8 de dezembro de 2010

Um dia sem relógio

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Durante o jantar na cantina do jornal, entre desapressadas garfadas em batatas fritas que de tão gordurosas seriam capazes de assustar até a mais liberal das nutricionistas, minha nova namorada quis saber o que eu faria no dia seguinte, o primeiro de meus 30 dias de férias. Havia planejado detalhes da viagem que faria para o estrangeiro, mas sobre o primeiro dia de folga não havia pensado.

Desde 1943, quando o então presidente Getúlio Vargas se empenhou em aprovar a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) os principais direitos dos trabalhadores, os brasileiros sofrem de um salutar “problema” chamado Tensão Pré-férias. Em suma, TPF é aquela dose extra de ansiedade percebida nos dias que antecedem o merecido descanso após um ano todo de trabalho duro. É um momento oportuno para passar mais tempo com a família, colocar a leitura em dia, passear com o cachorro - ou mesmo de ir ao parque para ver as moças dando uma volta com o melhor amigo -, ir mais ao cinema e, por que não, de viajar.

- Quer saber, acho que não vou fazer nada no primeiro dia de férias.
- Então você terá um dia sem relógio - concluiu a namorada.
- Isso mesmo. Sem despertador, sem régio de pulso, sem internet. Talvez desligue até o celular.

Dormiria até o sono acabar e quebraria o despertador se ele ousasse tocar por engano. No primeiro dia de férias, poderia até correr no Parque do Ingá, o que costumo fazer quando tenho tempo, mas isso só no caso de cansar de tanto zapear na TV a cabo recém-instalada. Vi na programação que um dos canais de filmes passaria Avatar, porém, duvido que a opção dublada e na telinha de 21 polegadas de meu velho televisor, sem os efeitos em 3D, valha a pena.

- Deixa eu retornar para o trabalho que ainda preciso fechar uma matéria antes das férias.
- Te vejo no fim de semana?
- Claro, desde que cozinhe algo gostoso pra mim - disse, já imaginando o suculento pernil de porco que ela prepara como poucos.

Minha última matéria do ano foi sobre a falta de investimentos do poder público em transportes alternativos. Entre os entrevistados, falei com um professor de Geografia da Universidade Estadual de Maringá que, tendo carro e moto na garagem, prefere ir ao trabalho de bicicleta. Diz o professor que alunos da graduação e colegas do doutorado, possivelmente influenciados pelo convívio com ele, também adotaram a bicicleta como meio de transporte. Fiquei entusiasmado e passei a cogitar, seriamente, comprar uma magrela dez marchas para começar 2011 com mais saúde.

Ciclovias à parte, aproveitei o último dia no jornal para checar os colegas quais deles gostariam de participar da “vaquinha” para comprar uma cachaça das boas, dessas de procedência mineira e que na Europa é vendida por mais de 50 euros. Levaria o presente dos amigos da redação para Geordano, ex-infografista do jornal que hoje reside em Lima, no Peru. Passaria as férias por lá e, sem precisar gastar com hotel, o mínimo que poderia fazer é levar um bom presente.

Ouvi falar, algumas vezes, que crente não bebe porque a ingestão de bebidas alcoólicas é pecado. Espero que pinga não esteja nessa lista, porque não quero que ninguém vá para o inferno por minha culpa. Aliás, uma amiga me advertiu a no Peru preferir a palavra cachaça. Fiquei curioso, óbvio. Parece que na terra dos incas “pinga” é o nome popular dado ao órgão sexual masculino. Ao menos na frente de quem acha que vai para o inferno por causa de álcool e sexo, nada de pinga no Peru. Do pernil de porco, porém, não abro mão.
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27 de novembro de 2010

Vacina contra febre amarela

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Para quem tem sofrido de TPF (Tensão Pré-férias) nos últimos dias, chegar à redação e ver sobre a mesa o guia de viagem sobre o Peru ajudou a conter a ansiedade. Comprado com bom desconto na internet, o guia trouxe uma informação relevante sobre vacinação: "brasileiros que viajam ao Peru precisam tomar a vacina contra febre amarela, que deve ser aplicada com antecedência de DEZ DIAS antes da viagem".

Brasileiros não precisam de visto para permanência inferior a 90 dias no Peru, porém, sem a vacina contra febre amarela o estrangeiro não desembarca no País vizinho. Até aí tudo bem, o detalhe que desconhecia era essa antecedência de dez dias antes do embarque. Faltando 15 dias para a viagem, apanhei a carteirinha de vacinação e corri para o posto de saúde mais próximo.

Oi. "Vou viajar para fora do País e preciso tomar a vacina contra febre amarela — disse à atendente do posto de saúde, sem precisar esperar muito tempo na fila. O serviço público de saúde em Maringá pode ser considerado ótimo se comparado com o das capitais ou, ainda, das cidades mais pobres do País.

Preciso do teu cartão do SUS e da carteirinha de vacinação — respondeu a atendente.

Nunca tive cartão do SUS e a carteirinha de vacinação eu perdi. Só tenho essa aqui da gripe suína — informei. Havia passado a madrugada procurando o cartão antigo, aquele com o registro das vacinas que tomei desde a infância e que me salvaria da agulhada. Sem êxito na busca, havia me preparado psicologicamente para a injeção. Enquanto fazia meu registro no SUS, a atendente questionou:

Essa aqui é sua carteirinha de vacinação?
Sim.
E cadê o registro das demais vacinas?
Ah, eu perdi aquela carteirinha. Só tenho essa da gripe suína.
Então você vai precisar tomar TODAS as vacinas de novo — informou ela, causando-me repentino frio na espinha.
Só preciso da vacina contra febre amarela para entrar no Peru. Não preciso de TODAS.
Mas pra gente te dar o atestado de vacina, você vai ter de tomar TODAS de novo — reforçou a atendente.

TODAS significava ser imunizado também contra tétano, hepatite B e tríplice viral (sarampo, rubéola e caxumba). Não tinha jeito, porque sem o atestado de vacina não conseguiria no aeroporto a carteirinha internacional de vacinação, que normalmente é cobrada no desembarque em países com florestas, entre eles o Peru. Meu "visto", então, seria na pele e não no passaporte.

Como você foi perder sua carteirinha — disse a enfermeira, já na sala de vacinação.
Perdi este ano, na última mudança que fiz.
Mas tua carteira de identidade você não perdeu, não é mesmo?
Verdade — lamentei o desleixo, enquanto reparava a enfermeira preparando a primeira das quatro vacinas. Mil vezes uma agulhada do que aquela broca estridente do dentista. De certa forma, essa comparação servia de consolo.

Agora você vai precisar tomar TODAS as vacinas de uma vez. Você tem medo de injeção?
Normalmente não, mas vim preparado psicologicamente para uma vacina, não para quatro!
Acho melhor você não olhar — advertiu a enfermeira.
Fica tranquila que eu não desmaio. Já fui doador de sangue.
Não é mais?
Não. Desisti depois que me falaram que meu tipo de sangue (A+) é muito comum.

Subcutâneas, as duas primeiras agulhadas foram no antebraço: febre amarela no esquerdo e tríplice viral, no direito. Foi indolor. A injeção seguinte, da vacina contra hepatite B, assustou.

Por que essa agulha é tão maior do que as outras?
A de hepatite B é maior mesmo — respondeu a enfermeira, enquanto aplicava a injeção no braço direito, sem dó. — Essa é no músculo — detalhou.
No músculo... sei. Essa aí foi no osso — reclamei.

O pior estava por vir. A vacina contra tétano, historicamente relatada como a mais doída, ficou reservada para o braço esquerdo. Mui amiga, a enfermeira não escondeu o jogo e foi logo falando:

A de tétano dói mais.
Sei bem, já fui apresentado a ela no passado.
Relaxa o braço senão é pior.
CARA%$@ — exclamei. — Por acaso tem pimenta nessa vacina?
Você até que foi corajoso. A maioria não consegue olhar para a agulha e tem até casos de gente que desmaia. 
Não faz mal tomar tantas vacinas de uma vez só? — indaguei.
Mal não faz, mas talvez você sinta um mal-estar à noite, por causa da carga viral.

Não deu outra: à noite cabeça ficou pesada e o corpo mole trouxe o sono mais cedo do que o normal. Doze horas depois, a vacina "de pimenta" contra tétano ainda causava algum desconforto. O pior foi saber que nos próximos dois meses terei de tomar a segunda e terceira doses da vacina contra hepatite B, aquela aplicada no "osso" – "salvo em caso de gravidez ou acidentes graves", conforme consta do atestado de vacina. Logo, vou me cuidar para não ficar grávido e para não ser atropelado, o que não é difícil de acontecer nas "pistas" de Maringá.

Agora, está tudo certo para a viagem de férias ao Peru. Contudo, fica a dica: perca a carteira de identidade, mas, NUNCA, a carteirinha de vacinação.
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18 de novembro de 2010

Minhas férias...

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Redação quase sempre foi meu ponto forte nos tempos de colégio e, sendo assim, conseguia um bom desempenho nos vestibulares – mesmo com os 90% de erros nas questões de química. Embora a afinidade com as letras, havia algo que muito me incomodava nas aulas de língua portuguesa: a bendita-redação-anual sobre "minhas férias". Um porre! Mais porre até do que a tabela periódica - da qual só sei decor a localização e símbolo do hidrogênio.

Além da certeza de que as professoras não liam revistas de viagem e turismo, tinha minhas dúvidas se elas, de fato, liam todos aqueles textos repletos de falta de acentos, crases, vírgulas e, claro, desprovidos de criatividade. Ao invés de relatar minhas férias nos campinhos de várzea de Pato Branco – ou diante da televisão, nos dias de chuva, jogando Enduro no Atari –, preferia escrever sobre minhas viagens fake à Cidade Maravilhosa e ao Cristo Redentor, às praias nordestinas, sobre o Natal com neve em Nova York e muito mais, sempre inspirado em exemplares da revista National Geographic de minha mãe.

As professoras sabiam que eu não era burguês. Não parecia um burguês, meus pais tinham carro usado e meus tênis não eram caros, desses de marca. No 2º grau, tinha uma calculadora científica simples, enquanto os burgueses de verdade tinham calculadoras HP. Talvez as boas notas nas redações sobre "minhas férias" fossem pela criatividade ou, quem sabe, pelo fato de eu, já na adolescência, empregar razoavelmente bem as vírgulas. Um colega, que mais tarde veio a se formar em Processamento de Dados, sempre reclamava: "por que a professora não pede uma redação sobre eu e minhas primas?" Ele comia bem e ainda reclamava. O colega não conhecia o mar e nunca viajava nas férias, mas tinha primas gostosas.

Nas férias, numa época em que internet era quase ficção científica, os jogos de tabuleiro estavam entre os passatempos prediletos de meu irmão do meio e eu. Num deles, ganhava quem desse a volta ao mundo primeiro, administrando a verba da viagem entre viagens de avião, trem, navio e ônibus. Perdia quem torrasse o dinheiro sem completar o roteiro, apontado por carta sorteada do baralho.

Lembro-me de uma de minhas vitórias, que passou por Machu Picchu e terminou na Alemanha. Influência do jogo de tabuleiro ou não, cresci com o sonho de viajar à Europa e de conhecer as montanhas sagradas dos incas, nos Andes peruanos.

Entre 2006 e 2007, pude realizar um desses sonhos. Tive o privilégio de ser selecionado para um intercâmbio profissional, na emissora pública Deutsche Welle, e de morar quase cinco meses em Bonn, na Alemanha. Retornei da Europa com 25 anos de idade e o desejo de me preparar para, antes de completar 30 anos, fazer outra viagem marcante. Da promessa feita a Geordano, ex-colega de jornal e grande amigo, de que o visitaria em Lima, veio a recordação do sonho dos tempos de colégio: conhecer Machu Picchu.

No feriado da Proclamação da República, depois de pesquisar sobre o Peru e de conversar a respeito com uma amiga que já esteve em Machu Picchu, tomei coragem e escolhi um voo. Com bom representante da dita geração Y, comprei as passagens em uma agência de viagens na internet. Com o dólar desvalorizado, saiu em conta: São Paulo a Lima (ida e volta) por R$ 774, incluídas taxas de embarque, parcelado em cinco vezes sem juros.

Farei a viagem para Machu Picchu em dezembro, três meses antes de completar 30 anos. Um presente de mim para mim mesmo, sobre o qual terei prazer de escrever a respeito. Pela primeira vez, a redação sobre "minhas férias" não será um incômodo e, o melhor de tudo, não precisarei recorrer à revista da National Geographic.
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27 de outubro de 2010

Camilas, Vanessas e Grazielas

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"Não existe Camila, Vanessa e Graziela feias". Dia desses experimentei incluir essa "sentença" nas redes sociais e na mensagem de apresentação do MSN. Pra quê! Amigas, algumas conhecidas e até uma ex-paquera, todas donas de nomes diferentes desses acima citados, surgiram para tirar satisfação – como se as tivesse chamado de feias, o que não ocorreu. "Vanessa é nome de mulher dada", disse uma das reclamantes. "Conheço várias Camilas barangas", disse outra. A vaidade em excesso é como misturar manga com leite: a gente sabe que não mata, mas ainda assim tem medo.

Vanessa Hudgens
Há várias definições para vaidade. Os dicionários têm as suas e eu, as minhas. Se uma mulher se incomoda com outra, por medo de perder seu parceiro para ela, isso é ciúme. Se uma mulher se incomoda com outra, em função da beleza da "concorrente", aí isso é dor de cotovelo.

Dicionário à parte, não conheço uma mulher sequer, nascida de 1980 para cá, que possua um desses três nomes e sirva de feia. Bem pelo contrário, são todas capazes de arrancar assobios do peão de obra mais exigente. Nenhuma faria feio se precisasse interpretar a cena em que Marilyn Monroe – sobre um exaustor, tentando cobrir com seu esvoaçante vestido branco a gostosura de suas coxas – personificou o glamour de Hollywood e levou muitos marmanjos da época a pensamentos ousados. Tenho um relógio de parede de Marilyn não é por acaso.

Não estou a falar de celebridades do meio artístico, como a gatinha da Disney Vanessa Hudgens ou das estonteantes atrizes globais Camila Pitanga e Grazi Massafera. Falo de mulheres normais, capazes de aceitar um vinho a dois com meros mortais como este autor.

Lembro de minha ex-vizinha Graziela como se fosse hoje. Na segunda metade da década de 90, cursávamos o 2º grau técnico do Cefet de Pato Branco. Entre meus colegas de Eletrônica havia o consenso de que a garota mais gostosa era a Grazi da Eletromecânica. Para um bando de garotos virgens e espinhentos, os peitões dela eram um mar sem fim de pensamentos "pecaminosos". O "risco inferno" só não assustava porque a professora de biologia insistia que pensar em sexo não era pecado, era testosterona. Sábia professora.

Para meu deleite, a Grazi da Eletromecânica passava diariamente em frente à casa de meus pais, rumo ao apartamento dela. Dia sim dia não, aparecia na padaria comprar um pão caseiro de cenoura. Meu pai havia montado o negócio e me escalado para cuidar do caixa no período da manhã. Era ótimo em calcular troco, mas na presença das curvas bem esculpidas daquela adolescente nem calculadora científica ajudava. Para meus colegas de Eletrônica eu tinha o dever moral de convidá-la para sair. Era difícil. Perguntas sobre o tempo eram as únicas que me ocorriam na presença dela.

A van que eu vou pro Cefet tem um lugar sobrando. Você não quer ir com a gente — perguntou-me Grazi, certa vez, ao receber o troco do pão de cenoura.

Cla-claro que sim — respondi de imediato, com a voz trêmula, já pensando em como convencer meu pai de que fazia sentido trocar o ônibus, mais em conta, por um lugar ao lado (dos peitos) da Grazi, na van.

A salvação veio de um abençoado colega de Eletrônica, que descobriu que o dono da van era amigo de longa data de meu pai. Negócio fechado. Grazi era a beleza que inspirava poesia, a ponto de causar raiva em meninas da mesma idade. Só o fato de ir ao colégio ao lado dela rendia a mim pontos de popularidade junto aos colegas. O que faltava era coragem para vencer o iceberg no estômago, convidá-la para sair e, quiçá, apresentar meus lábios a todos os dela. Não tive coragem nem tempo. Duas semanas mais tarde, Grazi passou a namorar um cara habilitado e a ir ao colégio, com ele, de carro. Um moleque, aos 16 anos, não é ninguém; nem carta para dirigir tem.

Sim, Grazielas normais também causam dor de cotovelo.

Perdi a conta de quantas Vanessas conheci na vida. Todas tinham como ponto forte uma sensualidade ímpar, um ar de femme fatale capaz de despertar o interesse até dos homens mais efeminados. Uma das professoras de inglês dos tempos de Cefet, uma jovem estagiária, chamava-se Vanessa. Era baixinha, mas tinha curvas alucinantes. As professoras mais experientes não gostavam dela e nem é preciso explicar o porquê. Evandro, o colega mais velho e experiente, um tipo alemão de 1,90 metros, filho do dono da funerária, traçou a "profe" Vanessa, contou todos os detalhes e virou ídolo da turma.

Dois anos mais tarde, no final da década de 90, eu cursava inglês na escola de idiomas CCAA e paquerava ("ficava", nos dicionários mais atuais) uma guria bonita, mas cheia de não-me-toques, chamada Maria. Isso até trocá-la por uma garota da turma da manhã. Vanessa tinha cabelos cacheados, cinturinha fina e sempre usava tênis All Star. Sucumbi ao "How are you pretty boy?" dela. Maria era biblicamente certinha demais para meu gosto e, fora esse detalhe, aprender outra língua – em mais de um sentido da palavra – foi de fato uma boa ideia.

As outras Vanessas de minha vida foram todas amigas. Mercúrio, editor no jornal para o qual escrevo, tem pertinente teoria em favor da "química" entre homens e mulheres. "Meu jovem, no primeiro encontro com uma mulher tem de rolar beijo, senão vira amizade". Na prática constatei: ele está coberto de razão. Se tivesse aprendido esse sábio conselho, nos tempos de faculdade, teria tido ao menos três Vanessas ex-namoradas ao invés de amigas.

Sim, Vanessas normais também causam dor de cotovelo.

Mulheres que se chamam Camila sempre me pareceram as mais difíceis. Devo ter comigo, in-fe-liz-men-te (e a divisão silábica é para dar sentimento), algum tipo de repelente contra Camilas. A primeira lembrança de uma delas vem dos tempos de primário, da turma da 2ª série, da professora querida que morreu anos mais tarde em um acidente de trânsito, da coleguinha de olhos claros, cabelos dourados e jeito delicado que se chamava Camila. Creio que o guarda-chuva de chocolate que levei mochila para ela – e ela recusou – tenha sido o primeiro fora de minha existência.

Bem dito. Foi o primeiro fora, não o único. Vinte e tantos anos depois, na cafeteria preferida, peguei-me observando a jovem barista, que sem fugir da intensa troca de olhares presenteou-me com apaixonante sorriso. Qual viciado em cafeína não gostaria de ter uma namorada que, além de bela, soubesse preparar mais de 20 tipos de cafés especiais? Era motivação demais para ficar parado. Saquei uma caneta do bolso, escrevi um bilhete para a barista e chamei a garçonete.

Pedi um expresso carioca faz 15 minutos, acho que esqueceram.
Mil desculpas senhor — respondeu a atendente.
Ah, não esquenta. Se puder aproveita e entrega esse bilhete para a moça que prepara os cafés especiais.
Quem, a Camila? — pergunta que soou divinamente bem. Tão perfeita aos olhos de um louco por café, só poderia se chamar Camila.

No bilhete: elogio à beleza dela, menção à troca de olhares de minutos antes e relato da admiração por quem domina a arte de preparar a melhor das bebidas. O endereço de MSN foi junto, para caso ela, não sendo comprometida, pudesse corresponder. De longe, notei alegria nas expressões faciais da barista, ao ler a cartinha, e vaidade reprimida da parte das colegas de trabalho dela, chateadas com a paquera alheia. De casa, aguardei contato via MSN, o que nunca aconteceu.

Era de se esperar: Camilas costumam ser difíceis e, claro, também causam dor de cotovelo.
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22 de outubro de 2010

Elas preferem os cafajestes

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#microconto

I
Um dia a solteirona reclama: "os homens são cafajestes e os que prestam já estão ocupados (casados, noivos, etc);

II
Mas essas mesmas mulheres se esquecem de que, quando jovens, belas e formosas; optaram pelos bad boys ao invés dos mocinhos;

III
As mulheres que optaram pelos mocinhos - geralmente fieis, românticos e caseiros - viveram felizes para sempre;

IV
As solteironas, que se encantaram pelos bad boys, agora de coração partido se fecham a novos relacionamentos: "não ando querendo um novo amor..."

V
Destarte, mocinhos em extinção ou cafajestes corrigidos, cabisbaixos com a rejeição, encontram na esquina seguinte mulheres frutas e Geisys de toda sorte;

VI
Aos homens, mocinhos ou cafajestes, aplica-se um mesmo ditado: "se ainda não encontrou a mulher certa, divirta-se com a errada".

#theEnd
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30 de setembro de 2010

Sabores e dissabores do jornalismo

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"Ser jornalista tem seus dissabores". Mortal perdeu as contas de quantas vezes ouviu essa frase o dono do jornal onde trabalhara após concluir a faculdade de Jornalismo. Preferia não acreditar na sentença, porém, passados sete anos desde que o "canudo" lhe foi entregue em mãos na colação de grau, dava a cada nova semana de trabalho mais razão ao ex-patrão. Nem sempre viver da escrita seria prazeroso.

O jovem repórter de Política havia tido um dia de merda, profissionalmente falando. Para piorar, uma infecção na garganta o impedia de recorrer ao melhor anti-stress já inventado: chope trincando de gelado, com colarinho. Além do mais, o álcool cortaria o efeito dos antibióticos. Vale um Prêmio Nobel, no mínimo, a quem inventar um antibiótico efervescente para ser diluído em caneca de chope ou taça de vinho.

- O senhor já foi atendido? - questionou a atendente da cafeteria.
- Não me chame de senhor, nem 30 anos eu tenho.
- Você já foi atendido? - insistiu, educadamente, a atendente.
- Me desculpe, tive um péssimo dia. Quero um café com álcool, o mais forte que você tiver. E que se dane os antibióticos.
- Como?
- Nada não. O café demora?
- Dois minutinhos, no máximo.

Aquela sexta-feira teve tudo para ser a melhor do ano para Mortal. Na pauta, ele precisava entregar uma reportagem sobre o gasto excessivo de alguns dos deputados federais da bancada paranaense durante o recesso parlamentar. Na apuração das verbas indenizatórias, o repórter descobriu que um único deputado havia gastado mais de R$ 20 mil com passagens aéreas. No mês de descanso dos deputados, gastos com combustível e locação de veículos indicavam que o dinheiro público, restrito à atividade parlamentar, fora usado na campanha eleitoral.

Mortal tinha uma baita história em mãos e, melhor, tinha como sustentar o conteúdo da reportagem. Os dados eram públicos e constavam da página da Transparência da Câmara, na internet. Um pouco de paciência e tabulação dos dados haviam apontado dados curiosos. No recesso, deputados que concorriam à reeleição haviam gastado até 75 vezes mais do que parlamentares que não estavam em campanha.

- E tua matéria, como anda? - perguntou Moisés, o repórter de polícia, vizinho de mesa de Mortal.
- Está quase pronta. Aposto que vai virar manchete.

Em redações de pequeno e médio porte, repórteres de jornal diário raramente podem se dedicar a apenas uma matéria por dia. Mortal teve três dias para trabalhar nos gastos dos parlamentares. A expectativa era grande, talvez até maior do que a do primeiro encontro com uma mulher especial.

Ao final do expediente, já no início da noite, a vinda do editor-chefe até o posto de trabalho de Mortal era sinal de que algo havia dado errado. "Onde há fumaça há fogo"... e o ditado se aplica também, e muito bem, ao jornalismo. Sr. Reuters costumava se dirigir à mesa de um repórter apenas para levar alguma má notícia. Teria sido a reportagem investigativa demais para ganhar as páginas do jornal?

- Rapaz, lutei pela publicação da tua matéria, mas não teve jeito - disse Reuters, aparentemente desapontado com o veto editorial.
- Qual o problema com a matéria. Algum erro? - questionou Mortal.
- O conteúdo da reportagem traria sérios problemas para o jornal.
- Problemas políticos?
- Políticos e financeiros - comentou o editor-chefe.

A matéria era, sim, investigativa demais. Dois deputados, muito chegados do dono do jornal, estavam entre os gastões do período de recesso parlamentar e a reportagem, certamente, acarretaria prejuízo eleitoral a ambos. Em outras palavras, o eleitor mais politizado poderia se dar conta do uso indevido e abusivo do dinheiro público, optar por candidatos de melhor índole e, quem sabe, fazer campanha contra os gastões. Com a matéria, o eleitor ganharia mais subsídios para o voto consciente e o repórter, a conta no dia seguinte. Eis um um bom exemplo de dissabor na profissão.

Naquela sexta-feira, que começou empolgante e terminou melancólica, nem o café mais alcoólico aliviaria o estresse. Nem mesmo um chope com antibiótico efervescente teria esse poder. A melhor matéria de Mortal, no ano, havia sido arquivada. O dissabor da conveniência política permaneceu, por dias, entalado na garganta. Aliás, a garganta melhorou bem antes do dia da eleição, que revelou uma agradável surpresa: um dos deputados "amantes do dinheiro público", amigo do dono do jornal, não foi reeleito. Ser jornalista tem também seus sabores.

Publicado também em: Master em Jornalismo

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18 de agosto de 2010

As mulheres vão dominar o mundo

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Duas mulheres concorrem à presidência da República nas Eleições 2010. Nas pesquisas de intenções de voto uma está na liderança e a outra, em terceiro. A iminência de o Brasil ter uma presidenta, pela primeira vez em sua história, revela que elas têm se destacado até mesmo em território onde os homens costumam dominar, como a política. Em uma sociedade que insiste em alimentar certos machismos, as mulheres vêm roubando a cena, a passos largos.

As mulheres ainda são minoria nos postos de chefia das grandes corporações e também em cargos públicos. Na comparação com os homens, recebem menos pelo desempenho de uma mesma função. Detalhes que parecem fazer parte de um bem arquitetado plano feminino de dominar o mundo. Uma conspiração, de momento notada apenas por "agentes secretos" infiltrados, a qual sinto-me obrigado a revelar ao universo masculino: elas vão dominar o mundo e o esperam fazer discretamente – assim como quando traem –, sem que eles percebam suas aspirações.

Recebi, de dois desses agentes secretos, um relatório minucioso. Mendes e Oliveira – como se apresentaram, embora eu desconfie não se tratar de seus nomes verdadeiros – se infiltraram em uma organização feminina, criada para produzir conteúdo subliminar para as mulheres classificadas como "multifuncionais". Trata-se de um código. "Multifuncionais são todas as mulheres que já se tornaram independentes e que, agora, estão no comando da revolução feminina", relatou Oliveira, no relatório.

Dilma Rousseff, Marina Silva, Cristina Kirchner, Michelle Bachelet, Angela Merkel e Hillary Clinton, para citar apenas nomes da política, são "multifuncionais". Xuxa e Gisele Bündchen também fazem parte do "time". A rainha dos baixinhos conquistou a confiança dos meninos e, como se não bastasse, teve a seus pés o maior ídolo do esporte brasileiro: Ayrton Senna. Nos anos 80 e 90, todos gostavam dela. Gisele veio depois, de modo a consolidar a submissão masculina pela força de sua beleza. "Ter os homens de quatro por elas faz parte desse plano feminino", advertiu Mendes.

Em ação de contra-espionagem, Mendes e Oliveira compilaram dados de pesquisas que apontam para uma supremacia feminina. Foi-se o tempo em que os homens mandavam... e elas obedeciam. Segundo dados do instituto Nielsen, as mulheres chegaram a 2010 de posse de 50,2% dos cartões de crédito. Até aí nenhuma novidade, pois elas sempre adoraram ter a bolsa recheada do "dinheiro eletrônico". Nota de 50 amassada no bolso da calça é coisa macho; cartões de várias bandeiras é coisa de mulher.

O que chama mais a atenção no relatório da dupla espiã é o avanço das multifuncionais no mercado de trabalho. Donas de 56% dos bancos das universidades brasileiras, elas já são 6,3 milhões de empreendedoras e presidem 20% das empresas do País. "Cada dia que passa as mulheres precisam menos dos homens. Cresce o número de solteiras convictas, que recorrem a garotos de programa e namorados ocasionais para se satisfazer", diz o relatório, na cabulosa página 666.

Assustado? Então senta e toma uma água com açúcar, que tem mais. Minha pressão disparou quando li o trecho abaixo do relatório, no capítulo em que Mendes e Oliveira dispõem sobre o interesse delas pela maior paixão masculina: o automóvel. Ainda bem que Henry Ford não viveu pra ver isso.

Às multifuncionais ter dez cartões de crédito per capita, ter postos de chefia nas grandes empresas, ter filho por produção independente, não basta. Elas querem o que é mais sagrado para os homens — anuncia o documento da espionagem. — Pesquisa feita com 7 mil clientes das principais montadoras, ao longo de três anos, revela que 42% da compra de carros novos no Brasil pertence ao público feminino. Não satisfeitas, ainda influenciam cerca de 30% das aquisições de automóveis feitas pelos homens — acrescenta o documento.

A conspiração pode parecer piada, mas é verdade. Fui levado a um local ermo, com olhos vendados, 20 minutos de carro, onde conheci Mendes pessoalmente. Antes da conversa, em sala com pouca luz, quis ele a confirmação de que eu não havia dito nada do encontro secreto a mulher alguma. Respondi que não, e fiz perguntas:

Por que tanto mistério Mendes, por que a venda nos olhos?
Sem esses cuidados, sua vida também correria risco – alertou-me o agente.
Fiquei surpreso com o relatório...
Elas querem o nosso lugar – interrompeu-me o agente de sotaque carioca, alto, camisa preta e óculos escuros. – E depois que elas dominarem o mundo, vamos virar meros cachorrinhos delas.
Você assinou o relatório com um tal de Oliveira. Cadê ele?
Foi assassinado.
Quando? Como?
A mãe dele morreu e o cerimonial fúnebre o forçou a retornar à cidade natal, Alegrete, nos pampas do Rio Grande do Sul. No caminho, o ônibus em que ele estava explodiu.
Vi isso no noticiário, há um mês. Foi um acidente – interpelei.
Muita coincidência o acidente ser uma colisão frontal com um caminhão-tanque, carregado de querosene, numa reta. Não acha?
– Put*#% merd*&# – exclamei.

Estava assustado. A teoria da conspiração, revelada no relatório, passara a fazer algum sentido. Mendes se recusou a informar para qual agência trabalhava. Disse-me estar treinado para aguentar qualquer tipo de tortura, mas sabia que eu revelaria segredos na primeira agulhada embaixo da unha. Bastava que uma única pessoa abrisse o bico para pôr toda a sociedade de contra-espiões em perigo.

E por que você enviou o relatório justamente para mim?
Trabalhamos em duplas – começou a relatar Mendes – e creio que as multifuncionais descobriram minha identidade e a de Oliveira. Outros dos nossos podem estar correndo perigo...

Após um gole de água, prosseguiu:

então resolvi procurar a imprensa. O maior líder da resistência masculina foi ludibriado por elas e, em breve, o poder estará nas mãos das multifuncionais.
Quem é esse líder, não li isso no relatório – indaguei.
O presidente Lula, que de uma hora pra outra surgiu com o nome da Dilma como sua sucessora e agora, na campanha, trabalha para que ela assuma o poder.
A Dilma é a líder das feministas?
Multifuncionais – corrigiu-me Mendes. – Não, mas ela é de inteira confiança da verdadeira líder, a qual ainda desconhecemos a identidade.
Tábom, se a Dilma tomar o poder no lugar do Lula, ainda teremos o Obama.
Engano seu. A esposa de Barack Obama manda nele, assim como ocorria entre Hilary e Bill Clinton. Agora coloque a venda nos olhos que a conversa acabou.
O que devo fazer com o relatório.
Compartilhe com jornalistas de sua confiança caso eu morra e Dilma dispare para a vitória na disputa com Serra.

Recentes pesquisas de intenção de voto apontam que Dilma Rousseff (PT) abre vantagem contra José Serra (PSDB) e se aproxima de uma vitória ainda no primeiro turno, embora nada esteja definido. Quanto a Mendes, o reconheci, nas imagens do noticiário, entre os clientes e funcionários baleados em um assalto a banco no Rio de Janeiro. Mendes, que aguardava para falar com seu gerente, levou um tiro certeiro nas costas. Morreu no hospital.

Publicado primeiramente em: Plano Feminino.

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