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12 de dezembro de 2010

Nunca desista de seus sonhos

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Aos 64 anos, mãe de duas filhas, quatro netos e uma bisneta, dona Alice trabalhou em um grande hospital de São Paulo durante boa parte de sua carreira como técnica de enfermagem. Hoje, aposentada, não quer saber de descansar e esperar o tempo passar. Quer, sim, realizar o sonho que nutre desde a juventude: concluir um curso superior.

- Ainda que eu entre na faculdade com 80 anos não terei vergonha. Teria se desistisse de meu sonho - disse-me dona Alice, no caminho de Maringá a São Paulo.

Nas viagens que faço de ônibus, escolho entre três poltronas que sempre me trazem sorte: as de número 3, 9 ou 12. Até uma namorada gaúcha já consegui viajando em um desses assentos. A caminho da capital paulista tive novamente boa companhia. Dona Alice viajou na poltrona 11 e sua rica história de vida ajudou a aliviar a ansiedade que me acometia em decorrência da longa viagem - de ônibus para São Paulo e de avião para Lima, no Peru.

Lembro-me de ter puxado conversa com a senhora ao lado. Meus irmãos brincam que nossa mãe, uma tagarela descendente de portugueses, gosta de fazer amizade com todo mundo. Embora eu seja o retrato de meu pai 25 anos mais novo, suspeito ter herdado de dona Clacy os genes responsáveis pela comunicação.

- A senhora vai a passeio a São Paulo - perguntei, ao retornar com o copo de água que, gentilmente, dona Alice me pediu para apanhar no fundo do ônibus.
- Eu moro lá. Só vim visitar minha filha, netos e uma bisneta - respondeu.
- Caramba, a senhora já é bisavó! Não parece ter idade para tanto.
- Fui mãe aos 17 anos e minha filha e neta também tiveram filhos muito cedo.
- Se a senhora tem família em Maringá, não seria melhor se mudar para cá.
- Bem que eu gostaria meu jovem, mas meu marido é um português teimoso que não admite sair de São Paulo - lamentou a senhora. - Aquela é uma cidade boa para quem trabalha e quer ganhar dinheiro, mas para quem já se aposentou Maringá é bem melhor. As ruas são arborizadas, a cidade é segura e o custo de vida é menor.

Percebi se tratar de uma mulher esclarecida. Tinha um português de verbos bem conjugados e carregava um livro de Augusto Cury na mão e outro (não deu para ver o título) na bolsa. Ao contrário de passatempos como a televisão, a leitura torna as pessoas mais sábias e críticas e permite a quem lê viajar o mundo sem sair de casa ou da biblioteca. Para Dona Alice, ver tevê demais e ler de menos seria o primeiro passo para a perdição dos jovens hoje em dia.

- Não consigo entender como existem pessoas que não gostam de ler - comentou dona Alice. - Um dia desses, num supermercado, ouvi a conversa de dois rapazes que faziam a reposição de produtos.
- Eles não gostavam de ler - interpelei.
- Um deles parecia gostar. Falava sobre um livro que acabara de ler, mas fiquei muito triste ao ouvir o outro responder que nunca havia lido um livro. Isso é péssimo para a sociedade.
- Imagino dona Alice. Hoje os jovens só querem saber de internet e de redes sociais.

Expliquei, rapidamente, o que são as redes sociais na internet para, depois, nos atermos ao assunto mais interessante da conversa: livros. Contei a ela que Ernest Hemingway, autor do ótimo “O Velho e o Mar”, está entre meus autores preferidos e que entre os contemporâneos aprecio o humor ímpar das crônicas de Luis Fernando Verissimo. Dona Alice revelou que leu O Cortiço, de Aluísio Azevedo, três vezes e que só conhecia o Verissimo pai, o Érico. Preferia os escritores antigos.

- Hemingway trabalhou como jornalista antes de se tornar escritor - comentei, após contar a dona Alice que escrevo para o principal jornal da cidade, mas que meu grande sonho é seguir os passos de Hemingway. - Estou escrevendo um livro e quero conclui-lo antes de completar 30 anos.
- Então você precisa ler “Não desista de seus sonhos”, de Augusto Cury. No livro, ele relata todas as dificuldades que teve de superar até se tornar um escritor famoso.
- Já que a senhora está recomendando, lerei com maior prazer.
- Qual teu nome completo? - perguntou-me dona Alice. - Preciso saber para comprar teu livro, que seré um best seller. E é assim que tempos de pensar, sempre com otimismo.

Conheci poucas pessoas na vida que me impressionaram tanto quanto dona Alice. Depois de criar os filhos, atualmente ela cuida dos netos da filha que mora em São Paulo, porém, planeja para breve retomar os estudos. Tão logo os netos entrem em idade escolar, garante dona Alice, prestará vestibular para Matemática ou Biologia. Não tenho dúvida de que alguém capaz de me surpreender a cada nova palavra realizará o sonho de se formar.

- Meu conselho é que você estude, viaje e se dedique na profissão o máximo possível antes de se casar e de ter filhos.
- Por que a senhora diz isso?
- Porque casamento é uma coisa muito difícil, tira muito a liberdade da pessoa. Não entendo por que os jovens de hoje ainda se casam - disse a aposentada, surpreendendo-me outra vez. - Talvez ainda seja pela influência da igreja.
- É interessante ouvir isso de uma senhora - comentei.
- Se pudesse voltar atrás não teria casado tão cedo. Teria feito faculdade antes.

O bate-papo com Dona Alice me permitiu ver o quanto esse tempo solteirice e sem filhos é precioso para a realização profissional e que, por mais que as dificuldades causem desânimo, jamais devo desistir de meus sonhos. Na poltrona 12, que costumeiramente me traz sorte, tive um lição de vida. Segui viagem menos ansioso e na despedida, no terminal da Barra Funda, entreguei meu cartão de apresentação à dona Alice, que me garantiu que vai se esforçar para aprender a navegar na internet. “Assim que eu aprender eu te escrevo um email”, brincou a aposentada, desejando-me boas férias em Lima e em Machu Picchu.
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27 de novembro de 2010

Vacina contra febre amarela

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Para quem tem sofrido de TPF (Tensão Pré-férias) nos últimos dias, chegar à redação e ver sobre a mesa o guia de viagem sobre o Peru ajudou a conter a ansiedade. Comprado com bom desconto na internet, o guia trouxe uma informação relevante sobre vacinação: "brasileiros que viajam ao Peru precisam tomar a vacina contra febre amarela, que deve ser aplicada com antecedência de DEZ DIAS antes da viagem".

Brasileiros não precisam de visto para permanência inferior a 90 dias no Peru, porém, sem a vacina contra febre amarela o estrangeiro não desembarca no País vizinho. Até aí tudo bem, o detalhe que desconhecia era essa antecedência de dez dias antes do embarque. Faltando 15 dias para a viagem, apanhei a carteirinha de vacinação e corri para o posto de saúde mais próximo.

— Oi. "Vou viajar para fora do País e preciso tomar a vacina contra febre amarela — disse à atendente do posto de saúde, sem precisar esperar muito tempo na fila. O serviço público de saúde em Maringá pode ser considerado ótimo se comparado com o das capitais ou, ainda, das cidades mais pobres do País.

— Preciso do teu cartão do SUS e da carteirinha de vacinação — respondeu a atendente.

— Nunca tive cartão do SUS e a carteirinha de vacinação eu perdi. Só tenho essa aqui da gripe suína — informei. Havia passado a madrugada procurando o cartão antigo, aquele com o registro das vacinas que tomei desde a infância e que me salvaria da agulhada. Sem êxito na busca, havia me preparado psicologicamente para a injeção. Enquanto fazia meu registro no SUS, a atendente questionou:

— Essa aqui é sua carteirinha de vacinação?
— Sim.
— E cadê o registro das demais vacinas?
— Ah, eu perdi aquela carteirinha. Só tenho essa da gripe suína.
— Então você vai precisar tomar TODAS as vacinas de novo — informou ela, causando-me repentino frio na espinha.
— Só preciso da vacina contra febre amarela para entrar no Peru. Não preciso de TODAS.
— Mas pra gente te dar o atestado de vacina, você vai ter de tomar TODAS de novo — reforçou a atendente.

TODAS significava ser imunizado também contra tétano, hepatite B e tríplice viral (sarampo, rubéola e caxumba). Não tinha jeito, porque sem o atestado de vacina não conseguiria no aeroporto a carteirinha internacional de vacinação, que normalmente é cobrada no desembarque em países com florestas, entre eles o Peru. Meu "visto", então, seria na pele e não no passaporte.

— Como você foi perder sua carteirinha — disse a enfermeira, já na sala de vacinação.
— Perdi este ano, na última mudança que fiz.
— Mas tua carteira de identidade você não perdeu, não é mesmo?
— Verdade — lamentei o desleixo, enquanto reparava a enfermeira preparando a primeira das quatro vacinas. Mil vezes uma agulhada do que aquela broca estridente do dentista. De certa forma, essa comparação servia de consolo.

— Agora você vai precisar tomar TODAS as vacinas de uma vez. Você tem medo de injeção?
— Normalmente não, mas vim preparado psicologicamente para uma vacina, não para quatro!
— Acho melhor você não olhar — advertiu a enfermeira.
— Fica tranquila que eu não desmaio. Já fui doador de sangue.
— Não é mais?
— Não. Desisti depois que me falaram que meu tipo de sangue (A+) é muito comum.

Subcutâneas, as duas primeiras agulhadas foram no antebraço: febre amarela no esquerdo e tríplice viral, no direito. Foi indolor. A injeção seguinte, da vacina contra hepatite B, assustou.

— Por que essa agulha é tão maior do que as outras?
— A de hepatite B é maior mesmo — respondeu a enfermeira, enquanto aplicava a injeção no braço direito, sem dó. — Essa é no músculo — detalhou.
— No músculo... sei. Essa aí foi no osso — reclamei.

O pior estava por vir. A vacina contra tétano, historicamente relatada como a mais doída, ficou reservada para o braço esquerdo. Mui amiga, a enfermeira não escondeu o jogo e foi logo falando:

— A de tétano dói mais.
— Sei bem, já fui apresentado a ela no passado.
— Relaxa o braço senão é pior.
— CARA%$@ — exclamei. — Por acaso tem pimenta nessa vacina?
— Você até que foi corajoso. A maioria não consegue olhar para a agulha e tem até casos de gente que desmaia. 
— Não faz mal tomar tantas vacinas de uma vez só? — indaguei.
— Mal não faz, mas talvez você sinta um mal-estar à noite, por causa da carga viral.

Não deu outra: à noite cabeça ficou pesada e o corpo mole trouxe o sono mais cedo do que o normal. Doze horas depois, a vacina "de pimenta" contra tétano ainda causava algum desconforto. O pior foi saber que nos próximos dois meses terei de tomar a segunda e terceira doses da vacina contra hepatite B, aquela aplicada no "osso" – "salvo em caso de gravidez ou acidentes graves", conforme consta do atestado de vacina. Logo, vou me cuidar para não ficar grávido e para não ser atropelado, o que não é difícil de acontecer nas "pistas" de Maringá.

Agora, está tudo certo para a viagem de férias ao Peru. Contudo, fica a dica: perca a carteira de identidade, mas, NUNCA, a carteirinha de vacinação.
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18 de novembro de 2010

Minhas férias...

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Redação quase sempre foi meu ponto forte nos tempos de colégio e, sendo assim, conseguia um bom desempenho nos vestibulares – mesmo com os 90% de erros nas questões de química. Embora a afinidade com as letras, havia algo que muito me incomodava nas aulas de língua portuguesa: a bendita-redação-anual sobre "minhas férias". Um porre! Mais porre até do que a tabela periódica - da qual só sei decor a localização e símbolo do hidrogênio.

Além da certeza de que as professoras não liam revistas de viagem e turismo, tinha minhas dúvidas se elas, de fato, liam todos aqueles textos repletos de falta de acentos, crases, vírgulas e, claro, desprovidos de criatividade. Ao invés de relatar minhas férias nos campinhos de várzea de Pato Branco – ou diante da televisão, nos dias de chuva, jogando Enduro no Atari –, preferia escrever sobre minhas viagens fake à Cidade Maravilhosa e ao Cristo Redentor, às praias nordestinas, sobre o Natal com neve em Nova York e muito mais, sempre inspirado em exemplares da revista National Geographic de minha mãe.

As professoras sabiam que eu não era burguês. Não parecia um burguês, meus pais tinham carro usado e meus tênis não eram caros, desses de marca. No 2º grau, tinha uma calculadora científica simples, enquanto os burgueses de verdade tinham calculadoras HP. Talvez as boas notas nas redações sobre "minhas férias" fossem pela criatividade ou, quem sabe, pelo fato de eu, já na adolescência, empregar razoavelmente bem as vírgulas. Um colega, que mais tarde veio a se formar em Processamento de Dados, sempre reclamava: "por que a professora não pede uma redação sobre eu e minhas primas?" Ele comia bem e ainda reclamava. O colega não conhecia o mar e nunca viajava nas férias, mas tinha primas gostosas.

Nas férias, numa época em que internet era quase ficção científica, os jogos de tabuleiro estavam entre os passatempos prediletos de meu irmão do meio e eu. Num deles, ganhava quem desse a volta ao mundo primeiro, administrando a verba da viagem entre viagens de avião, trem, navio e ônibus. Perdia quem torrasse o dinheiro sem completar o roteiro, apontado por carta sorteada do baralho.

Lembro-me de uma de minhas vitórias, que passou por Machu Picchu e terminou na Alemanha. Influência do jogo de tabuleiro ou não, cresci com o sonho de viajar à Europa e de conhecer as montanhas sagradas dos incas, nos Andes peruanos.

Entre 2006 e 2007, pude realizar um desses sonhos. Tive o privilégio de ser selecionado para um intercâmbio profissional, na emissora pública Deutsche Welle, e de morar quase cinco meses em Bonn, na Alemanha. Retornei da Europa com 25 anos de idade e o desejo de me preparar para, antes de completar 30 anos, fazer outra viagem marcante. Da promessa feita a Geordano, ex-colega de jornal e grande amigo, de que o visitaria em Lima, veio a recordação do sonho dos tempos de colégio: conhecer Machu Picchu.

No feriado da Proclamação da República, depois de pesquisar sobre o Peru e de conversar a respeito com uma amiga que já esteve em Machu Picchu, tomei coragem e escolhi um voo. Com bom representante da dita geração Y, comprei as passagens em uma agência de viagens na internet. Com o dólar desvalorizado, saiu em conta: São Paulo a Lima (ida e volta) por R$ 774, incluídas taxas de embarque, parcelado em cinco vezes sem juros.

Farei a viagem para Machu Picchu em dezembro, três meses antes de completar 30 anos. Um presente de mim para mim mesmo, sobre o qual terei prazer de escrever a respeito. Pela primeira vez, a redação sobre "minhas férias" não será um incômodo e, o melhor de tudo, não precisarei recorrer à revista da National Geographic.
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