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10 de julho de 2018

Sonhei com o Corinthians

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Noite fresca de outono, digna de um bom vinho tinto e de um prato saudável que me lancei a preparar para a família. No menu do dia, sopa de frango com caldo de abóbora cabotiá, com toque final de manjericão fresco da muda que eu ganhara semanas antes da amiga jornalista Juliana Daibert. A esposa aprovou, e repetiu, mas o gato Timbu deu apenas um golinho no caldo. Nessas horas, a família serve de cobaia em minhas incursões na cozinha.

O vinho e o jantar de quarta-feira, normalmente, acompanham a rodada do futebol. Na tevê, Corinthians e São Paulo pela semifinal do Paulistão 2018. No sofá, este jornalista, palmeirense, deliciava-se com a tensão alheia para conhecer o adversário do alviverde imponente na final. Em tese, todo palmeirense torce contra o Corinthians, mas naquele caso pouca diferença faria se o vitorioso fosse bambi ou gambá.

No segundo tempo, o zero a zero no placar despertou a irresistível vontade de zapear. Para quem cresceu em tempos analógicos, em que controle remoto não existia, trocar sucessivamente de canais sem levantar do sofá proporciona um prazer difícil de descrever. Quando percebi, estava envolvido com o Alienígenas do Passado, programa do History Channel que defende a tese de que seres de outros planetas tiveram importante papel no desenvolvimento de civilizações antigas.

Enfim, as histórias dos teóricos dos antigos astronautas me fizeram esquecer completamente do jogo e, quando lembrei de retornar ao canal de origem, o Corinthians tinha acabado de abrir o placar, nos acréscimos, levando a partida para os pênaltis. No momento decisivo, provavelmente sob bênção de São Jorge, o goleiro Cássio pegou duas e o Timão avançou à final. Ainda no sofá, peguei no sono minutos depois. E o sonho (pesadelo, talvez) que viria foi surreal.

Estávamos eu e os ex-colegas de redação Luiz de Carvalho e Welington Vainer saindo do estádio, onde tínhamos assistido àquele mesmo derby paulista. Nos tempos do jornal O Diário, Carvalho e Vainer eram parceiros do cafezinho da tarde em uma cafeteria na Avenida Brasil, de duas irmãs chamadas Val. Talvez pela influência subliminar desse convívio profissional diário eles tenham sido incluídos no sonho.

De repente, já estávamos em outro ambiente. Não sei dizer se era um pub ou uma cafeteria. Comentávamos sobre a ineficiência bambi – ao tomar o gol nos acréscimos – quando surgiu, todo ofegante, com a voz ligeiramente trêmula, um jogador do Corinthians. Ao menos no sonho, parecia muito se tratar de Romero, o atacante paraguaio.

— Eles foram embora sem mim — dizia, repetidas vezes, o jogador.
— Calma rapaz. Eles quem? — perguntou Carvalho.
— Meu time, o Corinthians. Esqueceram de mim — respondeu.
— Como é que um time esquece do jogador. Você não deve ser um cara importante, então — comentei.
— Que absurdo isso. Cadê o assessor do time numa hora dessas — reclamou Vainer, o único corintiano no recinto, além do jogador.

Discorríamos sobre o inusitado episódio quando Romero começou a chorar. De tão transtornado que estava, o corintiano custava a ouviu nosso convite para se acalmar. Nada como alguns goles de café, sem pensar nos problemas, para acalmar a alma.

— Rapaz, para que tanto desespero. Por que você não pega um táxi ou um uber? — questionou Carvalho.
— Não sei pra onde o time foi.
— Então, vai pra sua casa — sugeriu Vainer.
— Não lembro onde eu moro — respondeu o jogador, enxugando as lágrimas.
— Caramba. Depois dessa vou precisar mais de mais um café. Surreal — eu disse.

Parecia um pesadelo. Estávamos lá, entre goles de café, sem saber o que fazer com o corintiano. Ninguém queria se responsabilizar pelo cidadão, nem mesmo Vainer, que por ser do mesmo time tinha mais responsabilidades do que nós naquela situação. Se alguém tivesse de servir de babá, que fosse ele.

— Você que tem de levar o Romero embora — comentei, dando um tapinha nas costas do colega Vainer.
— É sim, é seu dever como corintiano — emendou Carvalho, aos risos.
— Não posso, vou pegar meu ônibus para Castelo em 15 minutos — retrucou Vainer, referindo-se à sua cidade, Presidente Castelo Branco, situada na região metropolitana de Maringá.

Ainda preocupado com o abandono, Romero disse estar sem dinheiro. Isso era ainda mais custoso de acreditar. Jogador de time grande sem grana? Devia ganhar por jogo, ainda que ficasse no banco, mais do que nós jornalistas num ano todo de trabalho.

O corintiano aceitou beber algo enquanto pensávamos no que fazer. Pediu achocolatado. Não tinha. Pediu fanta uva. Tinha. Vainer já havia vazado, como medo de ficar de babá. Éramos só Carvalho, eu e o jogador abandonado pelo Timão.

— Ele deve estar há muito tempo sem fazer gols, para ser esquecido desse jeito — eu disse a Carvalho.
— Nem sei. Prefiro ouvir jazz e ler livro a ver o Corinthians — respondeu Carvalho, sendo interrompido por Romero.
— Vocês não gostam de fanta uva?
— Não.
— Não.
— Por que não?
— Porque prefiro café — disse.
— Porque é bebida de criança — disse Carvalho. — Ou de bambi, e você é corintiano — acrescentou.

Para onde levar o cidadão, era essa a questão que pairava no ar. Para o albergue? Para a delegacia? Ou seria melhor ligar para o Conselho Tutelar? Muitas ideias surgiam quando, ao longe, notamos o amigo Rodrigo Parra se aproximar, com sua bike. Também jornalista, e fanático pelo Timão, Parra haveria de saber o que fazer.

— Parra, nos ajude por favor. Não sabemos o que fazer com este jogador — eu disse.
— Romero, o que você está fazendo aqui com um palmeirense? — perguntou Parra.
— Tomando fanta uva.
— Certo, deu para notar. Mas você não deveria ter viajado com o time? — tornou a perguntar Parra.

Nos instantes seguintes, Romero repetiu toda a história da má sorte do abandono, e tornou a chorar. Parra acalmou o jogador e tranquilizou a todos com sua resposta.

— Eu sei onde ele mora. Vou levá-lo para casa — disse.
— Ufa — respondi.
— Ainda bem. Como você vai levá-lo? — questionou Carvalho.
— No quadro da magrela, onde mais — respondeu Parra.

Em alguns cantos do país, o quadro da bike se chama "varão". Logo, Parra levou Romero para casa no varão. Acordei a rir disso, no sofá, horas depois do fim do jogo, pasmo pelo sonho bizarro que acabara de ter. Tomei um copo d'água, tornando a rir da situação do Romero, e fui para a cama acompanhar a esposa e o felino no descanso noturno. Não é todo dia que se tem um pesadelo desses com o time rival.


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29 de dezembro de 2010

Retrospectiva 2010

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Chego ao final de 2010 com o sentimento de que, assim como em 2009 (o melhor ano de minha vida), fiz valer a pena. Cobrei muito de mim mesmo para que, no fim da jornada, a colheita fosse boa. Colhi bons frutos da profissão, das novas amizades, do convívio familiar. Como quem vai à guerra, tive baixas em determinadas batalhas, porém, na fé de que recebi o auxílio divino nas minhas escolhas, tudo terminou bem.

Para quem amargou uma separação, há quase três anos, comecei 2010 com uma namorada  que hoje vive em São Paulo capital  e terminei o ano com outra. Duas mulheres fantásticas, que em muito contribuíram para meu crescimento como homem. Foi também neste ano que realizei dois desejos antigos: a compra de um carro zero e a sonhada viagem a Machu Picchu, no Peru. É para realizar sonhos que trabalhamos, senão de que valeria passar 11 meses por ano ouvindo cobranças e reclamações (tantas vezes injustas) do chefe?

No jornal, perdi algumas batalhas, mas quem não perde? Contudo, triste por não ter crescido tanto quanto esperava, comemorei em 2010 meu retorno ao jornal impresso e, melhor, à editoria de Política. Sigo firme para 2011 e com o anseio de escrever cada vez melhor.

Como cronista, 2010 não foi tão bom quanto 2009. Escrevi 22 crônicas, contra 47 do ano passado. Se considerar minha estreia como blogueiro de O Diário, com a página "Café com Jornalista", o número de crônicas está de bom tamanho. Não é fácil encontrar disposição para alimentar dois blogs. E é certo, saibam disso, que o ânimo para isso veio do feedback dado nos comentários e das palavras de incentivo de cada um de vocês, que acompanham o que escrevo.

Fecho 2010 com o sentimento de que fiz o suficiente, mas com o pensamento de que em 2011, ano em que completo 30 anos, devo fazer ainda mais. Concluir o primeiro livro está nos meus planos, cobrem-me quanto a isso. Deixo aqui, então, a lista das sete crônicas que mais curti escrever ao longo deste ano. Se possível, dê seu voto (em forma de comentário) para aquela que te agradou mais. Vou contabilizar também os votos (se houver) dados no Twitter, Facebook e Orkut. Depois publico o resultado. Feliz 2011 a todos. Que Deus nos abençõe.

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Escolha a melhor de 2010

- A Conspiração (ACREdite)
- A Parábola do Velho Boi
- Camilas, Vanessas e Grazielas
- Das Auto
- Chora, me liga
- As mulheres vão dominar o mundo
- Iracema vai se casar
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18 de novembro de 2009

Eis os cinco corajosos

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Estão definidos os cinco corajosos jornalistas – mais pacientes do que corajosos – que votarão para a escolha das 12 melhores crônicas deste blog, na última etapa de seleção. Eles aceitaram o convite para ler cada um das 17 melhores na opinião dos leitores e do autor e classificá-las com notas de 5 a 10, de modo que a mais interessante receba 10 e a mais chata, 5.

Os jornalistas são: Ivo A. Pegoraro, diretor de redação do Jornal de Beltrão; Paulo J. Rafael, professor universitário e proprietário do jornal Folha do Norte; Elaine Utsunomiya, editora de Suplementos de O Diário do Norte do Paraná; Vinícius Carvalho e Thiago Ramari, repórteres de O Diário do Norte do Paraná.

Vinícius Carvalho foi o primeiro a concluir a avaliação e as notas dadas por ele podem ser conferidas nos comentários da cada crônica concorrente. Pontuação e nota têm o mesmo peso, assim, "Orfeu e Violeta" lidera com 30 pontos. Em segundo está "Um tweet de Ana Paula", com 21, e em terceiro lugar "Uma diliça de madrugada", com 19,5.
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7 de maio de 2009

Revelações do Zodíaco

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Na redação de O Diário do Norte do Paraná, os repórteres escrevemos a partir das chamadas "ilhas", que são nada mais do que bancadas com quatro computadores, com divisórias de metal onde afixamos (geralmente com ímãs) lembretes, fotos, cartões postais, calendários, fotos de mulher pelada, etc. Batizei minha ilha de Polo Norte, por causa da frente fria vinda do ar-condicionado. O apelido pegou.

Lá no Polo Norte, estava mergulhado no universo das notícias, editando o site de O Diário - devidamente acompanhado de minha blusa de flanela xadrez vermelho e preto -, quando surgiu o mais workaholic dos editores. Trouxe consigo um pote de vidro com bolachas de mel até a metade do recipiente. "Minha esposa quem faz", disse ele, com seu sotaque curitibano.

Peguei apenas uma, mas deu vontade de apanhar uma meia dúzia delas. A aparência da bolacha e o aroma exalado pela guloseima davam a certeza de que o gosto não decepcionaria. Em tom de brincadeira, aproveitei o momento: "tua mulher tem irmã caçula?" Antes mesmo de o editor se manifestar, a repórter recém-casada do Polo Norte, descendente de japoneses e de sobrenome impronunciável, ouviu minha declaração e disse sem titubear: "minha irmã mais nova está solteira".

Glup! A declaração me pegou de surpresa. Raras foram as vezes que fiquei vermelho. Daquela vez, não pude evitar.

Lembro de ter visto a irmã solteira dela no casamento, dias antes, e de ter gostado muito do que vi. Infelizmente, não fomos apresentados (cadê os amigos quando precisamos deles?). Enquanto refletia sobre a bela irmã nipônica, abocanhando sem pressa a deliciosa bolacha de mel, escutei os outros dois colegas de Polo Norte trocando ideias sobre aquele lance de signo, o qual nunca acreditei.

"Ahhhhh, então teu ascendente é Virgem", disse Toméia para Ramalho, depois dele passar a ela dados como data, hora e local de nascimento, além do nome completo. "Opa, que história é essa de ascendente?", perguntei. Sempre soube que, nascido em 12 de março, sou Peixes, mas essa de "ascendente" nunca tinha ouvido falar.

Respondi ao questionário, aquele mesmo feito a Ramalho minutos antes. Toméia digitou tudo num site e eis a resposta: "teu ascendente é Áries", disse ela. Sempre achei que Peixes combinava mais com Aquário, mas Áries também faz sentido. Trata-se da primeira constelação do Zodíaco, situada no hemisfério norte. Talvez venha daí meu interesse inexplicável pela Groenlândia.

Toméia tinha lido o perfil de Ramalho, de acordo com aquele site, e pelo que conhecemos dele - um cara super-recatado, polido, centrado - a descrição "caiu como uma luva". Destarte, nada mais justo do que eu também saber o que o Zodíaco teria a dizer a meu respeito. Vejam o que Toméia leu sobre mim:

"Você enfrenta a vida de frente e lança-se em novas experiências com prazer e muito entusiasmo. É direto, taxativo, sem rodeios e normalmente sincero e franco em todas as suas atitudes. Por ser precisamente honesto e franco é difícil para alguém enganá-lo. Às vezes, passa aos outros uma aparência arrogante e perturbadora e, por isso, precisa lembrar-se que deve ter mais tato e sensibilidade para com outras pessoas. Para você, as coisas podem parecer muito óbvias (...)"

Até que fazia sentido. Para saber mais, a colega comentou que seria necessário pagar. "Para mim está bom assim", disse. Só não consigo fazer uma autoavaliação para ter certeza se o perfil traçado pelo site lembra, de fato, minha pessoa. Imagino que meus amigos têm mais condições de avaliar.

De qualquer forma, continuo descrente quanto à influência dos astros na personalidade das pessoas, porém, sigo na expectativa de ser apresentado à bela irmã japonesa da vizinha de Polo Norte. Na blusa xadrez da sorte, que já salvou muitos colegas da hipotermia... aí sim, eu acredito. E antes que falem mal do Polo Norte, vale esclarecer que o lance das fotos de mulher pelada era brincadeira.
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23 de fevereiro de 2009

Um orkut para Daibert

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"E aí Sudoeste", exclamou a colega repórter Juliana Daibert, com um abraço gostoso, depois de passar um mês longe da redação de O Diário, em férias - rodando esse Brasil de moto com o marido. Depois que ela descobriu que Pato Branco se autointitula a capital do Sudoeste do Paraná, é assim que ela me chama, sempre enfatizando o E para zoar do sotaque pato-branquense.

Daibert fez falta na redação de O Diário, não apenas pelo fato de ser a repórter setorista de saúde - e escrever com propriedade ímpar sobre o assunto -, mas pela paz de espírito que ela transmite. Trata-se de uma pessoa do bem, isenta de falsidade e leal a seus princípios. Sempre que preciso espairecer, ou desabafar sobre um entrevistado que me tirou do sério, corro na mesa dela trocar meia dúzia de palavras. E por lá, volta e meia, encontro torradinhas com mel.

Vou lhes contar quem é Daibert.

Passei maus bocados no final do primeiro semestre de 2008, na ocasião da minha separação. Sem condições psicológicas para o trabalho, desabafei com o ex-chefe de reportagem de O Diário, Rodrigo Parra, e dele recebi todo o apoio - como se fosse vindo de um irmão mais velho. Fiquei alguns dias sem ir ao jornal e sem falar com mais ninguém a respeito.

Estava em casa, reflexivo, solitário, quando recebi um telefonema de Daibert, que queria saber se eu estava bem e se precisava de alguma coisa. A demonstração de coleguismo foi importante naquele momento de dificuldade e, penso, talvez ela nem saiba disso. Depois de Parra, ela foi a primeira pessoa (fora a família) a quem contei meus problemas. Não tenho irmãs (e sim dois irmãos, mais novos), mas se tivesse gostaria que fosse da mesma "madeira" de Daibert.

Muitos a admiram e clamam a presença dela no orkut, rede de relacionamento que gosto de definir como "a perda de tempo mundial". Contudo, a jornalista que chegou a pegar os tempos da máquina de escrever nas redações, reluta contra o avanço das coisas virtuais. Certo é que Daibert terá de ceder, cedo ou tarde. E na campanha para que isso aconteça, criei a comunidade "Um orkut para Daibert". Não era dono de nenhuma comunidade, nem queria ser, mas para ter Daibert como amiga, também no orkut, tive de abrir uma exceção.
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Daibert em dois momentos na confraternização de fim de ano de O Diário: com o "Sudoeste" e com algumas das meninas da redação.
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1 de fevereiro de 2009

Porco a pururuca: jogador de Copa também gosta

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"Está a fim de cobrir uma reunião esportiva amanhã à noite? Ouvi que vai ter um jantar". A pergunta partiu de um editor, lá pelas tantas da noite, no final do expediente. Quando o dia de trabalho é árduo, o cansaço (mental, no caso de um jornalista) não te permite pensar em muitas possibilidades além de uma ducha quente e de uma cama espaçosa.

Clóvis, que editava interinamente as páginas de Esportes de O Diário, acrescentou: "se não tiver nada de interessante, você janta com o pessoal e vai embora". Uma espécie de isenção antecipada de culpa para o caso de, de fato, não ter nada de interessante no evento. No mínimo, conheceria novas caras. "Pode contar comigo", disse. O evento, no final de dezembro, marcaria o lançamento da camisa do Grêmio Maringá para a temporada 2009.

Vinte e quatro horas mais tarde, num clube dançante de idosos, aguardava pela apresentação da nova diretoria do clube e da camisa, com certa desconfiança. Havia comentários na cidade de que não seria desta vez que o ex-campeão paranaense ressurgiria das cinzas.

Batia um papo agradável com a assessora de imprensa não-oficial do Grêmio quando um colega de imprensa interrompeu. "Você viu quem está na reunião?". Ele se referia ao maringaense Alex Santos, lateral-esquerdo que disputou as Copas de 2002 e 2006 pela seleção japonesa. Filho ilustre do Grêmo Maringá, onde deu seus primeiros passos no futebol, Alex tinha dado o ar da graça. Isso significava, em suma, que tería uma matéria - com apresentação de camisa ou não.

Alex Santos, que ao contrário do Fenômeno não aparenta ter problema com peso, já se preparava para provar um aromático porquinho pupuruca, devidamente decorado com frutas e acompanhado de farofa (e limão em separado, para os mais exigentes), quando o interrompi. Fiz duas ou três perguntas e agendei para a manhã seguinte uma entrevista mais longa, na casa da avó dele. Fui àquela reunião sem a certeza de que o assunto renderia matéria, voltaria com a garantia de duas.

De fato, a camisa do Grêmio Maringá, listrada em preto e branco e com símbolo em preto e amarelo-quase-laranja, foi apresentada (e a matéria, publicada). E por quem? Alex Santos, que só não vestiu o manto por força contratual. É assim no futebol, o jogador só pode aparecer na mídia com a camisa de seu time (o Urawa Red, no caso de Alex) e da seleção nacional.

Dos famosos que entrevistei em 2008, sem contabilizar políticos, incluo Alex Santos no top três da lista, juntamente com o publicitário Roberto Justus e com o maratonista Vanderlei Cordeiro. Todos os três, simpáticos e atenciosos com a imprensa, cada qual do seu modo. Alex Santos: o mais a vontade nos trajes, porém, mais inibido na entrevista.

Foi uma conversa de 40 minutos, com gravador para registrar tudo e o fotógrafo Rafael Silva para garantir as melhores imagens (incluindo a foto desta postagem). O melhor do bate-papo com Alex Santos foi publicado em O Diário na edição deste domingo (1º de fevereiro). Ele disse, entre tantas coisas, que o São Paulo é como clube o exemplo a ser seguido no Brasil. Também falou sobre como se sentiu ao enfrentar a seleção brasileira, de Ronaldinho Gaúcho e companhia, na Copa da Alemanha, em 2006.
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16 de janeiro de 2009

A mulher de um milhão de euros

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Período de férias no jornal. E para cobrir a lacuna deixada por um colega repórter que curte o merecido descanso ao lado da família, quem sabe em alguma bela praia catarinense, fui deslocado das reportagem de política para O Diário Online.

Sim, ao menos em janeiro, escrevo notas curtas para o site, compilo reportagens de agências, atualizo a página com as principais matérias de O Diário do dia seguinte. Em suma, edito o "jornal virtual" interinamente.

Numa dessas - sob o princípio de que quanto mais lida for a matéria, melhor - publiquei no site a história de uma jovem americana de 22 anos que está leiloando a virgindade para pagar os estudos. Alguém já ofereceu mais de 3 milhões de dólares para ser o primeiro homem na vida da moça.

Na lista das mais lidas de O Diário, foi a matéria mais acessada do site por dois dias. Conseguiu deixar para trás as matérias policiais, normalmente as mais procuradas pelos leitores. Logo, precisava de um novo assunto bombástico, só não esperava conseguir outro semelhante.

Pois nesta sexta-feira (16), no giro pelas agências de notícias, deparo-me com a história de uma ex-BBB da tevê italiana (Rafaelle Fico, na foto) que, vejam só, está vendendo a virgindade. Nada de leilão, ela já fixou o preço em um milhão de euros. E um apresentador de telejornal de lá já ofereceu a metade do valor que ela quer (se ninguém cobrir a oferta, ela disse que dorme com ele).

Não conferi depois de publicar, mas quem sabe já esteja entre as mais lidas do site, como o foi com a outra.

Em tempos modernos, com meninas perdendo a virgindade cada vez mais cedo - e com qualquer um, para depois lamentar pelos cantos -, há quem prefira esperar um pouquinho para "valorizar o passe". Ao menos terão dinheiro para pagar os estudos, de várias gerações se for preciso.
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1 de dezembro de 2008

Um colega para não se esquecer

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Ocorre-me que o fato a seguir se deu em julho de 2007 (ou época próxima disso). Cinco de uma mesma família, que viajavam espremidos num Fusca, morreram em um trágico acidente em rodovia próximo a Londrina. O então chefe de reportagem de O Diário, Rodrigo Parra, levantou a cabeça, mirou em minha direção e disparou: "vai lá, e não volte sem um bom relato sobre o sentimento de dor daquela família".

A adrenalina disparou. Estava em minha semana probatória - a qual todo repórter de O Diário costuma ser submetido antes de ser contratado -, e temi que aquela matéria colocasse tudo a perder. Era o penúltimo dia no frila de uma semana (depois retornaria a Pato Branco), era o momento de "matar a cobra e mostrar o pau". E com uma ajuda única e especial, tudo deu certo.

O velório ocorria em Cambé, Região Metropolitana de Londrina, e para lá rumei na companhia do fotógrafo Henry Jr. Logo na chegada, ao estacionar o carro, antes de desembarcar, sentimos que a parada não seria fácil. Parentes das vítimas soltavam faíscas pelos olhos em nossa direção, pareciam ofendidos com a presença da imprensa e, acuados, não queriam que ficássemos. "Não tem nada para vocês aqui", gritou alguém, da casa onde velavam os mortos.

A morte foi causada por um estudante que, retornando (supostamente "mamado") da balada, após prestar vestibular na Universidade Estadual de Maringá (UEM), perdeu o controle de sua S-10 e atingiu o pequeno Fusca. Com o estudante, apenas algumas escoriações.

Ao descer do carro, Henri Jr. disse: "distrai o cara (aquele um, zangado), enquanto eu faço as fotos. Você pode inventar uma declaração, se quiser, mas eu não posso sair daqui sem uma foto", declarou, já calibrando a objetiva ideal para o momento. Foi o que aconteceu: ouvia horrores de um parente transtornado, que não queria dar entrevistas, enquanto o nobre colega adentrava de fininho na residência, sob olhares de desaprovação.

Foi uma reportagem delicada, quase apanhamos e o carro de O Diário por pouco não foi apedrejado, o que não ocorreu porque a presidente de bairro, com quem já havíamos conversado por telefone, contornou a situação em nosso favor. Henri Jr. voltou com as fotos e eu com a triste história. O mesmo sujeito que queria descer o braço na dupla entendeu que a publicação poderia pesar contra o jovem imprudente da S-10.

Da última vez que falei com Henri Jr., por telefone, quando ele já lutava contra o câncer, disse a ele sobre como sua astúcia e coragem foram fundamentais para que retornássemos de Cambé com a pauta cumprida. A matéria foi manchete da edição seguinte, e só o foi por causa do saudoso amigo. Sozinho, certamente teria apanhado e voltado sem as necessárias entrevistas, com os parentes das vítimas.

Nunca questionei Parra e Wilson Marini - o editor-chefe naquela época - se aquela matéria, em especial, pesou em favor de minha contratação. Tenho comigo que sim, por isso a última coisa que falei a Henri Jr. foi uma frase de agradecimento: "muito obrigado por aquele dia em Cambé". Ele sorriu e, em novembro deste ano, partiu deste mundo de reportagens muito loucas.

No jornal celestial, o mais lido entre os anjos, as fotos de Henri Jr. certamente estão ganhando a capa de todas as edições.
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