31 de março de 2010

Doze de Março

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Por Eduardo Cardoso de Oliveira*

Há um ano estávamos de férias, viajando pelo litoral catarinense e serra gaúcha. Voltamos embora antes do previsto, por dois motivos: a possível falta de dinheiro e uma doença que o João Paulo pegou. O piá precisou ficar internado por três dias. Segundo o médico que o atendeu, o problema de saúde era conhecido – não por mim – e atendia pelo modesto nome de mononucleose. Ser acometido de doenças pouco habituais é um hobby do Nanico.

Piá (LF), você está ficando velho! Lembro do longínquo e pré-histórico tempo no qual você fazia jornais caseiros sobre vídeogame, séries de TV e assuntos ligados a uma infância muito bem aproveitada, exceto pelo fato de trabalhar todo final de semana por copos de Coca-Cola e alguns pacotes de salgadinho. Carregávamos tijolos de um lado para o outro e vice-versa, cortávamos grama, pintávamos cerca, capinávamos as ervas-daninhas que antigamente cresciam junto ao meio-fio e hoje não crescem mais, arrancávamos matos da grama com uma faquinha, à tarde, sob sol escaldante, buscávamos água ná "vó" todo dia... você até inventou uma música: "escravos de Jó, buscam água lá na "vó". Na vó também buscávamos lenha, levávamos as sujeitas que sobravam dos serviços. O local de despejo dos entulhos: "buração". Bizarro!

Antes de voltar de viagem, conhecemos os cânions em Cambará do Sul (RS). "A melhor parte da viagem", frase sua a qual eu concordo. Outro município da serra gaúcha que passeamos foi a charmosa Gramado, cidade de muitas cafeterias, chocolaterias, parque e outros pontos turísticos que encantam pelo cuidado e zelo. Tudo parece estar no lugar certo, na hora certa, na temperatura certa e com a cor certa. Em Canela, cidade vizinha e sem o aspecto europeu de Gramado, conhecemos museus – um do chocolate e o outro ligado à evolução no processo produtivo. Também fomos ao parque da cachoeira do Caracol, onde cansamos de tanto descer escadas e nos arrastamos para subi-las na volta. Para que não digas que esqueci, conhecemos também a Catedral de Pedra, uma bela igreja!

A idade está chegando. Hoje (12 de março) completas 29 anos, quase um balzaquiano. No tempo que não sabíamos o que era computador, internet, televisão com controle remoto – o pai na época não conhecia os dois primeiros, mas já sabia o que era TV com controle remoto –, brincávamos de béts, descida de "canoa" no morro, corrida de barquinho (gravetos) no rio, exterminador do futuro, mãe-bola, futebol, bicicleta, Atari.

Costumávamos tomar sorvete na Dona Lila, segundo ela, fabricado no Nono Balin. Até hoje tenho minhas dúvidas. Íamos à aula caminhando, desde o dia que quebrou a Kombi próximo à casa do Seu Guilherme (que blusa grossa...), e para a mãe isso aconteceu quando você estava na oitava série. Eu ainda acho que você estava na segunda do primário e sua professora era a falecida Maria Helena Camuzatto. Você sabe que ela morreu né? Bateu um Kadett na rodovia entre Pato Branco e Mariópolis, mas isso já tem mais de dez anos.

O passeio pelo litoral catarinense foi nas cidades de Florianópolis, Balneário Camboriú, Bombinhas e Penha. Em Floripa, fomos fazer uma visita muito rápida para a Cristina e família, estilo médico do SUS. Almoçamos e só. Mais rápido ainda foi o passeio em Balneário Camboriú: apenas uma noite e na mais badalada praia catarinense. Na terra do Joce, Bombinhas, estivemos por dois dias. A cidade é linda, cheia de encantos naturais. O Marcos esteve lá esses dias. Falou que todos mandaram um abraço para nós.

Em Penha, há exatamente um ano, visitamos o maior parque temático do Brasil. Era teu aniversário. Estavas completando 28 anos e por isso não pagou a entrada. Chegamos em 11 de março, fazia seis anos que você não via o mar de perto, em terra. Foi legal estar em Penha. Logo na chegada avistamos a enorme Fire Whip, montanha-russa assustadora por fora e alucinante para quem embarca. Da nossa pousada era possível ver ela, ver o parque, ver a maçaneta da porta de entrada do parque, só não era perto o suficiente para ouvir o ronco dos leões dormindo à noite, mas da pousada podíamos ouvir as ondas do mar quebrando na praia.

Enfim, nossa viagem ano passado foi excelente. Foram as melhores férias que já tive, a que mais aproveitei e só não foi perfeita pela falta de pessoas que amamos. Elas não puderam ir! Apesar de ser muito jovem, você tem uma incrível história de vida a contar. E suas palavras escritas fazem isso muito bem. És o Pelé dos textos. És um gênio na escrita como Michael Jordan foi no basquete, como Schummy foi nas pistas, como Da Vinci foi nas artes, como Newton e Einstein na ciência, como a mãe é cozinhando.

Agora com 29 anos, muita coisa vai mudar. Vais morar em uma cobertura duplex do Monet e o melhor, dividir o apartamento com o João Paulo “Pebinha”. Ele fará muita falta aqui em Pato Branco. Fará falta em casa como você ainda faz, mas a ida dele tem um propósito nobre. Ele tem tudo para trilhar um caminho de sucesso como você já fez e ainda fará muito mais. Gostaria de escrever mais e melhor, mas as minhas palavras não são adestradas tanto quanto as suas. Parabéns por mais um ano de vida. Que Deus continue te abençoando.

* Eduardo é funcionário concursado da Copel e irmão do meio de LF (este, do blog) e de JP Pebinha, como ele bem diz. É modesto quando diz não lidar bem com as palavras e, com elas, deixou o autor do blog emocionado.
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11 de março de 2010

"Orfeu e Violeta", a melhor segundo os jornalistas

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O romance "mais que relâmpago" entre um jovem de Pato Branco e uma bela moça de Realeza, que se encontram em um ônibus a caminho de Maringá, foi eleito como o melhor texto do Blog do LF pelos jornalistas. "Orfeu e Violeta" obteve 39,5 pontos de 40 possíveis. Anteriormente, a história já havia sido eleita a melhor na opinião dos leitores.

A votação tanto dos leitores, num primeiro momento, e agora dos jornalistas compõe um processo de escolha das 12 melhores crônicas do LF, dentre 17 finalistas – publicadas até a data limite de 18 de setembro de 2009. O resultado será divulgado em postagem futura (e em breve), com detalhes sobre o "livreto" artesanal que contará com essas 12 mais bem avaliadas.

Cinco jornalistas foram convidados a votar, quatro marcaram presença e deixaram sua opinião – dando nota máxima (10) para a melhor entre 17 crônicas e nota mínima (5) para a pior, com pontuação intermediária para as demais. Votaram a editora Elaine Utsunomiya e os repórteres Vinícius Carvalho, Juliana Daibert e Thiago Ramari, todos de O Diário do Norte do Paraná (assim como o autor).
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8 de março de 2010

Sr. 'João sem braço'

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No processo de locação de um apartamento, a informação de que faltava um documento me levou à Associação Comercial e Empresarial de Maringá (Acim). Precisava do SCPC Imobiliário, documento cobrado pelas imobiliárias e que serve para o locatário comprovar que é bom pagador e que tem o nome limpo na praça. Fui à Acim e apanhei a senha: número 67... antes de prosseguir, tenho de dizer que o relato a seguir é baseado em uma boa e uma má notícia.

Vamos começar pela notícia ruim: a fila era "quilométrica". Ainda não haviam chamado a senha 55, todos os assentos estavam ocupados e, pior, pelo excesso de gente o ar-condicionado não dava conta de refrescar o ambiente. Dedici que o melhor era esperar no shopping em frente, bebendo um refrescante suco de laranja com graúdas pedras de gelo e lendo a última edição da revista Veja. Bem melhor do que estar na fila e ter de trocar gotas de suor e olhares cansados com desconhecidos.

O retorno se deu com a senha no número 64. Com a desistência dos números 65 e 66, vencidos pelo cansaço, não demorou e fui chamado. — Vai custar "tanto" — disse a atendente, antes mesmo de fazer a consulta do CPF no sistema. Talvez quisesse se certificar de que eu teria a grana. "Está certo", pensei, não ficaria irritado por aquilo. Irritado fiquei foi com um senhor, que adentrou na sala de atendimento, furando uma fila quilométrica e se fazendo de desentendido. Um genuíno "João sem braço".

O senhor poderia aguardar lá fora que lhe atendo assim que seu número for chamado — disse a atendente, com tolerante simpatia. — Blá, blá, blá, blá... etc — respondeu "João sem braço", de maneira que não consegui compreender nada do que ele dizia. Se passar por velho "gagá" deve ser a última técnica de como furar fila, até porque a atendente rapidamente desistiu de insistir para que ele aguardasse do lado de fora. Devia ter 60 anos, porém, na fila havia três ou quatro com mais idade que ele... e com mais educação também.

Tem um ditado bíblico que diz que as pessoas próximas são as que mais nos desapontam — disse o fura-fila, ao notar que eu o observava com olhar de reprovação.

É possível que ele tenha aceitado ser fiador de alguém da família que, ao que parece há pouco tempo, passou-lhe a perna. Contudo, nunca ouvi ou li tal ditado bíblico. O que sei, da bíblia, é que devemos agir com honestidade até nos mínimos detalhes. É de prática ilícitas de pequena monta que nascem os corruptos, os ladrões, os maus pagadores. O "João sem braço" reclamava de alguém que não agiu corretamente com ele, mas e ele: agiu como homem de bem com todos aqueles que, respeitosamente, esperaram sua vez na fila?

Tal como aquele senhor, o mundo está repleto de pessoas com desvios morais e éticos que sabem (e citam) a bíblia de "trás para frente, decor e salteado" – aí sim, um ditado de verdade. Não disse àquele senhor uma única palavra. Nem foi preciso, um olhar às vezes também vale por mil palavras. O fura-fila esperou "sua vez", na sala, e eu tomei o rumo da imobiliária.

A boa notícia é que o setor jurídico da imobiliária aprovou a locação do imóvel que escolhi. Trata-se de um apartamento situado a cinco quadras do jornal, com dois quartos, cozinha, dois ambientes de sala, vaga de garagem e cobertura com churrasqueira. Melhor que isso, dividirei o apartamento com meu irmão mais novo que, assim como o autor desta crônica, trocou Pato Branco por Maringá sem medo de ser feliz.
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25 de fevereiro de 2010

Quando Tomé conversou com Deus

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A solidão bateu à porta e não esperou ser atendida, entrou sem convite. Veio como o peso de um fardo difícil de carregar e tinha o sabor de tristeza. Poucas vezes Tomé havia se sentido triste como naquela chuvosa noite de sexta-feira. Ele reparava pela janela de seu chalé e pelo som no telhado: hora chovia, hora nevava – o som da chuva e o silêncio da neve são inconfundíveis. Nunca antes tinha se sentido tão só.

O vivido cidadão do mundo não sabia o real motivo daquele sentimento, apenas se sentia só, e triste. Era como se, numa guerra, toda sua tropa tivesse morrido sob fogo inimigo e ele, sozinho, encarasse o árduo desafio de voltar para casa, ensanguentado, mas com vida. Deitou-se e não conseguir dormir. O relógio despertador apontava meia-noite e, na cama, tinha a companhia de uma bela mulher. Adormecida, ela não tinha como perceber a angústia nos olhos e no respirar ofegante de Tomé, não podia fazer nada por ele. Só Deus poderia.

Deus, por pressuposto, estaria mais ocupado com os grandes problemas da humanidade, como a fome, a ganância, a corrupção, o ódio, a falta de fé e de moral. E se Deus estava ocupado, era melhor beber algo a orar. Levantou-se. Não fazia muito frio, mesmo assim pôs calça e camisa de manga comprida.

O relógio de parede apontava zero hora e 15 minutos. "Por que quando as coisas não vão bem a hora não passa", questionou-se. Do armário, sacou a melhor de suas garrafas de vinho. Ligou o computador, o televisor e o aparelho de DVD, apanhou uma revista, encheu a taça. Não navegou na internet nem assistiu ao filme escolhido nem leu qualquer coisa. Brindou consigo mesmo, duas, três taças, enquanto pensava na vida e nos dias que estariam por vir.

Entre um gole e outro... bem, muitos goles depois, Tomé lembrou-se de algo estranho que ocorrera em um culto, em sua primeira ida à igreja no ano. Tomé, bem como seu xará bíblico, era um homem desconfiado e gostava de um ditado por ele mesmo inventado: "Não confie cegamente em nenhum líder religioso, mas leia mais a bíblia". Por isso: bebia vinho; também por isso: não dizia amém para qualquer profecia. Certa vez, ouviu de uma "irmã" da igreja: "Deus me revelou, em sonho, você casado com fulana de tal". Tomé respondeu: "Então peça pra Deus lhe mostrar direito, porque a mim, que seria o mais interessado, Ele não disse nada". Outra vez, ouviu: "Crente de verdade não bebe". E respondeu: "Ah é, então por que Jesus transformou água em vinho e não em suco de maracujá?"

Contudo, o que ocorrera naquele culto, um mês antes, tinha sido diferente. E pensar naquilo, enquanto degustava sem pressa o bom vinho, trazia paz ao coração ansioso de Tomé. Na ocasião, o pastor estava viajando e, no púlpito, uma desconhecia levava a mensagem de fé. Bradava "aleluias", citava decor trechos do Livro Sagrado, falava em bênçãos, etc. Nada diferente do que Tomé, de família protestante, que crescera na Igreja Metodista, já não tivesse visto e ouvido centenas de vezes. Daquela pregação, ele não se recordava de uma única palavra. Enquanto a prepadora falava, Tomé lia trechos da bíblia e, em seu íntimo, conversava com Deus.

Senhor, quando é que tu vais falar comigo? Não aguento mais esta ansiedade — dizia, em oração, sem convicção alguma de que Deus iria ouvi-lo. — Queria saber se devo ficar ou ir embora — pensava Tomé, descontente com os rumos de sua profissão. Era da opinião de que o mundo é grande e interessante demais para um homem passar a vida toda numa mesma cidade, no mesmo trabalho, no mesmo fuso horário.

O telefone tocou. Eram os pais de Tomé, do outro lado do Atlântico, querendo saber notícias do tipo: "está precisando de dinheiro?", da parte de pai; "está se alimentando bem?", da parte de mãe. Há anos havia deixado sua cidade natal e a distância de seus pais e irmãos, e os longos meses sem vê-los, contribuíam em muito para aqueles momentos de angústia e solidão. Despediu-se dos pais, mandou abraços aos irmãos, "calibrou" outra taça de vinho para, então, retomar a reflexão do ponto onde havia parado.

Cansei de ouvir profecias vãs. Queria que Você falasse comigo — disse, em pensamento, de modo que apenas Deus pudesse escutar, caso não estivesse ocupado com afazeres mais importantes. Percebeu todos com os olhos fechados e que o culto estava na oração final, prestes a terminar. Ao dizer amém, como de praxe, foi surpreendido.

Você, de óculos – disse a mulher que levou a Palavra naquela noite. – Sim, você mesmo. Deus está te dizendo que não esqueceu de você – a essa altura, Tomé já estava estático, com os olhos fitos naquela senhora, quase como se estivesse hipnotizado. Ainda era cedo para crer, queria ouvir o que ela tinha a dizer.

Como assim, fui eu que me esqueci de ti. Fazia tempo que não vinha à igreja – retrucou Tomé, em diálogo que se passou em pensamento. – Qualquer um aqui tem te buscado mais do que eu, Tu sabes disso

Você se mantém humilde – prosseguiu a mulher, com a profecia. — Deus tem algo grande preparado pra ti este ano. É algo que você deseja muito e que fará bem às pessoas que te cercam. E quando vai ser? — perguntou Tomé, no silêncio de sua mente.

Tua benção será revelada ainda neste semestre. Eu sei até o mês e o dia, mas não vou te contar — quase sem piscar, Tomé ainda ouviu: — Você tem sido fiel. Não consigo descrever quanto amor Deus sente por ti.

Senhor, lembra quando o apóstolo Paulo disse ser o maior dos pecadores. Garanto que ele não teria dito aquilo depois de me conhecer.

Deus conhece teu coração e sabe os pensamentos daqueles que te cercam — prosseguiu a mulher. — Muitas pessoas sentem inveja de ti, mas te garanto que inveja alguma vai te atrapalhar.

Depois daquilo, os dias de Tomé não foram os mesmos. Nem todo mundo está preparado para o sobrenatural. Gente como Pedro, João, Paulo, talvez, Tomé não. Em noites seguintes, teve sonhos que se repetiam. Eram bons e o advertiam para algo que estaria por vir... e que viria logo. Ao refletir sobre a promessa de bênção, percebeu que o peso da solidão havia partido sem se despedir.

Duas horas mais tarde e uma garrafa de vinho a menos para contar história, teve sono. Fez uma oração, afinal, lembrar da profecia havia feito bem a Tomé, e conseguiu dormir. Despertou cinco horas mais tarde, com o barulho da namorada, que preparava o café. Levantou, com a cabeça pesada do vinho, e não tocou no assunto. Na noite anterior, por fé tinha certeza, Deus havia largado seus afazeres para estar com ele e espantar a solidão. Estava feliz e, bem-disposto, degustava um bauru de forma com cappuccino, já pensando na neve que tinha de remover da calçada.
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3 de fevereiro de 2010

A Parábola do Velho Boi

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Ainda sem pistas do atirador e do que teria motivado o crime, a Polícia Civil informou que intensificará as investigações. Assim, mais ou menos com essas palavras, Moisés, um experiente repórter policial, concluiu sua matéria sobre o atentado contra o prefeito de uma pequena cidade do interior, para a edição da manhã seguinte do jornal. O Estado e a cidade do ocorrido não vêm ao caso. Fato relevante é que o jornalista, por falta de provas, não pôde escrever tudo o que sabia.

Ao chegar em casa, em seu carro de luxo, tarde da noite, o prefeito foi abordado por um homem alto e magro, encapuzado, armado. Ao ser rendido, o prefeito temeu ser executado quando o homem de preto ordenou que ele deitasse no chão, de bruços, com as mãos na cabeça. Não obedeceu. Correu, aos gritos por socorro, e levou vários tiros.

Foi como nascer de novo. Teve a sorte de uma viatura da Polícia Militar cruzar em ronda pelo local, naquele exato momento, e acionar os socorristas do Corpo de Bombeiros. O prefeito foi levado ao hospital da cidade, entre a vida e a morte. O atirador, que por pouco não logrou êxito no atentado, fugiu sem deixar pistas.

Boceta! — exclamou Moisés.
Algum problema? — perguntou o colega de redação da mesa ao lado; um novato.
Eu sei o motivo do atentado e não posso contar.
E qual é?
Boceta, como eu disse antes.

Com 30 anos de experiência no jornalismo de porta de cadeia, Moisés pode não abrir caminho no Mar Vermelho, como seu xará bíblico, mas tem um faro para o crime melhor do que muitos investigadores. Ele sabia que não se tratava de um assalto. Caso fosse, o homem de preto teria demonstrado algum interesse pelo veículo ou, ainda, abordaria a vítima pátio adentro. O atentado também não era por motivação política, não em ano de eleições presidenciais em uma cidade que, com menos de 15 mil habitantes, interessa-se mesmo é pelas eleições municipais.

"Em off" – jargão jornalístico utilizado para dizer que uma informação é sigilosa e que não deve ser publicada – Moisés obteve de fonte segura uma importante declaração sobre o atentado: "foi vingança". O prefeito teria comido demais, e fora de casa. Nenhuma novidade em se tratando de uma prática tão antiga quanto a própria existência do homem e que teve como "adepto" até um ex-presidente dos Estados Unidos. O erro do prefeito foi mexer com a mulher de um policial.

O episódio remeteu outro experiente repórter, esse da editoria de esportes, a se lembrar da parábola do Velho Boi e do Touro Bezerro. Do alto de uma colina, o afoito Touro Bezerro bradou ao ver dezenas de novilhas a pastar no vale:

Vovô, vovô, vamos descer em desabalada carreira para, cada um de nós, pegar uma delas?
Não, meu neto. Vamos descer calma e mansamente, nos infiltrar entre elas e, então, traçar todas — aconselhou o Velho Boi.

O prefeito daquela pequena cidade fez como o vigoroso Touro Bezerro, aconselhado pelo Velho Boi: traçou todas que pôde, literalmente, inclusive a esposa do tira. Fosse ele um sábio, como o Velho Boi, teria medido as consequências. Não se trepa com a mulher de um homem que anda com pólvora na cintura, exceto se você for um sujeito do tipo Chuck Norris, James Bond, Batman e Cobain.

Tu tens certeza Moisés. Foi tudo por causa de uma relação extraconjugal? — questionou o colega novato.
Por uma boceta até grandes homens podem perder tudo, dinheiro, emprego, família, honra e até a própria vida.
Não dá para incluir isso na tua matéria?
Você é louco moleque! Não em uma cidade provinciana como a nossa. Além do mais, a fonte disse em off e não sustentaria a declaração — respondeu o experiente repórter, já de olho no relógio. — Nossa, oito da noite. Vamos comer algo?
Sim, desde que não seja a mulher do policial.
Não brinque com esse assunto, caro Touro Bezerro.
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29 de janeiro de 2010

A Conspiração (ACREdite)

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Pablo Sica tem seus motivos para desconfiar da existência do Acre, o mais isolado dos Estados brasileiros. No 1º Encontro de Twitteiros de Maringá, ele tocou no assunto e deu a impressão de realmente acreditar no que dizia. Falou em uma suposta conspiração para fazer o brasileiro crer que lá distante, mais perto do Peru e da Bolívia do que do restante do Brasil, em meio à Floresta Amazônica, há uma capital e tantas outras cidades. Duas doses de café alcoólico mais tarde, foi além: mencionou algum envolvimento da Rede Globo, que teria com o Acre uma ligação semelhante à da Iniciativa Dharma com a Ilha de Lost.

Alguns dos twitteiros do Grupo dos Nove (G9, como ficaram conhecidos os nove participantes do primeiro encontro) se entreolharam, como se dissessem: "que diabos colocaram no café dele?" No encontro – combinado no Twitter, claro –, mais de 20 confirmaram presença, mas só oito deles cumpriram com a palavra. Pablo, porém, foi o único que compareceu sem anúncio prévio. Marcou presença porque era em Maringá, em chão conhecido. Fosse no Acre, não iria.

No G9 do Twitter maringaense, a maioria é jornalista. Um deles, atiçado pela curiosidade inerente à profissão, marcou um café com Pablo no mesmo shopping do encontro anterior, na mesma livraria. Somente os dois – esposa de um viajando e a namorada do outro, também –, e uma tarde inteira pela frente. Não demorou para Pablo falar da conspiração.

O jornalista aproveitou para fazer muitas perguntas, mas nem em todas obteve respostas. "Há coisas que um incauto talvez não deva saber", cogitou, em pensamento, o jornalista. "Há coisas que é melhor que um jornalista não saiba; não num primeiro momento", deve ter pensado Pablo. O lance de o Acre não existir, ao menos não da forma como ensinam os livros escolares, era inquietante, mas não tanto quanto a participação da Dharma, ou melhor, da TV Globo na dita conspiração. Difícil imaginar que alguém ACREditasse nisso.

Para ser mais convincente, Pablo relatou passagens vividas por dois de seus amigos. Um, das Forças Armadas, havia sido convocado para uma missão no Acre. Outro, voluntário em um clube de futebol do Mato Grosso, acompanharia o time num amistoso em Rio Branco. Antes, ambos não acreditavam na conspiração, agora, ambos já não têm tanta certeza.

 Fui relacionado para uma missão no Acre, no mês que vem  comentou o amigo de Pablo, do Exército, por telefone.
 Pode esquecer. Se minha teoria está certa, vão cancelar a missão.
 Por que cancelariam?
 Porque o Acre não existe  afirmou Pablo, que, no mês seguinte recebeu novo telefonema:
 Meu amigo, estou assustado  disse o militar.  Cancelaram a missão no Acre e nem explicaram o motivo.
 Não te avisei. Qual a explicação para o Acre, que faz fronteira com dois países, ser o único Estado brasileiro sem base aérea  disse Pablo, mais cheio de razão do que nunca.

Outra vez, contou Pablo ao jornalista, um de seus amigos acompanhou um time de Mato Grosso em um amistoso que se daria em Rio Branco. No avião, tão logo o piloto anunciou o procedimento de pouso na capital do Estado, as aeromoças se apressaram em fechar as 'cortinas'. "É um procedimento padrão", diziam, "fechem logo".

 O que houve, por que não pousamos no aeroporto?  questionou o amigo de Pablo, assim como alguns jogadores.
 Tivemos um problema com a torre de comando. Vamos, há um ônibus esperando por vocês  disse o encarregado da recepção da delegação mato-grossense. O que aconteceu dali em diante, conforme relatou o amigo de Pablo, foi surreal.

 Fomos levados a um campo de futebol em um ônibus com vidros escuros. Mal dava para ver do lado de fora. Quando descemos no estádio, a poucas horas da partida, não vimos torcedor algum  relatou.  Vi ali um varredor de rua e perguntei a ele para que lado ficava a cidade. Sem dar uma palavra, o varredor, de macacão cinza, deu-me as costas e continuou varrendo.

Inquieto e irritado, pela falta de respeito do gari, o amigo de Pablo insistiu. Aproximou-se e, ao tocar o ombro do varredor, disse:

 Você pode me responder para que lado fica a cidade?  insistiu. O gari se virou, fitou nos olhos o mato-grossense, que, ao reparar o logotipo da Rede Globo no bolso do uniforme daquele senhor, ficou perplexo e, até deixar o Acre logo após o jogo, não tornou a abrir a boca. Sentiu medo. Existiria, de fato, a uma conspiração envolvendo o Acre? Correria ele algum risco? Por que eles não foram levados para visitar a cidade? De qualquer forma, para o amigo, Pablo já não parecia tão insano quanto antes.

Regada a um bom café com torta de limão, a conversa prosseguia sem pressa, na cafeteria do shopping. O jornalista não se dava por convencido, até porque ele não conhecia os dois amigos de Pablo. Conhecia, sim, uma ex-colega de faculdade que, dias depois da colação de grau, mudou-se de "mala e cuia" para Rio Branco.

 Tenho uma amiga que mora em Rio Branco há cinco anos. Se formou em Jornalismo comigo e hoje dá aulas na Universidade Federal do Acre. O que você me diz disso?  perguntou a Pablo, em tom de confronto.

 Depois que essa tua amiga foi para lá, você a encontrou novamente, falou com ela?
 Sim, conversamos com alguma frequência pelo MSN. Ela diz estar feliz por lá.
 Ok, MSN. Mas você a viu pessoalmente depois que ela foi para o Acre.
 Não.
 Algum de teus colegas de faculdade a viu?
 Não que eu saiba.
 Ela já retornou de lá para visitar os amigos?
 Não! – e a essa altura o Jornalista já começava a temer pela colega.
 Algum conhecido já foi visitá-la e voltou para contar história?
 Acho que ninguém foi visitá-la.
 Até que alguém faça isso, e prove, lamento te dizer: talvez vocês não vejam mais essa amiga.

O gole seguinte de café teve sabor de suspense, um misto de pavor e medo. Segundo Pablo, a colega de Jornalismo não corria risco de morte, mas, por algum motivo que ele mesmo desconhecia, jamais retornaria do Acre. Mistérios da conspiração. Talvez ela também estivesse usando macacão ou jaleco com logotipo da Globo.

 Ela me convidou para ir visitá-la  comentou o jornalista.
 Eu não iria – disse Pablo.  Estão querendo te recrutar, é assim que funciona.
 E se de fato houver algum mistério por trás do Acre e eu for vê-la?
 Aí não tornaríamos a vê-lo, infelizmente.
 E os heróis do Acre, como Plácido de Castro e Chico Mendes, o que você me diz deles?
 São personagens dos livros escolares. E faz tempo que não acredito mais na versão oficial que nos ensinam sobre o Acre.
 Quer saber, vou visitar minha colega no Acre, mas só se ela vir de lá antes.
 Nem assim eu iria  exclamou Pablo.  Terminou o café?
 Sim.
 Garçom, a conta por favor.

Publicado também em: Mais1Livro.com

Translation into English
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23 de janeiro de 2010

Mensagens de Natal

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Conta a história que o primeiro cartão de Natal comercializado data de 1843. Teria sido bolado em Londres, por Henry Cole, com ilustração de John Callcott Horsley. Trazia a imagem de uma família unida e feliz, com uma criança de colo e vinho posto à mesa. Talvez estivessem eles mais sob efeito da bebida fermentada do que felizes, mas, de qualquer forma, a ideia do cartão de Natal vingou. Décadas depois, tornou-se prática comum entre os cristãos.

Ainda hoje, o cartão é uma das maneiras mais utilizadas, e mais baratas, de desejar felicitações a quem se quer bem na data mais importante do calendário cristão. Todo pão-duro, que quer marcar presença sem gastar muito, encontra nos velhos cartões a solução para o problema – em vista do custo-benefício.

Duas guerras mundiais e vários conflitos armados depois da sacada de Cole e Horsley, multiplicaram-se as maneiras de desejar feliz Natal. Isso não por remorso, muito menos por fé em Cristo, mas puramente pela vontade capitalista de ganhar dinheiro em cima de produtos pensados por engenheiros, designers, etc, e comercializado por mentes publicitárias. Então os cartões, antes apenas manuscritos, agora vêm até com música polifônica. Para quem tem grana, as opções são as mais variadas, e caras. Passar as festas de fim de ano em Paris, por exemplo, e enviar de lá alguns postais natalinos é chique... embora haja o risco de o "new parisiense" parecer esnobe.

Há quem prefira contratar um papai noel de barba postiça para entregar os presentes. A opção é um tanto brega, mas o cachê segue fazendo a alegria de velhinhos barrigudos e aposentados, todo mês de dezembro. O Papai Noel, por si só, é brega. Contudo, bastou um publicitário da marca mais famosa de refrigerantes pôr nele roupas vermelhas, e dizer que ele vinha do Polo Norte, para parecer chique também – para alguns, acreditem, tanto quanto ou mais que um cartão com selo francês e carimbo de Paris.

Mais antiquado que os noéis barrigudos, de barbas postiças e que – crianças, prestem atenção – não moram no Polo Norte e não gerenciam o trabalho de duendes-operários da fábrica de brinquedos, são as mensagens por telefone. Mais brega que isso tudo, indiscutivelmente, é o carro de som (ou, pior, bicicleta de som) na porta de casa. Não duvide da capacidade humana em querer aparecer. Há sempre alguém disposto a felicitar, parabenizar, paquerar, etc, do jeito mais escandaloso. Dizem até que o Papai Noel conquistou a Mamãe Noel com um trenó de som, com direito a Jingle Bells e roupas de baixo comestíveis... bem, o que os outros fazem entre quatro paredes não nos diz respeito.

Com tanta opção no mercado, os cartões virtuais são como mísseis de longo alcance, teleguiados. Nenhuma outra maneira de desejar feliz Natal é tão abrangente, tão prática, tão em conta. Pela internet, é possível enviar um cartão para o outro lado do mundo e para o colega de trabalho ao lado com a mesma rapidez – e sem custo adicional pela quilometragem. Tóquio, Nova York, Londres, Dubai, Antananarivo e Pato Branco são todas, ao menos na web, logo ali.

Os cartões virtuais de sites especializados, encaminhados para o email do destinatário, são na web a maneira mais clássica de enviar felicitações de Natal. Contudo, num ambiente que muda tão rapidamente, tais cartões estão caíndo em desuso. Na moda, agora, estão os gifs. Traduzindo: trata-se de imagens animadas, que os internautas enviam a seus contatos em redes sociais virtuais, como Orkut e Facebook e que, quase sempre, não agradam quem as recebe.

Coisa que não cai em desuso é o SMS, popularmente conhecido como "torpedo". Já falaremos disso. Antes, é preciso comentar sobre a última das últimas em se tratando de cumprimentos natalinos: os #FF (Folow Friday, que em 2009 caiu numa sexta-feira) de Natal no Twitter. Nesse caso, o usuário escreve para seus seguidores algo como:

#FF especial de Natal para os queridos @FulanodeTal @CiclanodoBar @Natalino @Siliconada @GirlFatal @ElizabethQueen – por exemplo. Ao contrário dos cartões por email e dos gifs, essa modalidade de feliz Natal parece não ter enjoado.

Conheço dezenas que não abrem mão do SMS. Helitron von Kaík é um deles. Sujeito de aparência dinamarquesa, de estatura pigmeia, de bondade ímpar e coração verdadeiro, de várias histórias e muitas esposas, que já é alfabetizado digitalmente e tem até Orkut; no Natal passado torpedeou todos seus mais chegados, inclusive seu primo jornalista (que responde por esta crônica). A este, pouco depois da meia-noite, enviou a carinhosa mensagem:

– Feliz Natal. Que Deus te abençõe... beijos gatinha! – escreveu. Coisas de Helitron, que, prefiro imaginar, enganou-se no intuito de agradar alguma namorada. Ninguém deseja, a essa altura do campeonato, duvidar da masculinidade do Di Caprio da família. Engano ou não, arrancou risos de todos presentes à ceia.

Há, no entanto, mensagens desse naipe enviadas de propósito, como uma outra recebida pelo mesmo jornalista, de outro primo:

No Natal, todos pensam no Papai Noel, mas se esquecem dos veadinhos que puxam o trenó. Eu lembrei de todos. Feliz Natal!!! – dizia o torpedo. Disso, tiro uma conclusão: o primo caminhoneiro deve ter investido horas de grande esforço mental, durante alguma estressante viagem em que lutara para se manter acordado ao volante, pensando na dita mensagem de Natal. Ou, ainda, a recebeu por email de algum funcionário público aspirante a humorista.

Passadas duas noites da ceia de Natal, em outro jantar em família, o caminhoneiro esclareceu ter recebido a mensagem, aquela dos "veadinhos do trenó", de um conhecido. E quis apenas compartilhar o momento com seus queridos primos. Uma outra, mais misteriosa, ele leu aos presentes naquela ocasião, não sem antes estender o prato para o repeteco do peixe assado. E que peixe... outra hora passo a receita.

– Não sei como te dizer isso, mas é melhor que você saiba por mim – dizia o SMS. – Só não te disse antes por medo de te magoar. Mas você tem de saber a verdade e tem de ser forte. Muitas vezes somos enganados e nos decepcionamos com a verdade. Seja forte e aceite a realidade: Papai Noel não existe (kkk). Feliz Natal! – por sorte, não havia criança alguma por perto.

Quem estava por perto era Edinelson von Kaík. "Vocês precisam ver uma que recebi de meu irmão", disse ele, referindo-se a Helitron, que, novamente, não estava presente. Ao ler a dita mensagem, a mesmíssima do "beijos gatinha", uma nova onda de risos tomou conta do ambiente. Se rir faz bem ao coração, todos ali ganharam uns cinco anos de vida... e uma porção de dúvidas acerca do parente.

Teria Helitron encaminhado a mensagem a todos seus contatos? Estaria ele apenas zoando com todos? Estaria, ainda, revendo suas preferências (sexuais, por que não)? Pior, teria ele enviado o torpedo a seu chefe? Correria risco de ser demitido? Sobre o fato, Helitron ainda não foi sabatinado pela família, mas será. Ainda não foi demitido, mas... todos esperam que não seja.

Quando os britânicos Henry Cole e John Callcott Horsley pensaram o primeiro cartão de Natal, não faziam a ideia da dimensão que tomaria o invento. O manuscrito pintado a mão, indiretamente, inspirou outras formas de se desejar feliz Natal. Inspirou Helitron, que, com o torpedo do "beijos gatinha", deve ter feito com que Cole e Horsley se revirassem em seus túmulos. E o jornalista, com o coração mais jovem, ainda que 30 dias atrasado, deseja um feliz Natal a todos que não pôde ver pessoalmente.
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