28 de junho de 2009

Cobain e o universo feminino

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Poucas pessoas que conheço têm autoestima tão elevada quanto Cobain, um amigo de faculdade com quem editei, no início da década, um folhetim acadêmico chamado "O Contiúdo". Publicitário, dono de ideias mirabolantes, afirmava com convicção que "supermercado é o melhor lugar que existe para arrumar namorada". Por experiências malsucedidas, sempre discordei da "máxima" criada por ele, porém, jamais ousei duvidar das verdades ditas por um colega que conhece como poucos o universo feminino.

José Mayer
Panca de galã, moreno de pele clara, 1,82m de altura, Cobain é um cara desinibido, mesmo perto das mais belas mulheres. Em número de namoradas, é possível que só perca para James Bond, Don Juan e José Mayer, com o pertinente detalhe: o publicitário nunca fez novelas, não é agente secreto nem tem emprego fixo nem um esportivo Aston Martin na garagem – aliás, nem carro ele tem. Nada disso, no entanto, pesa nas investidas de um conquistador de seu calibre.

Certa vez no Sabiá, o bar que serve o melhor e mais reforçado café da manhã de Pato Branco, questionei o ex-colega de "O Contiúdo" sobre como é possível o supermercado ser o melhor lugar para paquerar se a maioria das mulheres que fazem as compras são casadas. O amigo do ditado fácil – "solteiro sim, sozinho nunca" – respondeu: "não sou ciumento". Difícil acreditar na cara-de-pau do cidadão? Não se você conhece Cobain pessoalmente.

Muitas dicas depois, passei a reparar mais nas jovens clientes – no meu caso apenas as solteiras, porque odeio confusão – nas idas ao supermercado. Da última vez, estava no setor onde ficam os objetos de papelaria quando, de repente, surge uma linda garota, de cabelos ondulados e olhos verdes, de 17 anos (talvez 18). Pensei ser meu dia de sorte, doce ilusão.

"Se eu comprar uma lapiseira, precisa ser 0.7, porque 0.5 já tenho duas. Mas tem de ser uma lapiseira, porque se comprar um lápis vou precisar também de apontador", falava a guria, consigo mesma. "Acho que vou levar uma caneta também. Oooooolha essa do Mickey que legal", e fazia pausas como se ouvisse alguém do lado dela, ajudando-a a escolher o produto. Antes mesmo que a linda e assustadora guria notasse minha presença, "piquei a mula".

Ao contrário de Cobain, capaz de distribuir cantadas inclusive na prateleira do leite ninho, logo percebi que esse negócio de paquerar em supermercado não é minha praia. Numa outra oportunidade, rolava o maior papo com uma bela loira balzaquiana, sem anel nos dedos, promotora de uma marca de café, quando ela disse: "o tipo Gourmet é o favorito de meu marido, que é policial". Que safada, casada e jogando charme! Desconversei e fui embora, mas creio que Cobain, em meu lugar, teria ficado e traçado a mulher do tira – e sem o menor receio de acordar com a boca cheia de formiga.

Pingado em copo americano para beber e, para comer, ovo frito, costelinha de porco e "sanduíche" de polenta com queijo. Enquanto degustávamos o café da manhã do Sabiá, Cobain me confidenciou uma de suas mais mirabolantes aventuras. Na minha opinião, até então, o grande feito dele tinha sido se envolver com mais de uma de minhas colegas do curso de Jornalismo e com mais de uma das colegas dele, de Publicidade e Propaganda, ao mesmo tempo, sem que alguma delas desconfiasse estar dividindo o amado com a amiga de classe. A nova proeza, entretanto, vencia fácil a anterior.

Meses antes daquele café sem pressa, Cobain havia viajado com amigos, em férias, para o litoral paranaense. Já no segundo dia de praia, talvez por piscar demais para a mulher de alguém, foi expulso da casa alugada pelo grupo. Sem grana, sem amigos e dependendo de carona para voltar para casa, rumou à praia, onde planejou passar a noite. Com calma, pensaria em alguma saída na manhã seguinte.

O sol se pôs, dando lugar a uma bela noite de lua cheia. Sentado na areia, sobre sua camiseta e com a mochila ao lado, Cobain admirava a paisagem, com os olhos fitos no horizonte e os ouvidos concentrados no quebrar das ondas. "Oi", foi o que ele ouviu antes de mudar o foco de uma para outra paisagem. Quase como se tivesse surgido do além, estava ali ao seu lado, cumprimentando-o com uma simpatia fora de série, uma morena (também fora de série) de parar o trânsito. Mesmo o preparado Cobain, de tantas histórias, sentiu um frio na barriga naquele momento.

– Reparei que você está há mais de duas horas aí sentado, sozinho. Algum problema? – perguntou a moça.

– Parei para admirar o pôr-do-sol e gostei tanto que acho que vou dormir por aqui, na areia – respondeu Cobain, sincero, até aquele momento.

Indignada com a situação do pobre (porém bem apessoado) rapaz, quis saber mais sobre Cobain. Como em nada se parecia com um mendigo ou sem-teto, por que haveria de passar por aquilo, deve ter se perguntado a moça, filha de um conhecido médico da redondeza – mas que estava fora da cidade curtindo bodas-de-alguma-coisa com a esposa. O galanteador de plantão soube, então, que ela estava sozinha em casa. Os problemas dele tinham acabado.

– Assim que me formei em Publicidade, pus a mochila nas costas e saí por esse mundão, sem rumo. Durmo ao relento quando ninguém me dá abrigo – inventou... e prosseguiu – mas tem valido a pena por causa de noites maravilhosas como essa e de mulheres lindas como você – lançou seu charme, usando doces palavras para conquistar a jovem filha do médico.

Algumas vezes Cobain me aconselhou: "tu tens de falar aquilo que as mulheres desejam ouvir, e só". O conquistador-mor de Pato Branco disse tudo o que aquela bela jovem, de curvas perfeitamente esculpidas, queria ardentemente ouvir. E sussurrou ao pé do ouvido, enquanto acariciava a pele macia dela. Falou frases românticas, falou frases picantes, falou frases impróprias para menores e deixou que ela "falasse" no momento em que a levou ao estado de nirvana.

Na casa do médido, de incontáveis quartos, Cobain dormiu pouco, mas dormiu bem; comeu bastante, e comeu bem (e em mais de um sentido da palavra); e se safou de passar a noite ao relento. Na manhã seguinte, foi acompanhado à rodoviária pela encantadora companhia que, pasmem, pagou sua passagem de volta. Tinham curtido se conhecer, embora sem apresentações mais detalhadas. "Posso saber o teu nome", perguntou a moça. "Melhor do jeito que está, para que meu coração não sofra de saudades", respondeu Cobain, antes de embarcar, antes de nunca mais se verem.

Naquele mesmo café da manhã, sugeri a Cobain: "conte-me mais dessas histórias para que eu possa escrever um livro". A obra poderia se chamar: "Como levar as mulheres ao 'nirvana'". Sobre paquerar no supermercado, estou certo de que é uma boa estratégia, desde que o galã seja do nível de James Bond, Don Juan, Zé Mayer e Cobain. Este, vale ressaltar, nunca precisou de um Aston Martin nem de "licença para matar".
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14 comentários:

pricamga disse...

Belo conceito este das mulheres ao supermercado rsrs, porém acho que funciona melhor ao inverso, raramente homens casados vão ao supermercado sozinhos, desse modo, as chances de um cara sozinho no supermercado ser solteiro é 50% maior que a das mulheres sozinhas serem solteiras (tirando as menininhas fãs de canetas do mickey) hauhauhauhauhaua.
No fim, adorei o texto.

Renatha Pierini disse...

Fernando, adorei o texto... e olha que realmente existem homens como o Cobain... e o pior de tudo, é que todas as mulheres, que este tipo de homem "pega", se apaixonam por ele... é uma confusão! Fora que para um homem administrar tantas "mulheres encantadas", não deve ser nada fácil! Enfim, adorei a parte do café da manhã e pela descrição deve ser mesmo bem reforçado!
Beijinho

Anônimo disse...

LF meu caro amigo e companheiro de tantos grandes projetos.. sabes muito bem o qnto admiro e me encanto com teus textos!
realmente.. por vezes, ficamos discutindo as coisas doidas que jah aconteceram comigo. Mas tem duas coisas q , podem ser o "toque de ouro", e realmente fazem a diferença ao chegar numa mulher..
saber ouvi-la. em geral os homens sao mto egocentricos.. e as mulheres gostam de conversar com pessoas q se identificam com elas, é soh achar no vcs sao parecidos!
a segunda.. eh arriscar.. mtos tem medo de levar um fora.. "pow, a galera vai ficar me tirando se eu levar um fora!" nunca se importe demais com oq os outros pensam! se vc nao tentar como vai conseguir!?

No nosso proximo cafeh na Letra ou no Sabiá.. te conto mais umas ;D

um forte abço meu amigo!
e fica em paz!
Cobain

Anônimo disse...

Depois de uma temporada de artigos sobre o universo do trabalho e, claro, dos vips, eis que ele nos surpreende com uma nova crônica com alguém lá do Sudoeste! Muito bom, mas eu concordo com a sua amiga Renatha: existem muitos homens como o Cobain e eles são muito envolventes... e nem precisam mesmo andar num Aston Martin, o encanto deles dispensa acessórios. No meu caso, gato escaldado tem medo de água fria, eu prefiro ficar bem longe desse tipo de homem. Mas valeu por nos presentear com mais um excelente texto. Logo, logo, você vai ter que lançar um livro com as crônicas publicadas no blog, como já sugeriu seu amigo.
Sensação.

Jozieli disse...

hahahaha, fiquei imaginando quem poderá ser!!
Adorei Luiz, parabéns :)

Anônimo disse...

Faço das palavas da Jozieli as minhas... Quem escrevia O contiúdo contigo mesmo???

Lu

JOAO disse...

até as gurias da minha sala "conhecem" o Cobain!!!

safado!

iuhsiuahiushashusias

Luana Caroline disse...

Carambaaaa que história bizarra!!!!
hahahahah
VC avacalhou com o Coiban ao revelar que ele enganava as coleguinhas de faculdade! Já vi uma guria ali querendo saber quem é ele.

E vc acreditou nesta história da praia???
hehehehehhehe

Imagine a cara dos amigos que haviam expulsado ele, ao saber que acabaram AJUDANDO!

Abraços, sucesso!!!!!
:)

Paulo Anibal Cardoso disse...

Valeu Fernando, esse cara não é facil. Faz tempo que não aparece aqui em casa, tenho que conversar mais com ele, quem sabe pegar umas dicas.

Anônimo disse...

coitado desse Cobain quando ele realmente se apx por alguém e essa pessoa der um fora nele!
Serah que já nao aconteceu? haha

Vinicus disse...

Nota: 7

Vinicius Carvalho

Ramari disse...

Nota: 9,5

Thiago Ramari (por email)

Juliana Daibert disse...

Nota: 8,5

Juliana Daibert (por email)

Elaine disse...

Nota: 9,5

Elaine Utsunomiya (por email)

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