28 de junho de 2009

Cobain e o universo feminino

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Poucas pessoas que conheço têm autoestima tão elevada quanto Cobain, um amigo de faculdade com quem editei, no início da década, um folhetim acadêmico chamado "O Contiúdo". Publicitário, dono de ideias mirabolantes, afirmava com convicção que "supermercado é o melhor lugar que existe para arrumar namorada". Por experiências malsucedidas, sempre discordei da "máxima" criada por ele, porém, jamais ousei duvidar das verdades ditas por um colega que conhece como poucos o universo feminino.

José Mayer
Panca de galã, moreno de pele clara, 1,82m de altura, Cobain é um cara desinibido, mesmo perto das mais belas mulheres. Em número de namoradas, é possível que só perca para James Bond, Don Juan e José Mayer, com o pertinente detalhe: o publicitário nunca fez novelas, não é agente secreto nem tem emprego fixo nem um esportivo Aston Martin na garagem – aliás, nem carro ele tem. Nada disso, no entanto, pesa nas investidas de um conquistador de seu calibre.

Certa vez no Sabiá, o bar que serve o melhor e mais reforçado café da manhã de Pato Branco, questionei o ex-colega de "O Contiúdo" sobre como é possível o supermercado ser o melhor lugar para paquerar se a maioria das mulheres que fazem as compras são casadas. O amigo do ditado fácil – "solteiro sim, sozinho nunca" – respondeu: "não sou ciumento". Difícil acreditar na cara-de-pau do cidadão? Não se você conhece Cobain pessoalmente.

Muitas dicas depois, passei a reparar mais nas jovens clientes – no meu caso apenas as solteiras, porque odeio confusão – nas idas ao supermercado. Da última vez, estava no setor onde ficam os objetos de papelaria quando, de repente, surge uma linda garota, de cabelos ondulados e olhos verdes, de 17 anos (talvez 18). Pensei ser meu dia de sorte, doce ilusão.

"Se eu comprar uma lapiseira, precisa ser 0.7, porque 0.5 já tenho duas. Mas tem de ser uma lapiseira, porque se comprar um lápis vou precisar também de apontador", falava a guria, consigo mesma. "Acho que vou levar uma caneta também. Oooooolha essa do Mickey que legal", e fazia pausas como se ouvisse alguém do lado dela, ajudando-a a escolher o produto. Antes mesmo que a linda e assustadora guria notasse minha presença, "piquei a mula".

Ao contrário de Cobain, capaz de distribuir cantadas inclusive na prateleira do leite ninho, logo percebi que esse negócio de paquerar em supermercado não é minha praia. Numa outra oportunidade, rolava o maior papo com uma bela loira balzaquiana, sem anel nos dedos, promotora de uma marca de café, quando ela disse: "o tipo Gourmet é o favorito de meu marido, que é policial". Que safada, casada e jogando charme! Desconversei e fui embora, mas creio que Cobain, em meu lugar, teria ficado e traçado a mulher do tira – e sem o menor receio de acordar com a boca cheia de formiga.

Pingado em copo americano para beber e, para comer, ovo frito, costelinha de porco e "sanduíche" de polenta com queijo. Enquanto degustávamos o café da manhã do Sabiá, Cobain me confidenciou uma de suas mais mirabolantes aventuras. Na minha opinião, até então, o grande feito dele tinha sido se envolver com mais de uma de minhas colegas do curso de Jornalismo e com mais de uma das colegas dele, de Publicidade e Propaganda, ao mesmo tempo, sem que alguma delas desconfiasse estar dividindo o amado com a amiga de classe. A nova proeza, entretanto, vencia fácil a anterior.

Meses antes daquele café sem pressa, Cobain havia viajado com amigos, em férias, para o litoral paranaense. Já no segundo dia de praia, talvez por piscar demais para a mulher de alguém, foi expulso da casa alugada pelo grupo. Sem grana, sem amigos e dependendo de carona para voltar para casa, rumou à praia, onde planejou passar a noite. Com calma, pensaria em alguma saída na manhã seguinte.

O sol se pôs, dando lugar a uma bela noite de lua cheia. Sentado na areia, sobre sua camiseta e com a mochila ao lado, Cobain admirava a paisagem, com os olhos fitos no horizonte e os ouvidos concentrados no quebrar das ondas. "Oi", foi o que ele ouviu antes de mudar o foco de uma para outra paisagem. Quase como se tivesse surgido do além, estava ali ao seu lado, cumprimentando-o com uma simpatia fora de série, uma morena (também fora de série) de parar o trânsito. Mesmo o preparado Cobain, de tantas histórias, sentiu um frio na barriga naquele momento.

– Reparei que você está há mais de duas horas aí sentado, sozinho. Algum problema? – perguntou a moça.

– Parei para admirar o pôr-do-sol e gostei tanto que acho que vou dormir por aqui, na areia – respondeu Cobain, sincero, até aquele momento.

Indignada com a situação do pobre (porém bem apessoado) rapaz, quis saber mais sobre Cobain. Como em nada se parecia com um mendigo ou sem-teto, por que haveria de passar por aquilo, deve ter se perguntado a moça, filha de um conhecido médico da redondeza – mas que estava fora da cidade curtindo bodas-de-alguma-coisa com a esposa. O galanteador de plantão soube, então, que ela estava sozinha em casa. Os problemas dele tinham acabado.

– Assim que me formei em Publicidade, pus a mochila nas costas e saí por esse mundão, sem rumo. Durmo ao relento quando ninguém me dá abrigo – inventou... e prosseguiu – mas tem valido a pena por causa de noites maravilhosas como essa e de mulheres lindas como você – lançou seu charme, usando doces palavras para conquistar a jovem filha do médico.

Algumas vezes Cobain me aconselhou: "tu tens de falar aquilo que as mulheres desejam ouvir, e só". O conquistador-mor de Pato Branco disse tudo o que aquela bela jovem, de curvas perfeitamente esculpidas, queria ardentemente ouvir. E sussurrou ao pé do ouvido, enquanto acariciava a pele macia dela. Falou frases românticas, falou frases picantes, falou frases impróprias para menores e deixou que ela "falasse" no momento em que a levou ao estado de nirvana.

Na casa do médido, de incontáveis quartos, Cobain dormiu pouco, mas dormiu bem; comeu bastante, e comeu bem (e em mais de um sentido da palavra); e se safou de passar a noite ao relento. Na manhã seguinte, foi acompanhado à rodoviária pela encantadora companhia que, pasmem, pagou sua passagem de volta. Tinham curtido se conhecer, embora sem apresentações mais detalhadas. "Posso saber o teu nome", perguntou a moça. "Melhor do jeito que está, para que meu coração não sofra de saudades", respondeu Cobain, antes de embarcar, antes de nunca mais se verem.

Naquele mesmo café da manhã, sugeri a Cobain: "conte-me mais dessas histórias para que eu possa escrever um livro". A obra poderia se chamar: "Como levar as mulheres ao 'nirvana'". Sobre paquerar no supermercado, estou certo de que é uma boa estratégia, desde que o galã seja do nível de James Bond, Don Juan, Zé Mayer e Cobain. Este, vale ressaltar, nunca precisou de um Aston Martin nem de "licença para matar".


9 de junho de 2009

A lucidez de Barack Pandeiro

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Poucas vezes houve um happy hour tão divertido quanto naquela noite de quinta-feira, de céu estrelado e temperatura namorando a casa dos 5°C, em que um grupo de amigos do jornal da cidade escolheu para comemorar o aniversário de Mary Jane. Depois de um árduo dia de trabalho, nada melhor do que estar entre amigos - e rir da vida - para relaxar.

Fora Galletto Paulista, que de costume pede uma caninha para aquecer a garganta, todos brindaram a noite apenas com cerveja. "Beber sem brindar, dez anos sem tran...", lembrou um dos viventes, como se aquilo fosse necessário para garantir que a primeira rodada trouxesse sorte, na vida amorosa, a cada um ali presente. O riso foi inevitável, até porque um da turma bebeu antes do brinde.

O garçom trouxe minipastéis – de carne, de queijo, de vento –, e porções fritas de mandioca, batata e asinhas de frango. À medida que novos colegas davam o ar da graça, no boteco com nome de Escritório (mas com cara de boteco, é claro), o tinir do sino anunciava que, lá da cozinha, algum tipo de fritura estava a caminho. "Vê mais uma, bem gelada", era a frase mais ouvida pelos garçons, especialmente quando algum atrasado amigo surgia para reforçar o time.

Eis aí a grande diferença entre dois tipos de loiras que encantam os brasileiros. Para ser boa, uma precisa ser bem gelada, a outra tem de ser quente. Piegas a comparação? Ninguém naquela mesa, naquela noite, concordaria. Pelo contrário, piadinhas desse gênero surgiram aos montes.

Galletto, Pelicano e Dójão Augustowski foram os primeiros a chegar. Dójão, vale ressaltar, chegou inquieto: havia sido cantado por uma "funcionária" de um fervinho enquanto passava de carro, possivelmente a 15 quilômetros por hora, em frente à casa de luzes avermelhadas. Tão logo o jornal da manhã seguinte foi para as rotativas, rumaram para o boteco Sensação, Mortal, Ipanema - a menina nova no jornal - e a aniversariante, Mary Jane, que busca por um homem-aranha para chamar de seu.

Depois do primeiro tintim, chegaram ao recinto O Cara, Sanzico e Sãozico – nomes parecidos para indivíduos que, por vontade de suas mães, nasceram para homenagear um craque do Mengão. Só que, por obra do acaso, ou por pura revolta dos tempos de adolescência, um escolheu torcer para o Santos e o outro, para o São Paulo. E ambos lidam diariamente com bits, bytes, giga, url e elementos do tipo para pagar suas contas.

Quando pessoas de bem se reúnem, quando não há desavenças entre integrantes do grupo, quando estão juntos para falar de tudo, menos de trabalho, a alegria passa a ser protagonista do enredo. Sem medo de exagerar, assim foi naquela noite, especialmente após a chegada de Pandeiro, o homem dos esportes do jornal, um dos sujeitos mais de bem com a vida em Maringá.

Conhecido frequentador dos bares da Vila Operária, chegou e foi ovacionado pelos amigos, como se fosse um toureiro em dia que o touro levou a pior. No jornal, é um cidadão um tanto quieto, embora sempre bem humorado. Às vezes, cantarola alguma música antiga; às vezes, sai com alguma piada rápida para descontrair os colegas de redação. A melhor versão dele, no entanto, desabrocha no happy hour com os amigos de boteco.

"O Barack Pandeiro chegou", exclamou alguém ao colega, um moreno de cinquenta-e-poucos-anos que não aparenta a idade, mesmo com os cabelos grisalhos cacheados. "Que Barack nada", respondeu Pandeiro, em tom de piada. "Como é que pode me comparar com aquele negrinho que não tem ideia do que seja uma roda de samba, que não gosta de futebol e que nunca bebeu uma cachacinha". Enquanto a maioria ainda recuperava o fôlego, Sensação emendou: "vai virar crônica no blog!" Boa profecia: a crônica é esta, lida neste momento.

Certa altura, início da madrugada, os casados começaram a tirar uma onda com os solteiros. A proximidade dos Dia dos Namorados talvez justifique a brincadeira. Mortal pagou seus pecados nas mãos de Pandeiro, que queria entender o porquê dele estar sozinho se existe uma linda paquera na mesa ao lado, no jornal. O sábio Pandeiro de muitas rodinhas de samba, do bom torresminho e do chope gelado, bradou: "se você ainda não encontrou a mulher certa, meu jovem, divirta-se com a errada!"

Pandeiro chegou atrasado porque passou visitando alguns barzinhos no caminho, como de costume. A maioria ali, pelo alto nível das piadas, das brincadeiras, questionava-se sobre Pandeiro: "que marca de cerveja deram para ele beber, antes de chegar aqui?" Mesmo com muito sangue na cerveja, a lucidez de Pandeiro impressionou, engasgou (em decorrência dos risos) e animou a cada um dos presentes. Foi, de longe, a celebridade da noite. O presidente Obama teria dito: "this is the man!"


A pedido de colegas, o autor alterou um dos codinomes originais: de "Autustóvis" para "Dójão Augustowski".
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1 de junho de 2009

Solução para a crise econômica: gastar

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Maringá, sexta-feira, 23 horas. Happy hour após uma longa semana de trabalho, num barzinho chamado Escritório - coisa de workaholic. Disse ao colega repórter: pega uma mesa legal que vou ao banheiro e já volto.

Ao retornar, o prestativo amigo tinha pedido um chope 500ml, uma porção de quibe e, tendo em mãos um folheto de bar, ria de uma piadinha que acabara de ler. De autoria desconhecida, publidada no Cheng-Pong, número 533, em folha A4:

"Quase noite, numa pequena cidade do interior, chovia muito, fazia frio e as poucas ruas estavam quase totalmente desertas. Eram tempos muito difíceis e todos tinham dívidas e viviam de empréstimos.

De repente, chega à cidadezinha um turista muito rico, um cara alto e garboso, tipo galã de novela, dono de um BMW do ano. Entra no único hotel da cidade, coloca sobre o balcão uma nota de R$ 100 e sobe as escadas para escolher um quarto.

O dono do hotel pega os R$ 100 e corre para pagar sua dívida com o açougueiro, um baixinho invocado que costuma acertar no 38 as contas com quem tenta passá-lo para trás - fez isso com o padeiro que dormia com sua ex-mulher (que desapareceu misteriosamente).

Com a grana, o açougueiro paga o criador de gado, que acerta a dívida com sua prostituta preferida. Ela que, por conta da crise, havia trabalhado fiado - e como trabalhou!

A mulher corre para o hotel e paga pelo quarto que alugou para atender seus clientes. Nesse instante, o turita desce as escadas descontente com os quartos, porcamente arrumados, para reclamar com o proprietário. Enquanto observa, discretamente, os peitos da garota de programa, pega o dinheiro de volta e vai embora. E leva a garota junto.

Incrivelmente, bastou meia hora para aquela mesma nota retornar ao turista. Ninguém ficou com mais dinheiro no bolso, porém, toda a cidade vive hoje com R$ 100 a menos em dívidas e, talvez por isso, otimista por um futuro melhor."


Faz sentido! Tanto é que se o presidente Lula ler algo parecido vai querer utilizar a história para explicar, da maneira mais didática possível, o porquê o brasileiro tem de gastar para que o País supere a crise.

Foi o colega de redação e amigo Vinícius Carvalho quem encontrou o texto acima no panfleto de bar. Graduado em Jornalismo, ele é formando em Economia - o que também faz sentido! O bom é que agora sei o que fazer quando encontrar por aí uma daquelas notas (em extinção) de "cenzão": vou torrar no reteste para a carteira de moto.


PS.: o texto do folhetim sofreu alterações antes de ser publidado no Blog do LF.
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30 de maio de 2009

Azar no jogo...

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Como é mesmo aquele conhecido ditado popular: "sorte no jogo, azar no amor" ou a ordem correta seria "azar no jogo, sorte no amor"? De qualquer forma, tenho dúvidas sobre o caráter "profético" do ditado, do contrário estaria eu (um mero mortal) namorando a belíssima e talentosa Ana Paula Arósio - ou ao menos já a teria conhecido. Força de expressão à parte, no jogo da vida, tenho lançado dados para tirar sucessivos 1.

Toda má fase existe, entretanto, para ser superada, sob o princípio cristão de que Deus só permite desafios que possam ser vencidos - o apóstolo Pedro (aquele que negou a Jesus três vezes para, após o arrependimento, tornar-ser o líder da igreja cristã) que o diga. Numa escala bem menor, precisava fazer o mesmo e o belo nascer do sol em Maringá, na última quarta-feira de maio, dava a impressão de que isso seria possível. Destarte, estava animado.

Acordei às 6 horas aquele dia, tomei banho quente e gostoso e, por pura falta de fome, saí de casa sem comer. O Sólido (foto), meu lustrado Fusca ano 1975, bicolor, não desapontou e deu partida como se tivesse injeção eletrônica. Parei no primeiro posto para abastecer, tomei aquele café cremoso de máquina (tipo caça-níquel) e rumei em seguida a um dos bairros mais afastados do Centro. Antes das 7 horas, cheguei à pista particular da autoescola para dar algumas voltas numa surrada Honda CG 150cc.

Na preparação derradeira antes do teste, executei o percurso cinco vezes, todas com perfeição. Estava tranquilo e com a ansiedade sob controle, bem o oposto de quando tirei a habilitação tipo B, para dirigir carros, há dez anos. Sentia-me o Valentino Rossi sobre duas rodas.

Quem é habilitado a dirigir motos não precisa ler este parágrafo. Para tirar a licença, não é necessário sair às ruas, transitar entre veículos maiores nem dar preferência aos pedestres. Basta apenas percorrer um circuito que inclui um "oito" tipo autorama, uma prancha com cerca de 30 centímetros de largura, uma rampa, algumas paradas obrigatórias antes de faixas de pedestre em miniatura e desenvolver quatro trocas de marcha. Como se "tuuudo" isso fosse capaz de definir se o cidadão está apto ou não a dirigir um veículo motorizado de duas rodas em meio ao trânsito tantas vezes infernal.

Na pista da 13ª Ciretran, dois profissionais ficavam atentos a cada movimento dos candidatos a motoqueiro. Um deles, descendente de japoneses, esforçava-se para falar em tom mais grave, como se fosse ele um delegado e os demais, presos na carceragem. A impressão era de que ele tinha chupado limão, verde. O outro, baixinho e com alguns traços italianos, nada falava, mas muito anotava em sua prancheta.

Fui o terceiro a encarar o circuito, numa lista que seguramente passava de cem pessoas. Pulsos firmes e braços relaxados, parti para minha volta sem a devida concentração. Talvez pelo excesso de confiança - ou pela falta de medo que nos faz redobrar a atenção - "pisei" com o pneu traseiro na linha e, tão logo terminei a prancha, o fiscal baixinho gesticulou anunciando minha reprovação. Inconcebível falha. Penso que se tivesse outras 99 voltas, teria êxito em todas.

Ao conduzir a moto para o "estacionamento", sob olhares de uma centena de nervosos espectadores, senti-me como um piloto de Fórmula 1 que, confiante em uma boa corrida, tem de retornar aos boxes com o carro avariado após uma batida. A sensação, experimentada até pelos lendários Ayrton Senna, Alain Prost e Michael Schumacher, não é nada agradável, posso garantir. Agora sei que devia ter optado por uma volta a la Rubens Barrichello, ou seja, com toda cautela, prudência e sem excesso de velocidade.

Já sem o capacete, pensei: "a má fase permanece". Tive a vontade de gritar de raiva, e também de reclamar daquela quarta-feira no Procon, por propaganda enganosa. Do lado de fora do cercado do "autódromo", o instrutor me alcançou uma cuia de chimarrão, para depois informar: "o reteste custa R$ 100". Bom, em tempos de azar, deve ser esse o preço cobrado pelo destino para se ter sorte no amor ou, quiçá, ver a Ana Paula Arósio de perto. A essa altura, é melhor ter fé do que ser incrédulo.

Também publicado em: Recanto das Letras e O Alvo.
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19 de maio de 2009

Canáááááááários!

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Há quem diga que jornalista só anda junto. Não é verdade, mas quando andam em grupo, fora da rotina de trabalho, costumam aproveitar com intensidade cada momento. Isso, sim, é verdade. Foi o que aconteceu no domingo, último dia da Expoingá 2009.

“Vou levar minha sobrinha nos brinquedos do parque, vamos juntos?” A ideia foi da repórter setorista de saúde, Lois Lane, que recebeu a demonstração de interesse de um bom número de colegas. Contudo, na hora de enfrentar o desafio apenas O Cara, Dzã-dzã-dzã, Mortal e Sensação – além de Lois e a pequena sobrinha – marcaram presença no ponto de encontro: o próprio jornal.

Já no Parque de Exposições de Maringá, por volta das 18 horas, o jeito foi encarar longas filas em cada um dos brinquedos. O primeiro deles foi eleito por unanimidade: o bate-bate ou tromba-tromba – que lá em Pato Branco se chama carrinho de choque. Um clássico dos parques de diversão, capaz de fazer qualquer marmanjo se sentir dez anos mais jovem, no mínimo.

A julgar pelo trânsito da cidade, Mortal questionou os colegas se não seria ali o local onde os maringaenses aprendem a dirigir. Na “autoescola”, ou melhor, no bate-bate a maioria dos “clientes” geralmente são crianças, mas chegada a vez dos jornalistas, por coincidência ou não, a maior parte dos “motoristas” eram adultos. Dzã-dzã-dzã, que tirou em Maringá a habilitação para dirigir, parecia o mais familiarizado com os carros de um único pedal, movidos à eletricidade. O Cara, o mais alto da turma, teve certa dificuldade para acomodar as pernas dentro do cockpit.


Na literatura, fala-se muito da fonte da juventude. Essa é, quem sabe, a melhor analogia para definir um brinquedo feito para crianças, mas que segue encantando pessoas de todas as idades. Dali, os rejuvenescidos amigos partiram para os brinquedos mais radicais. O mais impressionante deles era também o mais caro. O ingresso do extreme custava R$ 5, dos demais brinquedos R$ 3.

Trata-se de um pêndulo com quatro bancos, cada qual com quatro assentos. Atinge altura maior que o barco viking e velocidade superior ao kamikaze. Para piorar, além do movimento pêndulo, o aparelho gira os assentos no sentido horário, proporcionando mais: emoção, frio no estômago, náuseas, falta de fôlego, medo, tontura, entre outros efeitos colaterais. Na fila, o jeito era não fitar os olhos no brinquedo, para não correr o risco de uma desistência súbita.

Chegada a hora de encarar o extreme, Lois sugeriu o seguinte grito de guerra: “canáááááááários”, com um 'A' acentuado para cada integrante da galera – reforçada com a chegada de OFFíssima e de seu noivo argentino. E foi o que mais se ouviu do grupo, tão logo o botão “on” do aparelho foi acionado. Quanto mais altitude e velocidade tomava o pêndulo, mais canários eram ouvidos. É em horas como aquela que surgem três inevitáveis e pertinentes perguntas: “que diabos estou fazendo aqui? Será que vou aguentar sem vomitar? Quando é que essa M. vai parar? Para quem vê de fora é questão de segundos; para quem resolve encarar, a “bagaça” leva uma eternidade.

Todos sobreviveram, lógico que com doses de pânico e adrenalina distintos. Não satisfeito com a liquidificante experiência, O Cara bradou: “vamos na montanha-russa agora?” Para o estômago de OFFíssima e seu noivo, o extreme foi o suficiente, mas os demais toparam a ideia de O Cara. Como diz a nova máxima: brasileiro não desiste nunca!

Por mais que os engenheiros se dediquem a projetar novos brinquedos, a montanha russa segue com o status de “Pelé” dos parques de diversão, veste sempre a "camisa 10" e se destaca fácil entre os demais brinquedos. Parte da adrenalina que ela proporciona, vale ressaltar, vem do som dos carrinhos sobre os trilhos e do deslocamento de ar dos bólidos em alta velocidade. Provavelmente são projetadas por sujeitos dementes que, nos tempos de faculdade de Engenharia, passavam horas projetando instrumentos de tortura para testar nos calouros.

Na montanha-russa composta por uma grande descida inicial, um looping e várias curvas fechadas, a sensação de medo foi maior que no extreme. Mortal e Lois, que em oportunidades anteriores já haviam encarado as cruéis montantas-russas invertidas, que o digam. Sensação ficou pálida, a pressão arterial de Mortal desceu para amarrar seus cadarços e O Cara, após segundos de gritos sem tomar ar, ficou em silêncio – sabe lá quais efeitos colaterais acometeram o pobre homem. Enquanto isso, Lois, sua sobrinha e Dzã-dzã-dzã já pensavam na próxima aventura.

Os três incansáveis (loucos, por que não) foram numa “roda gigante velocista”, mais rápida que todos os demais brinquedos. O "trem" girava sem piedade e sem preguiça, a princípio na horizontal, inclinando para a vertical aos poucos. Sensação tirava fotos, O Cara reparava na aparência dos três – Lois de olhos fechados, sua sobrinha de olhos arregalados e Dzã-dzã-dzã vermelho como um pimentão –, enquanto Mortal contava o número de voltas rápidas, capazes de fazer Rubens Barrichello voltar a vencer uma corrida.

Alguém ainda ousou, e desta vez não foi O Cara, comentar: "não vamos no kamikaze?" A infeliz ideia foi seguida de um uníssono "nããããão!" Pudera, naquela altura do campeonato ninguém queria encarar um "piloto suicida japonês", todos queriam mesmo era um pastel banhento com Coca-Cola, para ajudar a descer. Extreme, montanha-russa e similares... deixa para o próximo ano.
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11 de maio de 2009

O vício não vale a pena

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Há vários séculos, um sábio respeitado por seu povo foi procurado por uma mãe. Preocupada com a saúde de seu filho, ela pediu para que ele aconselhasse a criança a não comer tanto doce. Por algum motivo, diabetes talvez, o pequeno passava mal com a ingestão de açúcar - mesmo assim não dava ouvidos à sua mãe. O sábio, a quem o menino admirava, respondeu: “voltem daqui um mês”.

Taís Araújo
O tempo passou e a mulher retornou, ansiosa para saber o que o sábio teria a dizer. Seriam palavras memoráveis, apostava ela. Para surpresa da mulher, foram apenas simples palavras. “Pare de comer doces”, aconselhou o homem, com a voz firme e pausada, fitando o adolescente nos olhos. Indignada, aquela mãe questionou: “se era apenas isso, por que o senhor não falou da outra vez que estivemos aqui?” O sábio respondeu: “porque há um mês eu ainda comia doces”.

Ao relembrar dessa estória, passei a lamentar uma experiência que tivera dias antes.

Sou aficionado por Fórmula 1 desde o tricampeonato de Nelson Piquet, em 1986. Meu entusiasmo pela principal categoria do automobilismo mundial não diminuiu mesmo com a morte de Ayrton Senna, o melhor de todos, há 15 anos. Pelo ocorrido no fim de semana, tive de reconhecer que sou mais que fanático, sou viciado em F-1. Fiquei chateado por isso.

Rubens Barrichello, o discípulo preferido de Senna e que, ao que tudo indica, gazeou muitas aulas de pilotagem, saiu em terceiro no GP da Catalunha, mas logo na largada assumiu a liderança. Bastou isso para me deixar empolgado e vidrado diante da tevê.

Não vi três coisas: o tempo passar, Barrichello ganhar – para não perder o costume, o brasileiro da Brawn GP chegou em segundo – e o tradicional desfile cívico-militar em comemoração ao aniversário de Maringá. Dada a bandeirada final da corrida, apressei-me para chegar ao Centro da cidade, porém, o desfile já havia terminado. A mim, só restava lamentar.

Na noite anterior, passei bons minutos conversando pelo MSN com uma das mais belas maringaenses, uma estudante de Direito que, na realidade, é natural de Santo André-SP. Ao me contar que desfilaria trajada de miss, perguntou se eu cobriria o evento. “Não trabalho este domingo, mas estarei lá para te ver”, respondi, já imaginando o quanto ela estaria linda. “A gente se vê então”, disse a futura advogada, uma negra mais linda que a atriz Taís Araújo.

Não estive lá e, assim, perdi mais do que um importante evento de Maringá. Desperdicei uma agradável manhã de outono, de um imenso céu azul sem nuvens. Deixei de ver gente, de comer aquele algodão-doce feito essencialmente de corante e açúcar, de encontrar conhecidos ao acaso, de viver um momento legal da cidade, de rever alguém de encantadora beleza. Enfim, não é justo que a televisão tenha relegado tudo isso a um segundo plano.

Recentemente, aconselhei um amigo e colega de redação a deixar de fumar, preocupado com a saúde dele. Fui tolo. Deveria antes largar meu “vício” – embora não faça mal algum à minha saúde – para depois me preocupar com o vício alheio, qualquer que seja. Que o diga o sábio homem, que deixou de comer doces para, só depois, julgar-se apto a servir de exemplo àquele menino.

O sábio de outrora, é certo, teria preferido ver a mulher mais linda ao carro mais veloz, o friozinho do outono e o cair sem pressa das folhas ao programa de tevê entre quatro paredes. Assim como o garotinho que não ouvia sua mãe, anseio por sábios conselhos. Desta vez, aprendi da pior maneira: com o erro e com o lamento. Se houver uma nova oportunidade, ainda que seja GP decisivo e com brasileiro disputando o título da F-1, não perderei a companhia da miss negra.
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7 de maio de 2009

Revelações do Zodíaco

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Na redação de O Diário do Norte do Paraná, os repórteres escrevemos a partir das chamadas "ilhas", que são nada mais do que bancadas com quatro computadores, com divisórias de metal onde afixamos (geralmente com ímãs) lembretes, fotos, cartões postais, calendários, fotos de mulher pelada, etc. Batizei minha ilha de Polo Norte, por causa da frente fria vinda do ar-condicionado. O apelido pegou.

Lá no Polo Norte, estava mergulhado no universo das notícias, editando o site de O Diário - devidamente acompanhado de minha blusa de flanela xadrez vermelho e preto -, quando surgiu o mais workaholic dos editores. Trouxe consigo um pote de vidro com bolachas de mel até a metade do recipiente. "Minha esposa quem faz", disse ele, com seu sotaque curitibano.

Peguei apenas uma, mas deu vontade de apanhar uma meia dúzia delas. A aparência da bolacha e o aroma exalado pela guloseima davam a certeza de que o gosto não decepcionaria. Em tom de brincadeira, aproveitei o momento: "tua mulher tem irmã caçula?" Antes mesmo de o editor se manifestar, a repórter recém-casada do Polo Norte, descendente de japoneses e de sobrenome impronunciável, ouviu minha declaração e disse sem titubear: "minha irmã mais nova está solteira".

Glup! A declaração me pegou de surpresa. Raras foram as vezes que fiquei vermelho. Daquela vez, não pude evitar.

Lembro de ter visto a irmã solteira dela no casamento, dias antes, e de ter gostado muito do que vi. Infelizmente, não fomos apresentados (cadê os amigos quando precisamos deles?). Enquanto refletia sobre a bela irmã nipônica, abocanhando sem pressa a deliciosa bolacha de mel, escutei os outros dois colegas de Polo Norte trocando ideias sobre aquele lance de signo, o qual nunca acreditei.

"Ahhhhh, então teu ascendente é Virgem", disse Toméia para Ramalho, depois dele passar a ela dados como data, hora e local de nascimento, além do nome completo. "Opa, que história é essa de ascendente?", perguntei. Sempre soube que, nascido em 12 de março, sou Peixes, mas essa de "ascendente" nunca tinha ouvido falar.

Respondi ao questionário, aquele mesmo feito a Ramalho minutos antes. Toméia digitou tudo num site e eis a resposta: "teu ascendente é Áries", disse ela. Sempre achei que Peixes combinava mais com Aquário, mas Áries também faz sentido. Trata-se da primeira constelação do Zodíaco, situada no hemisfério norte. Talvez venha daí meu interesse inexplicável pela Groenlândia.

Toméia tinha lido o perfil de Ramalho, de acordo com aquele site, e pelo que conhecemos dele - um cara super-recatado, polido, centrado - a descrição "caiu como uma luva". Destarte, nada mais justo do que eu também saber o que o Zodíaco teria a dizer a meu respeito. Vejam o que Toméia leu sobre mim:

"Você enfrenta a vida de frente e lança-se em novas experiências com prazer e muito entusiasmo. É direto, taxativo, sem rodeios e normalmente sincero e franco em todas as suas atitudes. Por ser precisamente honesto e franco é difícil para alguém enganá-lo. Às vezes, passa aos outros uma aparência arrogante e perturbadora e, por isso, precisa lembrar-se que deve ter mais tato e sensibilidade para com outras pessoas. Para você, as coisas podem parecer muito óbvias (...)"

Até que fazia sentido. Para saber mais, a colega comentou que seria necessário pagar. "Para mim está bom assim", disse. Só não consigo fazer uma autoavaliação para ter certeza se o perfil traçado pelo site lembra, de fato, minha pessoa. Imagino que meus amigos têm mais condições de avaliar.

De qualquer forma, continuo descrente quanto à influência dos astros na personalidade das pessoas, porém, sigo na expectativa de ser apresentado à bela irmã japonesa da vizinha de Polo Norte. Na blusa xadrez da sorte, que já salvou muitos colegas da hipotermia... aí sim, eu acredito. E antes que falem mal do Polo Norte, vale esclarecer que o lance das fotos de mulher pelada era brincadeira.
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