4 de setembro de 2009

Vinte dias com Angela

.
Era inverno. Pelo que sugere a estação, devia estar frio, mas, na prática, o calor daquele início de tarde, em Maringá, permitia ficar a vontade com pouca roupa. O desconforto não estava no clima, tampouco no pagode de quinta que tocava no alto-falante da rodoviária e, sim, no atraso em quase duas horas do ônibus da linha Palmas-TO/Santa Maria-RS. Foi na longa espera, de causar raiva, que Angela notou Francisco pela primeira vez.

Quase 30, quase 1,80m, quase careca, quase desmaiado de sono - pela insônia da noite anterior -, Chico nunca teve panca de galã. Era do tipo que, com alguma frequência, passava despercebido nas festas. Porém, de jeans, camiseta, boné, óculos escuro e, sobretudo, tênis All Star, ele pareceu interessante aos olhos dela. Há pesquisas que afirmam que uma mulher, quando não está comprometida, repara da cabeça aos pés em até sete homens que a atraem, todo dia. Por sorte - no dicionário dele "destino" e no dela, "acaso" - Chico havia entrado na lista de bem-apessoados na avaliação da moça com não mais de 20, cinturinha de modelo, cabelos curtos e pele lisa.

A troca de olhares, do tipo capaz de causar frio no estômago e calor abrupto em outras partes, aconteceria instantes mais tarde e eles, solteiros, aproveitariam cada instante da oportunidade concedida pelo acaso - ou pelo destino. Se a vida fosse como no cinema ou nas novelas, pelo início da história, Francisco e Angela passariam por dificuldades para ficar juntos e, no final, viveriam felizes para sempre. Na vida real, não foi isso que a história reservou para eles, não em uma trama que envolve também um sujeito chamado Humberto - guarde bem esse nome!

Chico não costuma ser um cara apressado, mas o sono que tanto o torturava o fez ser o primeiro a despachar a mala para, o quanto antes, tomar seu lugar na poltrona 3 do ônibus. Já havia se acomodado quando decidiu buscar água no final do corredor, antes de cair no sono. Ao se levantar, seus olhos brilharam para Angela, que se sentaria na poltrona 4, ao lado da sua. Ele custava a acreditar na bondade divina. Toda vida teve problemas com "vizinhos" de viagem e, desta vez, parecia que a sorte estava a fim de compensá-lo. Angela ajeitava a mochila no bagageiro interno quando ouviu a pergunta:

- Vou ali ao fundo buscar água, posso trazer para ti também? - disse Chico, certo de que ela aceitaria e, mais, que gostaria da atitude. Ser gentil com aquela desconhecida jovem foi mais que um ato de cavalheirismo, em uma situação como aquela foi uma oportunidade, bem aproveitada, de quebrar o gelo.

Ela aceitou e, pelo sorriso ainda inibido, demonstrou ter curtido a atitude. Gaúcha, atraída a Maringá pelos estudos na universidade estadual, notou algo familiar no sotaque de Chico. Neto de gaúchos e repórter do maior jornal de Maringá, ele passaria o fim de semana em sua terra natal, Pato Branco, no sudoeste do Paraná. Uma cidade de colonização gaúcha que, bem por isso, é mais apegada aos costumes do Rio Grande do Sul do que do próprio Paraná.

Em férias na universidade, Angela passaria um mês na longínqua Alegrete, tão distante de tudo que um pouco além - bem pouco - fica o Uruguai. Ao lado dela, o sono de Chico passou de repente e ambos conversaram desde o copo d'água até o desembarque na "Capital do Sudoeste", que é a figura de linguagem utilizada pelos "nativos" para autoproclamar Pato Branco capital de alguma coisa. Nas 11 horas de viagem do trecho - que passaram como se fossem 2 horas - a estudante de Biologia e o repórter só interrompiam o bate-papo mediante apropriados e uníssonos "chiiiiiii" dos outros passageiros. Fora os dois, num ônibus sem televisores e sem filme para ajudar a passar o tempo, os demais queriam dormir.

Da turma do "chiiiiiii", quem não conseguiu pegar no sono ao menos ouviu boas histórias. Angela e Chico foram ecléticos e não economizaram saliva. Falaram sobre estudos, trabalho, religião, família, amigos, saudades da família e dos amigos, da cidade-natal, relacionamentos anteriores, sexo, drogas e rock and roll. Bate-papo que incluiu peculiaridades culinárias, como o fato de ambos gostarem de fígado de galinha e, mais que isso, saberem cozinhar o prato ainda tão pouco apreciado. O assunto sobre o preparo do fígado foi, de longe, o que mais recebeu pedidos de silêncio. Quando eles falaram de sexo e relacionamentos, porém, ninguém no ônibus se manifestou. Curiosidade, talvez.

Na afinada troca de palavras, o tom de voz e os olhares trocados na penumbra sinalizavam que o encontro daquele casal - unido por uma força maior ou por força nenhuma - teria um segundo tempo, de muitos gols. Na primeira despedida, nada de beijo, apenas um olhar prolongado e silencioso, repleto de boas e "más" (no melhor sentido da palavra) intenções. No desembarque em Pato Branco, numa madrugada de céu estrelado, com temperatura na casa dos 10°C, o indiscreto motorista perguntou:

- E aí, companheiro, pegou o telefone da moça? - Chico respondeu com um desinibido sorriso, de modo a dispensar as palavras. Angela ouviu o que dissera o motorista, de dentro do ônibus, enquanto observava o repórter apanhar sua bagagem. Também sorriu, embora um pouco envergonhada, menos pela curiosidade do motorista, mais por notar que todos os demais passageiros estavam em silêncio. Ou dormiam ou, acordados, tinham ouvido pormenores da conversa.

O jovem de Pato Branco havia esquecido de pedir o telefone da guria de Alegrete. O que na geração de seus pais teria sido um problema, na deles era um mero detalhe. Chico tomou nota do endereço de email, do MSN e do orkut de Angela, tudo para se certificar de que eles não perderiam contato. A bela de corpo delgado abanou com a mão esquerda assim que o ônibus partiu, já na expectativa de receber o primeiro email - que não demoraria a ser enviado.

Angela nunca acreditou em simpatias, porém, o encontro no ônibus a deixou pensativa. Seria possível que, mesmo com sua falta de fé, uma simpatia desse certo? No dia de Santo Antônio, na paróquia homônima em Maringá, a gaúcha comprara 12 pedaços de bolo para ela, as primas e os tios, com quem mora desde que ingressou na universidade, três anos antes. Reza a lenda que encontrar uma medalhinha de Santo Antônio no bolo significa - para as solteiras - namorado à vista. Das fatias que comprara, Angela comera três e, apenas esses, continham as ditas medalhinhas no recheio.

Já em Alegrete, recordou-se do recorde da Paróquia Santo Antônio, que agora lhe pertencia e do qual preferia não se orgulhar: três pedaços de bolo, três medalhinhas. E se, por acaso, a simpatia providenciasse a ela um namorado trilegal? Tentando se manter incrédula, seguiu trocando emails com Chico, todos os dias, até o dia em que seus olhares tornassem a se encontrar.

O reencontro foi em um banco de concreto com formato de onça-pintada, diante da entrada principal de um shopping de Maringá. Trocaram mimos - lembrancinhas, como se diz no Rio Grande -, beijos não. Não ali, diante de um conglomerado de lojas, de uma plateia de desconhecidos, da onça inanimada. Não antes de um passeio a dois, pelas ruas arborizadas da cidade. Não sem antes brindar o momento com chope gelado e música ao vivo. Sob a bênção de um céu estrelado, sem Lua, mas com outra longa e descontraída conversa, ele a acompanhou até a casa dos tios.

Chico sabia que seria correspondido. Angela sabia que bastava se virar de costas para ele, para ser abraçada e beijada no pescoço, antes do presumível beijo de cinema. Foi o primeiro grande momento de um romance que, já foi dito, não terminaria com o batido "e viveram felizes para sempre" e que teria ainda a figura de Humberto - repito: guarde bem esse nome!

Combinaram de ir ao parque, na tarde seguinte, caso fizesse sol. Contudo, a previsão era de chuva. E do céu derramou água, mas Chico foi ao encontro de sua gaúcha, com seu possante 1.0, mesmo assim. Questionou o que faria, pois chovia, e recebeu de Angela a melhor resposta:

- Com o tempo ruim assim, já era o passeio no parque - disse a bióloga.
- O que você sugere? - questionou o rapaz.
- A gente poderia ver um filme em sua casa - respondeu Angela, sem delonga. Para Chico, que morava sozinho, a ideia foi brilhante.

A gaúcha e o paranaense não combinavam em muita coisa, aliás, combinavam bem pouco. Ele, cristão protestante; ela, católica nada praticante. Ele, sonhador; ela, pés no chão. Ele, favorável à liberalização da maconha, embora nunca tivesse experimentado; ela, contrária à descriminalização, ainda que conhecesse os efeitos da Cannabis. As diferenças eram gritantes, mas um bom filme, sem pressa, eles curtiam muito assistir juntos. No segundo grande momento, beberam vinho. Bom esclarecer, não era um vinho qualquer.

Certa vez, na redação do jornal, Chico foi presenteado por Humberto - olha ele aí -, seu editor, com um chileno Santa Helena. Uma retribuição a um vinho que trouxera para o amigo de uma vinícola que visitara durante as férias, na Serra Gaúcha. Em uma comprometida troca de olhares, e admirado com a beleza de Angela, o pato-branquense se lembrou da sábia recomendação de Humberto.

- Deguste esse vinho com alguém especial, que faça por merecer cada gole - disse o experiente editor. Pela intensidade do encontro, Chico não tinha dúvidas: Angela fizera por merecer cada gota do fruto da videira. E foram vários goles, de modo a faltar tempo para o filme, no sentido literal da palavra. Quem dera durasse para sempre, porém, aos dois, nenhum ditado serviu tão bem quanto este: "os dispostos se atraem e os opostos se distraem". A gaúcha e o paranaense eram como água e óleo e, por consequência, não estavam verdadeiramente atraídos, mas, sim, se distraindo.

Tal como na noite do primeiro beijo, 20 dias depois, estavam novamente numa mesa de bar, frente a frente, mas já não tão próximos. Desta vez, o encontro era para desmanchar o namoro. No meteórico romance, Angela não se sentia como Julieta, tampouco Francisco como Romeu. Faltava a paixão genuína, o "combustível" sem o qual não é possível chegar ao amor. Deveriam insistir no namoro e desistir da busca pelo verdadeiro amor? A pergunta que não quis calar, calou sem dó o relacionamento recém-iniciado.

Angela se foi, sem dizer adeus. Chico, em busca de consolo, foi contar a história a Humberto. Experientes escritores, como ele, entendem bem os dramas da vida e do coração e, por isso, têm a palavra certa para quando um romance acaba.

- Você aproveitou bem o vinho, naquela noite? - quis saber Humberto. Ainda cabisbaixo, Chico respondeu que sim, que o vinho não tinha sido em vão. - É isso que importa. Levanta a cabeça e vai beber outro vinho, com outra companhia especial - sentenciou o amigo editor.

Feliz por ter conhecido Angela, e sem saber onde está sua Julieta, Chico levantou a cabeça, pensou no próximo vinho, e tocou o barco. Mais decidida do que ele no término do namoro, Angela seguiu com uma dúvida cruel: seria o amor de anos antes o Romeu que ela viu ir embora, sem se despedir? Ambos, em caminhos distintos, ajudados pelo destino - ou pelo acaso -, seguem em busca de uma paixão genuína, para escrever uma história que termine com "felizes para sempre".
.

1 de setembro de 2009

Uma linda mulher

.
"Terminei o namoro. Vem me ver... e vem sem pressa de voltar, tá". Foi essa a mensagem que recebi da mulher amada, via SMS, uma noite dessas, já no final do expediente no jornal. Custei a acreditar e me contive, por estar no ambiente de trabalho, para não dar pulos de alegria ao reler o "torpedo". Custei a acreditar que não passava de um sonho ao acordar, no sofá, com o corpo doído, os olhos inchados e um princípio de torcicolo. Pareceu tão real que, ainda zonzo de sono, cheguei a conferir a caixa de mensagem do celular  e nada.

Nem sempre me recordo dos sonhos que tive, porém, de alguns poucos, daqueles carregados de realidade e impactantes por isso, não apenas lembro de cada detalhe, passo semanas refletindo a respeito deles. O que querem me dizer? Para mim, sonhos como esse da mensagem via celular são instigantes e, às vezes, preocupantes.

Costumo ter dois tipos de sonho. Aqueles com um misto de informações desconexas, que não fazem sentido, desconsidero. Esses, como o do relato, são raros e dão a impressão de que vão, de fato, acontecer. Em algumas ocasiões  em situações de pequena relevância  já aconteceram tal como eu havia sonhado. Isso, assusta.

Há alguns meses, dias depois de ter um desses sonhos que se concretizaram, sonhei que havia acertado as seis dezenas da Mega-Sena (e relatei isso, neste blog, em uma crônica). Despertei com os seis números em minha mente, de maneira que podia vê-los rabiscados no bilhete premiado. Voltei a dormir e, ao acordar, de novo, só me lembrava do número 12. Naquele dia, fiz uma aposta nesse número e em outros cinco, sem conseguir recordar quais eram os outros cinco. No concurso daquele dia, o 12 foi sorteado.

Cinco madrugadas antes desse do SMS, sonhei que minha ex-namorada estava grávida, com riqueza de detalhes da tensa conversa que tivemos a respeito e da maneira como ela anunciou a gravidez. Estivemos juntos, depois disso, e ela  sem saber de meu sonho  me contou que havia passado um par de dias preocupada com o atraso da menstruação. Disse-me como pretendia me contar, caso estivesse mesmo grávida. Detalhe: ela me contaria tal como eu havia sonhado.

Fico preocupado quando sonhos ruins envolvem pessoas próximas a mim. Também este ano, sonhei com a morte de um grande amigo que fiz em Maringá. Ele perderia a vida ao ser atropelado, no Centro da cidade, no dia em que fazia a mudança para outro apartamento. Cheguei a perguntar se ele estava planejando se mudar  e não estava, ainda bem , mas não lhe contei o porquê da pergunta. Quando for deixar o apê, espero estar junto para me certificar de que ele vai olhar para os dois lados antes de atravessar a rua. De quebra, ajudo com a mudança.

Impressionado com os pensamentos que irrigaram minha mente enquanto eu entortava a cervical no sofá, tomei o rumo do quarto. Na cama, apanhei caderno e caneta da cabeceira e escrevi até o parágrafo anterior, antes de pegar no sono, por volta das 5 horas.

A claridade do Sol, o céu azul, que podia ser visto pela fresta da janela, e o barulho da construção do prédio ao lado me despertaram lá pelas 9 horas. Quando digo que alguns sonhos me instigam, não exagero. Com meiguice e doçura sem iguais, a linda mulher  a "Julia Roberts" de meus pensamentos  havia retornado para mim, agora, para sempre. Acordei feliz, mesmo sabendo que se tratava apenas de um sonho, até porque, sonhos às vezes se materializam.

Sonhar é de graça e, pelo menos neles, o "felizes para sempre" de tantas obras literárias é possível, tanto quanto estar com quem se deseja. Que o sonho do SMS seja, quiçá, daqueles que tem continuidade, na vida real.
.

28 de agosto de 2009

Namorei a Paulista

.
Estou convencido de que São Paulo quer me provar que é, de fato, a terra da garoa. Há um mês, fez jus ao título ao me privar do sol durante toda uma semana. Meu retorno à grande metrópole da América do Sul foi num domingo, frio e úmido, de céu em tons de cinza, de novo.

Estava na agenda um passeio no Parque do Ibirapuera, mas a garoa ininterrupta, que se esforçava para molhar, levou-me à Avenida Paulista, a primeira pavimentada de São Paulo capital. A mais famosa avenida do Brasil, que concentra o poder econômico e onde são fechados os grandes negócios do País, é sempre uma boa opção de passeio, faça chuva ou faça sol.

Desta vez, fui de metrô – sossegado, sem as “sardinhas” dos dias de semana. Peguei o trem na estação São Joaquim e segui até a estação Paraíso. Tomei outra linha, sentido Consolação, no outro extremo da Avenida Paulista para, de lá, retornar a pé. Talvez daí aquele divertido – e para mim verdadeiro – ditado: “a Paulista é que nem casamento, começa no paraíso e termina na consolação”.

Namorei a Paulista durante toda aquela tarde de domingo, sem pressa. Comecei devagar. De repente, notava que estava num ritmo mais acelerado e, para aproveitar mais bem o momento, “pisava no freio”. A Paulista estava molhadinha – por causa da garoa, claro –, mas isso jamais espantaria um paranaense curioso, que gosta de ver gente. Num dos lugares mais cosmopolitas do País, estava contente por gozar de boa saúde e poder cruzar, a pé, os quase três quilômetros da avenida.

No primeiro shopping que visitei, vi um grupo de alemães – austríacos talvez, porque falavam na língua de Goethe – bebendo chope e rindo, mas com a discrição inerente aos europeus. Da conversa alheia, entendi que estavam impressionados com o tamanho de São Paulo. “Wunderbar” (maravilhoso) foi apenas um dos adjetivos empregados para classificar a capital. O nerd entre eles, o único com máquina fotográfica em mãos, sugeriu uma foto só com as meninas do grupo. Aliás, belas jovens germânicas, loiras e mais altas que nossa média nacional, viciantes! Remeteram minha mente a lembranças do tempo em que morei na Alemanha.

Parei em dois shoppings, para beber o merecido café expresso, sem açúcar. O segundo “pit stop”, para repor a cafeína, foi no Pátio Paulista, onde me deparei com um grupo de turistas japoneses. Estou certo de que não eram coreanos nem chineses, porque mais de um, a maioria para ser sincero, volta e meia sacava do bolso (ou do pescoço) o celular, sempre do tipo “lançado ontem”, para tirar fotos. Conversavam menos que os alemães, e bebiam refrigerante. Riam sem mostrar os dentes, mas não faço a menor ideia do que falavam. Fiquei curioso para saber o que dizia a nipônica com cabelos com mechas cor-de-rosa – linda de uma forma instigante.

Boa parte do tempo, porém, passei a céu aberto e, por pelo menos meia hora, fiquei no pátio do Museu de Arte de São Paulo (Masp), observando tamanha diversidade, num momento antropológico de inspiração. Vi gente de várias cores, Estados, nações, credos. Alguns de gravata, outros despreocupados em combinar a calça laranja com o agasalho azul. Moças de cabelos para todos os gostos: roxo, compridos, loiros, curtos, lisos, cacheados, soltos ou amarrados. Rapazes fazendo acrobacias com ioiôs, a fim de chamar a atenção dessas mesmas moças.

São Paulo me encanta por essa riqueza cultural, de costumes mil. Em Sampa, mais do que em qualquer outra cidade do Brasil, dá para ser você mesmo, por mais estranho que você possa parecer. Não importa se você tem carro ou vai de metrô, se tem emprego fixo ou se é autônomo, se veste terno ou se arrisca um saiote (kilt) como se estivesse na Escócia, se é heterossexual ou se é gay, se fuma maconha ou se é contra a liberalização, se fala como paulistano nato ou se tem sotaque de outro lugar. Do jeito que for, numa cidade nada provinciana, sempre vai haver alguém para curtir teu jeito de ser.

Nessa “salada” de tudo e de todos, percebo na Avenida Paulista um “tempero” único. Na via que é a cara de São Paulo, sinto-me em casa e nem noto o tempo passar. Molhadinha ou não, gosto de pegar a Paulista sem pressa, para curtir cada passo. O relógio... só olhei quando alguém me perguntou as horas.


Publicado também em: Recanto das Letras e jornal O Diário (Cultura, 13/01/2016)
.

18 de agosto de 2009

Enfim, habilitado!

.
"Será que dá para desligar a seta?"

Ao invés de "aprovado" (ou "reprovado") foi isso que ouvi, com uma rispidez de grosso calibre, ao cruzar a "linha de chegada" do teste para a carteira de moto. Para ser franco, tratava-se do terceiro teste: já que havia reprovado nas duas primeiras tentativas e não suportava mais ver o fiscal descedente de japoneses que, ao julgar pela cara amarrada, chupa limão verde no café da manhã.

Sem saber o resultado e devidamente apreensivo, estacionei a moto no local pré-determinado e, com o capacete em mãos, fui ao encontro do japa para conhecer o veredicto. Com dores no corpo, dificuldade para respirar e medo de estar com a gripe suína, tinha saído de casa certo de que, naquela manhã, reprovaria no teste pela terceira vez. Não aguentava com meu próprio corpo, logo, tinha uma boa desculpa caso não aguentasse com a moto.

O céu estava azul, o clima agradável e a cara do japa, a mesma de sempre. Carrancudo, perguntou meu nome, olhou para a prancheta, olhou para mim, outra vez para a prancheta e, sem olhar novamente para mim, lançou a sentença: "Errou a seta, menos três pontos. E só, está aprovado". Na frente dele, esforcei-me para não dar um brado de felicidade.

Na avaliação prática para a carteira de moto, o candidato a motoqueiro pode perder, no máximo, três pontos. Mal de saúde a ponto de cogitar estar com a nova gripe, a aprovação - com a punição que fosse - era algo a comemorar. Após duas negativas vergonhosas, aqueles três pontos não seriam capazes de ferir meu orgulho - e não feriram.

Ergui a cabeça e, com o sorrido que alcançava a orelha - e com os olhos quentes, acho que de febre -, tomei apressado o rumo do portão de saída do circuito, para deixar o recinto antes que o avaliador pudesse mudar de ideia. Do lado de fora, tentei sem êxito fazer uma expressão de desânimo, para enganar o instrutor. "É isso aí rapaz! Já notei que você passou", disse aquele que me ensinou a guiar uma moto, ao me ver.

Ali, no momento de euforia, lembrei das palavras de apoio da noite anterior, quando o receio de não passar, de novo, bateu à porta. "Tu tens que querer passar. E tenho certeza que vais passar", disse a namorada, com seu agradável sotaque gaúcho, ao dar bem mais que palavras de apoio. Na companhia dela, com um bom filme regado a vinho, pulverizei o problema que acarretou na segunda reprovação: a ansiedade.

Para obter a carteira de moto, entregue em até oito dias úteis após a aprovação, precisei de um teste, dois retestes, três meses de espera, R$ 200 a mais que o normal e ajuda contra a ansiedade. Certo de que para tudo há um propósito, não há do que reclamar: nem da grana que desperdicei nem da gripe que me atrapalhou. Como a namorada teve os sintomas antes, sei bem como fiquei gripado. E se tive mesmo a influenza A, então foi a gripe suína mais bem pega da história.

Aliás, a nova carteira de motorista, agora também com a habilitação tipo A, não chegou até esta data. Desta vez, para compensar os tropeços nos testes, espero não sair parecido com o Shrek na foto. Tomara!

Crônica publicada no Jornal de Beltrão.
.

23 de julho de 2009

Um pesadelo com Michael Jackson

.
Sonhar com Michael Jackson na sexta-feira seguinte a sua morte não parecia um bom sinal. Com o corpo todo doído, acordei do pesadelo no momento em que Madonna catava "Material Girl" no velório do Rei do Pop, a poucos metros do corpo que, no sonho, estava sem o nariz. Uma cena pouco agradável.

Definitivamente, não era um bom sinal!

O sonho conturbado se deu no dia do reteste prático para a carteira de moto. Um mês antes, sonhei que namorava a atriz Ana Paula Arósio e que havia dormido com ela - se bem que "dormir" é o verbo menos adequado para descrever o que se passou em minha mente. Naquela ocasião, acordei otimista com a vida. Embora os bons fluídos e a manhã de céu de brigadeiro, ainda assim reprovei no teste. Após a conturbada noite, em que participara do velório de Michael Jackson, uma segunda reprovação era presumível.

Fazia frio naquela úmida manhã com cara de Finados. O céu acinzentado e antipático era capaz de intimidar a autoestima e afugentar o pouco de confiança que teimava em me acompanhar. Diante do mesmo circuito - oito, prancha, rampa, cones, etc -, a confiança mudou de ideia e evaporou como água de chaleira. Ao contrário da primeira vez, estava demasiadamente ansioso, a ponto de pensar que um fraldão teria sido uma boa ideia. Felizmente - e talvez por pouco -, o acessório geriátrico não fez falta.

Se o universo pode mesmo conspirar a favor ou contra alguém, ele deve ter apostado alto contra mim naquele dia. O capacete era pequeno e mal cabia em minha a cabeça tamanho GG, a dor de barriga era grande e a ansiedade, quase insuportável. Como um músico sem confiança, na iminência de desafinar, parti em busca da volta perfeita. Passei o oito, dei aula na prancha e segui o percurso...

Ao deixar o circuito, por um portão de metal, o primeiro a surgir no campo de visão foi o instrutor da autoescola. "E aí, passou?" Quem dera! Havia deixado a moto de nada possantes 125 cilindradas afogar na rampa. O instrutor custava a acreditar no relato.

- Você nunca deixou a moto afogar nas aulas! Assim vai parecer que não te ensinei direito - exclamou.

- Não podia deixar isso acontecer depois de tirar a carta? - questionou, durante o "sermão". A bronca era devida. Às vezes é preciso um chacoalhão para despertar, um choque de 220 volts para recarregar o ânimo. Mantive os dedos longe da tomada, de qualquer forma, a segunda reprovação foi como um choque.

Um choque que fez aflorar algumas lembranças, no caminho de volta para casa. Recordei de quantas coisas boas o excesso de ansiedade me privou, num passado não tão distante. Durante a faculdade, disputava as ditas "olimpíadas" internas representando o curso de Jornalismo no tênis de mesa. Sempre chegava à final, sempre perdia. Na decisão, no grande momento, encontrava-me dando raquetadas contra o adversário e contra minha própria ansiedade. O mesmo acontecia nos relacionamentos: a ansiedade explodia minhas chances com as garotas mais interessantes, logo, era relegado a ficar com quem menos me identificava.

Bastou deixar a Ciretran, cabisbaixo, para o nível de ansiedade despencar. Embarquei em meu Fusca 1975 e fui afogar as mágoas com um pingado - mais forte de café do que leite - na panificadora de sempre, com as atendentes de costume: as simpáticas Simone e Rose. Ambas têm carteira de moto, ambas tiveram bons conselhos para dar ao indignado reprovado, num momento de necessário consolo.

- Da próxima vez, tome maracugina dias antes do teste. Deu certo comigo - sugeriu Rose. A dica de Simone veio em seguida e foi, digamos, mais ousada.

- Acha uma namorada e no dia do reteste dá umas duas logo cedo, antes de sair de casa - disse. Algo a ponderar.

No jornal também fui consolado, inclusive por uma colega repórter que reprovou três vezes e que hoje, com alguma persistência e vários retestes depois, dirige sua motoneta com proeza. Dias depois, estava no jornal quando recebi uma ligação da autoescola, que havia agendado a terceira tentativa para agosto. Com tanto apoio e boas dicas, algo me diz que a aprovação é questão de tempo.

Para fuzilar a ansiedade, vou correr mais no parque e procurar, na farmácia, a dita maracugina. Para aproveitar a dica mais levada (e gostosa, por que não), apoio feminino é indispensável - e sempre bem-vindo. Para que tudo dê certo, só não posso ter outro pesadelo na véspera, como aquele com Michael Jackson. Negro ou branco, que Deus o tenha.
.

22 de julho de 2009

Vinte dias com Angela... em breve!

.
Pode um romance que começa em uma viagem de ônibus, e que prossegue na internet até o intenso reencontro entre um pacato paranaense e uma bela gaúcha, terminar em "viveram felizes para sempre?" Francisco e Angela são os protagonistas do novo conto de LF Cardoso, que envolve na trama um terceiro elemento: Humberto.

O conto, baseado em uma história real, retrata a realidade de tantos casais: a falta da paixão genuína, "combustível" tão importante para se chegar ao amor. Angela e Chico estariam mesmo apaixonados, ou não passaria de atração física? Leia e descubra!

"Vinte dias com Angela", aqui!

Do autor!
.

17 de julho de 2009

Graças a Pink Floyd

.
Tarde fria de sábado, não me recordo ao certo a data, mas me lembro bem da história. Estavam os colegas de redação, Fanta Uva e Mortal, na cafeteria do shopping Maringá Park, bebendo uma daquelas opções de café com álcool – para esquentar o corpo –, quando surgiu um magrelo de óculos, cabelo enrolado, com seu afinado violão. Aparentava ser dos bons. Era bom que fosse, torciam os jornalistas, para não amargar o café.


Tomara que a música seja agradável disse Fanta Uva.
Tomara que não seja sertanejo emendeu Mortal.

Na companhia de seu violão, uma guitarra em stand by e duas caixas de som para dar vida à música, lançou-se num MPB para aquecer os dedos.

Toca muito bem avaliou a repórter, após o término da segunda música. Mortal ainda achava cedo para um palpite, isso antes de ser tocada a terceira do repertório do dia.

Com uma categoria ímpar, o músico fez seu violão "cantar" – e o exagero é pertinente – "Another Brick In The Wall", de Pink Floyd, uma das bandas mais bem sucedidas da história do rock. Em instantes, alguns garotos presenciavam de perto, em pé e estáticos, um deles com a boca aberta e quase babando, a execução da famosa música. O que mais um homem pode querer, além de boa companhia, um café expresso e rock de qualidade, ao vivo? Inevitável refletir sobre isso naquele momento.

Terminada a música, Mortal bebeu mais um gole e disse à companheira de cafeína: "preciso cumprimentá-lo". É inerente ao ser humano criticar quando se depara com algo que não o agrada, porém, raramente os elogios acontecem na mesma proporção. O violonista se preparava para massagear os ouvidos alheios, com alguma outra de seu repertório, no momento em que foi abordado.

Olá, sou repórter do jornal O Diário. Quero te parabenizar pela música disse Mortal. Em Maringá, em quase todo lugar que vou só ouço sertajeno, por isso não esperava ouvir Pink Floyd completou o jornalista que, graças à banda inglesa, teve a oportunidade de conhecer um instrumentista de grande talento.

Só toco música de qualidade brincou Marcos Santana, violonista que toca rock, blues, jazz, música brasileira e erudita; músico que não toca sertanejo, axé, funk e "na boquinha da garrafa". É sempre bom receber elogios acrescentou.

Mortal havia agido mais como fã de uma boa música, menos como repórter. Foi, elogiou, trocou meias palavras, voltou, tornou a beber seu café – convicto de que não estranharia se Eric Clapton viesse em seguida. Dois goles mais tarde, foi bombardeado por Fanta Uva.

Você sabe se ele já lançou algum CD? Quando ele toca aqui novamente. Ele é de Maringá? O que ele faz, vive apenas da música? perguntou Fanta Uva, lançando um olhar de reprovação ao perceber que Mortal não tinha feito nenhuma daquelas perguntas básicas. Questões que o repórter sanou minutos depois de terminado o café, pouco antes de irem embora.

Foi pela força do rock 'n roll que aqueles dois jovens repórteres – ele da área de política, ela especialista em gastronomia – haviam cruzado o caminho daquele talentoso violonista. Graças a Pink Floyd, sabiam que Marcos Santana, que não é parente do famoso guitarrista de mesmo sobrenome, lançaria seu primeiro CD dali dois meses. Também souberam que ele é músico profissional há mais de 15 anos e que tira da música, e apenas dela, o sustento de sua família.

Dia ou outro Mortal se depara com Santana pelas ruas da cidade. Numa dessas oportunidades, o músico fez o convite: "vou lançar meu CD dia tal, na livraria do shopping, aparece lá".

Mortal disse que faria melhor, prometeu uma matéria em O Diário a respeito... e cumpriu. Contou a Mercúrio, o editor de cultura do jornal, sobre como havia conhecido Santana. Lembrou também da brilhante execução de "Another Brick In The Wall" e, convincente, ganhou uma página inteira, colorida, para escrever sobre o violonista e seu primeiro álbum.

E todos ganharam com isso. Santana não se conteve em alegria, ao se ver no maior jornal da cidade. Mercúrio gostou da matéria e elogiou o trabalho. Mortal ficou feliz por ter o texto elogiado e, talvez por isso, bebeu quantidade dobrada de café naquele dia. Fanta Uva foi convidada para outro café alcoólico (sem segundas intenções) e a ambos – ela e Mortal – Santana prometeu tocar Pink Floyd, de novo. Pela força do rock, o café expresso ficou ainda mais saboroso.
.