28 de dezembro de 2010
Iracema vai se casar
.
Soube que uma paixão do passado, alguém de quem gostei sem medo de ser feliz, vai se casar. Por um instante, fiquei sem palavras. Não sei ao certo o que senti naquele momento. A notícia não trouxe tristeza ao meu coração, tampouco felicidade. Buscando compreender um sentimento que me fora apresentado pela primeira vez em quase 30 anos de vida, encontrei em uma canção do saudoso Tim Maia – a qual recordei com auxílio de um bom amigo – uma explicação razoável.
"Paixão antiga sempre mexe com a gente. É tão difícil esquecer / Basta um encontro por acaso e, pronto, começa tudo outra vez". Ouvi "Paixão Antiga" uma dezena de vezes. Lamentei o fato de que grandes vozes, como Tim, tenham partido tão cedo. Enquanto isso, nossos ouvidos são "agraciados" com doses cavalares de Joelmas que, a considerar a incansável Lei de Murphy, terão fôlego para cantar até os 130 anos de idade.
Como poderia imaginar que nossas vidas tomariam rumos tão diferentes. Como bem cantava Tim: "Foi bom demais, não tinha que acabar". Mas acabou. Na década que chega ao fim, o destino tentou nos aproximar novamente, algumas vezes. Como é doce o beijo de quem se gosta. Penso que o destino quase teve êxito. Não tinha que acabar, mas acabou.
Três anos mais jovem do que seu admirador nada secreto, Iracema não faz jus ao nome indígena. Na faculdade, a descendente de italianos, de pele clara e cabelos e olhos castanhos, destacava-se das demais colegas de jaleco branco. A primeira vez que a vi foi na biblioteca, numa fria manhã de outono. Se faltou ousadia para puxar conversa, naquele dia, sobrou esperteza. Foi a bibliotecária, dona Helda, que fez o favor de levantar a ficha de Iracema a meu pedido. De quebra, Helda topou entregar um bilhete meu à bella italiana.
Estudava Jornalismo à noite e, durante o dia, trabalhava na faculdade. Volta e meia, levava ou buscava alguns livros a pedido do coordenador do curso. Depois de ver Iracema pela primeira vez, tudo era motivo para ir à biblioteca. Entre as estantes de livros, após o bilhete surtir efeito, se deu a primeira troca de olhares. Era como em outro trecho da canção de Tim: "eu, sem disfarçar, te como com meu olhar".
Encontrávamos no intervalo das aulas e fora da faculdade o mIRC – ferramenta de bate-papo que nem existe mais – ajudava a matar a saudade. Desejava vê-la sempre e era prazeroso estar próximo dela. Não bastasse sua beleza, a voz de Iracema (a considerar o exagero da paixão) era doce e meiga como a de uma sereia – ou ao menos como eu imaginava ser a voz de uma sereia.
Com a trágica morte de seu pai, Iracema se afastou de mim. Com o término de meu estágio, afastei-me dela. Achei que um tempo seria bom e, na pausa de um romance que tinha tudo para dar certo, conheci uma outra estudante, da mesma faculdade. Em dois anos, namorei e fiquei noivo. Uma grande amiga e colega de Jornalismo me alertou: "você não está sendo precipitado?" Estava. Casei meses depois de me formar... e a precipitação, claro, não teve um final feliz.
Em meu íntimo, repeti uma pergunta por meses a fio após a separação: "por que razão me casei com quem me casei?" Descobri que não conhecia o caráter da mulher que havia levado ao altar e, anos depois, ainda não tenho respostas àquela pergunta, que repeti a mim mesmo um milhão de vezes. Hoje, imagino o que Iracema deve ter sentido ao tomar conhecimento de meu casamento. Talvez não seja muito diferente do sentimento que Tim Maia me ajudou a compreender numa solitária tarde de verão.
.
Soube que uma paixão do passado, alguém de quem gostei sem medo de ser feliz, vai se casar. Por um instante, fiquei sem palavras. Não sei ao certo o que senti naquele momento. A notícia não trouxe tristeza ao meu coração, tampouco felicidade. Buscando compreender um sentimento que me fora apresentado pela primeira vez em quase 30 anos de vida, encontrei em uma canção do saudoso Tim Maia – a qual recordei com auxílio de um bom amigo – uma explicação razoável.
"Paixão antiga sempre mexe com a gente. É tão difícil esquecer / Basta um encontro por acaso e, pronto, começa tudo outra vez". Ouvi "Paixão Antiga" uma dezena de vezes. Lamentei o fato de que grandes vozes, como Tim, tenham partido tão cedo. Enquanto isso, nossos ouvidos são "agraciados" com doses cavalares de Joelmas que, a considerar a incansável Lei de Murphy, terão fôlego para cantar até os 130 anos de idade.
Como poderia imaginar que nossas vidas tomariam rumos tão diferentes. Como bem cantava Tim: "Foi bom demais, não tinha que acabar". Mas acabou. Na década que chega ao fim, o destino tentou nos aproximar novamente, algumas vezes. Como é doce o beijo de quem se gosta. Penso que o destino quase teve êxito. Não tinha que acabar, mas acabou.
Três anos mais jovem do que seu admirador nada secreto, Iracema não faz jus ao nome indígena. Na faculdade, a descendente de italianos, de pele clara e cabelos e olhos castanhos, destacava-se das demais colegas de jaleco branco. A primeira vez que a vi foi na biblioteca, numa fria manhã de outono. Se faltou ousadia para puxar conversa, naquele dia, sobrou esperteza. Foi a bibliotecária, dona Helda, que fez o favor de levantar a ficha de Iracema a meu pedido. De quebra, Helda topou entregar um bilhete meu à bella italiana.
Estudava Jornalismo à noite e, durante o dia, trabalhava na faculdade. Volta e meia, levava ou buscava alguns livros a pedido do coordenador do curso. Depois de ver Iracema pela primeira vez, tudo era motivo para ir à biblioteca. Entre as estantes de livros, após o bilhete surtir efeito, se deu a primeira troca de olhares. Era como em outro trecho da canção de Tim: "eu, sem disfarçar, te como com meu olhar".
Encontrávamos no intervalo das aulas e fora da faculdade o mIRC – ferramenta de bate-papo que nem existe mais – ajudava a matar a saudade. Desejava vê-la sempre e era prazeroso estar próximo dela. Não bastasse sua beleza, a voz de Iracema (a considerar o exagero da paixão) era doce e meiga como a de uma sereia – ou ao menos como eu imaginava ser a voz de uma sereia.
Com a trágica morte de seu pai, Iracema se afastou de mim. Com o término de meu estágio, afastei-me dela. Achei que um tempo seria bom e, na pausa de um romance que tinha tudo para dar certo, conheci uma outra estudante, da mesma faculdade. Em dois anos, namorei e fiquei noivo. Uma grande amiga e colega de Jornalismo me alertou: "você não está sendo precipitado?" Estava. Casei meses depois de me formar... e a precipitação, claro, não teve um final feliz.
Em meu íntimo, repeti uma pergunta por meses a fio após a separação: "por que razão me casei com quem me casei?" Descobri que não conhecia o caráter da mulher que havia levado ao altar e, anos depois, ainda não tenho respostas àquela pergunta, que repeti a mim mesmo um milhão de vezes. Hoje, imagino o que Iracema deve ter sentido ao tomar conhecimento de meu casamento. Talvez não seja muito diferente do sentimento que Tim Maia me ajudou a compreender numa solitária tarde de verão.
.
12 de dezembro de 2010
Nunca desista de seus sonhos
.
Aos 64 anos, mãe de duas filhas, quatro netos e uma bisneta, dona Alice trabalhou em um grande hospital de São Paulo durante boa parte de sua carreira como técnica de enfermagem. Hoje, aposentada, não quer saber de descansar e esperar o tempo passar. Quer, sim, realizar o sonho que nutre desde a juventude: concluir um curso superior.
- Ainda que eu entre na faculdade com 80 anos não terei vergonha. Teria se desistisse de meu sonho - disse-me dona Alice, no caminho de Maringá a São Paulo.
Nas viagens que faço de ônibus, escolho entre três poltronas que sempre me trazem sorte: as de número 3, 9 ou 12. Até uma namorada gaúcha já consegui viajando em um desses assentos. A caminho da capital paulista tive novamente boa companhia. Dona Alice viajou na poltrona 11 e sua rica história de vida ajudou a aliviar a ansiedade que me acometia em decorrência da longa viagem - de ônibus para São Paulo e de avião para Lima, no Peru.
Lembro-me de ter puxado conversa com a senhora ao lado. Meus irmãos brincam que nossa mãe, uma tagarela descendente de portugueses, gosta de fazer amizade com todo mundo. Embora eu seja o retrato de meu pai 25 anos mais novo, suspeito ter herdado de dona Clacy os genes responsáveis pela comunicação.
- A senhora vai a passeio a São Paulo - perguntei, ao retornar com o copo de água que, gentilmente, dona Alice me pediu para apanhar no fundo do ônibus.
- Eu moro lá. Só vim visitar minha filha, netos e uma bisneta - respondeu.
- Caramba, a senhora já é bisavó! Não parece ter idade para tanto.
- Fui mãe aos 17 anos e minha filha e neta também tiveram filhos muito cedo.
- Se a senhora tem família em Maringá, não seria melhor se mudar para cá.
- Bem que eu gostaria meu jovem, mas meu marido é um português teimoso que não admite sair de São Paulo - lamentou a senhora. - Aquela é uma cidade boa para quem trabalha e quer ganhar dinheiro, mas para quem já se aposentou Maringá é bem melhor. As ruas são arborizadas, a cidade é segura e o custo de vida é menor.
Percebi se tratar de uma mulher esclarecida. Tinha um português de verbos bem conjugados e carregava um livro de Augusto Cury na mão e outro (não deu para ver o título) na bolsa. Ao contrário de passatempos como a televisão, a leitura torna as pessoas mais sábias e críticas e permite a quem lê viajar o mundo sem sair de casa ou da biblioteca. Para Dona Alice, ver tevê demais e ler de menos seria o primeiro passo para a perdição dos jovens hoje em dia.
- Não consigo entender como existem pessoas que não gostam de ler - comentou dona Alice. - Um dia desses, num supermercado, ouvi a conversa de dois rapazes que faziam a reposição de produtos.
- Eles não gostavam de ler - interpelei.
- Um deles parecia gostar. Falava sobre um livro que acabara de ler, mas fiquei muito triste ao ouvir o outro responder que nunca havia lido um livro. Isso é péssimo para a sociedade.
- Imagino dona Alice. Hoje os jovens só querem saber de internet e de redes sociais.
Expliquei, rapidamente, o que são as redes sociais na internet para, depois, nos atermos ao assunto mais interessante da conversa: livros. Contei a ela que Ernest Hemingway, autor do ótimo “O Velho e o Mar”, está entre meus autores preferidos e que entre os contemporâneos aprecio o humor ímpar das crônicas de Luis Fernando Verissimo. Dona Alice revelou que leu O Cortiço, de Aluísio Azevedo, três vezes e que só conhecia o Verissimo pai, o Érico. Preferia os escritores antigos.
- Hemingway trabalhou como jornalista antes de se tornar escritor - comentei, após contar a dona Alice que escrevo para o principal jornal da cidade, mas que meu grande sonho é seguir os passos de Hemingway. - Estou escrevendo um livro e quero conclui-lo antes de completar 30 anos.
- Então você precisa ler “Não desista de seus sonhos”, de Augusto Cury. No livro, ele relata todas as dificuldades que teve de superar até se tornar um escritor famoso.
- Já que a senhora está recomendando, lerei com maior prazer.
- Qual teu nome completo? - perguntou-me dona Alice. - Preciso saber para comprar teu livro, que seré um best seller. E é assim que tempos de pensar, sempre com otimismo.
Conheci poucas pessoas na vida que me impressionaram tanto quanto dona Alice. Depois de criar os filhos, atualmente ela cuida dos netos da filha que mora em São Paulo, porém, planeja para breve retomar os estudos. Tão logo os netos entrem em idade escolar, garante dona Alice, prestará vestibular para Matemática ou Biologia. Não tenho dúvida de que alguém capaz de me surpreender a cada nova palavra realizará o sonho de se formar.
- Meu conselho é que você estude, viaje e se dedique na profissão o máximo possível antes de se casar e de ter filhos.
- Por que a senhora diz isso?
- Porque casamento é uma coisa muito difícil, tira muito a liberdade da pessoa. Não entendo por que os jovens de hoje ainda se casam - disse a aposentada, surpreendendo-me outra vez. - Talvez ainda seja pela influência da igreja.
- É interessante ouvir isso de uma senhora - comentei.
- Se pudesse voltar atrás não teria casado tão cedo. Teria feito faculdade antes.
O bate-papo com Dona Alice me permitiu ver o quanto esse tempo solteirice e sem filhos é precioso para a realização profissional e que, por mais que as dificuldades causem desânimo, jamais devo desistir de meus sonhos. Na poltrona 12, que costumeiramente me traz sorte, tive um lição de vida. Segui viagem menos ansioso e na despedida, no terminal da Barra Funda, entreguei meu cartão de apresentação à dona Alice, que me garantiu que vai se esforçar para aprender a navegar na internet. “Assim que eu aprender eu te escrevo um email”, brincou a aposentada, desejando-me boas férias em Lima e em Machu Picchu.
.
Aos 64 anos, mãe de duas filhas, quatro netos e uma bisneta, dona Alice trabalhou em um grande hospital de São Paulo durante boa parte de sua carreira como técnica de enfermagem. Hoje, aposentada, não quer saber de descansar e esperar o tempo passar. Quer, sim, realizar o sonho que nutre desde a juventude: concluir um curso superior.
- Ainda que eu entre na faculdade com 80 anos não terei vergonha. Teria se desistisse de meu sonho - disse-me dona Alice, no caminho de Maringá a São Paulo.
Nas viagens que faço de ônibus, escolho entre três poltronas que sempre me trazem sorte: as de número 3, 9 ou 12. Até uma namorada gaúcha já consegui viajando em um desses assentos. A caminho da capital paulista tive novamente boa companhia. Dona Alice viajou na poltrona 11 e sua rica história de vida ajudou a aliviar a ansiedade que me acometia em decorrência da longa viagem - de ônibus para São Paulo e de avião para Lima, no Peru.
Lembro-me de ter puxado conversa com a senhora ao lado. Meus irmãos brincam que nossa mãe, uma tagarela descendente de portugueses, gosta de fazer amizade com todo mundo. Embora eu seja o retrato de meu pai 25 anos mais novo, suspeito ter herdado de dona Clacy os genes responsáveis pela comunicação.
- A senhora vai a passeio a São Paulo - perguntei, ao retornar com o copo de água que, gentilmente, dona Alice me pediu para apanhar no fundo do ônibus.
- Eu moro lá. Só vim visitar minha filha, netos e uma bisneta - respondeu.
- Caramba, a senhora já é bisavó! Não parece ter idade para tanto.
- Fui mãe aos 17 anos e minha filha e neta também tiveram filhos muito cedo.
- Se a senhora tem família em Maringá, não seria melhor se mudar para cá.
- Bem que eu gostaria meu jovem, mas meu marido é um português teimoso que não admite sair de São Paulo - lamentou a senhora. - Aquela é uma cidade boa para quem trabalha e quer ganhar dinheiro, mas para quem já se aposentou Maringá é bem melhor. As ruas são arborizadas, a cidade é segura e o custo de vida é menor.
Percebi se tratar de uma mulher esclarecida. Tinha um português de verbos bem conjugados e carregava um livro de Augusto Cury na mão e outro (não deu para ver o título) na bolsa. Ao contrário de passatempos como a televisão, a leitura torna as pessoas mais sábias e críticas e permite a quem lê viajar o mundo sem sair de casa ou da biblioteca. Para Dona Alice, ver tevê demais e ler de menos seria o primeiro passo para a perdição dos jovens hoje em dia.
- Não consigo entender como existem pessoas que não gostam de ler - comentou dona Alice. - Um dia desses, num supermercado, ouvi a conversa de dois rapazes que faziam a reposição de produtos.
- Eles não gostavam de ler - interpelei.
- Um deles parecia gostar. Falava sobre um livro que acabara de ler, mas fiquei muito triste ao ouvir o outro responder que nunca havia lido um livro. Isso é péssimo para a sociedade.
- Imagino dona Alice. Hoje os jovens só querem saber de internet e de redes sociais.
Expliquei, rapidamente, o que são as redes sociais na internet para, depois, nos atermos ao assunto mais interessante da conversa: livros. Contei a ela que Ernest Hemingway, autor do ótimo “O Velho e o Mar”, está entre meus autores preferidos e que entre os contemporâneos aprecio o humor ímpar das crônicas de Luis Fernando Verissimo. Dona Alice revelou que leu O Cortiço, de Aluísio Azevedo, três vezes e que só conhecia o Verissimo pai, o Érico. Preferia os escritores antigos.
- Hemingway trabalhou como jornalista antes de se tornar escritor - comentei, após contar a dona Alice que escrevo para o principal jornal da cidade, mas que meu grande sonho é seguir os passos de Hemingway. - Estou escrevendo um livro e quero conclui-lo antes de completar 30 anos.
- Então você precisa ler “Não desista de seus sonhos”, de Augusto Cury. No livro, ele relata todas as dificuldades que teve de superar até se tornar um escritor famoso.
- Já que a senhora está recomendando, lerei com maior prazer.
- Qual teu nome completo? - perguntou-me dona Alice. - Preciso saber para comprar teu livro, que seré um best seller. E é assim que tempos de pensar, sempre com otimismo.
Conheci poucas pessoas na vida que me impressionaram tanto quanto dona Alice. Depois de criar os filhos, atualmente ela cuida dos netos da filha que mora em São Paulo, porém, planeja para breve retomar os estudos. Tão logo os netos entrem em idade escolar, garante dona Alice, prestará vestibular para Matemática ou Biologia. Não tenho dúvida de que alguém capaz de me surpreender a cada nova palavra realizará o sonho de se formar.
- Meu conselho é que você estude, viaje e se dedique na profissão o máximo possível antes de se casar e de ter filhos.
- Por que a senhora diz isso?
- Porque casamento é uma coisa muito difícil, tira muito a liberdade da pessoa. Não entendo por que os jovens de hoje ainda se casam - disse a aposentada, surpreendendo-me outra vez. - Talvez ainda seja pela influência da igreja.
- É interessante ouvir isso de uma senhora - comentei.
- Se pudesse voltar atrás não teria casado tão cedo. Teria feito faculdade antes.
O bate-papo com Dona Alice me permitiu ver o quanto esse tempo solteirice e sem filhos é precioso para a realização profissional e que, por mais que as dificuldades causem desânimo, jamais devo desistir de meus sonhos. Na poltrona 12, que costumeiramente me traz sorte, tive um lição de vida. Segui viagem menos ansioso e na despedida, no terminal da Barra Funda, entreguei meu cartão de apresentação à dona Alice, que me garantiu que vai se esforçar para aprender a navegar na internet. “Assim que eu aprender eu te escrevo um email”, brincou a aposentada, desejando-me boas férias em Lima e em Machu Picchu.
.
8 de dezembro de 2010
Um dia sem relógio
.
Durante o jantar na cantina do jornal, entre desapressadas garfadas em batatas fritas que de tão gordurosas seriam capazes de assustar até a mais liberal das nutricionistas, minha nova namorada quis saber o que eu faria no dia seguinte, o primeiro de meus 30 dias de férias. Havia planejado detalhes da viagem que faria para o estrangeiro, mas sobre o primeiro dia de folga não havia pensado.
Desde 1943, quando o então presidente Getúlio Vargas se empenhou em aprovar a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) os principais direitos dos trabalhadores, os brasileiros sofrem de um salutar “problema” chamado Tensão Pré-férias. Em suma, TPF é aquela dose extra de ansiedade percebida nos dias que antecedem o merecido descanso após um ano todo de trabalho duro. É um momento oportuno para passar mais tempo com a família, colocar a leitura em dia, passear com o cachorro - ou mesmo de ir ao parque para ver as moças dando uma volta com o melhor amigo -, ir mais ao cinema e, por que não, de viajar.
- Quer saber, acho que não vou fazer nada no primeiro dia de férias.
- Então você terá um dia sem relógio - concluiu a namorada.
- Isso mesmo. Sem despertador, sem régio de pulso, sem internet. Talvez desligue até o celular.
Dormiria até o sono acabar e quebraria o despertador se ele ousasse tocar por engano. No primeiro dia de férias, poderia até correr no Parque do Ingá, o que costumo fazer quando tenho tempo, mas isso só no caso de cansar de tanto zapear na TV a cabo recém-instalada. Vi na programação que um dos canais de filmes passaria Avatar, porém, duvido que a opção dublada e na telinha de 21 polegadas de meu velho televisor, sem os efeitos em 3D, valha a pena.
- Deixa eu retornar para o trabalho que ainda preciso fechar uma matéria antes das férias.
- Te vejo no fim de semana?
- Claro, desde que cozinhe algo gostoso pra mim - disse, já imaginando o suculento pernil de porco que ela prepara como poucos.
Minha última matéria do ano foi sobre a falta de investimentos do poder público em transportes alternativos. Entre os entrevistados, falei com um professor de Geografia da Universidade Estadual de Maringá que, tendo carro e moto na garagem, prefere ir ao trabalho de bicicleta. Diz o professor que alunos da graduação e colegas do doutorado, possivelmente influenciados pelo convívio com ele, também adotaram a bicicleta como meio de transporte. Fiquei entusiasmado e passei a cogitar, seriamente, comprar uma magrela dez marchas para começar 2011 com mais saúde.
Ciclovias à parte, aproveitei o último dia no jornal para checar os colegas quais deles gostariam de participar da “vaquinha” para comprar uma cachaça das boas, dessas de procedência mineira e que na Europa é vendida por mais de 50 euros. Levaria o presente dos amigos da redação para Geordano, ex-infografista do jornal que hoje reside em Lima, no Peru. Passaria as férias por lá e, sem precisar gastar com hotel, o mínimo que poderia fazer é levar um bom presente.
Ouvi falar, algumas vezes, que crente não bebe porque a ingestão de bebidas alcoólicas é pecado. Espero que pinga não esteja nessa lista, porque não quero que ninguém vá para o inferno por minha culpa. Aliás, uma amiga me advertiu a no Peru preferir a palavra cachaça. Fiquei curioso, óbvio. Parece que na terra dos incas “pinga” é o nome popular dado ao órgão sexual masculino. Ao menos na frente de quem acha que vai para o inferno por causa de álcool e sexo, nada de pinga no Peru. Do pernil de porco, porém, não abro mão.
.
Durante o jantar na cantina do jornal, entre desapressadas garfadas em batatas fritas que de tão gordurosas seriam capazes de assustar até a mais liberal das nutricionistas, minha nova namorada quis saber o que eu faria no dia seguinte, o primeiro de meus 30 dias de férias. Havia planejado detalhes da viagem que faria para o estrangeiro, mas sobre o primeiro dia de folga não havia pensado.
Desde 1943, quando o então presidente Getúlio Vargas se empenhou em aprovar a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) os principais direitos dos trabalhadores, os brasileiros sofrem de um salutar “problema” chamado Tensão Pré-férias. Em suma, TPF é aquela dose extra de ansiedade percebida nos dias que antecedem o merecido descanso após um ano todo de trabalho duro. É um momento oportuno para passar mais tempo com a família, colocar a leitura em dia, passear com o cachorro - ou mesmo de ir ao parque para ver as moças dando uma volta com o melhor amigo -, ir mais ao cinema e, por que não, de viajar.
- Quer saber, acho que não vou fazer nada no primeiro dia de férias.
- Então você terá um dia sem relógio - concluiu a namorada.
- Isso mesmo. Sem despertador, sem régio de pulso, sem internet. Talvez desligue até o celular.
Dormiria até o sono acabar e quebraria o despertador se ele ousasse tocar por engano. No primeiro dia de férias, poderia até correr no Parque do Ingá, o que costumo fazer quando tenho tempo, mas isso só no caso de cansar de tanto zapear na TV a cabo recém-instalada. Vi na programação que um dos canais de filmes passaria Avatar, porém, duvido que a opção dublada e na telinha de 21 polegadas de meu velho televisor, sem os efeitos em 3D, valha a pena.
- Deixa eu retornar para o trabalho que ainda preciso fechar uma matéria antes das férias.
- Te vejo no fim de semana?
- Claro, desde que cozinhe algo gostoso pra mim - disse, já imaginando o suculento pernil de porco que ela prepara como poucos.
Minha última matéria do ano foi sobre a falta de investimentos do poder público em transportes alternativos. Entre os entrevistados, falei com um professor de Geografia da Universidade Estadual de Maringá que, tendo carro e moto na garagem, prefere ir ao trabalho de bicicleta. Diz o professor que alunos da graduação e colegas do doutorado, possivelmente influenciados pelo convívio com ele, também adotaram a bicicleta como meio de transporte. Fiquei entusiasmado e passei a cogitar, seriamente, comprar uma magrela dez marchas para começar 2011 com mais saúde.
Ciclovias à parte, aproveitei o último dia no jornal para checar os colegas quais deles gostariam de participar da “vaquinha” para comprar uma cachaça das boas, dessas de procedência mineira e que na Europa é vendida por mais de 50 euros. Levaria o presente dos amigos da redação para Geordano, ex-infografista do jornal que hoje reside em Lima, no Peru. Passaria as férias por lá e, sem precisar gastar com hotel, o mínimo que poderia fazer é levar um bom presente.
Ouvi falar, algumas vezes, que crente não bebe porque a ingestão de bebidas alcoólicas é pecado. Espero que pinga não esteja nessa lista, porque não quero que ninguém vá para o inferno por minha culpa. Aliás, uma amiga me advertiu a no Peru preferir a palavra cachaça. Fiquei curioso, óbvio. Parece que na terra dos incas “pinga” é o nome popular dado ao órgão sexual masculino. Ao menos na frente de quem acha que vai para o inferno por causa de álcool e sexo, nada de pinga no Peru. Do pernil de porco, porém, não abro mão.
.
27 de novembro de 2010
Vacina contra febre amarela
.
Para quem tem sofrido de TPF (Tensão Pré-férias) nos últimos dias, chegar à redação e ver sobre a mesa o guia de viagem sobre o Peru ajudou a conter a ansiedade. Comprado com bom desconto na internet, o guia trouxe uma informação relevante sobre vacinação: "brasileiros que viajam ao Peru precisam tomar a vacina contra febre amarela, que deve ser aplicada com antecedência de DEZ DIAS antes da viagem".
Brasileiros não precisam de visto para permanência inferior a 90 dias no Peru, porém, sem a vacina contra febre amarela o estrangeiro não desembarca no País vizinho. Até aí tudo bem, o detalhe que desconhecia era essa antecedência de dez dias antes do embarque. Faltando 15 dias para a viagem, apanhei a carteirinha de vacinação e corri para o posto de saúde mais próximo.
— Oi. "Vou viajar para fora do País e preciso tomar a vacina contra febre amarela — disse à atendente do posto de saúde, sem precisar esperar muito tempo na fila. O serviço público de saúde em Maringá pode ser considerado ótimo se comparado com o das capitais ou, ainda, das cidades mais pobres do País.
— Preciso do teu cartão do SUS e da carteirinha de vacinação — respondeu a atendente.
— Nunca tive cartão do SUS e a carteirinha de vacinação eu perdi. Só tenho essa aqui da gripe suína — informei. Havia passado a madrugada procurando o cartão antigo, aquele com o registro das vacinas que tomei desde a infância e que me salvaria da agulhada. Sem êxito na busca, havia me preparado psicologicamente para a injeção. Enquanto fazia meu registro no SUS, a atendente questionou:
— Essa aqui é sua carteirinha de vacinação?
— Sim.
— E cadê o registro das demais vacinas?
— Ah, eu perdi aquela carteirinha. Só tenho essa da gripe suína.
— Então você vai precisar tomar TODAS as vacinas de novo — informou ela, causando-me repentino frio na espinha.
— Só preciso da vacina contra febre amarela para entrar no Peru. Não preciso de TODAS.
— Mas pra gente te dar o atestado de vacina, você vai ter de tomar TODAS de novo — reforçou a atendente.
TODAS significava ser imunizado também contra tétano, hepatite B e tríplice viral (sarampo, rubéola e caxumba). Não tinha jeito, porque sem o atestado de vacina não conseguiria no aeroporto a carteirinha internacional de vacinação, que normalmente é cobrada no desembarque em países com florestas, entre eles o Peru. Meu "visto", então, seria na pele e não no passaporte.
— Como você foi perder sua carteirinha — disse a enfermeira, já na sala de vacinação.
— Perdi este ano, na última mudança que fiz.
— Mas tua carteira de identidade você não perdeu, não é mesmo?
— Verdade — lamentei o desleixo, enquanto reparava a enfermeira preparando a primeira das quatro vacinas. Mil vezes uma agulhada do que aquela broca estridente do dentista. De certa forma, essa comparação servia de consolo.
— Agora você vai precisar tomar TODAS as vacinas de uma vez. Você tem medo de injeção?
— Normalmente não, mas vim preparado psicologicamente para uma vacina, não para quatro!
— Acho melhor você não olhar — advertiu a enfermeira.
— Fica tranquila que eu não desmaio. Já fui doador de sangue.
— Não é mais?
— Não. Desisti depois que me falaram que meu tipo de sangue (A+) é muito comum.
Subcutâneas, as duas primeiras agulhadas foram no antebraço: febre amarela no esquerdo e tríplice viral, no direito. Foi indolor. A injeção seguinte, da vacina contra hepatite B, assustou.
— Por que essa agulha é tão maior do que as outras?
— A de hepatite B é maior mesmo — respondeu a enfermeira, enquanto aplicava a injeção no braço direito, sem dó. — Essa é no músculo — detalhou.
— No músculo... sei. Essa aí foi no osso — reclamei.
O pior estava por vir. A vacina contra tétano, historicamente relatada como a mais doída, ficou reservada para o braço esquerdo. Mui amiga, a enfermeira não escondeu o jogo e foi logo falando:
— A de tétano dói mais.
— Sei bem, já fui apresentado a ela no passado.
— Relaxa o braço senão é pior.
— CARA%$@ — exclamei. — Por acaso tem pimenta nessa vacina?
— Você até que foi corajoso. A maioria não consegue olhar para a agulha e tem até casos de gente que desmaia.
— Não faz mal tomar tantas vacinas de uma vez só? — indaguei.
— Mal não faz, mas talvez você sinta um mal-estar à noite, por causa da carga viral.
Não deu outra: à noite cabeça ficou pesada e o corpo mole trouxe o sono mais cedo do que o normal. Doze horas depois, a vacina "de pimenta" contra tétano ainda causava algum desconforto. O pior foi saber que nos próximos dois meses terei de tomar a segunda e terceira doses da vacina contra hepatite B, aquela aplicada no "osso" – "salvo em caso de gravidez ou acidentes graves", conforme consta do atestado de vacina. Logo, vou me cuidar para não ficar grávido e para não ser atropelado, o que não é difícil de acontecer nas "pistas" de Maringá.
Agora, está tudo certo para a viagem de férias ao Peru. Contudo, fica a dica: perca a carteira de identidade, mas, NUNCA, a carteirinha de vacinação.
.
Para quem tem sofrido de TPF (Tensão Pré-férias) nos últimos dias, chegar à redação e ver sobre a mesa o guia de viagem sobre o Peru ajudou a conter a ansiedade. Comprado com bom desconto na internet, o guia trouxe uma informação relevante sobre vacinação: "brasileiros que viajam ao Peru precisam tomar a vacina contra febre amarela, que deve ser aplicada com antecedência de DEZ DIAS antes da viagem".
Brasileiros não precisam de visto para permanência inferior a 90 dias no Peru, porém, sem a vacina contra febre amarela o estrangeiro não desembarca no País vizinho. Até aí tudo bem, o detalhe que desconhecia era essa antecedência de dez dias antes do embarque. Faltando 15 dias para a viagem, apanhei a carteirinha de vacinação e corri para o posto de saúde mais próximo.
— Oi. "Vou viajar para fora do País e preciso tomar a vacina contra febre amarela — disse à atendente do posto de saúde, sem precisar esperar muito tempo na fila. O serviço público de saúde em Maringá pode ser considerado ótimo se comparado com o das capitais ou, ainda, das cidades mais pobres do País. — Preciso do teu cartão do SUS e da carteirinha de vacinação — respondeu a atendente.
— Nunca tive cartão do SUS e a carteirinha de vacinação eu perdi. Só tenho essa aqui da gripe suína — informei. Havia passado a madrugada procurando o cartão antigo, aquele com o registro das vacinas que tomei desde a infância e que me salvaria da agulhada. Sem êxito na busca, havia me preparado psicologicamente para a injeção. Enquanto fazia meu registro no SUS, a atendente questionou:
— Essa aqui é sua carteirinha de vacinação?
— Sim.
— E cadê o registro das demais vacinas?
— Ah, eu perdi aquela carteirinha. Só tenho essa da gripe suína.
— Então você vai precisar tomar TODAS as vacinas de novo — informou ela, causando-me repentino frio na espinha.
— Só preciso da vacina contra febre amarela para entrar no Peru. Não preciso de TODAS.
— Mas pra gente te dar o atestado de vacina, você vai ter de tomar TODAS de novo — reforçou a atendente.
TODAS significava ser imunizado também contra tétano, hepatite B e tríplice viral (sarampo, rubéola e caxumba). Não tinha jeito, porque sem o atestado de vacina não conseguiria no aeroporto a carteirinha internacional de vacinação, que normalmente é cobrada no desembarque em países com florestas, entre eles o Peru. Meu "visto", então, seria na pele e não no passaporte.
— Como você foi perder sua carteirinha — disse a enfermeira, já na sala de vacinação.
— Perdi este ano, na última mudança que fiz.
— Mas tua carteira de identidade você não perdeu, não é mesmo?
— Verdade — lamentei o desleixo, enquanto reparava a enfermeira preparando a primeira das quatro vacinas. Mil vezes uma agulhada do que aquela broca estridente do dentista. De certa forma, essa comparação servia de consolo.
— Agora você vai precisar tomar TODAS as vacinas de uma vez. Você tem medo de injeção?
— Normalmente não, mas vim preparado psicologicamente para uma vacina, não para quatro!
— Acho melhor você não olhar — advertiu a enfermeira.
— Fica tranquila que eu não desmaio. Já fui doador de sangue.
— Não é mais?
— Não. Desisti depois que me falaram que meu tipo de sangue (A+) é muito comum.
Subcutâneas, as duas primeiras agulhadas foram no antebraço: febre amarela no esquerdo e tríplice viral, no direito. Foi indolor. A injeção seguinte, da vacina contra hepatite B, assustou.
— Por que essa agulha é tão maior do que as outras?
— A de hepatite B é maior mesmo — respondeu a enfermeira, enquanto aplicava a injeção no braço direito, sem dó. — Essa é no músculo — detalhou.
— No músculo... sei. Essa aí foi no osso — reclamei.
O pior estava por vir. A vacina contra tétano, historicamente relatada como a mais doída, ficou reservada para o braço esquerdo. Mui amiga, a enfermeira não escondeu o jogo e foi logo falando:
— A de tétano dói mais.
— Sei bem, já fui apresentado a ela no passado.
— Relaxa o braço senão é pior.
— CARA%$@ — exclamei. — Por acaso tem pimenta nessa vacina?
— Você até que foi corajoso. A maioria não consegue olhar para a agulha e tem até casos de gente que desmaia.
— Não faz mal tomar tantas vacinas de uma vez só? — indaguei.
— Mal não faz, mas talvez você sinta um mal-estar à noite, por causa da carga viral.
Não deu outra: à noite cabeça ficou pesada e o corpo mole trouxe o sono mais cedo do que o normal. Doze horas depois, a vacina "de pimenta" contra tétano ainda causava algum desconforto. O pior foi saber que nos próximos dois meses terei de tomar a segunda e terceira doses da vacina contra hepatite B, aquela aplicada no "osso" – "salvo em caso de gravidez ou acidentes graves", conforme consta do atestado de vacina. Logo, vou me cuidar para não ficar grávido e para não ser atropelado, o que não é difícil de acontecer nas "pistas" de Maringá.
Agora, está tudo certo para a viagem de férias ao Peru. Contudo, fica a dica: perca a carteira de identidade, mas, NUNCA, a carteirinha de vacinação.
.
18 de novembro de 2010
Minhas férias...
.
Redação quase sempre foi meu ponto forte nos tempos de colégio e, sendo assim, conseguia um bom desempenho nos vestibulares – mesmo com os 90% de erros nas questões de química. Embora a afinidade com as letras, havia algo que muito me incomodava nas aulas de língua portuguesa: a bendita-redação-anual sobre "minhas férias". Um porre! Mais porre até do que a tabela periódica - da qual só sei decor a localização e símbolo do hidrogênio.
Além da certeza de que as professoras não liam revistas de viagem e turismo, tinha minhas dúvidas se elas, de fato, liam todos aqueles textos repletos de falta de acentos, crases, vírgulas e, claro, desprovidos de criatividade. Ao invés de relatar minhas férias nos campinhos de várzea de Pato Branco – ou diante da televisão, nos dias de chuva, jogando Enduro no Atari –, preferia escrever sobre minhas viagens fake à Cidade Maravilhosa e ao Cristo Redentor, às praias nordestinas, sobre o Natal com neve em Nova York e muito mais, sempre inspirado em exemplares da revista National Geographic de minha mãe.
As professoras sabiam que eu não era burguês. Não parecia um burguês, meus pais tinham carro usado e meus tênis não eram caros, desses de marca. No 2º grau, tinha uma calculadora científica simples, enquanto os burgueses de verdade tinham calculadoras HP. Talvez as boas notas nas redações sobre "minhas férias" fossem pela criatividade ou, quem sabe, pelo fato de eu, já na adolescência, empregar razoavelmente bem as vírgulas. Um colega, que mais tarde veio a se formar em Processamento de Dados, sempre reclamava: "por que a professora não pede uma redação sobre eu e minhas primas?" Ele comia bem e ainda reclamava. O colega não conhecia o mar e nunca viajava nas férias, mas tinha primas gostosas.
Nas férias, numa época em que internet era quase ficção científica, os jogos de tabuleiro estavam entre os passatempos prediletos de meu irmão do meio e eu. Num deles, ganhava quem desse a volta ao mundo primeiro, administrando a verba da viagem entre viagens de avião, trem, navio e ônibus. Perdia quem torrasse o dinheiro sem completar o roteiro, apontado por carta sorteada do baralho.
Lembro-me de uma de minhas vitórias, que passou por Machu Picchu e terminou na Alemanha. Influência do jogo de tabuleiro ou não, cresci com o sonho de viajar à Europa e de conhecer as montanhas sagradas dos incas, nos Andes peruanos.
Entre 2006 e 2007, pude realizar um desses sonhos. Tive o privilégio de ser selecionado para um intercâmbio profissional, na emissora pública Deutsche Welle, e de morar quase cinco meses em Bonn, na Alemanha. Retornei da Europa com 25 anos de idade e o desejo de me preparar para, antes de completar 30 anos, fazer outra viagem marcante. Da promessa feita a Geordano, ex-colega de jornal e grande amigo, de que o visitaria em Lima, veio a recordação do sonho dos tempos de colégio: conhecer Machu Picchu.
No feriado da Proclamação da República, depois de pesquisar sobre o Peru e de conversar a respeito com uma amiga que já esteve em Machu Picchu, tomei coragem e escolhi um voo. Com bom representante da dita geração Y, comprei as passagens em uma agência de viagens na internet. Com o dólar desvalorizado, saiu em conta: São Paulo a Lima (ida e volta) por R$ 774, incluídas taxas de embarque, parcelado em cinco vezes sem juros.
Farei a viagem para Machu Picchu em dezembro, três meses antes de completar 30 anos. Um presente de mim para mim mesmo, sobre o qual terei prazer de escrever a respeito. Pela primeira vez, a redação sobre "minhas férias" não será um incômodo e, o melhor de tudo, não precisarei recorrer à revista da National Geographic.
.
Redação quase sempre foi meu ponto forte nos tempos de colégio e, sendo assim, conseguia um bom desempenho nos vestibulares – mesmo com os 90% de erros nas questões de química. Embora a afinidade com as letras, havia algo que muito me incomodava nas aulas de língua portuguesa: a bendita-redação-anual sobre "minhas férias". Um porre! Mais porre até do que a tabela periódica - da qual só sei decor a localização e símbolo do hidrogênio.
Além da certeza de que as professoras não liam revistas de viagem e turismo, tinha minhas dúvidas se elas, de fato, liam todos aqueles textos repletos de falta de acentos, crases, vírgulas e, claro, desprovidos de criatividade. Ao invés de relatar minhas férias nos campinhos de várzea de Pato Branco – ou diante da televisão, nos dias de chuva, jogando Enduro no Atari –, preferia escrever sobre minhas viagens fake à Cidade Maravilhosa e ao Cristo Redentor, às praias nordestinas, sobre o Natal com neve em Nova York e muito mais, sempre inspirado em exemplares da revista National Geographic de minha mãe.
As professoras sabiam que eu não era burguês. Não parecia um burguês, meus pais tinham carro usado e meus tênis não eram caros, desses de marca. No 2º grau, tinha uma calculadora científica simples, enquanto os burgueses de verdade tinham calculadoras HP. Talvez as boas notas nas redações sobre "minhas férias" fossem pela criatividade ou, quem sabe, pelo fato de eu, já na adolescência, empregar razoavelmente bem as vírgulas. Um colega, que mais tarde veio a se formar em Processamento de Dados, sempre reclamava: "por que a professora não pede uma redação sobre eu e minhas primas?" Ele comia bem e ainda reclamava. O colega não conhecia o mar e nunca viajava nas férias, mas tinha primas gostosas.
Nas férias, numa época em que internet era quase ficção científica, os jogos de tabuleiro estavam entre os passatempos prediletos de meu irmão do meio e eu. Num deles, ganhava quem desse a volta ao mundo primeiro, administrando a verba da viagem entre viagens de avião, trem, navio e ônibus. Perdia quem torrasse o dinheiro sem completar o roteiro, apontado por carta sorteada do baralho.
Lembro-me de uma de minhas vitórias, que passou por Machu Picchu e terminou na Alemanha. Influência do jogo de tabuleiro ou não, cresci com o sonho de viajar à Europa e de conhecer as montanhas sagradas dos incas, nos Andes peruanos.
Entre 2006 e 2007, pude realizar um desses sonhos. Tive o privilégio de ser selecionado para um intercâmbio profissional, na emissora pública Deutsche Welle, e de morar quase cinco meses em Bonn, na Alemanha. Retornei da Europa com 25 anos de idade e o desejo de me preparar para, antes de completar 30 anos, fazer outra viagem marcante. Da promessa feita a Geordano, ex-colega de jornal e grande amigo, de que o visitaria em Lima, veio a recordação do sonho dos tempos de colégio: conhecer Machu Picchu.
No feriado da Proclamação da República, depois de pesquisar sobre o Peru e de conversar a respeito com uma amiga que já esteve em Machu Picchu, tomei coragem e escolhi um voo. Com bom representante da dita geração Y, comprei as passagens em uma agência de viagens na internet. Com o dólar desvalorizado, saiu em conta: São Paulo a Lima (ida e volta) por R$ 774, incluídas taxas de embarque, parcelado em cinco vezes sem juros.
Farei a viagem para Machu Picchu em dezembro, três meses antes de completar 30 anos. Um presente de mim para mim mesmo, sobre o qual terei prazer de escrever a respeito. Pela primeira vez, a redação sobre "minhas férias" não será um incômodo e, o melhor de tudo, não precisarei recorrer à revista da National Geographic.
.
27 de outubro de 2010
Camilas, Vanessas e Grazielas
.
"Não existe Camila, Vanessa e Graziela feias". Dia desses experimentei incluir essa "sentença" nas redes sociais e na mensagem de apresentação do MSN. Pra quê! Amigas, algumas conhecidas e até uma ex-paquera, todas donas de nomes diferentes desses acima citados, surgiram para tirar satisfação – como se as tivesse chamado de feias, o que não ocorreu. "Vanessa é nome de mulher dada", disse uma das reclamantes. "Conheço várias Camilas barangas", disse outra. A vaidade em excesso é como misturar manga com leite: a gente sabe que não mata, mas ainda assim tem medo.
Há várias definições para vaidade. Os dicionários têm as suas e eu, as minhas. Se uma mulher se incomoda com outra, por medo de perder seu parceiro para ela, isso é ciúme. Se uma mulher se incomoda com outra, em função da beleza da "concorrente", aí isso é dor de cotovelo.
Dicionário à parte, não conheço uma mulher sequer, nascida de 1980 para cá, que possua um desses três nomes e sirva de feia. Bem pelo contrário, são todas capazes de arrancar assobios do peão de obra mais exigente. Nenhuma faria feio se precisasse interpretar a cena em que Marilyn Monroe – sobre um exaustor, tentando cobrir com seu esvoaçante vestido branco a gostosura de suas coxas – personificou o glamour de Hollywood e levou muitos marmanjos da época a pensamentos ousados. Tenho um relógio de parede de Marilyn não é por acaso.
Não estou a falar de celebridades do meio artístico, como a gatinha da Disney Vanessa Hudgens ou das estonteantes atrizes globais Camila Pitanga e Grazi Massafera. Falo de mulheres normais, capazes de aceitar um vinho a dois com meros mortais como este autor.
Lembro de minha ex-vizinha Graziela como se fosse hoje. Na segunda metade da década de 90, cursávamos o 2º grau técnico do Cefet de Pato Branco. Entre meus colegas de Eletrônica havia o consenso de que a garota mais gostosa era a Grazi da Eletromecânica. Para um bando de garotos virgens e espinhentos, os peitões dela eram um mar sem fim de pensamentos "pecaminosos". O "risco inferno" só não assustava porque a professora de biologia insistia que pensar em sexo não era pecado, era testosterona. Sábia professora.
Para meu deleite, a Grazi da Eletromecânica passava diariamente em frente à casa de meus pais, rumo ao apartamento dela. Dia sim dia não, aparecia na padaria comprar um pão caseiro de cenoura. Meu pai havia montado o negócio e me escalado para cuidar do caixa no período da manhã. Era ótimo em calcular troco, mas na presença das curvas bem esculpidas daquela adolescente nem calculadora científica ajudava. Para meus colegas de Eletrônica eu tinha o dever moral de convidá-la para sair. Era difícil. Perguntas sobre o tempo eram as únicas que me ocorriam na presença dela.
— A van que eu vou pro Cefet tem um lugar sobrando. Você não quer ir com a gente — perguntou-me Grazi, certa vez, ao receber o troco do pão de cenoura.
— Cla-claro que sim — respondi de imediato, com a voz trêmula, já pensando em como convencer meu pai de que fazia sentido trocar o ônibus, mais em conta, por um lugar ao lado (dos peitos) da Grazi, na van.
A salvação veio de um abençoado colega de Eletrônica, que descobriu que o dono da van era amigo de longa data de meu pai. Negócio fechado. Grazi era a beleza que inspirava poesia, a ponto de causar raiva em meninas da mesma idade. Só o fato de ir ao colégio ao lado dela rendia a mim pontos de popularidade junto aos colegas. O que faltava era coragem para vencer o iceberg no estômago, convidá-la para sair e, quiçá, apresentar meus lábios a todos os dela. Não tive coragem nem tempo. Duas semanas mais tarde, Grazi passou a namorar um cara habilitado e a ir ao colégio, com ele, de carro. Um moleque, aos 16 anos, não é ninguém; nem carta para dirigir tem.
Sim, Grazielas normais também causam dor de cotovelo.
Perdi a conta de quantas Vanessas conheci na vida. Todas tinham como ponto forte uma sensualidade ímpar, um ar de femme fatale capaz de despertar o interesse até dos homens mais efeminados. Uma das professoras de inglês dos tempos de Cefet, uma jovem estagiária, chamava-se Vanessa. Era baixinha, mas tinha curvas alucinantes. As professoras mais experientes não gostavam dela e nem é preciso explicar o porquê. Evandro, o colega mais velho e experiente, um tipo alemão de 1,90 metros, filho do dono da funerária, traçou a "profe" Vanessa, contou todos os detalhes e virou ídolo da turma.
Dois anos mais tarde, no final da década de 90, eu cursava inglês na escola de idiomas CCAA e paquerava ("ficava", nos dicionários mais atuais) uma guria bonita, mas cheia de não-me-toques, chamada Maria. Isso até trocá-la por uma garota da turma da manhã. Vanessa tinha cabelos cacheados, cinturinha fina e sempre usava tênis All Star. Sucumbi ao "How are you pretty boy?" dela. Maria era biblicamente certinha demais para meu gosto e, fora esse detalhe, aprender outra língua – em mais de um sentido da palavra – foi de fato uma boa ideia.
As outras Vanessas de minha vida foram todas amigas. Mercúrio, editor no jornal para o qual escrevo, tem pertinente teoria em favor da "química" entre homens e mulheres. "Meu jovem, no primeiro encontro com uma mulher tem de rolar beijo, senão vira amizade". Na prática constatei: ele está coberto de razão. Se tivesse aprendido esse sábio conselho, nos tempos de faculdade, teria tido ao menos três Vanessas ex-namoradas ao invés de amigas.
Sim, Vanessas normais também causam dor de cotovelo.
Mulheres que se chamam Camila sempre me pareceram as mais difíceis. Devo ter comigo, in-fe-liz-men-te (e a divisão silábica é para dar sentimento), algum tipo de repelente contra Camilas. A primeira lembrança de uma delas vem dos tempos de primário, da turma da 2ª série, da professora querida que morreu anos mais tarde em um acidente de trânsito, da coleguinha de olhos claros, cabelos dourados e jeito delicado que se chamava Camila. Creio que o guarda-chuva de chocolate que levei mochila para ela – e ela recusou – tenha sido o primeiro fora de minha existência.
Bem dito. Foi o primeiro fora, não o único. Vinte e tantos anos depois, na cafeteria preferida, peguei-me observando a jovem barista, que sem fugir da intensa troca de olhares presenteou-me com apaixonante sorriso. Qual viciado em cafeína não gostaria de ter uma namorada que, além de bela, soubesse preparar mais de 20 tipos de cafés especiais? Era motivação demais para ficar parado. Saquei uma caneta do bolso, escrevi um bilhete para a barista e chamei a garçonete.
— Pedi um expresso carioca faz 15 minutos, acho que esqueceram.
— Mil desculpas senhor — respondeu a atendente.
— Ah, não esquenta. Se puder aproveita e entrega esse bilhete para a moça que prepara os cafés especiais.
— Quem, a Camila? — pergunta que soou divinamente bem. Tão perfeita aos olhos de um louco por café, só poderia se chamar Camila.
No bilhete: elogio à beleza dela, menção à troca de olhares de minutos antes e relato da admiração por quem domina a arte de preparar a melhor das bebidas. O endereço de MSN foi junto, para caso ela, não sendo comprometida, pudesse corresponder. De longe, notei alegria nas expressões faciais da barista, ao ler a cartinha, e vaidade reprimida da parte das colegas de trabalho dela, chateadas com a paquera alheia. De casa, aguardei contato via MSN, o que nunca aconteceu.
Era de se esperar: Camilas costumam ser difíceis e, claro, também causam dor de cotovelo.
.
"Não existe Camila, Vanessa e Graziela feias". Dia desses experimentei incluir essa "sentença" nas redes sociais e na mensagem de apresentação do MSN. Pra quê! Amigas, algumas conhecidas e até uma ex-paquera, todas donas de nomes diferentes desses acima citados, surgiram para tirar satisfação – como se as tivesse chamado de feias, o que não ocorreu. "Vanessa é nome de mulher dada", disse uma das reclamantes. "Conheço várias Camilas barangas", disse outra. A vaidade em excesso é como misturar manga com leite: a gente sabe que não mata, mas ainda assim tem medo.
![]() |
| Vanessa Hudgens |
Dicionário à parte, não conheço uma mulher sequer, nascida de 1980 para cá, que possua um desses três nomes e sirva de feia. Bem pelo contrário, são todas capazes de arrancar assobios do peão de obra mais exigente. Nenhuma faria feio se precisasse interpretar a cena em que Marilyn Monroe – sobre um exaustor, tentando cobrir com seu esvoaçante vestido branco a gostosura de suas coxas – personificou o glamour de Hollywood e levou muitos marmanjos da época a pensamentos ousados. Tenho um relógio de parede de Marilyn não é por acaso.
Não estou a falar de celebridades do meio artístico, como a gatinha da Disney Vanessa Hudgens ou das estonteantes atrizes globais Camila Pitanga e Grazi Massafera. Falo de mulheres normais, capazes de aceitar um vinho a dois com meros mortais como este autor.
Lembro de minha ex-vizinha Graziela como se fosse hoje. Na segunda metade da década de 90, cursávamos o 2º grau técnico do Cefet de Pato Branco. Entre meus colegas de Eletrônica havia o consenso de que a garota mais gostosa era a Grazi da Eletromecânica. Para um bando de garotos virgens e espinhentos, os peitões dela eram um mar sem fim de pensamentos "pecaminosos". O "risco inferno" só não assustava porque a professora de biologia insistia que pensar em sexo não era pecado, era testosterona. Sábia professora.
Para meu deleite, a Grazi da Eletromecânica passava diariamente em frente à casa de meus pais, rumo ao apartamento dela. Dia sim dia não, aparecia na padaria comprar um pão caseiro de cenoura. Meu pai havia montado o negócio e me escalado para cuidar do caixa no período da manhã. Era ótimo em calcular troco, mas na presença das curvas bem esculpidas daquela adolescente nem calculadora científica ajudava. Para meus colegas de Eletrônica eu tinha o dever moral de convidá-la para sair. Era difícil. Perguntas sobre o tempo eram as únicas que me ocorriam na presença dela.
— Cla-claro que sim — respondi de imediato, com a voz trêmula, já pensando em como convencer meu pai de que fazia sentido trocar o ônibus, mais em conta, por um lugar ao lado (dos peitos) da Grazi, na van.
A salvação veio de um abençoado colega de Eletrônica, que descobriu que o dono da van era amigo de longa data de meu pai. Negócio fechado. Grazi era a beleza que inspirava poesia, a ponto de causar raiva em meninas da mesma idade. Só o fato de ir ao colégio ao lado dela rendia a mim pontos de popularidade junto aos colegas. O que faltava era coragem para vencer o iceberg no estômago, convidá-la para sair e, quiçá, apresentar meus lábios a todos os dela. Não tive coragem nem tempo. Duas semanas mais tarde, Grazi passou a namorar um cara habilitado e a ir ao colégio, com ele, de carro. Um moleque, aos 16 anos, não é ninguém; nem carta para dirigir tem.
Sim, Grazielas normais também causam dor de cotovelo.
Perdi a conta de quantas Vanessas conheci na vida. Todas tinham como ponto forte uma sensualidade ímpar, um ar de femme fatale capaz de despertar o interesse até dos homens mais efeminados. Uma das professoras de inglês dos tempos de Cefet, uma jovem estagiária, chamava-se Vanessa. Era baixinha, mas tinha curvas alucinantes. As professoras mais experientes não gostavam dela e nem é preciso explicar o porquê. Evandro, o colega mais velho e experiente, um tipo alemão de 1,90 metros, filho do dono da funerária, traçou a "profe" Vanessa, contou todos os detalhes e virou ídolo da turma.
Dois anos mais tarde, no final da década de 90, eu cursava inglês na escola de idiomas CCAA e paquerava ("ficava", nos dicionários mais atuais) uma guria bonita, mas cheia de não-me-toques, chamada Maria. Isso até trocá-la por uma garota da turma da manhã. Vanessa tinha cabelos cacheados, cinturinha fina e sempre usava tênis All Star. Sucumbi ao "How are you pretty boy?" dela. Maria era biblicamente certinha demais para meu gosto e, fora esse detalhe, aprender outra língua – em mais de um sentido da palavra – foi de fato uma boa ideia.
Sim, Vanessas normais também causam dor de cotovelo.
Mulheres que se chamam Camila sempre me pareceram as mais difíceis. Devo ter comigo, in-fe-liz-men-te (e a divisão silábica é para dar sentimento), algum tipo de repelente contra Camilas. A primeira lembrança de uma delas vem dos tempos de primário, da turma da 2ª série, da professora querida que morreu anos mais tarde em um acidente de trânsito, da coleguinha de olhos claros, cabelos dourados e jeito delicado que se chamava Camila. Creio que o guarda-chuva de chocolate que levei mochila para ela – e ela recusou – tenha sido o primeiro fora de minha existência.
Bem dito. Foi o primeiro fora, não o único. Vinte e tantos anos depois, na cafeteria preferida, peguei-me observando a jovem barista, que sem fugir da intensa troca de olhares presenteou-me com apaixonante sorriso. Qual viciado em cafeína não gostaria de ter uma namorada que, além de bela, soubesse preparar mais de 20 tipos de cafés especiais? Era motivação demais para ficar parado. Saquei uma caneta do bolso, escrevi um bilhete para a barista e chamei a garçonete.
— Pedi um expresso carioca faz 15 minutos, acho que esqueceram.
— Mil desculpas senhor — respondeu a atendente.
— Ah, não esquenta. Se puder aproveita e entrega esse bilhete para a moça que prepara os cafés especiais.
— Quem, a Camila? — pergunta que soou divinamente bem. Tão perfeita aos olhos de um louco por café, só poderia se chamar Camila.
No bilhete: elogio à beleza dela, menção à troca de olhares de minutos antes e relato da admiração por quem domina a arte de preparar a melhor das bebidas. O endereço de MSN foi junto, para caso ela, não sendo comprometida, pudesse corresponder. De longe, notei alegria nas expressões faciais da barista, ao ler a cartinha, e vaidade reprimida da parte das colegas de trabalho dela, chateadas com a paquera alheia. De casa, aguardei contato via MSN, o que nunca aconteceu.
Era de se esperar: Camilas costumam ser difíceis e, claro, também causam dor de cotovelo.
.
22 de outubro de 2010
Elas preferem os cafajestes
.
#microconto
I
Um dia a solteirona reclama: "os homens são cafajestes e os que prestam já estão ocupados (casados, noivos, etc);
II
Mas essas mesmas mulheres se esquecem de que, quando jovens, belas e formosas; optaram pelos bad boys ao invés dos mocinhos;
III
As mulheres que optaram pelos mocinhos - geralmente fieis, românticos e caseiros - viveram felizes para sempre;
IV
As solteironas, que se encantaram pelos bad boys, agora de coração partido se fecham a novos relacionamentos: "não ando querendo um novo amor..."
V
Destarte, mocinhos em extinção ou cafajestes corrigidos, cabisbaixos com a rejeição, encontram na esquina seguinte mulheres frutas e Geisys de toda sorte;
VI
Aos homens, mocinhos ou cafajestes, aplica-se um mesmo ditado: "se ainda não encontrou a mulher certa, divirta-se com a errada".
#theEnd
.
#microconto
I
Um dia a solteirona reclama: "os homens são cafajestes e os que prestam já estão ocupados (casados, noivos, etc);
II
Mas essas mesmas mulheres se esquecem de que, quando jovens, belas e formosas; optaram pelos bad boys ao invés dos mocinhos;
III
As mulheres que optaram pelos mocinhos - geralmente fieis, românticos e caseiros - viveram felizes para sempre;
IV
As solteironas, que se encantaram pelos bad boys, agora de coração partido se fecham a novos relacionamentos: "não ando querendo um novo amor..."
V
Destarte, mocinhos em extinção ou cafajestes corrigidos, cabisbaixos com a rejeição, encontram na esquina seguinte mulheres frutas e Geisys de toda sorte;
VI
Aos homens, mocinhos ou cafajestes, aplica-se um mesmo ditado: "se ainda não encontrou a mulher certa, divirta-se com a errada".
#theEnd
.
Assinar:
Postagens (Atom)
Quem escreve
Palavras-chave
Alegrete
Ana Paula Arósio
Argentina
Avenida Paulista
Barbie
Batman
Beto Carrero
Bombinhas
Cefet
Clacy
Cobain
Deus
Diliça
Dilma
Doze do LF
Dzã-dzã-dzã
Eduardo
Escritório
Fanta Uva
Florianópolis
Fusca
Fórmula 1
Google
Gramado
Greenpeace
Groenlândia
Havaí
Jornalismo
João Paulo
Julieta
Lei de Murphy
Lima
Lois Lane
Lula
MSN
MacGyver
Machu Picchu
Maringá
Mega-Sena
Mercúrio
Mortal
Nanico
Natal
Nirvana
O Cara
O Diário
OFFíssima
Pato Branco
Polo Norte
Romeu
SMS
Sensação
Serra Gaúcha
São Paulo
Twitter
Vanessa
Verissimo
Volkswagen
ansiedade
café
casamento
caçula
chope
crônicas
férias
gaúcha
habilitação
jornal
livreto
lotérica
metodista
microconto
montanha-russa
moto
novela
orkut
parque
praia
redação
repórter
seleção
sexo
shopping
viagem
vinho




