29 de janeiro de 2010
A Conspiração (ACREdite)
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Pablo Sica tem seus motivos para desconfiar da existência do Acre, o mais isolado dos Estados brasileiros. No 1º Encontro de Twitteiros de Maringá, ele tocou no assunto e deu a impressão de realmente acreditar no que dizia. Falou em uma suposta conspiração para fazer o brasileiro crer que lá distante, mais perto do Peru e da Bolívia do que do restante do Brasil, em meio à Floresta Amazônica, há uma capital e tantas outras cidades. Duas doses de café alcoólico mais tarde, foi além: mencionou algum envolvimento da Rede Globo, que teria com o Acre uma ligação semelhante à da Iniciativa Dharma com a Ilha de Lost.
Alguns dos twitteiros do Grupo dos Nove (G9, como ficaram conhecidos os nove participantes do primeiro encontro) se entreolharam, como se dissessem: "que diabos colocaram no café dele?" No encontro – combinado no Twitter, claro –, mais de 20 confirmaram presença, mas só oito deles cumpriram com a palavra. Pablo, porém, foi o único que compareceu sem anúncio prévio. Marcou presença porque era em Maringá, em chão conhecido. Fosse no Acre, não iria.
No G9 do Twitter maringaense, a maioria é jornalista. Um deles, atiçado pela curiosidade inerente à profissão, marcou um café com Pablo no mesmo shopping do encontro anterior, na mesma livraria. Somente os dois – esposa de um viajando e a namorada do outro, também –, e uma tarde inteira pela frente. Não demorou para Pablo falar da conspiração.
O jornalista aproveitou para fazer muitas perguntas, mas nem em todas obteve respostas. "Há coisas que um incauto talvez não deva saber", cogitou, em pensamento, o jornalista. "Há coisas que é melhor que um jornalista não saiba; não num primeiro momento", deve ter pensado Pablo. O lance de o Acre não existir, ao menos não da forma como ensinam os livros escolares, era inquietante, mas não tanto quanto a participação da Dharma, ou melhor, da TV Globo na dita conspiração. Difícil imaginar que alguém ACREditasse nisso.
Para ser mais convincente, Pablo relatou passagens vividas por dois de seus amigos. Um, das Forças Armadas, havia sido convocado para uma missão no Acre. Outro, voluntário em um clube de futebol do Mato Grosso, acompanharia o time num amistoso em Rio Branco. Antes, ambos não acreditavam na conspiração, agora, ambos já não têm tanta certeza.
— Fui relacionado para uma missão no Acre, no mês que vem — comentou o amigo de Pablo, do Exército, por telefone.
— Pode esquecer. Se minha teoria está certa, vão cancelar a missão.
— Por que cancelariam?
— Porque o Acre não existe — afirmou Pablo, que, no mês seguinte recebeu novo telefonema:
— Meu amigo, estou assustado — disse o militar. — Cancelaram a missão no Acre e nem explicaram o motivo.
— Não te avisei. Qual a explicação para o Acre, que faz fronteira com dois países, ser o único Estado brasileiro sem base aérea — disse Pablo, mais cheio de razão do que nunca.
Outra vez, contou Pablo ao jornalista, um de seus amigos acompanhou um time de Mato Grosso em um amistoso que se daria em Rio Branco. No avião, tão logo o piloto anunciou o procedimento de pouso na capital do Estado, as aeromoças se apressaram em fechar as 'cortinas'. "É um procedimento padrão", diziam, "fechem logo".
— O que houve, por que não pousamos no aeroporto? — questionou o amigo de Pablo, assim como alguns jogadores.
— Tivemos um problema com a torre de comando. Vamos, há um ônibus esperando por vocês — disse o encarregado da recepção da delegação mato-grossense. O que aconteceu dali em diante, conforme relatou o amigo de Pablo, foi surreal.
— Fomos levados a um campo de futebol em um ônibus com vidros escuros. Mal dava para ver do lado de fora. Quando descemos no estádio, a poucas horas da partida, não vimos torcedor algum — relatou. — Vi ali um varredor de rua e perguntei a ele para que lado ficava a cidade. Sem dar uma palavra, o varredor, de macacão cinza, deu-me as costas e continuou varrendo.
Inquieto e irritado, pela falta de respeito do gari, o amigo de Pablo insistiu. Aproximou-se e, ao tocar o ombro do varredor, disse:
— Você pode me responder para que lado fica a cidade? — insistiu. O gari se virou, fitou nos olhos o mato-grossense, que, ao reparar o logotipo da Rede Globo no bolso do uniforme daquele senhor, ficou perplexo e, até deixar o Acre logo após o jogo, não tornou a abrir a boca. Sentiu medo. Existiria, de fato, a uma conspiração envolvendo o Acre? Correria ele algum risco? Por que eles não foram levados para visitar a cidade? De qualquer forma, para o amigo, Pablo já não parecia tão insano quanto antes.
Regada a um bom café com torta de limão, a conversa prosseguia sem pressa, na cafeteria do shopping. O jornalista não se dava por convencido, até porque ele não conhecia os dois amigos de Pablo. Conhecia, sim, uma ex-colega de faculdade que, dias depois da colação de grau, mudou-se de "mala e cuia" para Rio Branco.
— Tenho uma amiga que mora em Rio Branco há cinco anos. Se formou em Jornalismo comigo e hoje dá aulas na Universidade Federal do Acre. O que você me diz disso? — perguntou a Pablo, em tom de confronto.
— Depois que essa tua amiga foi para lá, você a encontrou novamente, falou com ela?
— Sim, conversamos com alguma frequência pelo MSN. Ela diz estar feliz por lá.
— Ok, MSN. Mas você a viu pessoalmente depois que ela foi para o Acre.
— Não.
— Algum de teus colegas de faculdade a viu?
— Não que eu saiba.
— Ela já retornou de lá para visitar os amigos?
— Não! – e a essa altura o Jornalista já começava a temer pela colega.
— Algum conhecido já foi visitá-la e voltou para contar história?
— Acho que ninguém foi visitá-la.
— Até que alguém faça isso, e prove, lamento te dizer: talvez vocês não vejam mais essa amiga.
O gole seguinte de café teve sabor de suspense, um misto de pavor e medo. Segundo Pablo, a colega de Jornalismo não corria risco de morte, mas, por algum motivo que ele mesmo desconhecia, jamais retornaria do Acre. Mistérios da conspiração. Talvez ela também estivesse usando macacão ou jaleco com logotipo da Globo.
— Ela me convidou para ir visitá-la — comentou o jornalista.
— Eu não iria – disse Pablo. — Estão querendo te recrutar, é assim que funciona.
— E se de fato houver algum mistério por trás do Acre e eu for vê-la?
— Aí não tornaríamos a vê-lo, infelizmente.
— E os heróis do Acre, como Plácido de Castro e Chico Mendes, o que você me diz deles?
— São personagens dos livros escolares. E faz tempo que não acredito mais na versão oficial que nos ensinam sobre o Acre.
— Quer saber, vou visitar minha colega no Acre, mas só se ela vir de lá antes.
— Nem assim eu iria — exclamou Pablo. — Terminou o café?
— Sim.
— Garçom, a conta por favor.
Publicado também em: Mais1Livro.com
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Pablo Sica tem seus motivos para desconfiar da existência do Acre, o mais isolado dos Estados brasileiros. No 1º Encontro de Twitteiros de Maringá, ele tocou no assunto e deu a impressão de realmente acreditar no que dizia. Falou em uma suposta conspiração para fazer o brasileiro crer que lá distante, mais perto do Peru e da Bolívia do que do restante do Brasil, em meio à Floresta Amazônica, há uma capital e tantas outras cidades. Duas doses de café alcoólico mais tarde, foi além: mencionou algum envolvimento da Rede Globo, que teria com o Acre uma ligação semelhante à da Iniciativa Dharma com a Ilha de Lost.
Alguns dos twitteiros do Grupo dos Nove (G9, como ficaram conhecidos os nove participantes do primeiro encontro) se entreolharam, como se dissessem: "que diabos colocaram no café dele?" No encontro – combinado no Twitter, claro –, mais de 20 confirmaram presença, mas só oito deles cumpriram com a palavra. Pablo, porém, foi o único que compareceu sem anúncio prévio. Marcou presença porque era em Maringá, em chão conhecido. Fosse no Acre, não iria.
No G9 do Twitter maringaense, a maioria é jornalista. Um deles, atiçado pela curiosidade inerente à profissão, marcou um café com Pablo no mesmo shopping do encontro anterior, na mesma livraria. Somente os dois – esposa de um viajando e a namorada do outro, também –, e uma tarde inteira pela frente. Não demorou para Pablo falar da conspiração.
O jornalista aproveitou para fazer muitas perguntas, mas nem em todas obteve respostas. "Há coisas que um incauto talvez não deva saber", cogitou, em pensamento, o jornalista. "Há coisas que é melhor que um jornalista não saiba; não num primeiro momento", deve ter pensado Pablo. O lance de o Acre não existir, ao menos não da forma como ensinam os livros escolares, era inquietante, mas não tanto quanto a participação da Dharma, ou melhor, da TV Globo na dita conspiração. Difícil imaginar que alguém ACREditasse nisso.
Para ser mais convincente, Pablo relatou passagens vividas por dois de seus amigos. Um, das Forças Armadas, havia sido convocado para uma missão no Acre. Outro, voluntário em um clube de futebol do Mato Grosso, acompanharia o time num amistoso em Rio Branco. Antes, ambos não acreditavam na conspiração, agora, ambos já não têm tanta certeza.
— Fui relacionado para uma missão no Acre, no mês que vem — comentou o amigo de Pablo, do Exército, por telefone.
— Pode esquecer. Se minha teoria está certa, vão cancelar a missão.
— Por que cancelariam?
— Porque o Acre não existe — afirmou Pablo, que, no mês seguinte recebeu novo telefonema:
— Meu amigo, estou assustado — disse o militar. — Cancelaram a missão no Acre e nem explicaram o motivo.
— Não te avisei. Qual a explicação para o Acre, que faz fronteira com dois países, ser o único Estado brasileiro sem base aérea — disse Pablo, mais cheio de razão do que nunca.
Outra vez, contou Pablo ao jornalista, um de seus amigos acompanhou um time de Mato Grosso em um amistoso que se daria em Rio Branco. No avião, tão logo o piloto anunciou o procedimento de pouso na capital do Estado, as aeromoças se apressaram em fechar as 'cortinas'. "É um procedimento padrão", diziam, "fechem logo".
— O que houve, por que não pousamos no aeroporto? — questionou o amigo de Pablo, assim como alguns jogadores.
— Tivemos um problema com a torre de comando. Vamos, há um ônibus esperando por vocês — disse o encarregado da recepção da delegação mato-grossense. O que aconteceu dali em diante, conforme relatou o amigo de Pablo, foi surreal.
— Fomos levados a um campo de futebol em um ônibus com vidros escuros. Mal dava para ver do lado de fora. Quando descemos no estádio, a poucas horas da partida, não vimos torcedor algum — relatou. — Vi ali um varredor de rua e perguntei a ele para que lado ficava a cidade. Sem dar uma palavra, o varredor, de macacão cinza, deu-me as costas e continuou varrendo.
Inquieto e irritado, pela falta de respeito do gari, o amigo de Pablo insistiu. Aproximou-se e, ao tocar o ombro do varredor, disse:
— Você pode me responder para que lado fica a cidade? — insistiu. O gari se virou, fitou nos olhos o mato-grossense, que, ao reparar o logotipo da Rede Globo no bolso do uniforme daquele senhor, ficou perplexo e, até deixar o Acre logo após o jogo, não tornou a abrir a boca. Sentiu medo. Existiria, de fato, a uma conspiração envolvendo o Acre? Correria ele algum risco? Por que eles não foram levados para visitar a cidade? De qualquer forma, para o amigo, Pablo já não parecia tão insano quanto antes.
Regada a um bom café com torta de limão, a conversa prosseguia sem pressa, na cafeteria do shopping. O jornalista não se dava por convencido, até porque ele não conhecia os dois amigos de Pablo. Conhecia, sim, uma ex-colega de faculdade que, dias depois da colação de grau, mudou-se de "mala e cuia" para Rio Branco.
— Tenho uma amiga que mora em Rio Branco há cinco anos. Se formou em Jornalismo comigo e hoje dá aulas na Universidade Federal do Acre. O que você me diz disso? — perguntou a Pablo, em tom de confronto.
— Depois que essa tua amiga foi para lá, você a encontrou novamente, falou com ela?
— Sim, conversamos com alguma frequência pelo MSN. Ela diz estar feliz por lá.
— Ok, MSN. Mas você a viu pessoalmente depois que ela foi para o Acre.
— Não.
— Algum de teus colegas de faculdade a viu?
— Não que eu saiba.
— Ela já retornou de lá para visitar os amigos?
— Não! – e a essa altura o Jornalista já começava a temer pela colega.
— Algum conhecido já foi visitá-la e voltou para contar história?
— Acho que ninguém foi visitá-la.
— Até que alguém faça isso, e prove, lamento te dizer: talvez vocês não vejam mais essa amiga.
O gole seguinte de café teve sabor de suspense, um misto de pavor e medo. Segundo Pablo, a colega de Jornalismo não corria risco de morte, mas, por algum motivo que ele mesmo desconhecia, jamais retornaria do Acre. Mistérios da conspiração. Talvez ela também estivesse usando macacão ou jaleco com logotipo da Globo.
— Ela me convidou para ir visitá-la — comentou o jornalista.
— Eu não iria – disse Pablo. — Estão querendo te recrutar, é assim que funciona.
— E se de fato houver algum mistério por trás do Acre e eu for vê-la?
— Aí não tornaríamos a vê-lo, infelizmente.
— E os heróis do Acre, como Plácido de Castro e Chico Mendes, o que você me diz deles?
— São personagens dos livros escolares. E faz tempo que não acredito mais na versão oficial que nos ensinam sobre o Acre.
— Quer saber, vou visitar minha colega no Acre, mas só se ela vir de lá antes.
— Nem assim eu iria — exclamou Pablo. — Terminou o café?
— Sim.
— Garçom, a conta por favor.
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23 de janeiro de 2010
Mensagens de Natal
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Conta a história que o primeiro cartão de Natal comercializado data de 1843. Teria sido bolado em Londres, por Henry Cole, com ilustração de John Callcott Horsley. Trazia a imagem de uma família unida e feliz, com uma criança de colo e vinho posto à mesa. Talvez estivessem eles mais sob efeito da bebida fermentada do que felizes, mas, de qualquer forma, a ideia do cartão de Natal vingou. Décadas depois, tornou-se prática comum entre os cristãos.
Ainda hoje, o cartão é uma das maneiras mais utilizadas, e mais baratas, de desejar felicitações a quem se quer bem na data mais importante do calendário cristão. Todo pão-duro, que quer marcar presença sem gastar muito, encontra nos velhos cartões a solução para o problema – em vista do custo-benefício.
Duas guerras mundiais e vários conflitos armados depois da sacada de Cole e Horsley, multiplicaram-se as maneiras de desejar feliz Natal. Isso não por remorso, muito menos por fé em Cristo, mas puramente pela vontade capitalista de ganhar dinheiro em cima de produtos pensados por engenheiros, designers, etc, e comercializado por mentes publicitárias. Então os cartões, antes apenas manuscritos, agora vêm até com música polifônica. Para quem tem grana, as opções são as mais variadas, e caras. Passar as festas de fim de ano em Paris, por exemplo, e enviar de lá alguns postais natalinos é chique... embora haja o risco de o "new parisiense" parecer esnobe.
Há quem prefira contratar um papai noel de barba postiça para entregar os presentes. A opção é um tanto brega, mas o cachê segue fazendo a alegria de velhinhos barrigudos e aposentados, todo mês de dezembro. O Papai Noel, por si só, é brega. Contudo, bastou um publicitário da marca mais famosa de refrigerantes pôr nele roupas vermelhas, e dizer que ele vinha do Polo Norte, para parecer chique também – para alguns, acreditem, tanto quanto ou mais que um cartão com selo francês e carimbo de Paris.
Mais antiquado que os noéis barrigudos, de barbas postiças e que – crianças, prestem atenção – não moram no Polo Norte e não gerenciam o trabalho de duendes-operários da fábrica de brinquedos, são as mensagens por telefone. Mais brega que isso tudo, indiscutivelmente, é o carro de som (ou, pior, bicicleta de som) na porta de casa. Não duvide da capacidade humana em querer aparecer. Há sempre alguém disposto a felicitar, parabenizar, paquerar, etc, do jeito mais escandaloso. Dizem até que o Papai Noel conquistou a Mamãe Noel com um trenó de som, com direito a Jingle Bells e roupas de baixo comestíveis... bem, o que os outros fazem entre quatro paredes não nos diz respeito.
Com tanta opção no mercado, os cartões virtuais são como mísseis de longo alcance, teleguiados. Nenhuma outra maneira de desejar feliz Natal é tão abrangente, tão prática, tão em conta. Pela internet, é possível enviar um cartão para o outro lado do mundo e para o colega de trabalho ao lado com a mesma rapidez – e sem custo adicional pela quilometragem. Tóquio, Nova York, Londres, Dubai, Antananarivo e Pato Branco são todas, ao menos na web, logo ali.
Os cartões virtuais de sites especializados, encaminhados para o email do destinatário, são na web a maneira mais clássica de enviar felicitações de Natal. Contudo, num ambiente que muda tão rapidamente, tais cartões estão caíndo em desuso. Na moda, agora, estão os gifs. Traduzindo: trata-se de imagens animadas, que os internautas enviam a seus contatos em redes sociais virtuais, como Orkut e Facebook e que, quase sempre, não agradam quem as recebe.
Coisa que não cai em desuso é o SMS, popularmente conhecido como "torpedo". Já falaremos disso. Antes, é preciso comentar sobre a última das últimas em se tratando de cumprimentos natalinos: os #FF (Folow Friday, que em 2009 caiu numa sexta-feira) de Natal no Twitter. Nesse caso, o usuário escreve para seus seguidores algo como:
– #FF especial de Natal para os queridos @FulanodeTal @CiclanodoBar @Natalino @Siliconada @GirlFatal @ElizabethQueen – por exemplo. Ao contrário dos cartões por email e dos gifs, essa modalidade de feliz Natal parece não ter enjoado.
Conheço dezenas que não abrem mão do SMS. Helitron von Kaík é um deles. Sujeito de aparência dinamarquesa, de estatura pigmeia, de bondade ímpar e coração verdadeiro, de várias histórias e muitas esposas, que já é alfabetizado digitalmente e tem até Orkut; no Natal passado torpedeou todos seus mais chegados, inclusive seu primo jornalista (que responde por esta crônica). A este, pouco depois da meia-noite, enviou a carinhosa mensagem:
– Feliz Natal. Que Deus te abençõe... beijos gatinha! – escreveu. Coisas de Helitron, que, prefiro imaginar, enganou-se no intuito de agradar alguma namorada. Ninguém deseja, a essa altura do campeonato, duvidar da masculinidade do Di Caprio da família. Engano ou não, arrancou risos de todos presentes à ceia.
Há, no entanto, mensagens desse naipe enviadas de propósito, como uma outra recebida pelo mesmo jornalista, de outro primo:
– No Natal, todos pensam no Papai Noel, mas se esquecem dos veadinhos que puxam o trenó. Eu lembrei de todos. Feliz Natal!!! – dizia o torpedo. Disso, tiro uma conclusão: o primo caminhoneiro deve ter investido horas de grande esforço mental, durante alguma estressante viagem em que lutara para se manter acordado ao volante, pensando na dita mensagem de Natal. Ou, ainda, a recebeu por email de algum funcionário público aspirante a humorista.
Passadas duas noites da ceia de Natal, em outro jantar em família, o caminhoneiro esclareceu ter recebido a mensagem, aquela dos "veadinhos do trenó", de um conhecido. E quis apenas compartilhar o momento com seus queridos primos. Uma outra, mais misteriosa, ele leu aos presentes naquela ocasião, não sem antes estender o prato para o repeteco do peixe assado. E que peixe... outra hora passo a receita.
– Não sei como te dizer isso, mas é melhor que você saiba por mim – dizia o SMS. – Só não te disse antes por medo de te magoar. Mas você tem de saber a verdade e tem de ser forte. Muitas vezes somos enganados e nos decepcionamos com a verdade. Seja forte e aceite a realidade: Papai Noel não existe (kkk). Feliz Natal! – por sorte, não havia criança alguma por perto.
Quem estava por perto era Edinelson von Kaík. "Vocês precisam ver uma que recebi de meu irmão", disse ele, referindo-se a Helitron, que, novamente, não estava presente. Ao ler a dita mensagem, a mesmíssima do "beijos gatinha", uma nova onda de risos tomou conta do ambiente. Se rir faz bem ao coração, todos ali ganharam uns cinco anos de vida... e uma porção de dúvidas acerca do parente.
Teria Helitron encaminhado a mensagem a todos seus contatos? Estaria ele apenas zoando com todos? Estaria, ainda, revendo suas preferências (sexuais, por que não)? Pior, teria ele enviado o torpedo a seu chefe? Correria risco de ser demitido? Sobre o fato, Helitron ainda não foi sabatinado pela família, mas será. Ainda não foi demitido, mas... todos esperam que não seja.
Quando os britânicos Henry Cole e John Callcott Horsley pensaram o primeiro cartão de Natal, não faziam a ideia da dimensão que tomaria o invento. O manuscrito pintado a mão, indiretamente, inspirou outras formas de se desejar feliz Natal. Inspirou Helitron, que, com o torpedo do "beijos gatinha", deve ter feito com que Cole e Horsley se revirassem em seus túmulos. E o jornalista, com o coração mais jovem, ainda que 30 dias atrasado, deseja um feliz Natal a todos que não pôde ver pessoalmente.
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Ainda hoje, o cartão é uma das maneiras mais utilizadas, e mais baratas, de desejar felicitações a quem se quer bem na data mais importante do calendário cristão. Todo pão-duro, que quer marcar presença sem gastar muito, encontra nos velhos cartões a solução para o problema – em vista do custo-benefício.
Duas guerras mundiais e vários conflitos armados depois da sacada de Cole e Horsley, multiplicaram-se as maneiras de desejar feliz Natal. Isso não por remorso, muito menos por fé em Cristo, mas puramente pela vontade capitalista de ganhar dinheiro em cima de produtos pensados por engenheiros, designers, etc, e comercializado por mentes publicitárias. Então os cartões, antes apenas manuscritos, agora vêm até com música polifônica. Para quem tem grana, as opções são as mais variadas, e caras. Passar as festas de fim de ano em Paris, por exemplo, e enviar de lá alguns postais natalinos é chique... embora haja o risco de o "new parisiense" parecer esnobe.
Há quem prefira contratar um papai noel de barba postiça para entregar os presentes. A opção é um tanto brega, mas o cachê segue fazendo a alegria de velhinhos barrigudos e aposentados, todo mês de dezembro. O Papai Noel, por si só, é brega. Contudo, bastou um publicitário da marca mais famosa de refrigerantes pôr nele roupas vermelhas, e dizer que ele vinha do Polo Norte, para parecer chique também – para alguns, acreditem, tanto quanto ou mais que um cartão com selo francês e carimbo de Paris.
Mais antiquado que os noéis barrigudos, de barbas postiças e que – crianças, prestem atenção – não moram no Polo Norte e não gerenciam o trabalho de duendes-operários da fábrica de brinquedos, são as mensagens por telefone. Mais brega que isso tudo, indiscutivelmente, é o carro de som (ou, pior, bicicleta de som) na porta de casa. Não duvide da capacidade humana em querer aparecer. Há sempre alguém disposto a felicitar, parabenizar, paquerar, etc, do jeito mais escandaloso. Dizem até que o Papai Noel conquistou a Mamãe Noel com um trenó de som, com direito a Jingle Bells e roupas de baixo comestíveis... bem, o que os outros fazem entre quatro paredes não nos diz respeito.
Com tanta opção no mercado, os cartões virtuais são como mísseis de longo alcance, teleguiados. Nenhuma outra maneira de desejar feliz Natal é tão abrangente, tão prática, tão em conta. Pela internet, é possível enviar um cartão para o outro lado do mundo e para o colega de trabalho ao lado com a mesma rapidez – e sem custo adicional pela quilometragem. Tóquio, Nova York, Londres, Dubai, Antananarivo e Pato Branco são todas, ao menos na web, logo ali.
Os cartões virtuais de sites especializados, encaminhados para o email do destinatário, são na web a maneira mais clássica de enviar felicitações de Natal. Contudo, num ambiente que muda tão rapidamente, tais cartões estão caíndo em desuso. Na moda, agora, estão os gifs. Traduzindo: trata-se de imagens animadas, que os internautas enviam a seus contatos em redes sociais virtuais, como Orkut e Facebook e que, quase sempre, não agradam quem as recebe.
Coisa que não cai em desuso é o SMS, popularmente conhecido como "torpedo". Já falaremos disso. Antes, é preciso comentar sobre a última das últimas em se tratando de cumprimentos natalinos: os #FF (Folow Friday, que em 2009 caiu numa sexta-feira) de Natal no Twitter. Nesse caso, o usuário escreve para seus seguidores algo como:
– #FF especial de Natal para os queridos @FulanodeTal @CiclanodoBar @Natalino @Siliconada @GirlFatal @ElizabethQueen – por exemplo. Ao contrário dos cartões por email e dos gifs, essa modalidade de feliz Natal parece não ter enjoado.
Conheço dezenas que não abrem mão do SMS. Helitron von Kaík é um deles. Sujeito de aparência dinamarquesa, de estatura pigmeia, de bondade ímpar e coração verdadeiro, de várias histórias e muitas esposas, que já é alfabetizado digitalmente e tem até Orkut; no Natal passado torpedeou todos seus mais chegados, inclusive seu primo jornalista (que responde por esta crônica). A este, pouco depois da meia-noite, enviou a carinhosa mensagem:
– Feliz Natal. Que Deus te abençõe... beijos gatinha! – escreveu. Coisas de Helitron, que, prefiro imaginar, enganou-se no intuito de agradar alguma namorada. Ninguém deseja, a essa altura do campeonato, duvidar da masculinidade do Di Caprio da família. Engano ou não, arrancou risos de todos presentes à ceia.
Há, no entanto, mensagens desse naipe enviadas de propósito, como uma outra recebida pelo mesmo jornalista, de outro primo:
– No Natal, todos pensam no Papai Noel, mas se esquecem dos veadinhos que puxam o trenó. Eu lembrei de todos. Feliz Natal!!! – dizia o torpedo. Disso, tiro uma conclusão: o primo caminhoneiro deve ter investido horas de grande esforço mental, durante alguma estressante viagem em que lutara para se manter acordado ao volante, pensando na dita mensagem de Natal. Ou, ainda, a recebeu por email de algum funcionário público aspirante a humorista.
Passadas duas noites da ceia de Natal, em outro jantar em família, o caminhoneiro esclareceu ter recebido a mensagem, aquela dos "veadinhos do trenó", de um conhecido. E quis apenas compartilhar o momento com seus queridos primos. Uma outra, mais misteriosa, ele leu aos presentes naquela ocasião, não sem antes estender o prato para o repeteco do peixe assado. E que peixe... outra hora passo a receita.
– Não sei como te dizer isso, mas é melhor que você saiba por mim – dizia o SMS. – Só não te disse antes por medo de te magoar. Mas você tem de saber a verdade e tem de ser forte. Muitas vezes somos enganados e nos decepcionamos com a verdade. Seja forte e aceite a realidade: Papai Noel não existe (kkk). Feliz Natal! – por sorte, não havia criança alguma por perto.
Quem estava por perto era Edinelson von Kaík. "Vocês precisam ver uma que recebi de meu irmão", disse ele, referindo-se a Helitron, que, novamente, não estava presente. Ao ler a dita mensagem, a mesmíssima do "beijos gatinha", uma nova onda de risos tomou conta do ambiente. Se rir faz bem ao coração, todos ali ganharam uns cinco anos de vida... e uma porção de dúvidas acerca do parente.
Teria Helitron encaminhado a mensagem a todos seus contatos? Estaria ele apenas zoando com todos? Estaria, ainda, revendo suas preferências (sexuais, por que não)? Pior, teria ele enviado o torpedo a seu chefe? Correria risco de ser demitido? Sobre o fato, Helitron ainda não foi sabatinado pela família, mas será. Ainda não foi demitido, mas... todos esperam que não seja.
Quando os britânicos Henry Cole e John Callcott Horsley pensaram o primeiro cartão de Natal, não faziam a ideia da dimensão que tomaria o invento. O manuscrito pintado a mão, indiretamente, inspirou outras formas de se desejar feliz Natal. Inspirou Helitron, que, com o torpedo do "beijos gatinha", deve ter feito com que Cole e Horsley se revirassem em seus túmulos. E o jornalista, com o coração mais jovem, ainda que 30 dias atrasado, deseja um feliz Natal a todos que não pôde ver pessoalmente.
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29 de dezembro de 2009
Nem mais um SE
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Se te digo tão cedo, ao pé do ouvido: gosto de ti
Se te digo no dia seguinte: quero te ver
Se te digo quando estás longe: volta logo
Se te digo que amigos me disseram:
... estás apaixonado!
Talvez ouça de ti: estás doido
Talvez ouça de mim mesmo: estou doido
E
Se me dizes: também gosto de ti
Se me dizes, quanto te chamo: já vou
Se me dizes, lá de longe: sinto saudades
Se me dizes, com teu olhar e teu doce beijo:
... estou apaixonada!
Talvez ouças de mim o pedido de namoro
Talvez ouças de si mesma: sim
E
Para que tanto "se" se há dois corações que se gostam?
.
Se te digo tão cedo, ao pé do ouvido: gosto de ti
Se te digo no dia seguinte: quero te ver
Se te digo quando estás longe: volta logo
Se te digo que amigos me disseram:
... estás apaixonado!
Talvez ouça de ti: estás doido
Talvez ouça de mim mesmo: estou doido
E
Se me dizes: também gosto de ti
Se me dizes, quanto te chamo: já vou
Se me dizes, lá de longe: sinto saudades
Se me dizes, com teu olhar e teu doce beijo:
... estou apaixonada!
Talvez ouças de mim o pedido de namoro
Talvez ouças de si mesma: sim
E
Para que tanto "se" se há dois corações que se gostam?
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12 de dezembro de 2009
Adeus, Fundi
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O temporal do fim de outubro de 2009, em Pato Branco, trouxe mais que prejuízo material. Na maior maior enchente da história da cidade, as ruas de vários bairros foram tomadas pelas águas do pequeno Rio Ligeiro – naquela ocasião, já não tão pequeno assim. Em localidades menos abonadas, famílias perderam o pouco que tinham. Fundi, um sujeito que sabia curtir cada tragada de ar, perdeu o bem mais precioso: a própria vida.
Quando a chuva cessou e as ruas deixaram de ser navegáveis, populares lamentavam as perdas e a Defesa Civil contabilizava os prejuízos. Fundi, duro como pedra, não sobrevivera para ver os estragos. Amanheceu estirado, no jardim de sua casa, próximo ao ramo de flores em que costumava se aliviar após um bom prato de ração com sardinhas. Em vida, projetava ele, queria ter a morte dos elefantes: velho e longe dos seus.
Adulto e gozando de boa saúde – nunca fumou e não era chegado a bebidas alcoólicas –, Fundi teria certamente teria se safado da correnteza do Rio Ligeiro, fosse o temporal a causa do óbito. Sua família estava convicta: homicídio doloso! Ele fora envenenado e a polícia, ao que tudo indica, não investigaria a autoria do crime. No país da impunidade, assassinos de bichanos não vão em cana. Fundi não frequentou escola, mas, esperto, sempre soube desse detalhe. Por isso, nunca comia fora de casa.
Impedido de chegar à segurança do lar, ilhado pela correnteza que havia tomado conta das vias públicas, Fundi estava molhado, com fome e com frio. Com azar equivalente ao de alguém que transa sem camisinha, pela primeira vez, e contrai o vírus da aids; dançou no primeiro petisco alheio que comeu, aos cinco anos de idade, completados dias antes, em 15 de outubro. O “tempero” de sabor levemente apimentado era, na verdade, o sabor da morte.
Dzico, como também era chamado, sofreu com a dor dos espasmos musculares, com as convulsões causadas pelo veneno. Tinha certeza: a morte viria ao seu encontro em minutos. Usaria ela capa preta e foice, como no cinema? Preferia não pensar nisso! Cruzou a nado o rio... melhor, a rua. Queria se despedir de seus donos. Se gato tem sete vidas, o valente felino amarelo, de pelos curtos e sedosos, gastou seu sopro final de vida contra a correnteza. Em seus últimos pensamentos, recordou-se da vida boa que tivera e deu graças ao deus dos felinos por tudo.
Fundi nasceu em Planalto, uma pequena cidade do Paraná, que – exceto órgãos como os Correios e a Caixa Econômica – poucos têm noção de onde fica. Filhote de origem humilde e mãe pulguenta, por certo seria um gato de galpão. Em outras palavras, não moraria na rua, mas teria de caçar ratos em meio à pilhagem de milho para ter o que comer. De uma ninhada só de amarelinhos, por obra do destino, Dzico foi o único kitty (como se diz em inglês) entre seus irmãos que cresceu à base de ração.
Em Dois Vizinhos, cidade que se autointitula a capital nacional do frango, um jornalista e sua esposa se julgavam jovens demais para ter um herdeiro. Faltava algo ao casal, que discutia sobre adotar um animal de estimação. Queriam um filhote sem raça definida, “dos bão”, e entre um cão e um gato escolheram a segunda opção.
– Um aluno lá na escola comentou que tem filhotinhos recém-desmamados, na casa dos pais deles, num lugar chamado Planalto – disse a mulher. – Parece que são todos amarelos – acrescentou, assim que se recordou do detalhe.
– Olha só... nunca tive um gato amarelo. Então está decidido, pede para o piá trazer um pra gente – disse o homem.
Desde os tempos de infância e da chupeta, de suas recordações mais antigas, o jornalista lembrava de ter animais de estimação. Gatos, ele perdeu a conta de quantos teve até deixar Pato Branco, após a graduação em Jornalismo. No chute, calculava que foram mais de 50 felinos que, pelo fato de não serem castrados, raramente viviam mais de cinco anos. Robin, um gato malhado que resistira ao primeiro envenenamento, viveu seis.
Na casa de seus pais, era o jornalista quem normalmente batizava os felinos. Com algumas exceções, preferia se esquivar dos nomes de pessoas. Da turma de companheiros, os que mais marcaram se chamavam: Batman, Mimão, Super, Mel, Tom, Parceiro, Batman o Retorno, além do próprio Robin – irmão do primeiro Batman. Fundi, de Fondue "aportuguesado", seria o nome do próximo, independentemente da cara do filhote.
Chegou com cara de gato desnutrido, com mais orelha que qualquer coisa. Tinha listras pretas móveis em meio à pelagem cor-de-caramelo. Pulgas! Centenas delas, gordas e saciadas pelo sangue do pobre coitado. Bem nutridas, tinham força para resistir ao banho e ao xampu. Eram pulgas de vale-tudo e pareciam beber biotônico, ao invés de sangue. Várias rodadas de ensaboa-enxágua foram necessárias para mandar as invasoras pelo ralo.
Sem pulgas e abastecido a carinho, leite morno, ração e sardinha – seu prato preferido –, Fundi cresceu com vigor para se tornar um cara esperto e destemido. Definitivamente, a desnutrição de outrora não havia prejudicado suas habilidades mentais. Se fosse gente, seria um físico... um físico que descobriu a lei da gravidade na prática, ao saltar da janela em investida contra um pardal. Dzico, vale ressaltar, não era muito dado a teorias. O detalhe é que seus “paitotes” (mistura de pais com filhote, que não consta do dicionário) moravam num apartamento. Aos seis meses, Fundi perdeu sua primeira vida e, da forma mais doída, aprendeu que gatos não voam.
Além de físico nato, Fundi era praticamente um diplomata. Transitava bem em qualquer situação e, inclusive, com outras espécies. Provou isso quando o jornalista foi morar na Alemanha e ele, Dzico, teve de se mudar para a casa de seus “avóstotes” (mistura de avós com filhote, que também não consta do dicionário). No novo lar, em Pato Branco, sudoeste do Paraná, tinha a companhia de outros quatro gatos, mas se tornou melhor amigo de um cachorro branco, filhote como ele, chamado Floquinho. O cachorro, outro sem raça definida, cresceu odiando felinos... mas Fundi, como sempre, era uma exceção. Um gato político como ele não poderia, jamais, ser rotulado como os demais de sua espécie. Se fosse preso, exigiria cela especial.
O tempo passou e Dzico se tornou um adulto. Por volta dos dois anos de idade, um gato macho já pode ser considerado adulto. Sem perder tempo e aproveitando o melhor da via, o gato amarelo aplicava sua combustão hormonal nas namoradas... várias, todas gatas. De seu quociente de inteligência (QI), privilegiado, ele fazia bom proveito. Ao invés de namorar na rua e correr o risco de apanhar de gatos mais fortes e experientes, levava as namoradas para comer sua ração, na casa dos avóstotes. E comia elas.
Aos cinco anos, seguia sendo um incorrigível galanteador. Volta e meia levava um corridão de algum vizinho, indignado com o miado do baladeiro Fundi na hora do sono. Ossos do ofício... e que ofício! Com o passar dos anos, o que mais mudou foi a cor dos filhotes da redondeza, mais amarelinhos do que nunca, mais órfãos do que nunca. Ninguém sentirá mais falta do notívago felino do que as gatas que ele seduziu – e não se faz necessário explicar os motivos. Contudo, jornalista e ex-esposa (casamentos também “morrem”) lamentam não ter passado mais tempo com aquele que consideram ser “O Cara” entre os animais de estimação que tiveram.
O jornalista recebeu de sua mãe a trágica notícia, ao telefonar de São Paulo capital para se informar sobre os estragos causados pelo temporal, em Pato Branco. “A boa notícia é que a água não entrou em nossa casa. A má notícia é que Fundi morreu”, contou. (…) Alguns segundos se passaram até que o rapaz conseguisse dizer algo. Custou a assimilar a notícia, enquanto as boas lembranças de Fundi visitavam sua mente. No telefone público de um shopping, deixou escapar uma lágrima, esforçado-se para que aquilo não se repetisse. “Enterrei o corpo dele lá no quintal da tua avó”, acrescentou a mãe do jornalista, já sentindo o baque que a notícia causara em seu filho.
Ele e sua ex-esposa, que já não se viam há mais de um ano, tiveram de se falar novamente, por email. Assim que ela soube da morte de Dzico, respondeu a missiva para dizer o quanto amava aquele gato. Aproveitou para contar novidades: se tornara aeromoça, um sonho antigo, e estava morando na Grande São Paulo. Ele a parabenizou pela conquista e, fora isso, limitou-se a agradecer pelas belas palavras proferidas ao felino. Palavras que teriam emocionado o “Babundo”, outro apelido que o velho gato de guerra recebera de seus paistotes.
– Amava viajar com ele, em cima de meu ombro, no ônibus; amava ver ele dormindo, e babando; amava esmagar ele; amava até mesmo quando ele ficava mordendo minha orelha, no meio da madrugada – escreveu a mãetote (outra que também não consta do dicionário). – Mesmo longe de você, Fundi, nunca te esqueci. Lembrarei de você e te amarei para sempre – encerrou.
Um mês antes do trágico temporal – e do maligno petisco envenenado –, o jornalista visitou seus pais e irmãos. Foi a última vez que viu Fundi, que estava mais adulto, com um olhar compenetrado, porém, com o mesmo jeito de gato malandro. Era um gato feliz e parecia preocupado em seguir uma única orientação: “vida, só se vive uma vez”. Desde então, com uma saudade que bate forte, seu dono se esforça em aproveitar cada dia como se fosse o último, tal como fazia Fundi. No Natal, quando voltar a Pato Branco e não mais encontrar o gato amigo, o jornalista plantará uma árvore onde jaz o felino... para não se esquecer dos bons momentos.
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O temporal do fim de outubro de 2009, em Pato Branco, trouxe mais que prejuízo material. Na maior maior enchente da história da cidade, as ruas de vários bairros foram tomadas pelas águas do pequeno Rio Ligeiro – naquela ocasião, já não tão pequeno assim. Em localidades menos abonadas, famílias perderam o pouco que tinham. Fundi, um sujeito que sabia curtir cada tragada de ar, perdeu o bem mais precioso: a própria vida.
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| Fundi, quando filhote |
Adulto e gozando de boa saúde – nunca fumou e não era chegado a bebidas alcoólicas –, Fundi teria certamente teria se safado da correnteza do Rio Ligeiro, fosse o temporal a causa do óbito. Sua família estava convicta: homicídio doloso! Ele fora envenenado e a polícia, ao que tudo indica, não investigaria a autoria do crime. No país da impunidade, assassinos de bichanos não vão em cana. Fundi não frequentou escola, mas, esperto, sempre soube desse detalhe. Por isso, nunca comia fora de casa.
Impedido de chegar à segurança do lar, ilhado pela correnteza que havia tomado conta das vias públicas, Fundi estava molhado, com fome e com frio. Com azar equivalente ao de alguém que transa sem camisinha, pela primeira vez, e contrai o vírus da aids; dançou no primeiro petisco alheio que comeu, aos cinco anos de idade, completados dias antes, em 15 de outubro. O “tempero” de sabor levemente apimentado era, na verdade, o sabor da morte.
Dzico, como também era chamado, sofreu com a dor dos espasmos musculares, com as convulsões causadas pelo veneno. Tinha certeza: a morte viria ao seu encontro em minutos. Usaria ela capa preta e foice, como no cinema? Preferia não pensar nisso! Cruzou a nado o rio... melhor, a rua. Queria se despedir de seus donos. Se gato tem sete vidas, o valente felino amarelo, de pelos curtos e sedosos, gastou seu sopro final de vida contra a correnteza. Em seus últimos pensamentos, recordou-se da vida boa que tivera e deu graças ao deus dos felinos por tudo.
Fundi nasceu em Planalto, uma pequena cidade do Paraná, que – exceto órgãos como os Correios e a Caixa Econômica – poucos têm noção de onde fica. Filhote de origem humilde e mãe pulguenta, por certo seria um gato de galpão. Em outras palavras, não moraria na rua, mas teria de caçar ratos em meio à pilhagem de milho para ter o que comer. De uma ninhada só de amarelinhos, por obra do destino, Dzico foi o único kitty (como se diz em inglês) entre seus irmãos que cresceu à base de ração.
Em Dois Vizinhos, cidade que se autointitula a capital nacional do frango, um jornalista e sua esposa se julgavam jovens demais para ter um herdeiro. Faltava algo ao casal, que discutia sobre adotar um animal de estimação. Queriam um filhote sem raça definida, “dos bão”, e entre um cão e um gato escolheram a segunda opção.
– Um aluno lá na escola comentou que tem filhotinhos recém-desmamados, na casa dos pais deles, num lugar chamado Planalto – disse a mulher. – Parece que são todos amarelos – acrescentou, assim que se recordou do detalhe.
– Olha só... nunca tive um gato amarelo. Então está decidido, pede para o piá trazer um pra gente – disse o homem.
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| Fundi adolescente |
Na casa de seus pais, era o jornalista quem normalmente batizava os felinos. Com algumas exceções, preferia se esquivar dos nomes de pessoas. Da turma de companheiros, os que mais marcaram se chamavam: Batman, Mimão, Super, Mel, Tom, Parceiro, Batman o Retorno, além do próprio Robin – irmão do primeiro Batman. Fundi, de Fondue "aportuguesado", seria o nome do próximo, independentemente da cara do filhote.
Chegou com cara de gato desnutrido, com mais orelha que qualquer coisa. Tinha listras pretas móveis em meio à pelagem cor-de-caramelo. Pulgas! Centenas delas, gordas e saciadas pelo sangue do pobre coitado. Bem nutridas, tinham força para resistir ao banho e ao xampu. Eram pulgas de vale-tudo e pareciam beber biotônico, ao invés de sangue. Várias rodadas de ensaboa-enxágua foram necessárias para mandar as invasoras pelo ralo.
Sem pulgas e abastecido a carinho, leite morno, ração e sardinha – seu prato preferido –, Fundi cresceu com vigor para se tornar um cara esperto e destemido. Definitivamente, a desnutrição de outrora não havia prejudicado suas habilidades mentais. Se fosse gente, seria um físico... um físico que descobriu a lei da gravidade na prática, ao saltar da janela em investida contra um pardal. Dzico, vale ressaltar, não era muito dado a teorias. O detalhe é que seus “paitotes” (mistura de pais com filhote, que não consta do dicionário) moravam num apartamento. Aos seis meses, Fundi perdeu sua primeira vida e, da forma mais doída, aprendeu que gatos não voam.
Além de físico nato, Fundi era praticamente um diplomata. Transitava bem em qualquer situação e, inclusive, com outras espécies. Provou isso quando o jornalista foi morar na Alemanha e ele, Dzico, teve de se mudar para a casa de seus “avóstotes” (mistura de avós com filhote, que também não consta do dicionário). No novo lar, em Pato Branco, sudoeste do Paraná, tinha a companhia de outros quatro gatos, mas se tornou melhor amigo de um cachorro branco, filhote como ele, chamado Floquinho. O cachorro, outro sem raça definida, cresceu odiando felinos... mas Fundi, como sempre, era uma exceção. Um gato político como ele não poderia, jamais, ser rotulado como os demais de sua espécie. Se fosse preso, exigiria cela especial.
O tempo passou e Dzico se tornou um adulto. Por volta dos dois anos de idade, um gato macho já pode ser considerado adulto. Sem perder tempo e aproveitando o melhor da via, o gato amarelo aplicava sua combustão hormonal nas namoradas... várias, todas gatas. De seu quociente de inteligência (QI), privilegiado, ele fazia bom proveito. Ao invés de namorar na rua e correr o risco de apanhar de gatos mais fortes e experientes, levava as namoradas para comer sua ração, na casa dos avóstotes. E comia elas.
Aos cinco anos, seguia sendo um incorrigível galanteador. Volta e meia levava um corridão de algum vizinho, indignado com o miado do baladeiro Fundi na hora do sono. Ossos do ofício... e que ofício! Com o passar dos anos, o que mais mudou foi a cor dos filhotes da redondeza, mais amarelinhos do que nunca, mais órfãos do que nunca. Ninguém sentirá mais falta do notívago felino do que as gatas que ele seduziu – e não se faz necessário explicar os motivos. Contudo, jornalista e ex-esposa (casamentos também “morrem”) lamentam não ter passado mais tempo com aquele que consideram ser “O Cara” entre os animais de estimação que tiveram.
O jornalista recebeu de sua mãe a trágica notícia, ao telefonar de São Paulo capital para se informar sobre os estragos causados pelo temporal, em Pato Branco. “A boa notícia é que a água não entrou em nossa casa. A má notícia é que Fundi morreu”, contou. (…) Alguns segundos se passaram até que o rapaz conseguisse dizer algo. Custou a assimilar a notícia, enquanto as boas lembranças de Fundi visitavam sua mente. No telefone público de um shopping, deixou escapar uma lágrima, esforçado-se para que aquilo não se repetisse. “Enterrei o corpo dele lá no quintal da tua avó”, acrescentou a mãe do jornalista, já sentindo o baque que a notícia causara em seu filho.
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| Fundi adulto |
– Amava viajar com ele, em cima de meu ombro, no ônibus; amava ver ele dormindo, e babando; amava esmagar ele; amava até mesmo quando ele ficava mordendo minha orelha, no meio da madrugada – escreveu a mãetote (outra que também não consta do dicionário). – Mesmo longe de você, Fundi, nunca te esqueci. Lembrarei de você e te amarei para sempre – encerrou.
Um mês antes do trágico temporal – e do maligno petisco envenenado –, o jornalista visitou seus pais e irmãos. Foi a última vez que viu Fundi, que estava mais adulto, com um olhar compenetrado, porém, com o mesmo jeito de gato malandro. Era um gato feliz e parecia preocupado em seguir uma única orientação: “vida, só se vive uma vez”. Desde então, com uma saudade que bate forte, seu dono se esforça em aproveitar cada dia como se fosse o último, tal como fazia Fundi. No Natal, quando voltar a Pato Branco e não mais encontrar o gato amigo, o jornalista plantará uma árvore onde jaz o felino... para não se esquecer dos bons momentos.
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27 de novembro de 2009
Na fila do Starbucks
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A Avenida Paulista não é o melhor lugar de São Paulo para fazer compras, para comer ou beber. Se considerado o custo, certamente, não o é. Na avenida mais famosa do Brasil, paga-se pelo ar cosmopolita em um dos metros quadrados mais caros da capital paulista. "Paga-se" pela oportunidade de ver gente diferente, bonita (acima da média da cidade), descolada... e tantos outros adjetivos mais.
– É a maior cidade do mundo. Se me falar que não é a maior, garanto que é a melhor – disse, orguhoso, o dono da lojinha de camisetas com estampas iradas, porém, salgadas. Vale destacar: nada na Paulista é barato.
Quem era eu para discordar de um paulistano nato, doente pelo Corithians e mais ainda pela cidade onde nasceu e onde, confessou-me, quer morrer. Comprei dele uma camiseta, tamanho P, do tipo feminino, com verso de Fernando Pessoa, para uma amiga que faria aniversário por aqueles dias. Andei toda a Paulista, de novo, e no caminho de volta entrei no primeiro shopping que encontrei assim que a chuva engrossou...
No momento das reticências, estava numa cafeteria, escrevendo esta crônica. Dei um fôlego à caneta e interrompi a narrativa para observar uma guria passar. Dessa vez, garanto, foi por um motivo quase antropológico. Cabelos metade negros até a raiz, metade oxigenados até as pontas, esquisitos, mas de uma beleza singular. "Fosse em uma cidade provinciana", pensei, "seria taxada de alguma coisa". Bom, nem é preciso explicar o "alguma coisa" nesse contexto. Mas em São Paulo você tem o direito – mais do que em qualquer outra cidade brasileira – de ser diferente.
Voltei a escrever. Percebi que o café tinha acabado e, para seguir inspirado com as palavras, precisava de mais uma dose. Tinha optado por um expresso Vanilla (café com aroma de baunilha) do Starbucks e, novamente na fila do atendimento, reparava no vai e vem de pessoas, do lado de fora da cafeteria. Observar o comportamento de desconhecidos, que nunca tornarei a ver, aliás, é um de meus hobbies. Pode parecer tolice, mas garanto ser possível aprender muito com isso. Quem faz isso se torna, no mínimo, uma pessoa mais tolerante.
Na fila, estava acompanhado do som de músicas de Natal, da lojinha de presentes logo ao lado, e de uma morena magra, pele clara, cabelos compridos, cerca de 1,65 metros de altura – logo à minha frente, na fila. Não conseguia ver o rosto dela, mas suspeitava que tivesse traços orientais. Estava sozinha; e isso me levou a concluir que poderia puxar conversa com a moça, na primeira oportunidade. O afrodisíaco aroma de café, que tomava conta o ambiente, parecia me dizer: "vai firme que estou contigo".
– Gostei do teu estilo, moderno. Tem companhia para o café? – era o que eu teria dito, se ela ao menos tivesse olhado para trás. O detalhe é que, caso o convite tivesse sido feito, ela não teria entendido nenhuma vírgula.
No atendimento, ela pediu um café do tipo Mocha. A atendente perguntou que tamanho de copo – tall, grande ou venti – e ela não compreendeu. A atendente, então, improvisou no inglês, e nada. Também não me pareceu que a estrangeira entendesse italiano ou alemão, logo, não teria chances com ela. Talvez (e a essa altura já tinha visto o rosto dela) fosse sul coreana. São Paulo, todos sabem, recebe gente de todos os continentes.
A moça apanhou seu Caffè Mocha, suponho que similar ao que ela costumava beber no Starbucks lá na Coreia do Sul, e "sumiu do mapa". Uma pressa de levantar suspeitas. E se ela fosse da China e seus familiares tivessem em débito com a máfia chinesa? Era uma possibilidade. O cronista aqui, por sua vez, tornou a escrever e a beber café. Teria repetido a dose, uma terceira vez, se a loja não estivesse encerrando o expediente.
Na torcida para que a chuva tivesse dado uma trégua – e de dentro do shopping não dá para saber –, tomei o rumo da porta principal, de frente para a Paulista e a alguns metros da estação da Consolação, do metrô. Vi no caminho duas moças se beijando, na praça de alimentação; um sujeito com a cabeça raspada, trajando bermuda xadrez, paletó bege e sapatos da mesma cor, mas sem camisa e sem meias; e uma menina de cabelos cor-de-rosa e roupas a la personagem de mangá japonês. Em São Paulo, "pooooode".
Na saída, a constatação: ao invés de gotas, pareciam cair baldes d'água. Um "toró", como se diz lá em Pato Branco. Poderia pegar o metrô, e me molhar mesmo assim. Poderia esperar a chuva ficar menos intensa, e isso demorar a acontecer. Ou poderia pedir uma sacola plástica na loja mais próxima – para revestir dinheiro, documentos e a camiseta que comprei de presente – e encarar a chuva torrencial. Foi isso que fiz, nos 2,5 quilômetros até o hotel. Na minha última semana em São Paulo, no melhor ano de minha vida, a chuva na Avenida Paulista lavou o corpo, e a alma.
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A Avenida Paulista não é o melhor lugar de São Paulo para fazer compras, para comer ou beber. Se considerado o custo, certamente, não o é. Na avenida mais famosa do Brasil, paga-se pelo ar cosmopolita em um dos metros quadrados mais caros da capital paulista. "Paga-se" pela oportunidade de ver gente diferente, bonita (acima da média da cidade), descolada... e tantos outros adjetivos mais.
– É a maior cidade do mundo. Se me falar que não é a maior, garanto que é a melhor – disse, orguhoso, o dono da lojinha de camisetas com estampas iradas, porém, salgadas. Vale destacar: nada na Paulista é barato.
Quem era eu para discordar de um paulistano nato, doente pelo Corithians e mais ainda pela cidade onde nasceu e onde, confessou-me, quer morrer. Comprei dele uma camiseta, tamanho P, do tipo feminino, com verso de Fernando Pessoa, para uma amiga que faria aniversário por aqueles dias. Andei toda a Paulista, de novo, e no caminho de volta entrei no primeiro shopping que encontrei assim que a chuva engrossou...
No momento das reticências, estava numa cafeteria, escrevendo esta crônica. Dei um fôlego à caneta e interrompi a narrativa para observar uma guria passar. Dessa vez, garanto, foi por um motivo quase antropológico. Cabelos metade negros até a raiz, metade oxigenados até as pontas, esquisitos, mas de uma beleza singular. "Fosse em uma cidade provinciana", pensei, "seria taxada de alguma coisa". Bom, nem é preciso explicar o "alguma coisa" nesse contexto. Mas em São Paulo você tem o direito – mais do que em qualquer outra cidade brasileira – de ser diferente.
Voltei a escrever. Percebi que o café tinha acabado e, para seguir inspirado com as palavras, precisava de mais uma dose. Tinha optado por um expresso Vanilla (café com aroma de baunilha) do Starbucks e, novamente na fila do atendimento, reparava no vai e vem de pessoas, do lado de fora da cafeteria. Observar o comportamento de desconhecidos, que nunca tornarei a ver, aliás, é um de meus hobbies. Pode parecer tolice, mas garanto ser possível aprender muito com isso. Quem faz isso se torna, no mínimo, uma pessoa mais tolerante.
Na fila, estava acompanhado do som de músicas de Natal, da lojinha de presentes logo ao lado, e de uma morena magra, pele clara, cabelos compridos, cerca de 1,65 metros de altura – logo à minha frente, na fila. Não conseguia ver o rosto dela, mas suspeitava que tivesse traços orientais. Estava sozinha; e isso me levou a concluir que poderia puxar conversa com a moça, na primeira oportunidade. O afrodisíaco aroma de café, que tomava conta o ambiente, parecia me dizer: "vai firme que estou contigo".
– Gostei do teu estilo, moderno. Tem companhia para o café? – era o que eu teria dito, se ela ao menos tivesse olhado para trás. O detalhe é que, caso o convite tivesse sido feito, ela não teria entendido nenhuma vírgula.
No atendimento, ela pediu um café do tipo Mocha. A atendente perguntou que tamanho de copo – tall, grande ou venti – e ela não compreendeu. A atendente, então, improvisou no inglês, e nada. Também não me pareceu que a estrangeira entendesse italiano ou alemão, logo, não teria chances com ela. Talvez (e a essa altura já tinha visto o rosto dela) fosse sul coreana. São Paulo, todos sabem, recebe gente de todos os continentes.
A moça apanhou seu Caffè Mocha, suponho que similar ao que ela costumava beber no Starbucks lá na Coreia do Sul, e "sumiu do mapa". Uma pressa de levantar suspeitas. E se ela fosse da China e seus familiares tivessem em débito com a máfia chinesa? Era uma possibilidade. O cronista aqui, por sua vez, tornou a escrever e a beber café. Teria repetido a dose, uma terceira vez, se a loja não estivesse encerrando o expediente.
Na torcida para que a chuva tivesse dado uma trégua – e de dentro do shopping não dá para saber –, tomei o rumo da porta principal, de frente para a Paulista e a alguns metros da estação da Consolação, do metrô. Vi no caminho duas moças se beijando, na praça de alimentação; um sujeito com a cabeça raspada, trajando bermuda xadrez, paletó bege e sapatos da mesma cor, mas sem camisa e sem meias; e uma menina de cabelos cor-de-rosa e roupas a la personagem de mangá japonês. Em São Paulo, "pooooode".
Na saída, a constatação: ao invés de gotas, pareciam cair baldes d'água. Um "toró", como se diz lá em Pato Branco. Poderia pegar o metrô, e me molhar mesmo assim. Poderia esperar a chuva ficar menos intensa, e isso demorar a acontecer. Ou poderia pedir uma sacola plástica na loja mais próxima – para revestir dinheiro, documentos e a camiseta que comprei de presente – e encarar a chuva torrencial. Foi isso que fiz, nos 2,5 quilômetros até o hotel. Na minha última semana em São Paulo, no melhor ano de minha vida, a chuva na Avenida Paulista lavou o corpo, e a alma.
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18 de novembro de 2009
Eis os cinco corajosos
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Estão definidos os cinco corajosos jornalistas – mais pacientes do que corajosos – que votarão para a escolha das 12 melhores crônicas deste blog, na última etapa de seleção. Eles aceitaram o convite para ler cada um das 17 melhores na opinião dos leitores e do autor e classificá-las com notas de 5 a 10, de modo que a mais interessante receba 10 e a mais chata, 5.
Os jornalistas são: Ivo A. Pegoraro, diretor de redação do Jornal de Beltrão; Paulo J. Rafael, professor universitário e proprietário do jornal Folha do Norte; Elaine Utsunomiya, editora de Suplementos de O Diário do Norte do Paraná; Vinícius Carvalho e Thiago Ramari, repórteres de O Diário do Norte do Paraná.
Vinícius Carvalho foi o primeiro a concluir a avaliação e as notas dadas por ele podem ser conferidas nos comentários da cada crônica concorrente. Pontuação e nota têm o mesmo peso, assim, "Orfeu e Violeta" lidera com 30 pontos. Em segundo está "Um tweet de Ana Paula", com 21, e em terceiro lugar "Uma diliça de madrugada", com 19,5.
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Estão definidos os cinco corajosos jornalistas – mais pacientes do que corajosos – que votarão para a escolha das 12 melhores crônicas deste blog, na última etapa de seleção. Eles aceitaram o convite para ler cada um das 17 melhores na opinião dos leitores e do autor e classificá-las com notas de 5 a 10, de modo que a mais interessante receba 10 e a mais chata, 5.
Os jornalistas são: Ivo A. Pegoraro, diretor de redação do Jornal de Beltrão; Paulo J. Rafael, professor universitário e proprietário do jornal Folha do Norte; Elaine Utsunomiya, editora de Suplementos de O Diário do Norte do Paraná; Vinícius Carvalho e Thiago Ramari, repórteres de O Diário do Norte do Paraná.
Vinícius Carvalho foi o primeiro a concluir a avaliação e as notas dadas por ele podem ser conferidas nos comentários da cada crônica concorrente. Pontuação e nota têm o mesmo peso, assim, "Orfeu e Violeta" lidera com 30 pontos. Em segundo está "Um tweet de Ana Paula", com 21, e em terceiro lugar "Uma diliça de madrugada", com 19,5.
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10 de novembro de 2009
Teoria da Irmã Tribufú
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O Cara e Mortal construíram em apenas um ano e meio, desde quando o primeiro foi contratado pelo jornal em que o segundo já escrevia há pelo menos seis meses, uma sólida amizade, sustentada pelos pilares da lealdade. Uma amizade tão verdadeira quanto suas diferenças. O ditado "os opostos se atraem", que se mostra falho em tantos relacionamentos, na amizade desses dois repórteres faz todo o sentido.
Na redação, um é especialista na editoria de política e o outro, em economia. Enquanto Mortal estuda jornalismo multimídia e está cada vez mais conectado, O Cara cogita se "orkuticidar" enquanto aguarda pela esperada formatura em mais um curso de graduação. Um é expert em cálculos complexos e escreve o necessário para garantir seu sustento, o outro também escreve para viver, mas nas horas de folga tem por hobby expressar suas ideias no papel, ou melhor, no blog.
Além da esfera profissional, as diferenças são mais acentuadas. O "amigo multimídia" é membro da Igreja Metodista e segue a fé de seus pais e avós. O "amigo economista" frequentou a catequese e hoje, ateu, diz não crer em "fábulas". Na política, o blogueiro prevê a eleição de José Serra para presidente, enquanto o economista aposta que Dilma Rousseff conquistará a maioria do eleitorado graças à popularidade de Lula; embora ambos simpatizem mais com Marina Silva. Na Liga da Justiça, O Cara prefere o Batman e Mortal, o Superman; mas os dois comentam sobre como seria interessante ter – ao menos por um dia – os poderes do Superman e as namoradas do Batman. Por fim, um é Corinthians e o outro, óbvio, Palmeiras.
O fato de discordarem em (quase) tudo, no caso deles, serve de combustível para a amizade. O que só é possível graças ao dom da tolerância – dom que não consta das cartas de Paulo aos Coríntios, mas que é de suma importância quando se anseia por um mundo de paz e sem preconceitos.
Mortal é filho primogênito e tem dois irmãos, homens. O Cara também é o mais velho entre três, mas tem duas irmãs. O corintiano foi apresentado ao irmão do meio de Mortal numa festa junina de rua. O palmeirense conheceu a irmã caçula de O Cara, em um jantar sem cerimônia na casa dele. Ocasião que inspirou o cronista da dupla a bolar a "Teoria da Irmã Tribufú" – uma teoria que, em sua essência, já era antiga no tempo de seus avós.
No jantar, o repórter multimídia levou um vinho, Gato Negro Malbec, que trouxera da Argentina nas férias. O repórter de economia pôs em prática seus dotes culinários para preparar um yakissoba. Caprichou tanto que, mesmo querendo errar no arroz (para deixá-lo empapado), o cozido ficou soltinho. Um jazz na "vitrola", pratos e talheres postos à mesa, Mortal e O Cara falavam de tudo um pouco, menos de trabalho, quando foram interrompidos:
– Mano, o jantar vai demorar muito? Senão acho que vou dormir – disse Maria, a irmã mais nova de O Cara. – Está quase pronto mana, aguenta um pouco – respondeu, para em seguida falar ao bem impressionado Mortal – tadinha, estava com fome.
Uma "tadinha" acima da média. Jovem, morena, cabelos longos e lisos, magra e alta (estatura deve estar na genética da família), surgiu na cozinha de pijama, do tipo sem-Mickey-na-estampa. Bem pelo contrário, era um pijaminha tamanho P, desses que os roteiristas de novela pensam para trajar as belas atrizes, com a intenção de elevar a audiência no horário nobre. "Bah", com alguns pontos de exclamação, foi o que Mortal quis dizer, mas não disse. Ficou sem reação, não apenas pela exuberância da moça, mas, também, por se tratar da irmã de um de seus melhores amigos.
Com uma capacidade intelectual invejável, O Cara pode muito bem ter herdado grande parte do Q.I. da família, conforme mencionou Maria durante o jantar. Contudo, certamente foi ela quem ficou com a maior porção da beleza. O conjunto da obra, a plástica facial, as curvas... tornam tal sentença tão incontestável quanto a habilidade do economista com os cálculos e com o tempero do yakissoba.
A situação para Mortal era inédita. O Cara se tornara seu primeiro grande amigo com uma irmã fora de série. O Cara, por sua vez, talvez não percebesse a situação por ainda ver Maria com os olhos de quem a viu crescer. Logo, em função do forte laço de amizade entre os dois, Maria precisava ser vista com uma pitada de divindade, como "freira" ou como "noiva". "Com irmã de melhor amigo não se brinca", lembrou-se Mortal da pertinente frase que ouvira, certa vez, do sábio colega de redação Barack Pandeiro.
"Ficar" sem compromisso está na moda, com algumas ressalvas. Uma delas é justamente a "bela irmã do amigo do peito". E namoro com essas belas divindades é algo complicado, por causa da expectativa que tende a ser gerada pelo amigo-irmão em – na possibilidade de tudo der certo – se tornarem brothers-in-law. Nos tempos do vovô, em que casamentos duravam para sempre, namorar com a irmã mais nova do grande amigo era uma ótima ideia.
O Cara talvez gostasse de ver sua irmã namorando um de seus grandes amigos, talvez não. Independentemente da resposta, Mortal estava certo de que a vida seria mais prática se os amigos do peito não tivessem irmãs deusas. Na "Teoria da Irmã Tribufú", que coloca a amizade sempre em primeiro plano, as caçulas dos melhores amigos seriam sempre horrorosas ou já casadas ou, ainda, jovens demais. Mas como essa teoria é uma besteira sem tamanho, desconsidere.
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O Cara e Mortal construíram em apenas um ano e meio, desde quando o primeiro foi contratado pelo jornal em que o segundo já escrevia há pelo menos seis meses, uma sólida amizade, sustentada pelos pilares da lealdade. Uma amizade tão verdadeira quanto suas diferenças. O ditado "os opostos se atraem", que se mostra falho em tantos relacionamentos, na amizade desses dois repórteres faz todo o sentido.
Na redação, um é especialista na editoria de política e o outro, em economia. Enquanto Mortal estuda jornalismo multimídia e está cada vez mais conectado, O Cara cogita se "orkuticidar" enquanto aguarda pela esperada formatura em mais um curso de graduação. Um é expert em cálculos complexos e escreve o necessário para garantir seu sustento, o outro também escreve para viver, mas nas horas de folga tem por hobby expressar suas ideias no papel, ou melhor, no blog.
Além da esfera profissional, as diferenças são mais acentuadas. O "amigo multimídia" é membro da Igreja Metodista e segue a fé de seus pais e avós. O "amigo economista" frequentou a catequese e hoje, ateu, diz não crer em "fábulas". Na política, o blogueiro prevê a eleição de José Serra para presidente, enquanto o economista aposta que Dilma Rousseff conquistará a maioria do eleitorado graças à popularidade de Lula; embora ambos simpatizem mais com Marina Silva. Na Liga da Justiça, O Cara prefere o Batman e Mortal, o Superman; mas os dois comentam sobre como seria interessante ter – ao menos por um dia – os poderes do Superman e as namoradas do Batman. Por fim, um é Corinthians e o outro, óbvio, Palmeiras.
O fato de discordarem em (quase) tudo, no caso deles, serve de combustível para a amizade. O que só é possível graças ao dom da tolerância – dom que não consta das cartas de Paulo aos Coríntios, mas que é de suma importância quando se anseia por um mundo de paz e sem preconceitos.
Mortal é filho primogênito e tem dois irmãos, homens. O Cara também é o mais velho entre três, mas tem duas irmãs. O corintiano foi apresentado ao irmão do meio de Mortal numa festa junina de rua. O palmeirense conheceu a irmã caçula de O Cara, em um jantar sem cerimônia na casa dele. Ocasião que inspirou o cronista da dupla a bolar a "Teoria da Irmã Tribufú" – uma teoria que, em sua essência, já era antiga no tempo de seus avós.
No jantar, o repórter multimídia levou um vinho, Gato Negro Malbec, que trouxera da Argentina nas férias. O repórter de economia pôs em prática seus dotes culinários para preparar um yakissoba. Caprichou tanto que, mesmo querendo errar no arroz (para deixá-lo empapado), o cozido ficou soltinho. Um jazz na "vitrola", pratos e talheres postos à mesa, Mortal e O Cara falavam de tudo um pouco, menos de trabalho, quando foram interrompidos:
– Mano, o jantar vai demorar muito? Senão acho que vou dormir – disse Maria, a irmã mais nova de O Cara. – Está quase pronto mana, aguenta um pouco – respondeu, para em seguida falar ao bem impressionado Mortal – tadinha, estava com fome.
Uma "tadinha" acima da média. Jovem, morena, cabelos longos e lisos, magra e alta (estatura deve estar na genética da família), surgiu na cozinha de pijama, do tipo sem-Mickey-na-estampa. Bem pelo contrário, era um pijaminha tamanho P, desses que os roteiristas de novela pensam para trajar as belas atrizes, com a intenção de elevar a audiência no horário nobre. "Bah", com alguns pontos de exclamação, foi o que Mortal quis dizer, mas não disse. Ficou sem reação, não apenas pela exuberância da moça, mas, também, por se tratar da irmã de um de seus melhores amigos.
Com uma capacidade intelectual invejável, O Cara pode muito bem ter herdado grande parte do Q.I. da família, conforme mencionou Maria durante o jantar. Contudo, certamente foi ela quem ficou com a maior porção da beleza. O conjunto da obra, a plástica facial, as curvas... tornam tal sentença tão incontestável quanto a habilidade do economista com os cálculos e com o tempero do yakissoba.
A situação para Mortal era inédita. O Cara se tornara seu primeiro grande amigo com uma irmã fora de série. O Cara, por sua vez, talvez não percebesse a situação por ainda ver Maria com os olhos de quem a viu crescer. Logo, em função do forte laço de amizade entre os dois, Maria precisava ser vista com uma pitada de divindade, como "freira" ou como "noiva". "Com irmã de melhor amigo não se brinca", lembrou-se Mortal da pertinente frase que ouvira, certa vez, do sábio colega de redação Barack Pandeiro.
"Ficar" sem compromisso está na moda, com algumas ressalvas. Uma delas é justamente a "bela irmã do amigo do peito". E namoro com essas belas divindades é algo complicado, por causa da expectativa que tende a ser gerada pelo amigo-irmão em – na possibilidade de tudo der certo – se tornarem brothers-in-law. Nos tempos do vovô, em que casamentos duravam para sempre, namorar com a irmã mais nova do grande amigo era uma ótima ideia.
O Cara talvez gostasse de ver sua irmã namorando um de seus grandes amigos, talvez não. Independentemente da resposta, Mortal estava certo de que a vida seria mais prática se os amigos do peito não tivessem irmãs deusas. Na "Teoria da Irmã Tribufú", que coloca a amizade sempre em primeiro plano, as caçulas dos melhores amigos seriam sempre horrorosas ou já casadas ou, ainda, jovens demais. Mas como essa teoria é uma besteira sem tamanho, desconsidere.
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