Para quem tem sofrido de TPF (Tensão Pré-férias) nos últimos dias, chegar à redação e ver sobre a mesa o guia de viagem sobre o Peru ajudou a conter a ansiedade. Comprado com bom desconto na internet, o guia trouxe uma informação relevante sobre vacinação: "brasileiros que viajam ao Peru precisam tomar a vacina contra febre amarela, que deve ser aplicada com antecedência de DEZ DIAS antes da viagem".
Brasileiros não precisam de visto para permanência inferior a 90 dias no Peru, porém, sem a vacina contra febre amarela o estrangeiro não desembarca no País vizinho. Até aí tudo bem, o detalhe que desconhecia era essa antecedência de dez dias antes do embarque. Faltando 15 dias para a viagem, apanhei a carteirinha de vacinação e corri para o posto de saúde mais próximo.

— Preciso do teu cartão do SUS e da carteirinha de vacinação — respondeu a atendente.
— Nunca tive cartão do SUS e a carteirinha de vacinação eu perdi. Só tenho essa aqui da gripe suína — informei. Havia passado a madrugada procurando o cartão antigo, aquele com o registro das vacinas que tomei desde a infância e que me salvaria da agulhada. Sem êxito na busca, havia me preparado psicologicamente para a injeção. Enquanto fazia meu registro no SUS, a atendente questionou:
— Essa aqui é sua carteirinha de vacinação?
— Sim.
— E cadê o registro das demais vacinas?
— Ah, eu perdi aquela carteirinha. Só tenho essa da gripe suína.
— Então você vai precisar tomar TODAS as vacinas de novo — informou ela, causando-me repentino frio na espinha.
— Só preciso da vacina contra febre amarela para entrar no Peru. Não preciso de TODAS.
— Mas pra gente te dar o atestado de vacina, você vai ter de tomar TODAS de novo — reforçou a atendente.
TODAS significava ser imunizado também contra tétano, hepatite B e tríplice viral (sarampo, rubéola e caxumba). Não tinha jeito, porque sem o atestado de vacina não conseguiria no aeroporto a carteirinha internacional de vacinação, que normalmente é cobrada no desembarque em países com florestas, entre eles o Peru. Meu "visto", então, seria na pele e não no passaporte.
— Como você foi perder sua carteirinha — disse a enfermeira, já na sala de vacinação.
— Perdi este ano, na última mudança que fiz.
— Mas tua carteira de identidade você não perdeu, não é mesmo?
— Verdade — lamentei o desleixo, enquanto reparava a enfermeira preparando a primeira das quatro vacinas. Mil vezes uma agulhada do que aquela broca estridente do dentista. De certa forma, essa comparação servia de consolo.
— Agora você vai precisar tomar TODAS as vacinas de uma vez. Você tem medo de injeção?
— Normalmente não, mas vim preparado psicologicamente para uma vacina, não para quatro!
— Acho melhor você não olhar — advertiu a enfermeira.
— Fica tranquila que eu não desmaio. Já fui doador de sangue.
— Não é mais?
— Não. Desisti depois que me falaram que meu tipo de sangue (A+) é muito comum.
Subcutâneas, as duas primeiras agulhadas foram no antebraço: febre amarela no esquerdo e tríplice viral, no direito. Foi indolor. A injeção seguinte, da vacina contra hepatite B, assustou.
— Por que essa agulha é tão maior do que as outras?
— A de hepatite B é maior mesmo — respondeu a enfermeira, enquanto aplicava a injeção no braço direito, sem dó. — Essa é no músculo — detalhou.
— No músculo... sei. Essa aí foi no osso — reclamei.
O pior estava por vir. A vacina contra tétano, historicamente relatada como a mais doída, ficou reservada para o braço esquerdo. Mui amiga, a enfermeira não escondeu o jogo e foi logo falando:
— A de tétano dói mais.
— Sei bem, já fui apresentado a ela no passado.
— Relaxa o braço senão é pior.
— CARA%$@ — exclamei. — Por acaso tem pimenta nessa vacina?
— Você até que foi corajoso. A maioria não consegue olhar para a agulha e tem até casos de gente que desmaia.
— Não faz mal tomar tantas vacinas de uma vez só? — indaguei.
— Mal não faz, mas talvez você sinta um mal-estar à noite, por causa da carga viral.
Não deu outra: à noite cabeça ficou pesada e o corpo mole trouxe o sono mais cedo do que o normal. Doze horas depois, a vacina "de pimenta" contra tétano ainda causava algum desconforto. O pior foi saber que nos próximos dois meses terei de tomar a segunda e terceira doses da vacina contra hepatite B, aquela aplicada no "osso" – "salvo em caso de gravidez ou acidentes graves", conforme consta do atestado de vacina. Logo, vou me cuidar para não ficar grávido e para não ser atropelado, o que não é difícil de acontecer nas "pistas" de Maringá.
Agora, está tudo certo para a viagem de férias ao Peru. Contudo, fica a dica: perca a carteira de identidade, mas, NUNCA, a carteirinha de vacinação.
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