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3 de fevereiro de 2010
A Parábola do Velho Boi
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Ainda sem pistas do atirador e do que teria motivado o crime, a Polícia Civil informou que intensificará as investigações. Assim, mais ou menos com essas palavras, Moisés, um experiente repórter policial, concluiu sua matéria sobre o atentado contra o prefeito de uma pequena cidade do interior, para a edição da manhã seguinte do jornal. O Estado e a cidade do ocorrido não vêm ao caso. Fato relevante é que o jornalista, por falta de provas, não pôde escrever tudo o que sabia.
Ao chegar em casa, em seu carro de luxo, tarde da noite, o prefeito foi abordado por um homem alto e magro, encapuzado, armado. Ao ser rendido, o prefeito temeu ser executado quando o homem de preto ordenou que ele deitasse no chão, de bruços, com as mãos na cabeça. Não obedeceu. Correu, aos gritos por socorro, e levou vários tiros.
Foi como nascer de novo. Teve a sorte de uma viatura da Polícia Militar cruzar em ronda pelo local, naquele exato momento, e acionar os socorristas do Corpo de Bombeiros. O prefeito foi levado ao hospital da cidade, entre a vida e a morte. O atirador, que por pouco não logrou êxito no atentado, fugiu sem deixar pistas.
— Boceta! — exclamou Moisés.
— Algum problema? — perguntou o colega de redação da mesa ao lado; um novato.
— Eu sei o motivo do atentado e não posso contar.
— E qual é?
— Boceta, como eu disse antes.
Com 30 anos de experiência no jornalismo de porta de cadeia, Moisés pode não abrir caminho no Mar Vermelho, como seu xará bíblico, mas tem um faro para o crime melhor do que muitos investigadores. Ele sabia que não se tratava de um assalto. Caso fosse, o homem de preto teria demonstrado algum interesse pelo veículo ou, ainda, abordaria a vítima pátio adentro. O atentado também não era por motivação política, não em ano de eleições presidenciais em uma cidade que, com menos de 15 mil habitantes, interessa-se mesmo é pelas eleições municipais.
"Em off" – jargão jornalístico utilizado para dizer que uma informação é sigilosa e que não deve ser publicada – Moisés obteve de fonte segura uma importante declaração sobre o atentado: "foi vingança". O prefeito teria comido demais, e fora de casa. Nenhuma novidade em se tratando de uma prática tão antiga quanto a própria existência do homem e que teve como "adepto" até um ex-presidente dos Estados Unidos. O erro do prefeito foi mexer com a mulher de um policial.
O episódio remeteu outro experiente repórter, esse da editoria de esportes, a se lembrar da parábola do Velho Boi e do Touro Bezerro. Do alto de uma colina, o afoito Touro Bezerro bradou ao ver dezenas de novilhas a pastar no vale:
— Vovô, vovô, vamos descer em desabalada carreira para, cada um de nós, pegar uma delas?
— Não, meu neto. Vamos descer calma e mansamente, nos infiltrar entre elas e, então, traçar todas — aconselhou o Velho Boi.
O prefeito daquela pequena cidade fez como o vigoroso Touro Bezerro, aconselhado pelo Velho Boi: traçou todas que pôde, literalmente, inclusive a esposa do tira. Fosse ele um sábio, como o Velho Boi, teria medido as consequências. Não se trepa com a mulher de um homem que anda com pólvora na cintura, exceto se você for um sujeito do tipo Chuck Norris, James Bond, Batman e Cobain.
— Tu tens certeza Moisés. Foi tudo por causa de uma relação extraconjugal? — questionou o colega novato.
— Por uma boceta até grandes homens podem perder tudo, dinheiro, emprego, família, honra e até a própria vida.
— Não dá para incluir isso na tua matéria?
— Você é louco moleque! Não em uma cidade provinciana como a nossa. Além do mais, a fonte disse em off e não sustentaria a declaração — respondeu o experiente repórter, já de olho no relógio. — Nossa, oito da noite. Vamos comer algo?
— Sim, desde que não seja a mulher do policial.
— Não brinque com esse assunto, caro Touro Bezerro.
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Ainda sem pistas do atirador e do que teria motivado o crime, a Polícia Civil informou que intensificará as investigações. Assim, mais ou menos com essas palavras, Moisés, um experiente repórter policial, concluiu sua matéria sobre o atentado contra o prefeito de uma pequena cidade do interior, para a edição da manhã seguinte do jornal. O Estado e a cidade do ocorrido não vêm ao caso. Fato relevante é que o jornalista, por falta de provas, não pôde escrever tudo o que sabia.
Ao chegar em casa, em seu carro de luxo, tarde da noite, o prefeito foi abordado por um homem alto e magro, encapuzado, armado. Ao ser rendido, o prefeito temeu ser executado quando o homem de preto ordenou que ele deitasse no chão, de bruços, com as mãos na cabeça. Não obedeceu. Correu, aos gritos por socorro, e levou vários tiros.
Foi como nascer de novo. Teve a sorte de uma viatura da Polícia Militar cruzar em ronda pelo local, naquele exato momento, e acionar os socorristas do Corpo de Bombeiros. O prefeito foi levado ao hospital da cidade, entre a vida e a morte. O atirador, que por pouco não logrou êxito no atentado, fugiu sem deixar pistas.
— Boceta! — exclamou Moisés.
— Algum problema? — perguntou o colega de redação da mesa ao lado; um novato.
— Eu sei o motivo do atentado e não posso contar.
— E qual é?
— Boceta, como eu disse antes.
Com 30 anos de experiência no jornalismo de porta de cadeia, Moisés pode não abrir caminho no Mar Vermelho, como seu xará bíblico, mas tem um faro para o crime melhor do que muitos investigadores. Ele sabia que não se tratava de um assalto. Caso fosse, o homem de preto teria demonstrado algum interesse pelo veículo ou, ainda, abordaria a vítima pátio adentro. O atentado também não era por motivação política, não em ano de eleições presidenciais em uma cidade que, com menos de 15 mil habitantes, interessa-se mesmo é pelas eleições municipais.
"Em off" – jargão jornalístico utilizado para dizer que uma informação é sigilosa e que não deve ser publicada – Moisés obteve de fonte segura uma importante declaração sobre o atentado: "foi vingança". O prefeito teria comido demais, e fora de casa. Nenhuma novidade em se tratando de uma prática tão antiga quanto a própria existência do homem e que teve como "adepto" até um ex-presidente dos Estados Unidos. O erro do prefeito foi mexer com a mulher de um policial.
O episódio remeteu outro experiente repórter, esse da editoria de esportes, a se lembrar da parábola do Velho Boi e do Touro Bezerro. Do alto de uma colina, o afoito Touro Bezerro bradou ao ver dezenas de novilhas a pastar no vale:
— Vovô, vovô, vamos descer em desabalada carreira para, cada um de nós, pegar uma delas?
— Não, meu neto. Vamos descer calma e mansamente, nos infiltrar entre elas e, então, traçar todas — aconselhou o Velho Boi.
O prefeito daquela pequena cidade fez como o vigoroso Touro Bezerro, aconselhado pelo Velho Boi: traçou todas que pôde, literalmente, inclusive a esposa do tira. Fosse ele um sábio, como o Velho Boi, teria medido as consequências. Não se trepa com a mulher de um homem que anda com pólvora na cintura, exceto se você for um sujeito do tipo Chuck Norris, James Bond, Batman e Cobain.
— Tu tens certeza Moisés. Foi tudo por causa de uma relação extraconjugal? — questionou o colega novato.
— Por uma boceta até grandes homens podem perder tudo, dinheiro, emprego, família, honra e até a própria vida.
— Não dá para incluir isso na tua matéria?
— Você é louco moleque! Não em uma cidade provinciana como a nossa. Além do mais, a fonte disse em off e não sustentaria a declaração — respondeu o experiente repórter, já de olho no relógio. — Nossa, oito da noite. Vamos comer algo?
— Sim, desde que não seja a mulher do policial.
— Não brinque com esse assunto, caro Touro Bezerro.
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4 de março de 2009
O sangue do escolhido
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A manhã de domingo era de sol e céu azul, com uma brisa suave que favorecia a consagrada rodinha de amigos na principal cafeteria de Pato Branco, a "boca maldita" da cidade. A viagem de férias, programada para dali alguns dias, era o assunto principal da conversa - inspirada por pequenos goles de café expresso com creme - entre meu irmão do meio e eu.
De dentro da cafeteria, onde também se vendem livros e revistas, podíamos ver o movimento do lado de fora (de veículos e de pessoas), na primeira quadra da Rua Guarani, o metro quadrado mais caro de Pato Branco. Em áreas importantes assim, a ronda policial costuma ser frequente e a criminalidade, o contrário. Não foi isso que se viu naquela manhã.
A calmaria foi quebrada quando um deficiente mental, figura conhecida e benquista dos clientes mais assíduos da cafeteria, correu para perto da entrada do estabelecimento para buscar ajuda. Um piscar de olhos mais tarde, surgem outros dois loucos, ambos maltrapilhos. Um deles, loiro e descabelado, dizia: "é ele que você tem de matar". Aquele que supostamente fora encarregado de matar, um sujeito moreno e impregnado pela sujeira e por um odor nada agradável, gritava: "eu sou o Diabo".
O "Diabo" ficou só no grito, como se quisesse intimidar a todos. Foi o loiro-louco que agiu ao partir para cima do louco do bem, amigo dos clientes. Agarrou-o com as mãos, uma no pescoço e outra no rosto, enquanto os funcionários ligavam para a polícia e alguns fregueses davam os primeiros passos no intuito de apartar a briga.
Ao ser esganado, o louco do bem aplicou uma mordida de pit bull no dedo do agressor, quase causando uma amputação. A Polícia Militar já tinha sido acionada naquele momento. O loiro-louco, transtornado ao ver jorrar sangue do dedo indicador de sua mão direita, passou a esbravejar: "vocês tiraram o sangue do escolhido". E quanto mais as pessoas riam da situação e das frases desconexas, mais o louco repetia que tinham tirado o sangue dele, um "escolhido", e que vingança seria feita.
Devia se tratar de um escolhido do "Diabo", já que tomando as dores do amigo louco, seu comparsa ajuntou duas pedras (grandes, por sinal) para atirar contra a pequena multidão, que observava o lamentável episódio a uma distância de cerca de 25 metros. A primeira investida acertou na parede de um hotel vizinho ao tumulto, a segunda no vidro e no retrovisor do gol branco de um dos clientes.
Ao ver que tinha feito besteira, o louco que dizia ter o Diabo no corpo, deu no pé com medo de ser preso. O louco "escolhido" se afastou sem pressa, "berrando" para todos ouvirem que ele era, óbvio, o escolhido - devia ter sido eleito em alguma votação no hospício de onde havia fugido. A clientela ficou revoltada, alguns cogitaram correr atrás do "Diabo" e aplicar, como se diz em alguns cantões do Paraná, uma "camaçada de pau" nele. Mas ninguém ousou tanto, tendo em vista o risco de levar uma pedrada.
Fiquei com meu irmão ali, reparando a cena de uma distância segura e, mais tarde, checando os estragos das pedradas na parede do hotel e também no veículo. Ficamos no local também por curiosidade, para saber se os loucos agressores seriam detidos. Como em tantas outras cidades brasileiras, em Pato Branco não foi diferente, a polícia chegou ao local apenas quase 20 minutos mais tarde, com o velocímetro da viatura bem pouco empolgado.
Da viatura da PM, desembarcaram dois policiais rechonchudos, um deles bem acima do peso para quem pode, eventualmente, ter de perseguir algum bandido em fuga. O outro, embora não tão gordo nem tão baixo, já aparentava idade para se aposentar. Olhei para meu irmão e disse: "já vi demais por hoje". Embarcamos no carro dele e fomos embora, deixando o último gole do café expresso esfriando na xícara.
A manhã de domingo era de sol e céu azul, com uma brisa suave que favorecia a consagrada rodinha de amigos na principal cafeteria de Pato Branco, a "boca maldita" da cidade. A viagem de férias, programada para dali alguns dias, era o assunto principal da conversa - inspirada por pequenos goles de café expresso com creme - entre meu irmão do meio e eu.
De dentro da cafeteria, onde também se vendem livros e revistas, podíamos ver o movimento do lado de fora (de veículos e de pessoas), na primeira quadra da Rua Guarani, o metro quadrado mais caro de Pato Branco. Em áreas importantes assim, a ronda policial costuma ser frequente e a criminalidade, o contrário. Não foi isso que se viu naquela manhã.
A calmaria foi quebrada quando um deficiente mental, figura conhecida e benquista dos clientes mais assíduos da cafeteria, correu para perto da entrada do estabelecimento para buscar ajuda. Um piscar de olhos mais tarde, surgem outros dois loucos, ambos maltrapilhos. Um deles, loiro e descabelado, dizia: "é ele que você tem de matar". Aquele que supostamente fora encarregado de matar, um sujeito moreno e impregnado pela sujeira e por um odor nada agradável, gritava: "eu sou o Diabo".
O "Diabo" ficou só no grito, como se quisesse intimidar a todos. Foi o loiro-louco que agiu ao partir para cima do louco do bem, amigo dos clientes. Agarrou-o com as mãos, uma no pescoço e outra no rosto, enquanto os funcionários ligavam para a polícia e alguns fregueses davam os primeiros passos no intuito de apartar a briga.
Ao ser esganado, o louco do bem aplicou uma mordida de pit bull no dedo do agressor, quase causando uma amputação. A Polícia Militar já tinha sido acionada naquele momento. O loiro-louco, transtornado ao ver jorrar sangue do dedo indicador de sua mão direita, passou a esbravejar: "vocês tiraram o sangue do escolhido". E quanto mais as pessoas riam da situação e das frases desconexas, mais o louco repetia que tinham tirado o sangue dele, um "escolhido", e que vingança seria feita.
Devia se tratar de um escolhido do "Diabo", já que tomando as dores do amigo louco, seu comparsa ajuntou duas pedras (grandes, por sinal) para atirar contra a pequena multidão, que observava o lamentável episódio a uma distância de cerca de 25 metros. A primeira investida acertou na parede de um hotel vizinho ao tumulto, a segunda no vidro e no retrovisor do gol branco de um dos clientes.
Ao ver que tinha feito besteira, o louco que dizia ter o Diabo no corpo, deu no pé com medo de ser preso. O louco "escolhido" se afastou sem pressa, "berrando" para todos ouvirem que ele era, óbvio, o escolhido - devia ter sido eleito em alguma votação no hospício de onde havia fugido. A clientela ficou revoltada, alguns cogitaram correr atrás do "Diabo" e aplicar, como se diz em alguns cantões do Paraná, uma "camaçada de pau" nele. Mas ninguém ousou tanto, tendo em vista o risco de levar uma pedrada.
Fiquei com meu irmão ali, reparando a cena de uma distância segura e, mais tarde, checando os estragos das pedradas na parede do hotel e também no veículo. Ficamos no local também por curiosidade, para saber se os loucos agressores seriam detidos. Como em tantas outras cidades brasileiras, em Pato Branco não foi diferente, a polícia chegou ao local apenas quase 20 minutos mais tarde, com o velocímetro da viatura bem pouco empolgado.
Da viatura da PM, desembarcaram dois policiais rechonchudos, um deles bem acima do peso para quem pode, eventualmente, ter de perseguir algum bandido em fuga. O outro, embora não tão gordo nem tão baixo, já aparentava idade para se aposentar. Olhei para meu irmão e disse: "já vi demais por hoje". Embarcamos no carro dele e fomos embora, deixando o último gole do café expresso esfriando na xícara.
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