17 de julho de 2009
Graças a Pink Floyd
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Tarde fria de sábado, não me recordo ao certo a data, mas me lembro bem da história. Estavam os colegas de redação, Fanta Uva e Mortal, na cafeteria do shopping Maringá Park, bebendo uma daquelas opções de café com álcool – para esquentar o corpo –, quando surgiu um magrelo de óculos, cabelo enrolado, com seu afinado violão. Aparentava ser dos bons. Era bom que fosse, torciam os jornalistas, para não amargar o café.
— Tomara que a música seja agradável — disse Fanta Uva.
— Tomara que não seja sertanejo — emendeu Mortal.
Na companhia de seu violão, uma guitarra em stand by e duas caixas de som para dar vida à música, lançou-se num MPB para aquecer os dedos.
— Toca muito bem — avaliou a repórter, após o término da segunda música. Mortal ainda achava cedo para um palpite, isso antes de ser tocada a terceira do repertório do dia.
Com uma categoria ímpar, o músico fez seu violão "cantar" – e o exagero é pertinente – "Another Brick In The Wall", de Pink Floyd, uma das bandas mais bem sucedidas da história do rock. Em instantes, alguns garotos presenciavam de perto, em pé e estáticos, um deles com a boca aberta e quase babando, a execução da famosa música. O que mais um homem pode querer, além de boa companhia, um café expresso e rock de qualidade, ao vivo? Inevitável refletir sobre isso naquele momento.
Terminada a música, Mortal bebeu mais um gole e disse à companheira de cafeína: "preciso cumprimentá-lo". É inerente ao ser humano criticar quando se depara com algo que não o agrada, porém, raramente os elogios acontecem na mesma proporção. O violonista se preparava para massagear os ouvidos alheios, com alguma outra de seu repertório, no momento em que foi abordado.
— Olá, sou repórter do jornal O Diário. Quero te parabenizar pela música — disse Mortal. — Em Maringá, em quase todo lugar que vou só ouço sertajeno, por isso não esperava ouvir Pink Floyd — completou o jornalista que, graças à banda inglesa, teve a oportunidade de conhecer um instrumentista de grande talento.
— Só toco música de qualidade — brincou Marcos Santana, violonista que toca rock, blues, jazz, música brasileira e erudita; músico que não toca sertanejo, axé, funk e "na boquinha da garrafa". — É sempre bom receber elogios — acrescentou.
Mortal havia agido mais como fã de uma boa música, menos como repórter. Foi, elogiou, trocou meias palavras, voltou, tornou a beber seu café – convicto de que não estranharia se Eric Clapton viesse em seguida. Dois goles mais tarde, foi bombardeado por Fanta Uva.
— Você sabe se ele já lançou algum CD? Quando ele toca aqui novamente. Ele é de Maringá? O que ele faz, vive apenas da música? — perguntou Fanta Uva, lançando um olhar de reprovação ao perceber que Mortal não tinha feito nenhuma daquelas perguntas básicas. Questões que o repórter sanou minutos depois de terminado o café, pouco antes de irem embora.
Foi pela força do rock 'n roll que aqueles dois jovens repórteres – ele da área de política, ela especialista em gastronomia – haviam cruzado o caminho daquele talentoso violonista. Graças a Pink Floyd, sabiam que Marcos Santana, que não é parente do famoso guitarrista de mesmo sobrenome, lançaria seu primeiro CD dali dois meses. Também souberam que ele é músico profissional há mais de 15 anos e que tira da música, e apenas dela, o sustento de sua família.
Dia ou outro Mortal se depara com Santana pelas ruas da cidade. Numa dessas oportunidades, o músico fez o convite: "vou lançar meu CD dia tal, na livraria do shopping, aparece lá".
Mortal disse que faria melhor, prometeu uma matéria em O Diário a respeito... e cumpriu. Contou a Mercúrio, o editor de cultura do jornal, sobre como havia conhecido Santana. Lembrou também da brilhante execução de "Another Brick In The Wall" e, convincente, ganhou uma página inteira, colorida, para escrever sobre o violonista e seu primeiro álbum.
E todos ganharam com isso. Santana não se conteve em alegria, ao se ver no maior jornal da cidade. Mercúrio gostou da matéria e elogiou o trabalho. Mortal ficou feliz por ter o texto elogiado e, talvez por isso, bebeu quantidade dobrada de café naquele dia. Fanta Uva foi convidada para outro café alcoólico (sem segundas intenções) e a ambos – ela e Mortal – Santana prometeu tocar Pink Floyd, de novo. Pela força do rock, o café expresso ficou ainda mais saboroso.
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Tarde fria de sábado, não me recordo ao certo a data, mas me lembro bem da história. Estavam os colegas de redação, Fanta Uva e Mortal, na cafeteria do shopping Maringá Park, bebendo uma daquelas opções de café com álcool – para esquentar o corpo –, quando surgiu um magrelo de óculos, cabelo enrolado, com seu afinado violão. Aparentava ser dos bons. Era bom que fosse, torciam os jornalistas, para não amargar o café.
— Tomara que a música seja agradável — disse Fanta Uva.
— Tomara que não seja sertanejo — emendeu Mortal.
Na companhia de seu violão, uma guitarra em stand by e duas caixas de som para dar vida à música, lançou-se num MPB para aquecer os dedos.
— Toca muito bem — avaliou a repórter, após o término da segunda música. Mortal ainda achava cedo para um palpite, isso antes de ser tocada a terceira do repertório do dia.
Com uma categoria ímpar, o músico fez seu violão "cantar" – e o exagero é pertinente – "Another Brick In The Wall", de Pink Floyd, uma das bandas mais bem sucedidas da história do rock. Em instantes, alguns garotos presenciavam de perto, em pé e estáticos, um deles com a boca aberta e quase babando, a execução da famosa música. O que mais um homem pode querer, além de boa companhia, um café expresso e rock de qualidade, ao vivo? Inevitável refletir sobre isso naquele momento.
Terminada a música, Mortal bebeu mais um gole e disse à companheira de cafeína: "preciso cumprimentá-lo". É inerente ao ser humano criticar quando se depara com algo que não o agrada, porém, raramente os elogios acontecem na mesma proporção. O violonista se preparava para massagear os ouvidos alheios, com alguma outra de seu repertório, no momento em que foi abordado.
— Olá, sou repórter do jornal O Diário. Quero te parabenizar pela música — disse Mortal. — Em Maringá, em quase todo lugar que vou só ouço sertajeno, por isso não esperava ouvir Pink Floyd — completou o jornalista que, graças à banda inglesa, teve a oportunidade de conhecer um instrumentista de grande talento.
— Só toco música de qualidade — brincou Marcos Santana, violonista que toca rock, blues, jazz, música brasileira e erudita; músico que não toca sertanejo, axé, funk e "na boquinha da garrafa". — É sempre bom receber elogios — acrescentou.
Mortal havia agido mais como fã de uma boa música, menos como repórter. Foi, elogiou, trocou meias palavras, voltou, tornou a beber seu café – convicto de que não estranharia se Eric Clapton viesse em seguida. Dois goles mais tarde, foi bombardeado por Fanta Uva.
— Você sabe se ele já lançou algum CD? Quando ele toca aqui novamente. Ele é de Maringá? O que ele faz, vive apenas da música? — perguntou Fanta Uva, lançando um olhar de reprovação ao perceber que Mortal não tinha feito nenhuma daquelas perguntas básicas. Questões que o repórter sanou minutos depois de terminado o café, pouco antes de irem embora.
Foi pela força do rock 'n roll que aqueles dois jovens repórteres – ele da área de política, ela especialista em gastronomia – haviam cruzado o caminho daquele talentoso violonista. Graças a Pink Floyd, sabiam que Marcos Santana, que não é parente do famoso guitarrista de mesmo sobrenome, lançaria seu primeiro CD dali dois meses. Também souberam que ele é músico profissional há mais de 15 anos e que tira da música, e apenas dela, o sustento de sua família.
Dia ou outro Mortal se depara com Santana pelas ruas da cidade. Numa dessas oportunidades, o músico fez o convite: "vou lançar meu CD dia tal, na livraria do shopping, aparece lá".
Mortal disse que faria melhor, prometeu uma matéria em O Diário a respeito... e cumpriu. Contou a Mercúrio, o editor de cultura do jornal, sobre como havia conhecido Santana. Lembrou também da brilhante execução de "Another Brick In The Wall" e, convincente, ganhou uma página inteira, colorida, para escrever sobre o violonista e seu primeiro álbum.
E todos ganharam com isso. Santana não se conteve em alegria, ao se ver no maior jornal da cidade. Mercúrio gostou da matéria e elogiou o trabalho. Mortal ficou feliz por ter o texto elogiado e, talvez por isso, bebeu quantidade dobrada de café naquele dia. Fanta Uva foi convidada para outro café alcoólico (sem segundas intenções) e a ambos – ela e Mortal – Santana prometeu tocar Pink Floyd, de novo. Pela força do rock, o café expresso ficou ainda mais saboroso.
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Um café é sempre bom, a dois, melhor ainda, e quando se transforma em um novo capítulo dessa aventura que é a vida?!
ResponderExcluirBom se o "nosso" artista vai chegar lá...só o tempo vai dizer, mas ele já é história (pelo menos de uma certa tarde, numa certa cafeteria...).
...quem sabe esse encontro - regado a café - não inspira nosso amigo a compor uma balada para violão a Piazzola?!
Boa Mortal, muito boa...aliás, vou ali fazer um café, gourmet é claro, a tarde promete!
Saludos,
Fanta
Friooo , café,música de qualidade e boa companhia .O que mais faltaria ????
ResponderExcluirParabéns pela crônica ,merece repeteco ...
Cláudia
oi Fernando!
ResponderExcluirImagino a deliciosa sensação de um café a dois num lugar legal, e ainda uma música de qualidade ao vivo.
Bom texto, e parabéns pela iniciativa de "presentear" o rapaz com uma página colorida no jornal.
Abraços, e tudo de bom!
X=)
Ai Fernando, bom texto. Ta manda do vê heim. café boa música, boa companhia. quero saber mais sobre essa história.. Parabens.
ResponderExcluirHistória maneira, nunca bebi café com bebida alcoólica, talvez seja bom, mas eu não sou fã de café, a não ser o expresso.
ResponderExcluirTinha que ter mais artistas assim aqui em São Gonçalo e em Niterói.
Mortal tem razão em dizer que em muitos lugares da Cidade Canção toca-se sertanejo. Porém na minha adolescência já curti muito sertanejo, além de MPB, ou como dizem, música de boa qualidade. Mas arrisco dizer que na minha adolescência o sertanejo era melhor digerido. Hoje não curto mais, passou a fase, apesar de que sou obrigada, toda quarta-feira, a ouvir sertanejo, em função de ser o dia que minha diarista vai em casa e não gosto de ser mal-educada. Mas dói meu ouvido. Agora a pergunta que não quer calar: "Onde eu estava que não fui convidada a fazer parte desta agradável tarde de sábado?". Lembrem de me convidar da próxima vez. Adoro Pink Floyd, que junto com o sertanejo, Michael Jackson, U2, Legião Urbana..., fez parte da minha deliciosa adolescência lá em Palotina.
ResponderExcluirSensação.
Cara, curti de montão a crônica... show de bola! Valeu pela força que você tem me dado! Toco sábado lá no Maringá Park e, com certeza, vai rolar um pink! Valeu e sucesso sempre!
ResponderExcluirMarcos "Gilmour" Santana (por email)
De todos os comentários, fiquei mais supreso com o fato do "Abismo do Obscuro" ter dito que nunca bebeu um café irlandês! Precisa experimentar, pra ontem. Recomendo o café irlandês.
ResponderExcluirAo Marcos Santana... não há motivo para agradecer. Tocas bem, tens muito talento e, por isso, senti-me na obrigação de "cavar" um espaço em O Diário para falar do lançamento de teu CD! Valeu pelo exemplar autografado.
Eu ainda vou beber um café irlandês, deve ser bom.
ResponderExcluir- Mensageiro Obscuro.
Quando que o Marcos Santana vai estar em Pato Branco divulgando o CD?
ResponderExcluirO Luan Santana, parente ou não do Marcos, já esteve aqui, mas sertanejo não faz meu estilo!!!
um abraço e sucesso ao grande jornalista Luiz F e tb ao músico M. Santana...
Nota: 6,5
ResponderExcluirVinicius Carvalho
Nota: 9,0
ResponderExcluirThiago Ramari (por email)
Nota: 7,0
ResponderExcluirJuliana Daibert (por email)
Nota: 8,0
ResponderExcluirElaine Utsunomiya (por email)