1 de outubro de 2011

Vergonha no fundo do poço

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Meu pouco tempo de vida – aos 30, ainda me considero jovem – e também de Maringá não me impedem de afirmar, com propriedade, que a Câmara Municipal viveu em 29 de setembro de 2011 o pior momento de sua história.

Para evitar a revogação de um artigo que restringe a construção de casas geminadas na cidade, o vereador John Alves (PMDB) tirou a camiseta durante a sessão e ameaçou baixar as calças se os colegas insistissem na votação da matéria. Indignados, alguns vereadores deixaram o plenário no ato e a sessão, sem quórum, teve de ser encerrada.

Um episódio vergonhoso, que me leva a refletir, na condição de assídio frequentador das sessões ordinárias (aquela foi ordinária no outro sentido da palavra), sobre o que há de podre por trás do dito artigo 39 a ponto de um vereador se despir para impedir sua revogação?

Semanas antes, a Câmara havia dado um bom exemplo, ao atender ao clamor da população e votar contra o aumento do número de cadeiras. O striptease diante de um plenário lotado – construtores e lojistas do setor marcaram presença para pressionar os vereadores – foi a prova cabal de que o Legislativo fez bem ao manter as 15 cadeiras. Por pressuposto, com mais vereadores o risco de ocorrerem baixarias como essa promovida por John seria maior.


John conseguiu o que queria. Interrompeu a votação e mostrou que ele só precisa falar grosso para a maioria baixar a cabeça e obedecer. Concordo que os vereadores ficaram constrangidos com o episódio, mas largar a sessão por conta disso foi covardia. Deixaram o plenário como cães acuados ao invés de partir pra cima de John, cobrar a saída dele e permanecer para votar a matéria após a bagunça.

Apenas cinco ficaram no plenário: Mário Hossokawa (PMDB), Manoel Sobrinho (PC do B), Mário Verri (PT), Humberto Henrique (PT) e Marly Silva (DEM). Não restou a eles muito mais do que se desculpar com os presentes e levantar suspeitas sobre as geminadas. Qual o tamanho do "bicho da goiaba"?

Um dos vereadores disse que pode recorrer ao Ministério Público para que o projeto seja investigado. Outro, falou que entrará com uma representação, o que pode culminar com a cassação do mandato de John. Quem foi àquela vergonhosa sessão, e ouso falar (escrever) em nome deles, não espera menos que isso.

Também me entristeceu, já na redação, escrevendo a matéria, a reportagem levada ao ar por uma emissora de TV. Em uma conclusão infeliz, o âncora (apresentador do telejornal) fez piadinha com o ocorrido. Uma situação séria como essa não se leva na brincadeira – pelo menos não em público. Alguém, por acaso, tem a ousadia de aplaudir um indivíduo que pisoteie a bandeira nacional?

A luta por um Estado democrático – e muitos pagaram pela liberdade com o próprio sangue – foi por isso? A mácula deixada no Legislativo maringaense não será esquecida por essa geração. Deixei a Câmara, naquela quinta-feira, com vergonha de ser eleitor em Maringá.

Versão completa do artigo publicado no jornal O Diário.
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19 de setembro de 2011

Champions League

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A votação do número de vereadores em Maringá foi única. Fosse um show, diria: "valeu o ingresso". Nunca antes houve tamanha mobilização em torno de uma matéria apreciada no Legislativo maringaense. Pelo interesse popular, qualquer que fosse o resultado, a democracia sairia ganhando.

Em jogo estava a disputa pela manutenção das 15 cadeiras contra o aumento para 21 ou o limite constitucional para Maringá, 23. Uma quarta opção, passível de descrédito, sugeria a redução para 9. Pura demagogia. A proposta tinha como signatário um dos vereadores que lutavam pelo aumento e, indignado com a falta de apoio da maioria, fazia birra: "se não for pelo aumento, então vou votar pelo mínimo".

Na histórica sessão ordinária, plenário lotado. Dos 290 assentos, mais de dois terços eram ocupados pelo movimento que cobrava a permanência em 15. Todos uniformizados, de posse de adesivos da campanha e vestidos com camisetas pretas bacadas pela associação comercial. Alguns poucos corajosos, pró-21 ou 23, erguiam seus cartazes escritos a mão, em apoio a seus vereadores – a minoria na votação.

Da área reservada à imprensa, bebericando um cafezinho preto, o repórter que vos escreve observava atentamente a multidão, instantes antes da votação. O cenário lembrava uma decisão de campeonato de futebol, no qual, os vereadores eram os jogadores. No "gramado", somente a eles era dado o direito – conquistado pelo sagrado voto – de disputar a partida e marcar os gols da vitória. Aos mortais, restava torcer.

Como em qualquer grande clássico, emissoras de tevê e repórteres fotográficos disputavam o melhor ângulo para suas lentes. Ai de quem não voltasse à redação com a melhor imagem; teria de se explicar com o editor-chefe. Uma rádio e o próprio site da Câmara faziam transmissão ao vivo e um portal de notícias publicava as novidades minuto a minuto.

A maioria dos profissionais de imprensa estava ali, no "estádio", pela primeira vez no ano, sem a mínima noção das regras do jogo. Finalíssimas são assim mesmo, despertam atenção especial da mídia, inclusive de quem não é do ramo. O público, tão ansioso quanto a imprensa pelo pontapé inicial, observava os jogadores (vereadores) em aquecimento. Articulações de última hora são de praxe na política.

"Estádio" lotado para a decisão
Na arquibancada, a torcida do time dos 15 recebia chocolates – suflair e sonho de valsa – sem moderação. A considerar o nível do espetáculo e o aperitivo para formiga nenhuma botar defeito, diria que se tratava de uma final de Champions League, com o Real Madrid (time dos 15) jogando no Santiago Bernabéu. Uma legítima final europeia porque, fosse sulamericana, ao invés de suflair o público receberia balas de banana ou de canela ou, na melhor das hipóteses, aqueles "mumus" de doce de leite.

Jogando em casa, o Real Madrid sentia-se confiante. Discussões nos bastidores apontavam para uma vitória sem dificuldades do time dos 15. Flávio Vicente (PSDB) – o Cristiano Ronaldo deles – acenava para a torcida empresarial, sorridente, momentos antes do início do jogo. Parecia prever o que estava por vir.

Do outro lado, o modesto Fiorentina, do capitão John Alves (PMDB), não se dava por vencido. No futebol, e por que não na política, não há jogo ganho antes do apito final (votação). A pressão da torcida, toda de preto e com as energias repostas (lembra do suflair?), era grande. John tentava tranquilizar os seus. Ex-presidente da Casa, já havia passado por situações bem piores... e sobrevivido.

O temor é de que o Fiorentina cedesse à pressão. Quem já jogou futebol sabe que, até mesmo em peladas de fim de semana, jogar contra a torcida adversária é largar em desvantagem – emocional, no mínimo.

Primeiro tempo
As jogadas de destaque partiram dos vereadores que fizeram uso da tribuna. Frustrou-se quem esperava toques refinados, de classe. Não faltaram caneladas nos adversários, de um lado e de outro. No lance mais polêmico, talvez já sentido o peso de jogar "fora de casa", Marly Silva (PPL, na época DEM) deu um carrinho por trás – daqueles que no futebol de verdade rende cartão vermelho no ato – ao alegar que o Real Madrid jogava "de quatro" (em referência à subserviência ao poder Executivo). Quase deu briga.

Os principais lances do modesto Fiorentina, bem menos endinheirado que o Real Madrid, partiram de John. Entre uma e outra jogada, o peemedebista demonstrava que não cederia à pressão. Estava preparado psicologicamente. Em seu time, além de Marly, contava com a dupla de zaga do PRP, Luiz do Postinho e Wellington Andrade – que faltava muito aos "treinos" –; com o lateral esquerdo Mário Verri (PT), que conseguia alguns bons articulados cruzamentos à área; e com o atacante Manoel Sobrinho (PC do B), que tentou alguns dribles mais ousados, entre os quais citar Jesus Cristo pela enésima vez em discurso, sem êxito na tentativa de impressionar a torcida.

Com a simpatia do público "madrilenho" e aparente vantagem em campo, o capitão do Real, Mário Hossokawa (PMDB) e o volante turrão do time, Heine Macieira (PP), deixaram os lances de efeito da tribuna para "Cristiano Ronaldo" Vicente, que estava mordido por, dias antes, ter sua viagem à Europa vetada pelos colegas. Queria vingança.

O Real também levou à tribuna o lateral esquerdo, Humberto Henrique (PT), que muitos queriam ver disputando a temporada pelo Fiorentina; o meia Zebrão, recém-chegado ao time dos 15; e o back central Paulo Soni (PSB), um sujeito de pavio curto, famoso por suas frases de efeito. Durante a partida, Soni chegou a chamar os próprios colegas de time de burros. Ficaram no banco Márcia Socreppa (PSDB), Dr. Saboia (PMN) – todo time precisa de um preparador físico – e Bravin (PP), que um dia antes havia declarado num programa de TV que jogaria pelo Real.

Segundo tempo
Com sobras em campo, os gols do Real foram saindo naturalmente. O primeiro veio com a rejeição da proposta de 23 vereadores. A proposta de 9 também não passou... outro gol. Ao final do jogo, a goleada foi assegurada com 11 votos a 4 contra o aumento para 21 cadeiras. Três a zero.

No Fiorentina, John, Verri e Manoel se mantiveram firmes até o final. Marly e Wellington cederam à pressão e, no último momento, votaram contra 21. Chateado, mas de cabeça erguida, John se dirigiu à área reservada à imprensa para as entrevistas pós-jogo. Afirmava que, depois do desfecho daquele jogo, aposentaria-se ao final do contrato.

Os jogadores do Real Madrid se cumprimentavam em campo e, na arquibancada, a torcida de preto (cor do uniforme B do Real) comemorava. Não demorou muito, "Cristiano Ronaldo" Valente pulou o "alambrado" para tirar fotos com a torcida empresarial.

Em uma decisão que ficará para a história de Câmara "Santiago Bernabéu" de Maringá, para satisfação da maioria dos torcedores (eleitores), o Real Madrid faturou o título. Outra Champions League, ou seja, decisão do número de vereadores, só daqui quatro anos.
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2 de setembro de 2011

Pastel e pilates, por favor

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Direi a meu filho, quando tiver um: seja médico, advogado, engenheiro, jogador de futebol e até vereador, mas pense duas vezes antes de ser jornalista. O rendimento de repórter, em especial em cidades de interior, com poucas opções de trabalho, deixa a desejar. Quem quer ter algum ($$) a mais para investir na carreira precisa fazer dupla jornada, sentado em frente a um computador, no maior sedentarismo.

A mesma dupla jornada que me permite pagar uma conceituada pós-graduação e, uma vez por ano, fazer uma boa viagem; acarreta esgotamento mental, sucessivas faltas à academia, má alimentação, açúcar demais e fibras de menos, enfim, uma vida sedentária. Consequência: ganho de peso e malhação para correr atrás do prejuízo.

Com pouco tempo para exercícios, já tentei algumas alternativas. Cortei açúcar para perder míseras 200 gramas e desisti daquelas cápsulas que prometem absorver a gordura dos alimentos. Mentira, não funciona! Estou pensando seriamente em cortar as massas e parar de comer à noite, porém, de momento, a estratégia ainda não saiu do papel. Tenho receio de tomar remédio e prejudicar a saúde, por isso, o máximo que cogito é tomar aquelas vitaminas da Herbalife.

Ao lembrar o que me diz a balança, refuto a afirmação de minha magra e esbelta namorada de que estou bem. Só quer me agradar, é isso.

Para complicar, a academia que passei a frequentar fecha nos fins de semana e depois das 23 horas, nos dias de semana; justamente quando tenho tempo de queimar algumas calorias na esteira. Minha mãe quis saber por que parei de correr no Parque do Ingá. Tive de explicar, de novo, toda a história da dupla jornada e do sedentarismo.

Minha campanha pela perda de alguns quilinhos começa a ter participação popular. É o pessoal cruzando os dedos e até indicando academia – entre elas de boxe, esporte que eu praticava num passado mais magro que o atual. Numa das sessões da Câmara Municipal, na sala de imprensa, um vereador veio me dizer eu estava gordo. Nem reclamei da constatação porque, dessa vez, o vereador estava falando a verdade.

Como essa questão de redução de peso não se resolve de uma hora para outra, preferi postergar novas metas (para não falar em dieta) para segunda-feira. Na manhã seguinte à constatação do vereador, pedi um pastel de miniovo na feira, com café para acompanhar. Nessa história de perder peso, todo mundo tem uma "boa" dica pra dar. O nobre edil me indicou pilates. "Custa SÓ R$ 150 por mês", disse ele. Bom, enquanto não recebo salário de vereador, prefiro boxe… e um bom chope de vinho depois!
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31 de agosto de 2011

O aumento de vereadores e a colegial gostosa

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Em maio do ano que antecede as eleições, enquete qualificada do jornal O Diário revelou que 60% dos 15 vereadores maringaenses queriam ter o maior número possível de colegas na Câmara Municipal. Só dois deles falavam na permanência em 15. Semanas se passaram e, diante de turbulências – leia-se, pressão da sociedade civil organizada – o porcentual favorável a 23 vereadores caiu abaixo de 40%.

Ao entrevistá-los, nas sessões ordinárias, podia apostar que a maioria deles (talvez todos eles) deitavam a cabeça no travesseiro sonhando com 23, mas, temendo a perda de votos, contava apenas "15 carneirinhos". Há de se considerar que político de verdade, no Brasil, não fala a verdade sempre.

Situação que me faz recordar dos tempos de adolescente, no Colégio La Salle de Pato Branco. Aos 15 anos, meus colegas espinhentos e eu, o mais espinhento deles, sonhávamos pegar a garota mais gostosa da turma, mas, temendo levar um fora, a coragem (ou a falta dela) só nos permitia flertar com as meninas de modesta beleza – para ser politicamente correto.

Os vereadores não são muito diferentes daquilo. Respeitadas as devidas proporções, são tão covardes quanto garotos – espinhentos, virgens e sem namorada – de 15 anos. Fossem corajosos, bateriam no peito estufado e gritariam 23 sem medo de ser feliz e, eventualmente, de levar um fora (digo, perder votos).

Na prática só um dos edis, autodenominado "cabra macho de saco roxo", fez isso. E bastou o vereador John tomar coragem e protocolar proposta em favor do aumento para parte da turma dos 15 "sair do armário". Nove apoiaram a proposta, que precisava apenas de cinco assinaturas para tramitar.

Posso até imaginar os vereadores de Maringá como se tivessem 15 anos, com seus uniformes de estudante ao invés dos paletós das sessões. John mataria aula para cantar a menina mais gostosa no corredor e os demais, doidinhos para fazer o mesmo, porém, com medo de tomar uma advertência, dedariam o agarra-agarra à diretora do colégio.

Se no íntimo existe algum vereador que deseja manter o número de cadeiras em 15, sem demagogia, peço perdão pela brincadeira. Essa rara exceção faria valer a vontade do povo, que não quer mais vereadores e, sim, mais empenho do Legislativo no cumprimento de suas atribuições, entre elas a fiscalização do poder executivo. Alunos que matam aula, normalmente, não levam as coisas a sério.
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Crônica inspirada em artigo publicado em O Diario.
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31 de julho de 2011

Homem invisível

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Estirado no sofá, retomando o fôlego do exercício físico de minutos antes, flagro-me (outra vez) a observar a bela imagem de Marilyn Monroe. Lá está a bela, com seu olhar maroto, na estampa do meu relógio de parede. Os ponteiros do relógio feito de vinil reciclado, comprado numa lojinha dessas vende-tudo de São Paulo, quase marcam zero hora, impondo fim a um dia especial.

O Wikipédia me contou que o dia 26 de julho é a data de nascimento do saudoso Telê Santana (o melhor dos técnicos de futebol) e do vocalista da banda Rolling Stones, Mick Jagger (pai de trocentos filhos); e da morte do Papa João Paulo II. Para mim, o 207º dia do ano no calendário gregoriano passará a ser o Dia Internacional da Caloi 10.

A vida sedentária, a avaliação médica de pré-disposição a labirintite e o ganho de peso deram o alerta: havia passado da hora de mudar os hábitos. Matriculei-me numa academia, cortei os doces e frituras, reduzi as massas e, a mais empolgante das medidas pró-saúde, comprei uma Caloi 10 "zero km". Dizem se tratar (e eu concordo) do maior clássico entre as bicicletas fabricadas no Brasil.

Todas as cinco bikes que tive, anteriormente, foram presentes de meu pai. Logo, é a primeira vez que meto a mão no bolso para comprar uma bicicleta. Um sabor especial, quase comparado à compra do primeiro carro zero.

Lembro-me bem da última bicicleta que tive: uma mountain bike Sundown 18 marchas, roxa com detalhes em rosa e azul, bar hands também na cor rosa. Um pouco gay? Bastante, diria, mas na época não achava isso. A "magrela" era única na cidade, não havia outra igual. Da adolescência ao período da faculdade, foi meu principal meio de transporte na montanhosa Pato Branco. Por lá, ao contrário da plana Maringá, faz todo sentido ter 18 ou 21 marchas.

Com imenso pesar, vendi aquela bicicleta em 2006, antes de partir para uma temporada na Alemanha. Foram sete longos anos sem andar de bicicleta (ergométricas de academia não contam). Era difícil conter a ansiedade para voltar à rotina das pedaladas. Perder calorias com a sensação de liberdade do vento na cara? Bah, tudo de bom!

Tão logo saí do trabalho, apanhei e Caloi 10 e parti para o passeio inaugural. Não ousei largar as mãos do guidão, como fazia quando era mais jovem, com menos peso e mais cabelos. Andar de bike "sem as mãos" só depois de comprar um capacete.

Passei no posto para calibrar os pneus. Meti neles as 100 libras que o fabricante sugere, morrendo de medo de o pneu estourar de súbito. Dois caras na faixa dos 50, que abasteciam seus carros, vieram puxar conversa. Um teve Caloi 10 no passado, ambos não sabiam que o modelo ainda era fabricado.

- Caloi 10 é que nem Kombi, não acaba nunca - brinquei. Os camaradas se foram, um deles convicto de que uma Caloi 10 o deixaria alguns anos mais jovem.

Calibrando os pneus ou pedalando, o que não pude deixar de notar é que, no universo feminino, homem em bicicleta é invisível. As mulheres de hoje gostam mesmo é de homem com carro. Moto 150 cilindradas não serve. Carro usado também não serve, tem de ser novo e, de preferência, importado. Ser "Maria gasolina" está na moda. Não faz muito tempo, uma dessas me disse: "preciso de um mínimo de conforto". Nunca mais a convidei pra sair.

Quando era adolescente, já faz um bom tempo, os rapazes com Caloi 10, a primeira bicicleta com marchas do Brasil, faziam tremendo sucesso com as meninas. E elas até aceitavam uma carona no quadro da magrela. Ou, como se diz em Pato Branco, "no varão da magrela". Em tempos de domínio das "Marias gasolina", só se consegue tamanha proeza com uma Harley-Davidson.

Homem invisível que sou, apanhei a Caloi 10 e parti pelo roteiro pré-definido no Google Maps. Foram 17 quilômetros, dos quais pequeno trecho das pedaladas se deu em uma das raras ciclovias de Maringá. Na metade do percurso, fiz uma pausa estratégica na casa da Dona Celina, onde sempre encontro café passado e pão com manteiga. Bom pra repor as energias.

Os quilômetros finais, no retorno para casa, foram doloridos. Bicicletas da categoria Speed são leves, rápidas, interessantes de pilotar, mas deixam a desejar em conforto. Ouvi falar que ciclistas experientes usam shorts com almofada no traseiro. Muita frescura. Prefiro ficar com o traseiro doído.

Apesar das dores, vou guardar boas recordações do primeiro Dia Internacional da Caloi 10. Marylin, com seu sorrido maroto, parece me observar com olhar de aprovação. Nos tempos dela, homens de bicicleta não eram tão invisíveis quanto hoje, posso apostar. Algumas até aceitavam carona no varão.


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9 de maio de 2011

Graças a Deus

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Bíblia debaixo do braço, terno e gravata a caminho da igreja, a pé, com sua esposa de cabelos compridos e saia preta até o chão. O sorriso de um santo estampado no rosto, como se debochasse de todos que cruzavam o seu caminho, todos pecadores. Sujeito, com essas qualidades, seguia seu rumo do outro lado da rua. Matheus, possivelmente, não tornaria a vê-lo, mas ficou por instantes a refletir se o pentecostal era, por dentro, tão feliz quanto seu sorriso supunha.

“Se tenho fé em Deus, logo, também sou um filho de Deus”, pensava. “Não sou menos filho de Deus porque minha garota é gostosa e usa shorts curto”, refletiu. Bíblia empoeirada no armário, camiseta xadrez e calça jeans a caminho da padaria, com sua namorada de camisola e nada mais, aguardando o pão francês quentinho para o café da manhã. Seguia seu rumo, do lado de cá da rua, a pensar na vida como fazia todo início de ano: “será que sou feliz?”

Matheus nunca foi do tipo religioso. Havia se afastado dos “irmãos” da igreja depois de um deles, que lembrava o jeito de santo do sujeito do outro lado da rua, associar inferno a sexo fora do casamento. Fora casado e, à época, sua vida era um inferno. Pecador ou não – por conta da companhia seminua em sua cama -, fazia suas orações toda noite antes de pegar no sono. Às vezes perguntava a Deus: “sou mesmo feliz?”

No silêncio de seus pensamentos, antes do “amém”, agradecia por ter saúde, por seus pais e irmãos terem saúde, por sua namorada ter saúde… no caso dela, uma saúde repleta de curvas! Lembrava da preocupação de seus pais para com o futuro dos filhos. Frequentou as melhores escolas e teve uma educação pautada nos princípios cristãos, porém, quando adolescente, era tomado por acne e as meninas não se interessavam por ele. Naqueles tempos, dizia com convicção: “não sou feliz!”

Cresceu, teve a primeira namorada, foi à faculdade, foi às festas da faculdade, teve outras namoradas, graduou-se bacharel e conseguiu seu primeiro emprego. Fez amigos cultos, alguns dos quais advogados, trocou de emprego, casou-se e dois anos depois precisou de um de seus amigos advogados, no processo de divórcio. A cada troca de emprego e de namorada, questionava-se: “isso me faz feliz?”

O salário estava longe de ser o sonhado. “Quem ganha bem é patrão, não empregado”, ouvia na “rádio corredor” da empresa. Há quem diga que se queixava de “barriga cheia”. Em cinco anos, havia conhecido cinco países e duas das novas maravilhas do mundo. Viajou ao litoral após anos sem ver o mar e as mulheres de biquíni. “Na piscina”, dizia, ao contemplar o oceano e o bronze alheio, “não é a mesma coisa”. Vindo da praia ou do exterior, o retorno à comodidade do lar enchia seu coração de dúvidas: “este lugar me faz feliz?”

No caminho de volta da padaria, o telefone tocou. Alguém chorava do outro lado da linha. Era uma mulher e a voz, soluçante, difícil de compreender. Suas pernas tremeram. Uma amiga de longa data, sobre um amigo de infância de Mateus e ex-namorado dela: “o paraquedas do Júlio não abriu”. A perda trouxe dias difíceis, tristeza e lágrimas. Trouxe reflexão. O paraquedismo, diante dos apelos maternos, Matheus deixou de lado. O azar poderia ter piscado para ele, ao invés de Júlio. Preferia o piscar dos olhos azuis e o shorts pouco comportados da namorada. Diante do risco de ir para o inferno, orava e agradecia a Deus: “viver me faz feliz!”
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8 de abril de 2011

Não pare na faixa

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O título, meus caros, não é educativo. Trata-se de um desabafo e, sendo assim, não tire conclusões sem ler o texto até o final. Tem a ver com uma dose cavalar de chateação e que me levou à seguinte reflexão: vale mesmo a pena agir corretamente?

O sábado começou com uma manhã entediante de trabalho. A rotina de repórter não é a maravilha que os estudantes de Jornalismo imaginam (e que eu também imaginava em meus tempos de academia, há quase dez anos). Fui escalado para cobrir o retorno de Rodrigão a Maringá e, na companhia de fotógrafo do jornal, levamos um chá de cadeira à espera do BBB no shopping onde ele participaria de sessão de autógrafos.

Deve ter sido castigo, pelos trotes que havia passado no Twitter sobre uma repentina chegada de Rodrigão, dias antes. Como entusiasta da editoria de política, queria ter acompanhado a reunião da simpática senadora Gleisi Hoffmann - esposa do ranzinza ministro Paulo Bernardo - com prefeitos da região. Baita azar, porém, o pior estava por vir.

O estresse do trabalho passou com um bom cochilo depois do almoço e com a terapia de sempre: a associação de livraria e café expresso, com ambiente climatizado para escapar do calor maringaense. Para melhorar, o café foi na agradável companhia de uma amiga jornalista. Para ficar perfeito, à noite passei buscar a namorada para jantar e beber um bom vinho. E bons vinhos sempre... bom, não há necessidade de pormenores.

Mas “quando a esmola é demais”, como diz o ditado, “o santo desconfia”. Alguma coisa estava para dar errado.

No percurso a caminho do Centro da cidade, por volta das 21h30, reduzi a velocidade ao notar um pedestre no canteiro central, aguardando para concluir a travessia da avenida. Fiz o que se ensina em qualquer autoescola, ao respeitar o Código de Trânsito Brasileiro e atender ao apelo das insistentes e válidas campanhas de trânsito: dei preferência ao pedestre. Uma fração de segundo depois, senti a pancada no meu carro vermelho de marca italiana e o corpo contra o sinto de segurança. Sinalizei com o pisca alerta que daria preferência ao pedestre, mesmo assim sofri colisão traseira de Vectra conduzido por um empresário, ou melhor, um ignorante de um pequeno município vizinho.

Não briguei, não ofendi o sujeito. Acidentes acontecem e, felizmente, ninguém se feriu. O empresário assumiu a culpa de imediato. Um senhor em torno dos 55 anos, que aparentava estar sóbrio. Bateu por descuido, não por conta do efeito da ingestão de álcool. Ele ainda tentou se esquivar de meu carro e, felizmente, não conseguiu. Estou certo de que teria atingido o pedestre, que já atravessava a faixa.

Lembrei-me de uma campanha educativa da Prefeitura de Maringá que passa diariamente na TV a cabo local. “Em Maringá, atravesso a rua na faixa, porque muitos motoristas respeitam os pedestres e param na faixa”. Como a utopia soa bem na tevê. Faltou dizer que outros, que não respeitam, passam por cima de quem estiver na frente.

Não demorei para perceber que o estrago no carro seria o menor dos problemas. Ou melhor, demorei, e muito. A Polícia Militar (PM) compareceu para registrar o boletim de ocorrência próximo da meia-noite, duas horas e meia depois de ser acionada. E depois da chegada da PM, lá se foram mais 20 minutos para preencher a papelada. Soube do sargento que se o imposto do veículo não estivesse em dia (ainda bem que estava) eu seria multado e o carro, guinchado. Um tanto justo: quem mandou parar na faixa?

Duas semanas se passaram desde a raiva daquele sábado à noite e, querem saber, o carro ainda não foi consertado. A companhia de seguro do empresário autorizou o conserto, mas há fila na mecânica autorizada e falta de peças no estoque. Nada como andar a pé para perder uns quilinhos.

As campanhas educativas se esforçam para elevar a segurança do trânsito, mas o “sistema” não colabora. Colisão traseira, horas de espera pelo boletim de ocorrência, risco de ter o carro guinchado, perda de ânimo para o programa de sábado à noite com a namorada, falta de peças para o conserto, dias a pé, estresse e cabelos (que já são poucos) a menos... tudo por conta do respeito ao pedestre. Como a batida daquela noite foi em frente à uma pizzaria, tudo terminou em pizza.
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