos. Em outras palavras, o eleitor mais politizado poderia se dar conta do uso indevido e abusivo do dinheiro público, optar por candidatos de melhor índole e, quem sabe, fazer campanha contra os gastões. Com a matéria, o eleitor ganharia mais subsídios para o voto consciente e o repórter, a conta no dia seguinte. Eis um um bom exemplo de dissabor na profissão.

Naquela sexta-feira, que começou empolgante e terminou melancólica, nem o café mais alcoólico aliviaria o estresse. Nem mesmo um chope com antibiótico efervescente teria esse poder. A melhor matéria de Mortal, no ano, havia sido arquivada. O dissabor da conveniência política permaneceu, por dias, entalado na garganta. Aliás, a garganta melhorou bem antes do dia da eleição, que revelou uma agradável surpresa: um dos deputados "amantes do dinheiro público", amigo do dono do jornal, não foi reeleito. Ser jornalista tem também seus sabores.

Publicado também em: Master em Jornalismo

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7 de outubro de 2009

As curvas de Maringá

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Ao voltar de São Paulo, a reflexão de sempre: como Maringá é arborizada! E como tem mulheres bonitas – tanto quanto (ou até mais do que) árvores. A constatação é espontânea de tal modo que se torna impossível não repeti-la toda vez que retorno a essa cidade abundante em verde, flores e curvas.

Nas passadas sem pressa rumo à cafeteria preferida, a natureza deu-me as boas-vindas com uma casca de semente de sibipiruna, que deve ter deixado em meu rosto a marca do impacto. Sibipirunas que, na primavera, decoram Maringá em verde e amarelo, com pequenas flores que liberam uma resina grudenta, o terror dos para-brisas dos veículos. "Antes as flores e as cascas de sibipiruna do que as pombas", pensei.

As boas-vindas, Maringá parcelou em duas vezes, a segunda delas "paga" já na cafeteria do shopping. Livre da dieta do açúcar, bebia um café expresso com creme e chocolate, meio amargo, e lia "Traçando New York", livro de Luis Fernando Verissimo recém-comprado num sebo. Na mesa mais afastada do balcão e mais próximo da janela, concentrado na leitura e no café, perdi a majestosa chegada de Liana – suponho que tenha sido majestosa e não tenho a mínima ideia do nome verdadeiro da moça.

Aparentava 1,60m de altura, 20 anos, menos de 50kg, do tipo intelectual embora nada nerd. Tinha cabelos longos, lisos e ruivos que se esforçavam para tocar sua cintura – uma cinturinha para apreciar sem moderação –, e ainda pele clara, olhos verdes e esbeltas coxas, valorizadas pelo shorts curto, porém, comportado. Pediu um café gelado e sacou da bolsa um livro com marca-texto que indicava uma leitura nas páginas finais.

Uma linda jovem, que curte um bom livro regado a café, na livraria com música ao vivo... ahhhh!... uma miragem, um oásis no deserto escaldante. Fiquei com sede, ou melhor, encantado. Esqueci Verissimo e concentrei minha atividade cerebral numa estratégia de aproximação. Precisava ser notado e, mais, causar boa impressão.

Duas rápidas e discretas trocas de olhares me carregaram da coragem necessária para avançar contra os "inimigos": o risco de um fora e o receio de nunca mais tornar a vê-la (caso não tomasse uma iniciativa). Notei que ela estava na mesa 28, com número escrito em fonte igual a que indicava, na passagem, o portão de embarque (também 28) no Terminal da Barra Funda, em São Paulo, um dia antes.

"É um sinal, só pode", alertou minha mente, cobrando-me ação. "Pense em alguma coisa, rápido", insistiu. "E se ela se levantar, for embora e você nunca mais tornar a vê-la?". Minha mente estava certa e eu, se não acatasse seu incentivo, poderia vir a lamentar por algo que deixei de fazer.

Sujeito daqueles que crê que nada acontece por acaso, nem mesmo a repetição da fonte do número 28, tive de agir, sem ser inconveniente. A moça estava concentrada na leitura (ou bem fingia estar), talvez tanto quanto meus olhos estavam nela, e no shorts dela. Optei pela clássica estratégia do bilhete, que no futebol seria correspondente à formação 4-4-2, um tanto defensiva, sem ser retranqueira. No bilhete, assinado com meu endereço de MSN, escrevi:

Como é raro, hoje, mulheres irem ao shopping para ler um bom livro e beber café! Mais raro, ainda, é encontrar com essas mulheres, lindas como você. Gostei de ti e quero te conhecer, mas não quis atrapalhar a leitura.

Corri à papelaria ao lado comprar um pequeno envelope. Depositei o bilhetinho nele e, com os dedos cruzados, pedi a um dos atendentes da livraria que entregasse a "encomenda" à ruiva da mesa próxima à janela. "Não vejo nenhuma ruiva perto da janela", disse o rapaz, para minha surpresa.

A estratégia havia falhado, a moça não estava mais na mesa. Com os óculos bem calibrados, vi o "oásis" na fila do caixa, do outro lado da loja, aguardando para pagar a conta. O único plano B seria pegar a fila e, na primeira oportunidade, puxar conversa. Foi o que fiz. Ela respondeu o tímido "oi" com um "oiiii" sorridente e meigo, olhando-me nos olhos, com seus perolados olhos verdes. Num lapso de falta de reação de minha parte e para fazer valer o imbecil ditado de que "alegria de pobre dura pouco", o atendente lançou o aviso em bom tom: "próximooo!"

E Liana pagou a conta no caixa 1, enquanto eu acertava meu café (e o envelope do plano do bilhete) no caixa 3. Na demora do equipamento em ler meu cartão de crédito, ela foi embora sem que eu notasse, sem que eu soubesse seu verdadeiro nome, sem me dar a chance de entregar o bilhete. Saí dali, dei algumas voltas nos quatro pisos do shopping e não mais a vi.

Dentre tantas lindas maringaenses, a ruiva – de cintura bem definida e cabelos esvoaçantes – destacou-se de todas aos meus olhos. Ao menos naquele dia, eram dela as mais belas curvas da cidade. Na expectativa de vê-la passar, aguardei em vão no banco de concreto em formato de onça-pintada, em frente à entrada principal do shopping. A mesma onça que já testemunhou inúmeros inícios de namoro, desta vez, não pôde fazer nada, senão servir de consolo.
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20 de setembro de 2009

ZERO Açúcar


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O terceiro sábado de agosto foi, particularmente, ímpar! Um dia de vitória da mente sobre o estômago, do autocontrole sobre a gula. O sábado que tantos guardam para Deus, marcou para mim o fim de uma abstinência de 30 dias sem açúcar, um período de flagelo contra o corpo – documentado no Twitter para quem quisesse acompanhar.

No mês em que abdiquei de sorvete, iogurte, chocolate e pão de mel – meus doces favoritos –, vi me abandonarem 2 quilos e 700 gramas. Sinal de que os outros 83 quilos, que permanecem comigo, são mais fiéis. Mantiveram-se leais a mim mesmo com a decisão abrupta de cortar o açúcar inclusive do cafezinho. Cortar o café com açúcar foi, aliás, o desafio mais torturante dessas três semanas.

Nos 30 dias mais longos de minha vida, a pergunta recorrente foi: "por que você está fazendo isso?" Quando alguém menos polido fazia a pergunta, mudavam as palavras, não o sentido: "Pra que essa viadagem de cortar o açúcar?" Difícil explicar.

– Porque sim – seria a resposta mais apropriada ou menos cansativa. Contudo, essa não é uma justificativa que se dê, não a adultos. Se devo alguma explicação, que seja ela para aqueles que por curiosidade (ou loucura) acompanharam a saga nada doce, mas com final feliz, em minha página no microblog.

A primeira razão dessa abstinência, e talvez a única plausível, foi a perda de peso. Fiz o sacrifício – que alguns obesos se negariam a fazer, embora precisem – para comprovar que açúcar engorda e que, sendo assim, a falta dele emagrece. Dei um tempo nas atividades físicas, mantive a mesma alimentação, não cortei frituras nem gorduras, limitando-me à privação dos doces. Assim, se emagrecesse, a "culpa" seria da falta de açúcar. Foram quase 3 quilos e, como disse Patrícia de Cássia no Twitter, teria sido mais, casos os exercícios tivessem sido mantidos.

Com a privação "tuitada" dos doces, outra ideia era ampliar o número de seguidores no microblog. Confirmada a teoria de que, na internet, há público para tudo, a marca de 100 seguidores foi superada, perfazendo mais do que o dobro de um mês atrás. O terceiro motivo vai de encontro com o "Yes, we can!" do presidente norte-americano Barack Obama. Certa noite, na cozinha de minha casa, uma ex-namorada, fumante, observou que eu comia muito chocolate e que isso poderia fazer mal à minha saúde. Indignado por ouvir aquilo de alguém dada ao cigarro, exclamei:

– Tábom, vou dar um tempo com o chocolate por um mês, mas quero ver tu fazer o mesmo e parar de fumar – disse, em tom de desafio. Fui além, cortei todo tipo de açúcar (sacarose), levando por três semanas a sofrível vida de um diabético. Experimentei alguns produtos diet, sempre dando graças a Deus pelo perfeito funcionamento de meu pâncreas.

A ex-namorada, não tornei a ver, mas alguma coisa me diz que ela não deixou de fumar, nem por um dia sequer. Sentindo-me vitorioso, e mais magro ao 30º dia, penso no doce gosto do triunfo. No domingo, quando eu – metodista – separo para agradecer a Deus por ter saúde e paz, terei meu momento de fé na companhia de um chocolate com avelãs, ou de um café irlandês com creme e borda de chocolate, ou de um sorvete de passas ao rum, ou um pão de mel com café expresso. Ou, ainda, na companhia de alguém que goste disso tudo e que possa tudo isso sem brigar com a balança. Atenção, alguém-que-gosta-disso-tudo, quero te conhecer melhor!
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28 de agosto de 2009

Namorei a Paulista

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Estou convencido de que São Paulo quer me provar que é, de fato, a terra da garoa. Há um mês, fez jus ao título ao me privar do sol durante toda uma semana. Meu retorno à grande metrópole da América do Sul foi num domingo, frio e úmido, de céu em tons de cinza, de novo.

Estava na agenda um passeio no Parque do Ibirapuera, mas a garoa ininterrupta, que se esforçava para molhar, levou-me à Avenida Paulista, a primeira pavimentada de São Paulo capital. A mais famosa avenida do Brasil, que concentra o poder econômico e onde são fechados os grandes negócios do País, é sempre uma boa opção de passeio, faça chuva ou faça sol.

Desta vez, fui de metrô – sossegado, sem as “sardinhas” dos dias de semana. Peguei o trem na estação São Joaquim e segui até a estação Paraíso. Tomei outra linha, sentido Consolação, no outro extremo da Avenida Paulista para, de lá, retornar a pé. Talvez daí aquele divertido – e para mim verdadeiro – ditado: “a Paulista é que nem casamento, começa no paraíso e termina na consolação”.

Namorei a Paulista durante toda aquela tarde de domingo, sem pressa. Comecei devagar. De repente, notava que estava num ritmo mais acelerado e, para aproveitar mais bem o momento, “pisava no freio”. A Paulista estava molhadinha – por causa da garoa, claro –, mas isso jamais espantaria um paranaense curioso, que gosta de ver gente. Num dos lugares mais cosmopolitas do País, estava contente por gozar de boa saúde e poder cruzar, a pé, os quase três quilômetros da avenida.

No primeiro shopping que visitei, vi um grupo de alemães – austríacos talvez, porque falavam na língua de Goethe – bebendo chope e rindo, mas com a discrição inerente aos europeus. Da conversa alheia, entendi que estavam impressionados com o tamanho de São Paulo. “Wunderbar” (maravilhoso) foi apenas um dos adjetivos empregados para classificar a capital. O nerd entre eles, o único com máquina fotográfica em mãos, sugeriu uma foto só com as meninas do grupo. Aliás, belas jovens germânicas, loiras e mais altas que nossa média nacional, viciantes! Remeteram minha mente a lembranças do tempo em que morei na Alemanha.

Parei em dois shoppings, para beber o merecido café expresso, sem açúcar. O segundo “pit stop”, para repor a cafeína, foi no Pátio Paulista, onde me deparei com um grupo de turistas japoneses. Estou certo de que não eram coreanos nem chineses, porque mais de um, a maioria para ser sincero, volta e meia sacava do bolso (ou do pescoço) o celular, sempre do tipo “lançado ontem”, para tirar fotos. Conversavam menos que os alemães, e bebiam refrigerante. Riam sem mostrar os dentes, mas não faço a menor ideia do que falavam. Fiquei curioso para saber o que dizia a nipônica com cabelos com mechas cor-de-rosa – linda de uma forma instigante.

Boa parte do tempo, porém, passei a céu aberto e, por pelo menos meia hora, fiquei no pátio do Museu de Arte de São Paulo (Masp), observando tamanha diversidade, num momento antropológico de inspiração. Vi gente de várias cores, Estados, nações, credos. Alguns de gravata, outros despreocupados em combinar a calça laranja com o agasalho azul. Moças de cabelos para todos os gostos: roxo, compridos, loiros, curtos, lisos, cacheados, soltos ou amarrados. Rapazes fazendo acrobacias com ioiôs, a fim de chamar a atenção dessas mesmas moças.

São Paulo me encanta por essa riqueza cultural, de costumes mil. Em Sampa, mais do que em qualquer outra cidade do Brasil, dá para ser você mesmo, por mais estranho que você possa parecer. Não importa se você tem carro ou vai de metrô, se tem emprego fixo ou se é autônomo, se veste terno ou se arrisca um saiote (kilt) como se estivesse na Escócia, se é heterossexual ou se é gay, se fuma maconha ou se é contra a liberalização, se fala como paulistano nato ou se tem sotaque de outro lugar. Do jeito que for, numa cidade nada provinciana, sempre vai haver alguém para curtir teu jeito de ser.

Nessa “salada” de tudo e de todos, percebo na Avenida Paulista um “tempero” único. Na via que é a cara de São Paulo, sinto-me em casa e nem noto o tempo passar. Molhadinha ou não, gosto de pegar a Paulista sem pressa, para curtir cada passo. O relógio... só olhei quando alguém me perguntou as horas.


Publicado também em: Recanto das Letras e jornal O Diário (Cultura, 13/01/2016)
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17 de julho de 2009

Graças a Pink Floyd

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Tarde fria de sábado, não me recordo ao certo a data, mas me lembro bem da história. Estavam os colegas de redação, Fanta Uva e Mortal, na cafeteria do shopping Maringá Park, bebendo uma daquelas opções de café com álcool – para esquentar o corpo –, quando surgiu um magrelo de óculos, cabelo enrolado, com seu afinado violão. Aparentava ser dos bons. Era bom que fosse, torciam os jornalistas, para não amargar o café.


— Tomara que a música seja agradável — disse Fanta Uva.
— Tomara que não seja sertanejo — emendeu Mortal.

Na companhia de seu violão, uma guitarra em stand by e duas caixas de som para dar vida à música, lançou-se num MPB para aquecer os dedos.

— Toca muito bem — avaliou a repórter, após o término da segunda música. Mortal ainda achava cedo para um palpite, isso antes de ser tocada a terceira do repertório do dia.

Com uma categoria ímpar, o músico fez seu violão "cantar" – e o exagero é pertinente – "Another Brick In The Wall", de Pink Floyd, uma das bandas mais bem sucedidas da história do rock. Em instantes, alguns garotos presenciavam de perto, em pé e estáticos, um deles com a boca aberta e quase babando, a execução da famosa música. O que mais um homem pode querer, além de boa companhia, um café expresso e rock de qualidade, ao vivo? Inevitável refletir sobre isso naquele momento.

Terminada a música, Mortal bebeu mais um gole e disse à companheira de cafeína: "preciso cumprimentá-lo". É inerente ao ser humano criticar quando se depara com algo que não o agrada, porém, raramente os elogios acontecem na mesma proporção. O violonista se preparava para massagear os ouvidos alheios, com alguma outra de seu repertório, no momento em que foi abordado.

— Olá, sou repórter do jornal O Diário. Quero te parabenizar pela música — disse Mortal. — Em Maringá, em quase todo lugar que vou só ouço sertajeno, por isso não esperava ouvir Pink Floyd — completou o jornalista que, graças à banda inglesa, teve a oportunidade de conhecer um instrumentista de grande talento.

— Só toco música de qualidade — brincou Marcos Santana, violonista que toca rock, blues, jazz, música brasileira e erudita; músico que não toca sertanejo, axé, funk e "na boquinha da garrafa". — É sempre bom receber elogios — acrescentou.

Mortal havia agido mais como fã de uma boa música, menos como repórter. Foi, elogiou, trocou meias palavras, voltou, tornou a beber seu café – convicto de que não estranharia se Eric Clapton viesse em seguida. Dois goles mais tarde, foi bombardeado por Fanta Uva.

— Você sabe se ele já lançou algum CD? Quando ele toca aqui novamente. Ele é de Maringá? O que ele faz, vive apenas da música? — perguntou Fanta Uva, lançando um olhar de reprovação ao perceber que Mortal não tinha feito nenhuma daquelas perguntas básicas. Questões que o repórter sanou minutos depois de terminado o café, pouco antes de irem embora.

Foi pela força do rock 'n roll que aqueles dois jovens repórteres – ele da área de política, ela especialista em gastronomia – haviam cruzado o caminho daquele talentoso violonista. Graças a Pink Floyd, sabiam que Marcos Santana, que não é parente do famoso guitarrista de mesmo sobrenome, lançaria seu primeiro CD dali dois meses. Também souberam que ele é músico profissional há mais de 15 anos e que tira da música, e apenas dela, o sustento de sua família.

Dia ou outro Mortal se depara com Santana pelas ruas da cidade. Numa dessas oportunidades, o músico fez o convite: "vou lançar meu CD dia tal, na livraria do shopping, aparece lá".

Mortal disse que faria melhor, prometeu uma matéria em O Diário a respeito... e cumpriu. Contou a Mercúrio, o editor de cultura do jornal, sobre como havia conhecido Santana. Lembrou também da brilhante execução de "Another Brick In The Wall" e, convincente, ganhou uma página inteira, colorida, para escrever sobre o violonista e seu primeiro álbum.

E todos ganharam com isso. Santana não se conteve em alegria, ao se ver no maior jornal da cidade. Mercúrio gostou da matéria e elogiou o trabalho. Mortal ficou feliz por ter o texto elogiado e, talvez por isso, bebeu quantidade dobrada de café naquele dia. Fanta Uva foi convidada para outro café alcoólico (sem segundas intenções) e a ambos – ela e Mortal – Santana prometeu tocar Pink Floyd, de novo. Pela força do rock, o café expresso ficou ainda mais saboroso.
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28 de junho de 2009

Cobain e o universo feminino

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Poucas pessoas que conheço têm autoestima tão elevada quanto Cobain, um amigo de faculdade com quem editei, no início da década, um folhetim acadêmico chamado "O Contiúdo". Publicitário, dono de ideias mirabolantes, afirmava com convicção que "supermercado é o melhor lugar que existe para arrumar namorada". Por experiências malsucedidas, sempre discordei da "máxima" criada por ele, porém, jamais ousei duvidar das verdades ditas por um colega que conhece como poucos o universo feminino.

José Mayer
Panca de galã, moreno de pele clara, 1,82m de altura, Cobain é um cara desinibido, mesmo perto das mais belas mulheres. Em número de namoradas, é possível que só perca para James Bond, Don Juan e José Mayer, com o pertinente detalhe: o publicitário nunca fez novelas, não é agente secreto nem tem emprego fixo nem um esportivo Aston Martin na garagem – aliás, nem carro ele tem. Nada disso, no entanto, pesa nas investidas de um conquistador de seu calibre.

Certa vez no Sabiá, o bar que serve o melhor e mais reforçado café da manhã de Pato Branco, questionei o ex-colega de "O Contiúdo" sobre como é possível o supermercado ser o melhor lugar para paquerar se a maioria das mulheres que fazem as compras são casadas. O amigo do ditado fácil – "solteiro sim, sozinho nunca" – respondeu: "não sou ciumento". Difícil acreditar na cara-de-pau do cidadão? Não se você conhece Cobain pessoalmente.

Muitas dicas depois, passei a reparar mais nas jovens clientes – no meu caso apenas as solteiras, porque odeio confusão – nas idas ao supermercado. Da última vez, estava no setor onde ficam os objetos de papelaria quando, de repente, surge uma linda garota, de cabelos ondulados e olhos verdes, de 17 anos (talvez 18). Pensei ser meu dia de sorte, doce ilusão.

"Se eu comprar uma lapiseira, precisa ser 0.7, porque 0.5 já tenho duas. Mas tem de ser uma lapiseira, porque se comprar um lápis vou precisar também de apontador", falava a guria, consigo mesma. "Acho que vou levar uma caneta também. Oooooolha essa do Mickey que legal", e fazia pausas como se ouvisse alguém do lado dela, ajudando-a a escolher o produto. Antes mesmo que a linda e assustadora guria notasse minha presença, "piquei a mula".

Ao contrário de Cobain, capaz de distribuir cantadas inclusive na prateleira do leite ninho, logo percebi que esse negócio de paquerar em supermercado não é minha praia. Numa outra oportunidade, rolava o maior papo com uma bela loira balzaquiana, sem anel nos dedos, promotora de uma marca de café, quando ela disse: "o tipo Gourmet é o favorito de meu marido, que é policial". Que safada, casada e jogando charme! Desconversei e fui embora, mas creio que Cobain, em meu lugar, teria ficado e traçado a mulher do tira – e sem o menor receio de acordar com a boca cheia de formiga.

Pingado em copo americano para beber e, para comer, ovo frito, costelinha de porco e "sanduíche" de polenta com queijo. Enquanto degustávamos o café da manhã do Sabiá, Cobain me confidenciou uma de suas mais mirabolantes aventuras. Na minha opinião, até então, o grande feito dele tinha sido se envolver com mais de uma de minhas colegas do curso de Jornalismo e com mais de uma das colegas dele, de Publicidade e Propaganda, ao mesmo tempo, sem que alguma delas desconfiasse estar dividindo o amado com a amiga de classe. A nova proeza, entretanto, vencia fácil a anterior.

Meses antes daquele café sem pressa, Cobain havia viajado com amigos, em férias, para o litoral paranaense. Já no segundo dia de praia, talvez por piscar demais para a mulher de alguém, foi expulso da casa alugada pelo grupo. Sem grana, sem amigos e dependendo de carona para voltar para casa, rumou à praia, onde planejou passar a noite. Com calma, pensaria em alguma saída na manhã seguinte.

O sol se pôs, dando lugar a uma bela noite de lua cheia. Sentado na areia, sobre sua camiseta e com a mochila ao lado, Cobain admirava a paisagem, com os olhos fitos no horizonte e os ouvidos concentrados no quebrar das ondas. "Oi", foi o que ele ouviu antes de mudar o foco de uma para outra paisagem. Quase como se tivesse surgido do além, estava ali ao seu lado, cumprimentando-o com uma simpatia fora de série, uma morena (também fora de série) de parar o trânsito. Mesmo o preparado Cobain, de tantas histórias, sentiu um frio na barriga naquele momento.

– Reparei que você está há mais de duas horas aí sentado, sozinho. Algum problema? – perguntou a moça.

– Parei para admirar o pôr-do-sol e gostei tanto que acho que vou dormir por aqui, na areia – respondeu Cobain, sincero, até aquele momento.

Indignada com a situação do pobre (porém bem apessoado) rapaz, quis saber mais sobre Cobain. Como em nada se parecia com um mendigo ou sem-teto, por que haveria de passar por aquilo, deve ter se perguntado a moça, filha de um conhecido médico da redondeza – mas que estava fora da cidade curtindo bodas-de-alguma-coisa com a esposa. O galanteador de plantão soube, então, que ela estava sozinha em casa. Os problemas dele tinham acabado.

– Assim que me formei em Publicidade, pus a mochila nas costas e saí por esse mundão, sem rumo. Durmo ao relento quando ninguém me dá abrigo – inventou... e prosseguiu – mas tem valido a pena por causa de noites maravilhosas como essa e de mulheres lindas como você – lançou seu charme, usando doces palavras para conquistar a jovem filha do médico.

Algumas vezes Cobain me aconselhou: "tu tens de falar aquilo que as mulheres desejam ouvir, e só". O conquistador-mor de Pato Branco disse tudo o que aquela bela jovem, de curvas perfeitamente esculpidas, queria ardentemente ouvir. E sussurrou ao pé do ouvido, enquanto acariciava a pele macia dela. Falou frases românticas, falou frases picantes, falou frases impróprias para menores e deixou que ela "falasse" no momento em que a levou ao estado de nirvana.

Na casa do médido, de incontáveis quartos, Cobain dormiu pouco, mas dormiu bem; comeu bastante, e comeu bem (e em mais de um sentido da palavra); e se safou de passar a noite ao relento. Na manhã seguinte, foi acompanhado à rodoviária pela encantadora companhia que, pasmem, pagou sua passagem de volta. Tinham curtido se conhecer, embora sem apresentações mais detalhadas. "Posso saber o teu nome", perguntou a moça. "Melhor do jeito que está, para que meu coração não sofra de saudades", respondeu Cobain, antes de embarcar, antes de nunca mais se verem.

Naquele mesmo café da manhã, sugeri a Cobain: "conte-me mais dessas histórias para que eu possa escrever um livro". A obra poderia se chamar: "Como levar as mulheres ao 'nirvana'". Sobre paquerar no supermercado, estou certo de que é uma boa estratégia, desde que o galã seja do nível de James Bond, Don Juan, Zé Mayer e Cobain. Este, vale ressaltar, nunca precisou de um Aston Martin nem de "licença para matar".


4 de março de 2009

O sangue do escolhido

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A manhã de domingo era de sol e céu azul, com uma brisa suave que favorecia a consagrada rodinha de amigos na principal cafeteria de Pato Branco, a "boca maldita" da cidade. A viagem de férias, programada para dali alguns dias, era o assunto principal da conversa - inspirada por pequenos goles de café expresso com creme - entre meu irmão do meio e eu.

De dentro da cafeteria, onde também se vendem livros e revistas, podíamos ver o movimento do lado de fora (de veículos e de pessoas), na primeira quadra da Rua Guarani, o metro quadrado mais caro de Pato Branco. Em áreas importantes assim, a ronda policial costuma ser frequente e a criminalidade, o contrário. Não foi isso que se viu naquela manhã.

A calmaria foi quebrada quando um deficiente mental, figura conhecida e benquista dos clientes mais assíduos da cafeteria, correu para perto da entrada do estabelecimento para buscar ajuda. Um piscar de olhos mais tarde, surgem outros dois loucos, ambos maltrapilhos. Um deles, loiro e descabelado, dizia: "é ele que você tem de matar". Aquele que supostamente fora encarregado de matar, um sujeito moreno e impregnado pela sujeira e por um odor nada agradável, gritava: "eu sou o Diabo".

O "Diabo" ficou só no grito, como se quisesse intimidar a todos. Foi o loiro-louco que agiu ao partir para cima do louco do bem, amigo dos clientes. Agarrou-o com as mãos, uma no pescoço e outra no rosto, enquanto os funcionários ligavam para a polícia e alguns fregueses davam os primeiros passos no intuito de apartar a briga.

Ao ser esganado, o louco do bem aplicou uma mordida de pit bull no dedo do agressor, quase causando uma amputação. A Polícia Militar já tinha sido acionada naquele momento. O loiro-louco, transtornado ao ver jorrar sangue do dedo indicador de sua mão direita, passou a esbravejar: "vocês tiraram o sangue do escolhido". E quanto mais as pessoas riam da situação e das frases desconexas, mais o louco repetia que tinham tirado o sangue dele, um "escolhido", e que vingança seria feita.

Devia se tratar de um escolhido do "Diabo", já que tomando as dores do amigo louco, seu comparsa ajuntou duas pedras (grandes, por sinal) para atirar contra a pequena multidão, que observava o lamentável episódio a uma distância de cerca de 25 metros. A primeira investida acertou na parede de um hotel vizinho ao tumulto, a segunda no vidro e no retrovisor do gol branco de um dos clientes.

Ao ver que tinha feito besteira, o louco que dizia ter o Diabo no corpo, deu no pé com medo de ser preso. O louco "escolhido" se afastou sem pressa, "berrando" para todos ouvirem que ele era, óbvio, o escolhido - devia ter sido eleito em alguma votação no hospício de onde havia fugido. A clientela ficou revoltada, alguns cogitaram correr atrás do "Diabo" e aplicar, como se diz em alguns cantões do Paraná, uma "camaçada de pau" nele. Mas ninguém ousou tanto, tendo em vista o risco de levar uma pedrada.

Fiquei com meu irmão ali, reparando a cena de uma distância segura e, mais tarde, checando os estragos das pedradas na parede do hotel e também no veículo. Ficamos no local também por curiosidade, para saber se os loucos agressores seriam detidos. Como em tantas outras cidades brasileiras, em Pato Branco não foi diferente, a polícia chegou ao local apenas quase 20 minutos mais tarde, com o velocímetro da viatura bem pouco empolgado.

Da viatura da PM, desembarcaram dois policiais rechonchudos, um deles bem acima do peso para quem pode, eventualmente, ter de perseguir algum bandido em fuga. O outro, embora não tão gordo nem tão baixo, já aparentava idade para se aposentar. Olhei para meu irmão e disse: "já vi demais por hoje". Embarcamos no carro dele e fomos embora, deixando o último gole do café expresso esfriando na xícara.


4 de fevereiro de 2009

Um café com leite no micro-ondas (com hífen)

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Tarde de terça-feira (3 de fevereiro). Do jornal para a autoescola, para acrescentar à minha habilitação o direito de dirigir motos. Da pista de aulas práticas para uma panificadora no Centro de Maringá, por volta das 18 horas, para ler a Folha S.Paulo enquanto degustava sem pressa um apetitoso assado recheado com tomate seco. Pedi para beber um pingado, mais forte de café do que de leite (com E no final, em função do sotaque pato-branquense).

Entre a panificadora e minha casa, na Zona 3, são cerca de dois quilômetros, uma boa distância para queimar as calorias do tomate seco - e de calorias entendo bem, perdi quase nove quilos no segundo semestre de 2008. "Valeu", ainda agradecem meus joelhos, todos os dias. Fazia o percurso, pela Rua Santos Dumont, sem pressa, apreciando a arborização, as ruas planas, o planejamento da cidade, o asfalto bem conservado (acha que as ruas estão ruins? Então precisa conhecer mais o Brasil). Se me pedissem para descrever Maringá numa única palavra, diria: "gostosa", de um jeito que, se a cidade pudesse responder, exclamaria: "atrevido!"

Na noite anterior, tinha dormido apenas quatro horas. Destarte, a ideia era retornar ao doce lar e tirar um cochilo, mesmo que por alguns poucos minutos. Como dormir não costuma ser, ultimamente, uma das prioridades para mim, fiz um pit-stop na livraria do shopping Maringá Park, para folhear algumas revistas de moto. Vou precisar de uma, assim que tirar a carteira. Dizem que a crise tende a reduzir o preço dos veículos, pelo menos dos usados, tomara que sim.

Ao contrário do que costumo fazer, não pedi um café expresso naquele dia. Ainda considerava a proposta de um chochilo para mais tarde. Contudo, não deixei a loja de mãos vazias, sentiria-me mal se o fizesse - por ter "paquerado" as revistas. Comprei um dicionário, a 7ª edição do mini Aurélio, revisado conforme o Acordo Ortográfico - mas não me recordo o preço. E, como havia prometido, quando isso acontecesse passaria a escrever no Blog do LF de acordo com as regras adotadas para unificar a língua portuguesa.

Da livraria para casa e, no destino final, um café com leite esquentado no micro-ondas (agora com hífen) para o estômago. A postagem que você acaba de ler foi escrita respeitando o novo Acordo Ortográfico, ou seja, pouquíssima coisa mudou. Até o fim de 2012 valerão as duas formas, a nova e a antiga, porém, quanto mais cedo ocorrer a transição, melhor. Os jornais Folha de S.Paulo e Estado de S.Paulo, os maiores do País, já o fizeram, em 1º de janeiro.
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