14 de fevereiro de 2009

O que MacGyver faria?

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A visão predominante ao se abrir a janela da cabana, logo pela manhã, era de uma verdadeira floresta. Estava ali há quase um ano e a variedade de plantas era cada vez maior. "Talvez algumas delas ainda nem tenham sido catalogadas", disse para mim mesmo, cogitando chamar uma amiga bióloga que lida com vendas para analisar a situação.

Sempre tomo os devidos cuidados para evitar criadouros do mosquito da dengue, mas fora o Aedes aegypti, havia insetos de toda sorte naquela cobertura verde, desde os sempre presentes "tatuzinhos" às belas joaninhas.

Seria merecedor de uma medalha do Greenpeace como ativista-voluntário não fosse a dita floresta um verdadeiro matagal e a cabana, minha casa. O mato parecia ter crescido um mês em uma noite e, quando me dei conta, a calçada ligando o portão à casa dos fundos já estava tomada. Um bom sinal de que, se preservada, a natureza faz sua parte, e a erva daninha o faz ainda mais rápido.

No canteiro central, o mato já começava a "raspar" o assoalho do Sólido - nome de meu Fusca 1975, azul-escuro com branco-gelo nas laterais, pintura perolizada e interior combinando com as cores do lado de fora -, carro que está comigo desde 2006 e que colocarei à venda em março. Voltando a falar do mato, na lateral do corredor, algumas espécies atingiam a altura do Fusca.

Era fácil imaginar o cansaço que daria para pôr fim àquela selva, difícil era calcular quantos mililitros de suor teria de derramar. Tinha permitido o desenvolvimento daquelas espécies, sem impor controle, então não seria justo pagar para alguém fazer o trabalho sujo. O jeito era vestir uma camisa regata e um calção confortáveis e calibrar uma Coca-Cola na geladeira.

Ainda não mencionei: o episódio se deu dias antes do Natal de 2008. Passaria o feriado cristão em Pato Branco e, se deixasse para desmatar aquela área verde mais tarde, quando retornasse é certo que precisaria de um mapa, uma bússola e, quem sabe, um guia (digo, uma guia) indígena para fazer o percurso da rua até a porta de casa, sem me perder.

Se dispusesse do arsenal de ferramentas do galpão de meu falecido avô, Armando Cardoso, começaria o carpido com uma foice - uns dias a mais e seria necessário um machado - e liquidaria a fatura com uma enxada. Sem um artefato "bélico" à altura da ocasião, precisei queimar algumas calorias a mais (sorte minha ter reservas) para dar conta do recado com uma pequena faca de cozinha, de ponta pouco afiada e com cabo de plástico, daquelas que penam até para cortar carne de frango. Adianto que a pobre ficou um bagaço após o serviço.

Como por aqueles dias estava iniciando no jornal às 13 horas, devotei duas manhãs inteiras ao meio ambiente. Algo me diz que, agora, tenho currículo para me candidatar a uma temporada no Greenpeace. Tinha tudo planejado, roçaria o mato, deixaria o amontoado secando ao sol para, no domingo, queimá-lo sem piedade. O volume era grande e, desse modo, seriam necessárias dúzias de sacolas recicláveis caso optasse em empacotar o mato para ser levado pelo caminhão da coleta.

Devastei 90% da selva, deixando um refúgio seguro de 10% da "mata" aos insetos. Do contrário, eles poderiam reivindicar abrigo em minha residência.

Não choveu por aqueles dias e o mato empilhado secou rápido. No domingo, as folhas secas clamavam por um palito de fósforo tanto quanto um fumante assíduo - daqueles que escurecem o pulmão desde as primeiras horas do dia - que tem o tabaco em mãos, mas não tem o fogo.

Antes de atear fogo no material orgânico ressecado, com o gosto da vingança pelas horas na lida, tomei o cuidado para que a fumaça não fugisse do controle. A vizinha dos fundos tinha saído e as janelas estavam fechadas, não havia roupas no varal e, o melhor, quase não ventava. Fora os insetos que preferiram ficar na palha seca, e que pela teimosia tostariam em instantes, eu era a única alma viva nas proximidades.

Pus fogo e fiquei ali, a alguns passos, sentindo o calor, ouvindo os ramos secos estalarem, admirando as chamas como deviam fazer os homens das cavernas nos tempos em que as mulheres eram puxadas pelos cabelos. Cheguei a me sentar no piso, sem me importar com o chão sujo e a bermuda semilimpa. Naquele momento, sentia-me como um imperador. Nero, talvez.

O império, no entanto, sucumbiu três minutos depois quando, do centro das chamas, surgiu um fino esguicho d'água, que pela pressão vencia a gravidade por cerca de quatro metros de altura antes de cair como chuva. "Porcheria", exclamei no impulso (e no susto), em italiano mesmo, ao perceber que o fogo rompera algum encanamento. Felizmente, pude contar com três baldes cheios d'água, remanescentes da roupa que lavara horas antes de atear fogo em "Roma". O mesmo episódio me fez sentir, primeiramente, um militante do Greenpeace, depois um imperador romano e, por último, um bombeiro.

Custava a acreditar na falta de sorte. Todo o encanamento que leva água do registro à casa, numa extensão de 15 metros - num cálculo puramente visual - ficava sob o concreto. Sem perceber, tinha escolhido, para amontoar o mato, o único meio metro em que o cano ficava a mostra.

O rompimento no cano, do tamanho da circunferência de um prego grande, foi no domingo (21), dia de comércio fechado; viajaria na quarta-feira (24). Precisava consertar aquilo o quanto antes para, sem preocupações, comer peru assado em Pato Branco, com a família. Poderia chamar um encanador na segunda-feira (para levar uma facada, no bolso), porém, preferi improvisar no conserto do vazamento.

Não dispunha dos apetrechos usuais para consertar um vazamento d'água, mas precisava fazê-lo. Era uma questão de honra. Fã de séries norte-americanas, e com 27 anos de idade, foi inevitável pensar: "o que MacGyver faria?" Menciono minha idade porque alguém com menos de 23 anos dificilmente pensaria o mesmo - por ser muito jovem na época em que a série foi transmitida. MacGyver era um agente secreto americano que se recusava a utilizar armas de fogo. Sempre acompanhado de seu canivete suíço, era capaz de fazer um explosivo sem usar pólvora. Duas semanas antes, tinha procurado na internet um box da série, mas a primeira temporada estava esgotada.

Não sem antes fechar o registro, corri para diante de minha caixa de ferramentas, dotada de estanho, ferro de solda, alicates para lidar com pequenas e grandes fiações e vários tipos de chaves. Materiais esses que mantenho desde que estudei Eletrônica no 2º grau técnico no Centro Federal de Educação Tecnológica do Paraná (Cefet-PR, hoje UTFPR), em Pato Branco, além de um ano da faculdade de Tecnologia em Automação Industrial, na mesma instituição.

Arrisquei, primeiro, o óbvio: durapox (já vi escrito de várias formas). No final da noite, com a pasta-colante seca, liguei o registro para acabar "apreciando" um novo gêiser. Fui dormir desgostoso com a situação e acordei com uma ideia brilhante, daquelas que MacGyver teria tido em segundos, mas que precisei de horas - algumas das quais sonhando. Animado, cheguei a recordar a música tema da série naquele instante.

Apanhei fita veda-rosca, chave de fenda, durapox e um parafuso, um pouco mais grosso do que o furo no encanamento. Envolvi o parafuso com veda-rosca (sem economizar) e utilizei a chave de fenda para parafusá-lo no cano. Então, cobri tudo com durapox. Esperei secar e, pouco antes de ir ao jornal, religuei o registro, temendo que o parafuso fosse lançado ao espaço como um foguete tripulado. Que nada! O bendito ficou lá, tal como se tivesse sido colocado pelo próprio Richard Dean Anderson, ator protagonista da famosa série.

Fui a Pato Branco, voltei a Maringá, e o parafuso continuava preso ao cano, como se tivessem nascido um para o outro. Ficou tão bom que preferi nem chamar o encanador. Toda vez que voltava para casa, fosse do trabalho ou de um passeio, ficava orgulhoso ao avistar o parafuso, tecnicamente afixado. Sentia-me o MacGyver em pessoa e não queria que aquele sentimento holywoodiano de capacidade passasse.

Um dia desses, no final de janeiro, inventei de mostrar a proeza a um vizinho metido a encanador. Para minha surpresa, ele - um senhor de quase 60 anos - ficou transtornado ao ver um parafuso contendo o vazamento, como se aquilo fosse uma heresia. "Vou fazer um serviço decente aí, nem que seja de graça", resmungou. Preferi não me opor à iniciativa e ainda paguei (insistindo para que ele aceitasse) R$ 25 pelo serviço. "Com a 'fé' das pessoas não se brinca", pensei.

O casamento entre cano e parafuso foi curto, mas bom enquanto durou. Para ninguém mais ficar magoado, melhor que MacGyver não saiba da parte final dessa história, que fique entre nós.
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4 comentários:

rachel.coelho disse...

MacGyver é uma figura recorrente na minha memória. Gostaria muito de rever os episódios da série, mas nunca fui atrás de procurá-los.

Fosse vc, teria deixado o parafuso para saber até quando duraria o conserto.. rs!

bjs!

Luana Caroline disse...

Eu acho que se MscGyver lesse esta passagem, pensaria: "Nossa! Ele teve a minha idéia!" Salvo o final: ele não teria aceitado o trabalho do encanador! hehehe
Gosto de ler suas histórias, me faz ficar presa a tela do computador até terminar!
Forte abraço, SUCESSO!!!

Eduardo disse...

A bela Luana Carol já disse tudo!!!

elaine disse...

Mais um delicioso texto. Sempre muito perspicaz.
Bjos
Elaine

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