6 de julho de 2010

Chora, me liga

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"Ao invés de fazer teu expediente na redação, você não estaria a fim de cobrir um show no fim de semana?" Quando ouvi essa pergunta de meu editor, em O Diário, tive a certeza - acompanhada de um inevitável frio na espinha - de que se tratava de um show sertanejo. Não deu outra: "João Bosco e Vinicius". Como não sou jornalista de negar fogo, ou melhor, de negar pauta, topei o desafio. O bom repórter é aquele que, além do conhecimento específio em uma ou mais áreas, dá conta do basicão em editoriais que não são de sua competência.

Fui ao jornal convicto de que, pelas forças ocultas da Lei de Murphy, fosse um show de rock jamais seria escalado. Como era sertanejo, e ainda por cima universitário, o editor-chefe deve ter pensado: "ahhhh, tem o Luiz Fernando..." Para que os amigos contextualizem a situação, para mim rock está para uma partida de futebol assim como sertanejo está para uma espetáculo de balé clássico. Se bem que, por conta das bailarinas, balé tem lá suas vantagens.

De João Bosco e Vinicius só sabia que eles cantam "Chora, me liga". Qual bendita alma residente em Maringá, essa cidade paranaense que é doente por sertanejo, não sabe desse detalhe. É ligar na rádio FM, não dá meia hora e toca "Chooora, me liga, implooora meu beijo de nooovooo. Me pede socooorro, quem sabe eu vou te salvaaar. Chooora, me liga, implooora pelo meu amô-o-or, pede por favô-o-or, quem sabe um dia eu volto a te procurar". Interessante a letra: sempre serve para alguma ex.

"Nada é tão ruim que não possa piorar". Para valorizar o ditado, o show atrasou um bocado, derramei água no sapato e durante o apresentação da dupla, no meio da multidão, uma baranga pegou na minha bunda. "O que é isso", exclamei. "Sorte que eu sou eu, um mero mortal. Imagine o que ela teria feito se eu fosse o Gianecchini", pensei, enquanto me afastava do dragão antes que ele cuspisse fogo. Fui para perto de algumas belas moças, mas aí, lógico, nenhuma pegou em mim.

Consegui me aproximar do palco. Distante cerca de cinco metros dos cantores, fiz fotos e vídeos com uma máquina portátil e anotei algumas declarações de fãs. Uma loira tipo holandesa, de olhos claros, cinturinha bem definida, cerca de 1,65m de altura, pele clara e cabelos lisos e esvoaçantes veio falar comigo. Viu o crachá de repórter do jornal e queria dar entrevista também. Não sei se era só entrevista que ela queria dar. Na dúvida, perguntei a idade da moça. "Tenho 17 anos", respondeu. "Melhor deixar para pegar o telefone de outra", pensei, ao suspeitar que ela estava mentindo a idade... para mais.

Difícil foi deixar a multidão. Cinco músicas depois do início do show, o número de fãs por metro quadrado era de pôr medo em qualquer claustrofóbico. O risco de topar com outro "dragão atrevido" também causava medo. Resolvi que era hora de partir, até porque a colega de cobertura, uma fotógrafa de olhos verdes e traços italianos, já devia estar me esperando.

Tinha em mãos e em mente o material necessário para uma boa matéria. Esperava uma saída honrosa, porém, pisei sem querer no calcanhar de uma fã entroncada e ela, sem considerar meu pedido de desculpas, disparou uma impiedosa colovelada. Considerando que o pisão, de 85 quilos, possa ter realmente doído, relevei a agressão e segui meu rumo.

Sentia-me como um peixe fora d'água em meio a uma multidão que cantava decor músicas que até então eu desconhecia, mas, no balanço final, a experiência foi válida. Tive a oportunidade de ir ao camarim da dupla e de, na entrevista, descobrir o carinho que eles alimentam por uma cidade que os acolheu quando eles ainda sonhavam ser famosos e tinham como ganha-pão as apresentações em boates e barzinhos.

João Bosco e Vinicius deram uma aula de simpatia e deixaram uma importante lição: não se deve, por maior que seja o sucesso, esquecer de quem te apoiou no início da jornada. Assim como não se deve deixar de anotar o número de telefone da jovem "holandesa", até porque, num futuro próximo, ela terá mais de 18.
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7 comentários:

Fernanda A. Accorsi disse...

Lf, que texto mais descritivo e engraçado. Por alguns instantes vivenciei aquilo tudo através das suas frases. Acredito que os grandes jornalistas conseguem se despir de todo e qualquer preconceito e trazer um pouquinho do fato para os leitores!

Thiago Chiapetti disse...

Acabo de ler sua crônica e posso dizer que é sempre um refresco para a mente apreciar um texto bem escrito. Você tem muito talento e muita vontade de enfrentar os desafios, mesmo que eles se tratem de um show sertanejo universitário.

Eu ao saber desta sua experiência posso dizer que minha admiração por ti só aumentou. Ningém mereeeeece uma missão destas!

Thiago, Jornal de Beltrão (via email)

Nara Garay disse...

LF,amei a crônica, pq os detalhes, tão bem minuciosamente descritos, é que me fazem reviver a cena!Essa foi cômica e afinal, serviu pra descobrir alguma coisa nesse desafio: a veia humorística que tu tens!Deu para mim dar risada sozinha em frente ao PC!Mto boa!
Sobre o desafio: em todas as atividades sempre tem alguém que se desdobra e enfrenta-o, ainda que "contrariado que nem gato à cabresto"!

Renatha Pierini disse...

Acabo de lhe dizer e volto a repetir, quando não temos mais o que esperar de você, sempre arruma um jeitinho e nos surpreende com esses ricos detalhes e uma descrição que ganha vida em nossas mentes!
Parabéns pelos desafios que você supera, mesmo sendo um roqueiro nato brilha em uma explosão sertaneja...

tais ac filha do rei disse...

oi primo vc em show caipira e eu em um de rock seria ilario essa destorçao vc ja foi ao sertanejo so falta eu no de rock e detalhe nao pretendo ir de modo geito.

LF Cardoso disse...

Ainda tenho pesadelos com o dragão e sonhos, com a holandesa. Para o primeiro caso, sorte ao acordar; para o segundo, tremendo azar!

Agradeço a cada um dos amigos que acompanham meu trabalho e curtem minhas crônicas. Depois de dar um tempo literário (andei sem inspiração num primeiro momento pós-término-do-namoro), é bom demais retornar e ler palavras de incentivo como dos jornalistas Thiago, Fernanda e Renatha, da bancária Nara e da minha prima Tais, que sempre dá as caras por aqui.

Beijos para elas, abraço para ele!

Mariana Sordi disse...

Finando

Li a tua crônica, bem legal ;)
Estou com saudades de vocês, quando vocês vem pra cá? Quase não dá pra conversar né.

Mariana, Pato Branco (via Orkut)

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