28 de abril de 2010
Time-out
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Tenho três amigos que vão ao psicólogo regularmente e sei de alguns outros que também vão, eventualmente, mas por preconceito bobo não contam a ninguém, talvez por receio de parecerem loucos. Nada contra os psicólogos, mas prefiro meios alternativos para vencer traumas e superar problemas, mesmo aqueles que impõem medo.
Erga a mão quem não tiver problemas para resolver. Viver é matar a dentadas um leão a cada dia, é pagar dívidas, brigar e se reconciliar com a mulher amada, pensar no futuro dos filhos, reclamar do preço do combustível, fazer o mesmo do preço da carne, perder 35% do salário para os impostos, pedir aumento e ouvir não do chefe, procurar outro emprego, estudar para se manter competitivo no mercado de trabalho, tomar vacina contra gripe suína, irritar-se com o colega puxa-saco, sonhar com o carro novo e ter de parcelar em dez vezes a troca dos pneus do Gol "geração um", pagar mais impostos e, de dois em dois anos, votar nos mesmos "bons e honestos" políticos. É tanta coisa que chega a dar saudade dos tempos de criança.
São problemas que geram estresse. Para mim, a melhor maneira de extravasar é parar, respirar fundo, preparar um bom café, refletir bebendo o café e escrever. Pôr os problemas no papel – ou no blog –, às vezes com ajuda de personagens criados para resguardar alguma privacidade, é um método quase infalível. Com permissão para uma analogia barata: é como o time-out do basquete, ocasião em que o técnico de um time da NBA pede tempo para conversar com os jogadores, traçar estratégias alternativas e colocar a "casa" em ordem. Escrever, para quem é chegado das letras, é como um time-out.
Há ainda outros métodos para extravasar o estresse. Um deles são os livros de autoajuda. Mas cuidado, há muita porcaria editorial na praça, especialmente nessa área. Há também a opção milenar de buscar soluções no âmbito espiritual, em Deus e com ajuda de uma igreja (ou mesquita ou sinagoga, etc), ou até mesmo na esfera secular, numa rodada de chope com amigos para chorar as mágoas, por exemplo. Aliás, quantos reis já não ansiaram ser plebeu ao menos por um dia, no dia de maior tristeza, para ter a liberdade de desabafar com amigos numa mesa de bar.
Rei ou plebeu, "sangue azul" ou não, é bom ter amigos por perto em momentos de dificuldade. Como ensinou o apóstolo Paulo: "Assim, permanecem agora estes três: a fé, a esperança e o amor. O maior deles, porém, é o amor". Contudo, se nenhuma dessas técnicas funcionar, não relute em procurar um bom psicólogo. E se por acaso você for um rei ou algo parecido, faça como no cinema e seja "normal" por um dia... e vá beber com os amigos.
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Tenho três amigos que vão ao psicólogo regularmente e sei de alguns outros que também vão, eventualmente, mas por preconceito bobo não contam a ninguém, talvez por receio de parecerem loucos. Nada contra os psicólogos, mas prefiro meios alternativos para vencer traumas e superar problemas, mesmo aqueles que impõem medo.
Erga a mão quem não tiver problemas para resolver. Viver é matar a dentadas um leão a cada dia, é pagar dívidas, brigar e se reconciliar com a mulher amada, pensar no futuro dos filhos, reclamar do preço do combustível, fazer o mesmo do preço da carne, perder 35% do salário para os impostos, pedir aumento e ouvir não do chefe, procurar outro emprego, estudar para se manter competitivo no mercado de trabalho, tomar vacina contra gripe suína, irritar-se com o colega puxa-saco, sonhar com o carro novo e ter de parcelar em dez vezes a troca dos pneus do Gol "geração um", pagar mais impostos e, de dois em dois anos, votar nos mesmos "bons e honestos" políticos. É tanta coisa que chega a dar saudade dos tempos de criança.
São problemas que geram estresse. Para mim, a melhor maneira de extravasar é parar, respirar fundo, preparar um bom café, refletir bebendo o café e escrever. Pôr os problemas no papel – ou no blog –, às vezes com ajuda de personagens criados para resguardar alguma privacidade, é um método quase infalível. Com permissão para uma analogia barata: é como o time-out do basquete, ocasião em que o técnico de um time da NBA pede tempo para conversar com os jogadores, traçar estratégias alternativas e colocar a "casa" em ordem. Escrever, para quem é chegado das letras, é como um time-out.
Há ainda outros métodos para extravasar o estresse. Um deles são os livros de autoajuda. Mas cuidado, há muita porcaria editorial na praça, especialmente nessa área. Há também a opção milenar de buscar soluções no âmbito espiritual, em Deus e com ajuda de uma igreja (ou mesquita ou sinagoga, etc), ou até mesmo na esfera secular, numa rodada de chope com amigos para chorar as mágoas, por exemplo. Aliás, quantos reis já não ansiaram ser plebeu ao menos por um dia, no dia de maior tristeza, para ter a liberdade de desabafar com amigos numa mesa de bar.
Rei ou plebeu, "sangue azul" ou não, é bom ter amigos por perto em momentos de dificuldade. Como ensinou o apóstolo Paulo: "Assim, permanecem agora estes três: a fé, a esperança e o amor. O maior deles, porém, é o amor". Contudo, se nenhuma dessas técnicas funcionar, não relute em procurar um bom psicólogo. E se por acaso você for um rei ou algo parecido, faça como no cinema e seja "normal" por um dia... e vá beber com os amigos.
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26 de abril de 2010
Das Auto
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A caminho do trabalho, numa pálida tarde de outono, de sol encoberto por nuvens e chuviscos que não bastavam para ser taxados de garoa, decidi visitar um bom amigo. "Você pode vir vê-lo sempre que quiser", disse-me o mecânico, uma semana antes. Havia deixado meu Fusca 1975 para reforma e pintura, para os ajustes finais antes da venda. Santo Deus... venda era um verbo que não desejava empregar, sequer pensar, naquela situação.
Em seu azul escuro perolizado, com branco-gelo nas portas no provocante estilo minissaia, Sólido estava reluzente, quase pronto para ser disputado por colecionadores, em alguma garagem da cidade. Embora exuberante, parecia estar com um olhar triste, como se soubesse que seria vendido após o "banho de beleza".
— Teu Fusca não está pronto ainda — disse o responsável pela pintura — falta o polimento. Depois disso você vai vendê-lo num piscar de olhos.
Com ajuda de entendidos no assunto, avaliei meu Volkswagen bicolor em sete contos e pouco. Triste pela previsão de venda fácil e certo de que dificilmente tornaria a vê-lo após o negócio, fiquei ali, estaticamente triste, a observar o Sólido sem pressa. Fosse pelo afeto, nem R$ 20 mil o tirariam de mim. Precisava da grana para ajudar nas despesas de um caro curso de pós-graduação que havia cursado, seis meses antes, em São Paulo.
"Das Auto", como na propaganda. Na tradução livre do alemão: "O Carro", e que carro. No namoro de seis anos, o único problema que tive com o Sólido foi nos meses seguintes à aquisição. Bateria fraca, nada mais. O motor 1300 foi "feito" e, embora não seja lá tão econômico, é o ponto forte do fusqueta. Assoalho impecável; pneus largos e novos; interior em azul e gelo, combinando com a lataria externa; bancos em azul e preto; volante retrovisor e painel originais; vidros escuros. Um luxo. Com a pintura, desfilaria como um gentleman com terno a la James Bond e gravata borboleta.
Mais de uma vez, pensei em desistir da venda, porém, a iniciativa parecia acertada. Sem garagem coberta, o sol e o sereno mancharam a pintura sem dó. Agora, de "terno" novo, ele era merecedor de melhor abrigo, de uma espaçosa garagem para repousar. "Das Auto" merecia cuidados além do que eu poderia oferecer. A iniciativa da venda parecia realmente, vendo por esse ângulo, acertada.
Nunca liguei para a avaliação feminina do Sólido. Para as mulheres, era só um Fusca. Ao sair com ele pelas ruas da cidade, arrancava olhares interessados... de marmanjos que queriam o Sólido a ponto de fazer propostas obscenas por ele. "Te dou R$ 5 mil agora", disse um sujeito certo dia, no semáforo, de dentro de seu novo Vectra. "Por esse valor, tu devias procurar no ferro-velho do Seu Zé", retruquei. Para as mulheres, as mesmas que se interessavam pelo jornalista com crachá e carro adesivado do jornal, eu era invisível dentro do Sólido. Pobreza de espírito delas não entender a magia de um clássico bem conservado.
Comprei o Sólido em Pato Branco, de um sujeito que havia largado tudo no Brasil para assentar tijolos em Verona, na Itália, e que precisava de dinheiro para as passagens. Com financiamento do "banco paterno" – aquele da taxa de juros de 0% ao ano – paguei à vista e em espécie, garantindo o melhor Fusca do sudoeste paranaense por uma pechincha. O fechar das portas lembrava uma geladeira, a partida dava a impressão de o Sólido ter injeção eletrônica.
— Vai precisar trocar a bateria, o fluído de freio e o óleo. Nada mais — disse o pai de um amigo de infância, da Mecânica do Di, que avaliou o Sólido antes da compra.
— E quanto tu achas que vale um Fusca como esse?
— Seis mil, no mínimo. Mas se for vender em cidade grande, consegues mais que isso por ele.
— Nooooossa — exclamei, como se tivesse descoberto a pólvora.
— Quanto custou? — disse, já curioso, o mecânico.
— Misericórdia, saiu de graça — comentou, após saber o valor.
Passados seis anos, era chegada a hora de algum felizardo colecionador ter o Sólido em sua garagem. No jornal, deram-me alguns anúncios nos classificados, para agilizar a venda. Pensei em deixá-lo em alguma garagem de confiança, em terceirizar a venda para não correr o risco de me arrepender da decisão.
Na cinzenta tarde de outono, que testemunhou a redação desta crônica, passei em uma lotéria a caminho do jornal. Apostei novamente em minhas seis dezenas favoritas, esperançoso de que a sorte me permitisse ficar com o Sólido. Quem sabe a sorte, o destino, Deus, sei lá, percebessem que o Sólido ficaria bem comigo, mesmo exposto ao sol e ao sereno. Quem sabe.
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A caminho do trabalho, numa pálida tarde de outono, de sol encoberto por nuvens e chuviscos que não bastavam para ser taxados de garoa, decidi visitar um bom amigo. "Você pode vir vê-lo sempre que quiser", disse-me o mecânico, uma semana antes. Havia deixado meu Fusca 1975 para reforma e pintura, para os ajustes finais antes da venda. Santo Deus... venda era um verbo que não desejava empregar, sequer pensar, naquela situação.
Em seu azul escuro perolizado, com branco-gelo nas portas no provocante estilo minissaia, Sólido estava reluzente, quase pronto para ser disputado por colecionadores, em alguma garagem da cidade. Embora exuberante, parecia estar com um olhar triste, como se soubesse que seria vendido após o "banho de beleza".
— Teu Fusca não está pronto ainda — disse o responsável pela pintura — falta o polimento. Depois disso você vai vendê-lo num piscar de olhos.
Com ajuda de entendidos no assunto, avaliei meu Volkswagen bicolor em sete contos e pouco. Triste pela previsão de venda fácil e certo de que dificilmente tornaria a vê-lo após o negócio, fiquei ali, estaticamente triste, a observar o Sólido sem pressa. Fosse pelo afeto, nem R$ 20 mil o tirariam de mim. Precisava da grana para ajudar nas despesas de um caro curso de pós-graduação que havia cursado, seis meses antes, em São Paulo.
"Das Auto", como na propaganda. Na tradução livre do alemão: "O Carro", e que carro. No namoro de seis anos, o único problema que tive com o Sólido foi nos meses seguintes à aquisição. Bateria fraca, nada mais. O motor 1300 foi "feito" e, embora não seja lá tão econômico, é o ponto forte do fusqueta. Assoalho impecável; pneus largos e novos; interior em azul e gelo, combinando com a lataria externa; bancos em azul e preto; volante retrovisor e painel originais; vidros escuros. Um luxo. Com a pintura, desfilaria como um gentleman com terno a la James Bond e gravata borboleta.
Mais de uma vez, pensei em desistir da venda, porém, a iniciativa parecia acertada. Sem garagem coberta, o sol e o sereno mancharam a pintura sem dó. Agora, de "terno" novo, ele era merecedor de melhor abrigo, de uma espaçosa garagem para repousar. "Das Auto" merecia cuidados além do que eu poderia oferecer. A iniciativa da venda parecia realmente, vendo por esse ângulo, acertada.
Nunca liguei para a avaliação feminina do Sólido. Para as mulheres, era só um Fusca. Ao sair com ele pelas ruas da cidade, arrancava olhares interessados... de marmanjos que queriam o Sólido a ponto de fazer propostas obscenas por ele. "Te dou R$ 5 mil agora", disse um sujeito certo dia, no semáforo, de dentro de seu novo Vectra. "Por esse valor, tu devias procurar no ferro-velho do Seu Zé", retruquei. Para as mulheres, as mesmas que se interessavam pelo jornalista com crachá e carro adesivado do jornal, eu era invisível dentro do Sólido. Pobreza de espírito delas não entender a magia de um clássico bem conservado.
Comprei o Sólido em Pato Branco, de um sujeito que havia largado tudo no Brasil para assentar tijolos em Verona, na Itália, e que precisava de dinheiro para as passagens. Com financiamento do "banco paterno" – aquele da taxa de juros de 0% ao ano – paguei à vista e em espécie, garantindo o melhor Fusca do sudoeste paranaense por uma pechincha. O fechar das portas lembrava uma geladeira, a partida dava a impressão de o Sólido ter injeção eletrônica.
— Vai precisar trocar a bateria, o fluído de freio e o óleo. Nada mais — disse o pai de um amigo de infância, da Mecânica do Di, que avaliou o Sólido antes da compra.
— E quanto tu achas que vale um Fusca como esse?
— Seis mil, no mínimo. Mas se for vender em cidade grande, consegues mais que isso por ele.
— Nooooossa — exclamei, como se tivesse descoberto a pólvora.
— Quanto custou? — disse, já curioso, o mecânico.
— Misericórdia, saiu de graça — comentou, após saber o valor.
Passados seis anos, era chegada a hora de algum felizardo colecionador ter o Sólido em sua garagem. No jornal, deram-me alguns anúncios nos classificados, para agilizar a venda. Pensei em deixá-lo em alguma garagem de confiança, em terceirizar a venda para não correr o risco de me arrepender da decisão.
Na cinzenta tarde de outono, que testemunhou a redação desta crônica, passei em uma lotéria a caminho do jornal. Apostei novamente em minhas seis dezenas favoritas, esperançoso de que a sorte me permitisse ficar com o Sólido. Quem sabe a sorte, o destino, Deus, sei lá, percebessem que o Sólido ficaria bem comigo, mesmo exposto ao sol e ao sereno. Quem sabe.
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9 de abril de 2010
Entrevista com Cobain
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"Quando Toddy chamar seu nome acene para o público e vá ao encontro do entrevistador, okay?", disse a assessora, enquanto retocava a maquiagem da mais recente celebridade do País. Cobain não participou do reality show Big Brother, mas havia se tornado conhecido da noite para o dia. Foi dormir anônimo, e acordou com pedidos de entrevista ao telefone. Chamou uma amiga jornalista – e ex-namorada, claro – para ajudá-lo a lidar com a situação e com o assédio da imprensa. Tornara-se famoso, por acaso.
Cobain era o entrevistado da noite no Toddy Show, programa que se tornara campeão de audiência no horário nobre, liderado por John Toddy, um apresentador de humor sarcástico e perguntas ácidas. Composto por três blocos, o programa normalmente tinha três entrevistados. Contudo, Toddy falaria apenas com Cobain naquela noite. O mundo queria saber mais sobre o moreno de 1,82m de altura, que conquistava as mais belas mulheres até nas muitas vezes que, sem carro, teve de ir à pé ou de carona para as baladas.
A fama veio após o lançamento do livro "Cobain e o Universo Feminino", que revela romances de um galã e dá dicas de como entender mais bem as mulheres. "Quando compreendidas e amadas, mesmo na TPM, elas fazem tudo o que eles querem (na cama)", diz trecho do livro, que se tornou best seller mundial em menos de um ano após seu lançamento. Averso a entrevistas e se sentindo pressionado a revelar a identidade do protagonista, Luiggi Oliveira contou em entrevista exclusiva à revista semanal "Tudo" quem era Cobain e como o conhecera. Feito isso, o escritor se isolou em sua casa na Serra Gaúcha e Cobain, não teve mais sossego.
— Vou receber agora aquele que talvez seja o maior galã desde Don Juan. Vem pra cá Cobain — anunciou John Toddy, seguido de música de entrada de seu sexteto.
— Depois que Luiggi Oliveira revelou seu verdadeiro nome, você prefere ser chamado apenas de Cobain. Por quê?
— Nossa, como estou nervoso. Se ficasse assim com as mulheres ainda seria virgem — disse Cobain, arrancando risos da plateia. Era sua primeira entrevista em rede nacional e ele, ainda confuso com tamanho assédio, esperava agradar.
— Queria eu ser mais tímido diante das câmeras e ter tanta facilidade com as mulheres.
— Não há segredo, você só precisa dizer o que elas querem ouvir. E ser romântico e atencioso na dose certa.
— É possível manter esse nível de conquistador sempre? Por exemplo, no fim de semana agora acontece a Atchuca, uma das maiores raves do País. Você consegue se dar bem nesse tipo de festa?
— Vixi, faz tempo que não vou a uma rave. Hoje em dia deve ser bem diferente. No meu tempo não existia "emos", por exemplo — disse o bem apessoado, seguido de mais risos da plateia.
— O que rola numa rave, além de "emos"?
— Rola de tudo: música tecno, várias tribos de gente, de hippies a playboys, muita "bala" e muito "doce" — disse, referindo-se ao uso de entorpecentes ilícitos. — Muito energético também. Tem uma galera que faz swing, que é um malabarismo com foto e cordas e não orgia sexual, claro — acrescentou o entrevistado.
— Você quer dizer que em rave fica todo mundo noiado? — perguntou Toddy, que insistia no assunto ao ouvir de seu diretor que a audiência havia disparado.
— No meu tempo, cerca de 85% usavam algum tipo de droga, infelizmente.
— Fiquei sabendo que essas festas às vezes duram dias. Como isso é possível Cobain?
— Então Toddy, quando você está numa festa que não tem hora pra acabar, afastada da cidade, com bebida, comida, drogas e opções para sexo... cheio de gente, por que ir embora?
— Como o oportunista Cobain se comportaria na festa deste fim de semana?
— Não vou a essa festa, mas vou traçar um perfil psicológico do Cobain (risos). Ele é um cara que se dá bem com as mulheres, certo? Sai com mulheres que os outros geralmente nem chegariam. Quero dizer, sai com mulheres casadas e noivas, isso pra não falar naquelas que têm namorado. Então, ele é um cara que analisa as meninas, que sabe conversar com elas e encontra as lacunas que elas querem.
— Mesmo em uma rave?
— O tempo todo. Agora, como conselheiro amoroso, faço isso também profissionalmente.
— Como conselheiro, que dica você tem a quem quer se dar bem numa rave sem usar drogas, e que quer deixar a festa direto para um motel?
— Quanto mais sóbrio você estiver, melhor. É isso que posso dizer. Estando sóbrio, você tem condições de chegar na menina na hora certa.
Com a audiência bombando, John Toddy encerra o primeiro bloco e chama o intervalo comercial. Cobain, já mais relaxado, é aconselhado por sua assessora. Em sua primeira aparição em horário nobre, e em rede nacional, o galã conquista sorrisos e audiência.
— Não saia daí, nem mesmo para estourar pipocas. Voltamos em segundos com Cobain, o novo Don Juan... (pausa) que merda isso aqui. Oooo direção, a gente está economizando no ar-condicionado por acaso? Deixa mais frio isso aí!
— Você acha que me saí bem? — perguntou Cobain.
— Claro, mas vê se conta mais detalhes sórdidos, para apimentar a entrevista. Aliás, acho que aquela minha assistente de palco ali está de olho em você.
— Eu sei, já combinei uma volta com ela assim que sair do teu programa.
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"Quando Toddy chamar seu nome acene para o público e vá ao encontro do entrevistador, okay?", disse a assessora, enquanto retocava a maquiagem da mais recente celebridade do País. Cobain não participou do reality show Big Brother, mas havia se tornado conhecido da noite para o dia. Foi dormir anônimo, e acordou com pedidos de entrevista ao telefone. Chamou uma amiga jornalista – e ex-namorada, claro – para ajudá-lo a lidar com a situação e com o assédio da imprensa. Tornara-se famoso, por acaso.
Cobain era o entrevistado da noite no Toddy Show, programa que se tornara campeão de audiência no horário nobre, liderado por John Toddy, um apresentador de humor sarcástico e perguntas ácidas. Composto por três blocos, o programa normalmente tinha três entrevistados. Contudo, Toddy falaria apenas com Cobain naquela noite. O mundo queria saber mais sobre o moreno de 1,82m de altura, que conquistava as mais belas mulheres até nas muitas vezes que, sem carro, teve de ir à pé ou de carona para as baladas.
A fama veio após o lançamento do livro "Cobain e o Universo Feminino", que revela romances de um galã e dá dicas de como entender mais bem as mulheres. "Quando compreendidas e amadas, mesmo na TPM, elas fazem tudo o que eles querem (na cama)", diz trecho do livro, que se tornou best seller mundial em menos de um ano após seu lançamento. Averso a entrevistas e se sentindo pressionado a revelar a identidade do protagonista, Luiggi Oliveira contou em entrevista exclusiva à revista semanal "Tudo" quem era Cobain e como o conhecera. Feito isso, o escritor se isolou em sua casa na Serra Gaúcha e Cobain, não teve mais sossego.
— Vou receber agora aquele que talvez seja o maior galã desde Don Juan. Vem pra cá Cobain — anunciou John Toddy, seguido de música de entrada de seu sexteto.
— Depois que Luiggi Oliveira revelou seu verdadeiro nome, você prefere ser chamado apenas de Cobain. Por quê?
— Nossa, como estou nervoso. Se ficasse assim com as mulheres ainda seria virgem — disse Cobain, arrancando risos da plateia. Era sua primeira entrevista em rede nacional e ele, ainda confuso com tamanho assédio, esperava agradar.
— Queria eu ser mais tímido diante das câmeras e ter tanta facilidade com as mulheres.
— Não há segredo, você só precisa dizer o que elas querem ouvir. E ser romântico e atencioso na dose certa.
— É possível manter esse nível de conquistador sempre? Por exemplo, no fim de semana agora acontece a Atchuca, uma das maiores raves do País. Você consegue se dar bem nesse tipo de festa?
— Vixi, faz tempo que não vou a uma rave. Hoje em dia deve ser bem diferente. No meu tempo não existia "emos", por exemplo — disse o bem apessoado, seguido de mais risos da plateia.
— O que rola numa rave, além de "emos"?
— Rola de tudo: música tecno, várias tribos de gente, de hippies a playboys, muita "bala" e muito "doce" — disse, referindo-se ao uso de entorpecentes ilícitos. — Muito energético também. Tem uma galera que faz swing, que é um malabarismo com foto e cordas e não orgia sexual, claro — acrescentou o entrevistado.
— Você quer dizer que em rave fica todo mundo noiado? — perguntou Toddy, que insistia no assunto ao ouvir de seu diretor que a audiência havia disparado.
— No meu tempo, cerca de 85% usavam algum tipo de droga, infelizmente.
— Fiquei sabendo que essas festas às vezes duram dias. Como isso é possível Cobain?
— Então Toddy, quando você está numa festa que não tem hora pra acabar, afastada da cidade, com bebida, comida, drogas e opções para sexo... cheio de gente, por que ir embora?
— Como o oportunista Cobain se comportaria na festa deste fim de semana?
— Não vou a essa festa, mas vou traçar um perfil psicológico do Cobain (risos). Ele é um cara que se dá bem com as mulheres, certo? Sai com mulheres que os outros geralmente nem chegariam. Quero dizer, sai com mulheres casadas e noivas, isso pra não falar naquelas que têm namorado. Então, ele é um cara que analisa as meninas, que sabe conversar com elas e encontra as lacunas que elas querem.
— Mesmo em uma rave?
— O tempo todo. Agora, como conselheiro amoroso, faço isso também profissionalmente.
— Como conselheiro, que dica você tem a quem quer se dar bem numa rave sem usar drogas, e que quer deixar a festa direto para um motel?
— Quanto mais sóbrio você estiver, melhor. É isso que posso dizer. Estando sóbrio, você tem condições de chegar na menina na hora certa.
Com a audiência bombando, John Toddy encerra o primeiro bloco e chama o intervalo comercial. Cobain, já mais relaxado, é aconselhado por sua assessora. Em sua primeira aparição em horário nobre, e em rede nacional, o galã conquista sorrisos e audiência.
— Não saia daí, nem mesmo para estourar pipocas. Voltamos em segundos com Cobain, o novo Don Juan... (pausa) que merda isso aqui. Oooo direção, a gente está economizando no ar-condicionado por acaso? Deixa mais frio isso aí!
— Você acha que me saí bem? — perguntou Cobain.
— Claro, mas vê se conta mais detalhes sórdidos, para apimentar a entrevista. Aliás, acho que aquela minha assistente de palco ali está de olho em você.
— Eu sei, já combinei uma volta com ela assim que sair do teu programa.
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31 de março de 2010
Doze de Março
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Por Eduardo Cardoso de Oliveira*
Há um ano estávamos de férias, viajando pelo litoral catarinense e serra gaúcha. Voltamos embora antes do previsto, por dois motivos: a possível falta de dinheiro e uma doença que o João Paulo pegou. O piá precisou ficar internado por três dias. Segundo o médico que o atendeu, o problema de saúde era conhecido – não por mim – e atendia pelo modesto nome de mononucleose. Ser acometido de doenças pouco habituais é um hobby do Nanico.
Piá (LF), você está ficando velho! Lembro do longínquo e pré-histórico tempo no qual você fazia jornais caseiros sobre vídeogame, séries de TV e assuntos ligados a uma infância muito bem aproveitada, exceto pelo fato de trabalhar todo final de semana por copos de Coca-Cola e alguns pacotes de salgadinho. Carregávamos tijolos de um lado para o outro e vice-versa, cortávamos grama, pintávamos cerca, capinávamos as ervas-daninhas que antigamente cresciam junto ao meio-fio e hoje não crescem mais, arrancávamos matos da grama com uma faquinha, à tarde, sob sol escaldante, buscávamos água ná "vó" todo dia... você até inventou uma música: "escravos de Jó, buscam água lá na "vó". Na vó também buscávamos lenha, levávamos as sujeitas que sobravam dos serviços. O local de despejo dos entulhos: "buração". Bizarro!
Antes de voltar de viagem, conhecemos os cânions em Cambará do Sul (RS). "A melhor parte da viagem", frase sua a qual eu concordo. Outro município da serra gaúcha que passeamos foi a charmosa Gramado, cidade de muitas cafeterias, chocolaterias, parque e outros pontos turísticos que encantam pelo cuidado e zelo. Tudo parece estar no lugar certo, na hora certa, na temperatura certa e com a cor certa. Em Canela, cidade vizinha e sem o aspecto europeu de Gramado, conhecemos museus – um do chocolate e o outro ligado à evolução no processo produtivo. Também fomos ao parque da cachoeira do Caracol, onde cansamos de tanto descer escadas e nos arrastamos para subi-las na volta. Para que não digas que esqueci, conhecemos também a Catedral de Pedra, uma bela igreja!
A idade está chegando. Hoje (12 de março) completas 29 anos, quase um balzaquiano. No tempo que não sabíamos o que era computador, internet, televisão com controle remoto – o pai na época não conhecia os dois primeiros, mas já sabia o que era TV com controle remoto –, brincávamos de béts, descida de "canoa" no morro, corrida de barquinho (gravetos) no rio, exterminador do futuro, mãe-bola, futebol, bicicleta, Atari.
Costumávamos tomar sorvete na Dona Lila, segundo ela, fabricado no Nono Balin. Até hoje tenho minhas dúvidas. Íamos à aula caminhando, desde o dia que quebrou a Kombi próximo à casa do Seu Guilherme (que blusa grossa...), e para a mãe isso aconteceu quando você estava na oitava série. Eu ainda acho que você estava na segunda do primário e sua professora era a falecida Maria Helena Camuzatto. Você sabe que ela morreu né? Bateu um Kadett na rodovia entre Pato Branco e Mariópolis, mas isso já tem mais de dez anos.
O passeio pelo litoral catarinense foi nas cidades de Florianópolis, Balneário Camboriú, Bombinhas e Penha. Em Floripa, fomos fazer uma visita muito rápida para a Cristina e família, estilo médico do SUS. Almoçamos e só. Mais rápido ainda foi o passeio em Balneário Camboriú: apenas uma noite e na mais badalada praia catarinense. Na terra do Joce, Bombinhas, estivemos por dois dias. A cidade é linda, cheia de encantos naturais. O Marcos esteve lá esses dias. Falou que todos mandaram um abraço para nós.
Em Penha, há exatamente um ano, visitamos o maior parque temático do Brasil. Era teu aniversário. Estavas completando 28 anos e por isso não pagou a entrada. Chegamos em 11 de março, fazia seis anos que você não via o mar de perto, em terra. Foi legal estar em Penha. Logo na chegada avistamos a enorme Fire Whip, montanha-russa assustadora por fora e alucinante para quem embarca. Da nossa pousada era possível ver ela, ver o parque, ver a maçaneta da porta de entrada do parque, só não era perto o suficiente para ouvir o ronco dos leões dormindo à noite, mas da pousada podíamos ouvir as ondas do mar quebrando na praia.
Enfim, nossa viagem ano passado foi excelente. Foram as melhores férias que já tive, a que mais aproveitei e só não foi perfeita pela falta de pessoas que amamos. Elas não puderam ir! Apesar de ser muito jovem, você tem uma incrível história de vida a contar. E suas palavras escritas fazem isso muito bem. És o Pelé dos textos. És um gênio na escrita como Michael Jordan foi no basquete, como Schummy foi nas pistas, como Da Vinci foi nas artes, como Newton e Einstein na ciência, como a mãe é cozinhando.
Agora com 29 anos, muita coisa vai mudar. Vais morar em uma cobertura duplex do Monet e o melhor, dividir o apartamento com o João Paulo “Pebinha”. Ele fará muita falta aqui em Pato Branco. Fará falta em casa como você ainda faz, mas a ida dele tem um propósito nobre. Ele tem tudo para trilhar um caminho de sucesso como você já fez e ainda fará muito mais. Gostaria de escrever mais e melhor, mas as minhas palavras não são adestradas tanto quanto as suas. Parabéns por mais um ano de vida. Que Deus continue te abençoando.
* Eduardo é funcionário concursado da Copel e irmão do meio de LF (este, do blog) e de JP Pebinha, como ele bem diz. É modesto quando diz não lidar bem com as palavras e, com elas, deixou o autor do blog emocionado.
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Por Eduardo Cardoso de Oliveira*
Há um ano estávamos de férias, viajando pelo litoral catarinense e serra gaúcha. Voltamos embora antes do previsto, por dois motivos: a possível falta de dinheiro e uma doença que o João Paulo pegou. O piá precisou ficar internado por três dias. Segundo o médico que o atendeu, o problema de saúde era conhecido – não por mim – e atendia pelo modesto nome de mononucleose. Ser acometido de doenças pouco habituais é um hobby do Nanico.
Piá (LF), você está ficando velho! Lembro do longínquo e pré-histórico tempo no qual você fazia jornais caseiros sobre vídeogame, séries de TV e assuntos ligados a uma infância muito bem aproveitada, exceto pelo fato de trabalhar todo final de semana por copos de Coca-Cola e alguns pacotes de salgadinho. Carregávamos tijolos de um lado para o outro e vice-versa, cortávamos grama, pintávamos cerca, capinávamos as ervas-daninhas que antigamente cresciam junto ao meio-fio e hoje não crescem mais, arrancávamos matos da grama com uma faquinha, à tarde, sob sol escaldante, buscávamos água ná "vó" todo dia... você até inventou uma música: "escravos de Jó, buscam água lá na "vó". Na vó também buscávamos lenha, levávamos as sujeitas que sobravam dos serviços. O local de despejo dos entulhos: "buração". Bizarro!
Antes de voltar de viagem, conhecemos os cânions em Cambará do Sul (RS). "A melhor parte da viagem", frase sua a qual eu concordo. Outro município da serra gaúcha que passeamos foi a charmosa Gramado, cidade de muitas cafeterias, chocolaterias, parque e outros pontos turísticos que encantam pelo cuidado e zelo. Tudo parece estar no lugar certo, na hora certa, na temperatura certa e com a cor certa. Em Canela, cidade vizinha e sem o aspecto europeu de Gramado, conhecemos museus – um do chocolate e o outro ligado à evolução no processo produtivo. Também fomos ao parque da cachoeira do Caracol, onde cansamos de tanto descer escadas e nos arrastamos para subi-las na volta. Para que não digas que esqueci, conhecemos também a Catedral de Pedra, uma bela igreja!
A idade está chegando. Hoje (12 de março) completas 29 anos, quase um balzaquiano. No tempo que não sabíamos o que era computador, internet, televisão com controle remoto – o pai na época não conhecia os dois primeiros, mas já sabia o que era TV com controle remoto –, brincávamos de béts, descida de "canoa" no morro, corrida de barquinho (gravetos) no rio, exterminador do futuro, mãe-bola, futebol, bicicleta, Atari.
Costumávamos tomar sorvete na Dona Lila, segundo ela, fabricado no Nono Balin. Até hoje tenho minhas dúvidas. Íamos à aula caminhando, desde o dia que quebrou a Kombi próximo à casa do Seu Guilherme (que blusa grossa...), e para a mãe isso aconteceu quando você estava na oitava série. Eu ainda acho que você estava na segunda do primário e sua professora era a falecida Maria Helena Camuzatto. Você sabe que ela morreu né? Bateu um Kadett na rodovia entre Pato Branco e Mariópolis, mas isso já tem mais de dez anos.
O passeio pelo litoral catarinense foi nas cidades de Florianópolis, Balneário Camboriú, Bombinhas e Penha. Em Floripa, fomos fazer uma visita muito rápida para a Cristina e família, estilo médico do SUS. Almoçamos e só. Mais rápido ainda foi o passeio em Balneário Camboriú: apenas uma noite e na mais badalada praia catarinense. Na terra do Joce, Bombinhas, estivemos por dois dias. A cidade é linda, cheia de encantos naturais. O Marcos esteve lá esses dias. Falou que todos mandaram um abraço para nós.
Em Penha, há exatamente um ano, visitamos o maior parque temático do Brasil. Era teu aniversário. Estavas completando 28 anos e por isso não pagou a entrada. Chegamos em 11 de março, fazia seis anos que você não via o mar de perto, em terra. Foi legal estar em Penha. Logo na chegada avistamos a enorme Fire Whip, montanha-russa assustadora por fora e alucinante para quem embarca. Da nossa pousada era possível ver ela, ver o parque, ver a maçaneta da porta de entrada do parque, só não era perto o suficiente para ouvir o ronco dos leões dormindo à noite, mas da pousada podíamos ouvir as ondas do mar quebrando na praia.
Enfim, nossa viagem ano passado foi excelente. Foram as melhores férias que já tive, a que mais aproveitei e só não foi perfeita pela falta de pessoas que amamos. Elas não puderam ir! Apesar de ser muito jovem, você tem uma incrível história de vida a contar. E suas palavras escritas fazem isso muito bem. És o Pelé dos textos. És um gênio na escrita como Michael Jordan foi no basquete, como Schummy foi nas pistas, como Da Vinci foi nas artes, como Newton e Einstein na ciência, como a mãe é cozinhando.
Agora com 29 anos, muita coisa vai mudar. Vais morar em uma cobertura duplex do Monet e o melhor, dividir o apartamento com o João Paulo “Pebinha”. Ele fará muita falta aqui em Pato Branco. Fará falta em casa como você ainda faz, mas a ida dele tem um propósito nobre. Ele tem tudo para trilhar um caminho de sucesso como você já fez e ainda fará muito mais. Gostaria de escrever mais e melhor, mas as minhas palavras não são adestradas tanto quanto as suas. Parabéns por mais um ano de vida. Que Deus continue te abençoando.
* Eduardo é funcionário concursado da Copel e irmão do meio de LF (este, do blog) e de JP Pebinha, como ele bem diz. É modesto quando diz não lidar bem com as palavras e, com elas, deixou o autor do blog emocionado.
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11 de março de 2010
"Orfeu e Violeta", a melhor segundo os jornalistas
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O romance "mais que relâmpago" entre um jovem de Pato Branco e uma bela moça de Realeza, que se encontram em um ônibus a caminho de Maringá, foi eleito como o melhor texto do Blog do LF pelos jornalistas. "Orfeu e Violeta" obteve 39,5 pontos de 40 possíveis. Anteriormente, a história já havia sido eleita a melhor na opinião dos leitores.
A votação tanto dos leitores, num primeiro momento, e agora dos jornalistas compõe um processo de escolha das 12 melhores crônicas do LF, dentre 17 finalistas – publicadas até a data limite de 18 de setembro de 2009. O resultado será divulgado em postagem futura (e em breve), com detalhes sobre o "livreto" artesanal que contará com essas 12 mais bem avaliadas.
Cinco jornalistas foram convidados a votar, quatro marcaram presença e deixaram sua opinião – dando nota máxima (10) para a melhor entre 17 crônicas e nota mínima (5) para a pior, com pontuação intermediária para as demais. Votaram a editora Elaine Utsunomiya e os repórteres Vinícius Carvalho, Juliana Daibert e Thiago Ramari, todos de O Diário do Norte do Paraná (assim como o autor).
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O romance "mais que relâmpago" entre um jovem de Pato Branco e uma bela moça de Realeza, que se encontram em um ônibus a caminho de Maringá, foi eleito como o melhor texto do Blog do LF pelos jornalistas. "Orfeu e Violeta" obteve 39,5 pontos de 40 possíveis. Anteriormente, a história já havia sido eleita a melhor na opinião dos leitores.
A votação tanto dos leitores, num primeiro momento, e agora dos jornalistas compõe um processo de escolha das 12 melhores crônicas do LF, dentre 17 finalistas – publicadas até a data limite de 18 de setembro de 2009. O resultado será divulgado em postagem futura (e em breve), com detalhes sobre o "livreto" artesanal que contará com essas 12 mais bem avaliadas.
Cinco jornalistas foram convidados a votar, quatro marcaram presença e deixaram sua opinião – dando nota máxima (10) para a melhor entre 17 crônicas e nota mínima (5) para a pior, com pontuação intermediária para as demais. Votaram a editora Elaine Utsunomiya e os repórteres Vinícius Carvalho, Juliana Daibert e Thiago Ramari, todos de O Diário do Norte do Paraná (assim como o autor).
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8 de março de 2010
Sr. 'João sem braço'
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No processo de locação de um apartamento, a informação de que faltava um documento me levou à Associação Comercial e Empresarial de Maringá (Acim). Precisava do SCPC Imobiliário, documento cobrado pelas imobiliárias e que serve para o locatário comprovar que é bom pagador e que tem o nome limpo na praça. Fui à Acim e apanhei a senha: número 67... antes de prosseguir, tenho de dizer que o relato a seguir é baseado em uma boa e uma má notícia.
Vamos começar pela notícia ruim: a fila era "quilométrica". Ainda não haviam chamado a senha 55, todos os assentos estavam ocupados e, pior, pelo excesso de gente o ar-condicionado não dava conta de refrescar o ambiente. Dedici que o melhor era esperar no shopping em frente, bebendo um refrescante suco de laranja com graúdas pedras de gelo e lendo a última edição da revista Veja. Bem melhor do que estar na fila e ter de trocar gotas de suor e olhares cansados com desconhecidos.
O retorno se deu com a senha no número 64. Com a desistência dos números 65 e 66, vencidos pelo cansaço, não demorou e fui chamado. — Vai custar "tanto" — disse a atendente, antes mesmo de fazer a consulta do CPF no sistema. Talvez quisesse se certificar de que eu teria a grana. "Está certo", pensei, não ficaria irritado por aquilo. Irritado fiquei foi com um senhor, que adentrou na sala de atendimento, furando uma fila quilométrica e se fazendo de desentendido. Um genuíno "João sem braço".
— O senhor poderia aguardar lá fora que lhe atendo assim que seu número for chamado — disse a atendente, com tolerante simpatia. — Blá, blá, blá, blá... etc — respondeu "João sem braço", de maneira que não consegui compreender nada do que ele dizia. Se passar por velho "gagá" deve ser a última técnica de como furar fila, até porque a atendente rapidamente desistiu de insistir para que ele aguardasse do lado de fora. Devia ter 60 anos, porém, na fila havia três ou quatro com mais idade que ele... e com mais educação também.
— Tem um ditado bíblico que diz que as pessoas próximas são as que mais nos desapontam — disse o fura-fila, ao notar que eu o observava com olhar de reprovação.
É possível que ele tenha aceitado ser fiador de alguém da família que, ao que parece há pouco tempo, passou-lhe a perna. Contudo, nunca ouvi ou li tal ditado bíblico. O que sei, da bíblia, é que devemos agir com honestidade até nos mínimos detalhes. É de prática ilícitas de pequena monta que nascem os corruptos, os ladrões, os maus pagadores. O "João sem braço" reclamava de alguém que não agiu corretamente com ele, mas e ele: agiu como homem de bem com todos aqueles que, respeitosamente, esperaram sua vez na fila?
Tal como aquele senhor, o mundo está repleto de pessoas com desvios morais e éticos que sabem (e citam) a bíblia de "trás para frente, decor e salteado" – aí sim, um ditado de verdade. Não disse àquele senhor uma única palavra. Nem foi preciso, um olhar às vezes também vale por mil palavras. O fura-fila esperou "sua vez", na sala, e eu tomei o rumo da imobiliária.
A boa notícia é que o setor jurídico da imobiliária aprovou a locação do imóvel que escolhi. Trata-se de um apartamento situado a cinco quadras do jornal, com dois quartos, cozinha, dois ambientes de sala, vaga de garagem e cobertura com churrasqueira. Melhor que isso, dividirei o apartamento com meu irmão mais novo que, assim como o autor desta crônica, trocou Pato Branco por Maringá sem medo de ser feliz.
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No processo de locação de um apartamento, a informação de que faltava um documento me levou à Associação Comercial e Empresarial de Maringá (Acim). Precisava do SCPC Imobiliário, documento cobrado pelas imobiliárias e que serve para o locatário comprovar que é bom pagador e que tem o nome limpo na praça. Fui à Acim e apanhei a senha: número 67... antes de prosseguir, tenho de dizer que o relato a seguir é baseado em uma boa e uma má notícia.
Vamos começar pela notícia ruim: a fila era "quilométrica". Ainda não haviam chamado a senha 55, todos os assentos estavam ocupados e, pior, pelo excesso de gente o ar-condicionado não dava conta de refrescar o ambiente. Dedici que o melhor era esperar no shopping em frente, bebendo um refrescante suco de laranja com graúdas pedras de gelo e lendo a última edição da revista Veja. Bem melhor do que estar na fila e ter de trocar gotas de suor e olhares cansados com desconhecidos.
O retorno se deu com a senha no número 64. Com a desistência dos números 65 e 66, vencidos pelo cansaço, não demorou e fui chamado. — Vai custar "tanto" — disse a atendente, antes mesmo de fazer a consulta do CPF no sistema. Talvez quisesse se certificar de que eu teria a grana. "Está certo", pensei, não ficaria irritado por aquilo. Irritado fiquei foi com um senhor, que adentrou na sala de atendimento, furando uma fila quilométrica e se fazendo de desentendido. Um genuíno "João sem braço".
— O senhor poderia aguardar lá fora que lhe atendo assim que seu número for chamado — disse a atendente, com tolerante simpatia. — Blá, blá, blá, blá... etc — respondeu "João sem braço", de maneira que não consegui compreender nada do que ele dizia. Se passar por velho "gagá" deve ser a última técnica de como furar fila, até porque a atendente rapidamente desistiu de insistir para que ele aguardasse do lado de fora. Devia ter 60 anos, porém, na fila havia três ou quatro com mais idade que ele... e com mais educação também.
— Tem um ditado bíblico que diz que as pessoas próximas são as que mais nos desapontam — disse o fura-fila, ao notar que eu o observava com olhar de reprovação.
É possível que ele tenha aceitado ser fiador de alguém da família que, ao que parece há pouco tempo, passou-lhe a perna. Contudo, nunca ouvi ou li tal ditado bíblico. O que sei, da bíblia, é que devemos agir com honestidade até nos mínimos detalhes. É de prática ilícitas de pequena monta que nascem os corruptos, os ladrões, os maus pagadores. O "João sem braço" reclamava de alguém que não agiu corretamente com ele, mas e ele: agiu como homem de bem com todos aqueles que, respeitosamente, esperaram sua vez na fila?
Tal como aquele senhor, o mundo está repleto de pessoas com desvios morais e éticos que sabem (e citam) a bíblia de "trás para frente, decor e salteado" – aí sim, um ditado de verdade. Não disse àquele senhor uma única palavra. Nem foi preciso, um olhar às vezes também vale por mil palavras. O fura-fila esperou "sua vez", na sala, e eu tomei o rumo da imobiliária.
A boa notícia é que o setor jurídico da imobiliária aprovou a locação do imóvel que escolhi. Trata-se de um apartamento situado a cinco quadras do jornal, com dois quartos, cozinha, dois ambientes de sala, vaga de garagem e cobertura com churrasqueira. Melhor que isso, dividirei o apartamento com meu irmão mais novo que, assim como o autor desta crônica, trocou Pato Branco por Maringá sem medo de ser feliz.
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25 de fevereiro de 2010
Quando Tomé conversou com Deus
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A solidão bateu à porta e não esperou ser atendida, entrou sem convite. Veio como o peso de um fardo difícil de carregar e tinha o sabor de tristeza. Poucas vezes Tomé havia se sentido triste como naquela chuvosa noite de sexta-feira. Ele reparava pela janela de seu chalé e pelo som no telhado: hora chovia, hora nevava – o som da chuva e o silêncio da neve são inconfundíveis. Nunca antes tinha se sentido tão só.
O vivido cidadão do mundo não sabia o real motivo daquele sentimento, apenas se sentia só, e triste. Era como se, numa guerra, toda sua tropa tivesse morrido sob fogo inimigo e ele, sozinho, encarasse o árduo desafio de voltar para casa, ensanguentado, mas com vida. Deitou-se e não conseguir dormir. O relógio despertador apontava meia-noite e, na cama, tinha a companhia de uma bela mulher. Adormecida, ela não tinha como perceber a angústia nos olhos e no respirar ofegante de Tomé, não podia fazer nada por ele. Só Deus poderia.
Deus, por pressuposto, estaria mais ocupado com os grandes problemas da humanidade, como a fome, a ganância, a corrupção, o ódio, a falta de fé e de moral. E se Deus estava ocupado, era melhor beber algo a orar. Levantou-se. Não fazia muito frio, mesmo assim pôs calça e camisa de manga comprida.
O relógio de parede apontava zero hora e 15 minutos. "Por que quando as coisas não vão bem a hora não passa", questionou-se. Do armário, sacou a melhor de suas garrafas de vinho. Ligou o computador, o televisor e o aparelho de DVD, apanhou uma revista, encheu a taça. Não navegou na internet nem assistiu ao filme escolhido nem leu qualquer coisa. Brindou consigo mesmo, duas, três taças, enquanto pensava na vida e nos dias que estariam por vir.
Entre um gole e outro... bem, muitos goles depois, Tomé lembrou-se de algo estranho que ocorrera em um culto, em sua primeira ida à igreja no ano. Tomé, bem como seu xará bíblico, era um homem desconfiado e gostava de um ditado por ele mesmo inventado: "Não confie cegamente em nenhum líder religioso, mas leia mais a bíblia". Por isso: bebia vinho; também por isso: não dizia amém para qualquer profecia. Certa vez, ouviu de uma "irmã" da igreja: "Deus me revelou, em sonho, você casado com fulana de tal". Tomé respondeu: "Então peça pra Deus lhe mostrar direito, porque a mim, que seria o mais interessado, Ele não disse nada". Outra vez, ouviu: "Crente de verdade não bebe". E respondeu: "Ah é, então por que Jesus transformou água em vinho e não em suco de maracujá?"
Contudo, o que ocorrera naquele culto, um mês antes, tinha sido diferente. E pensar naquilo, enquanto degustava sem pressa o bom vinho, trazia paz ao coração ansioso de Tomé. Na ocasião, o pastor estava viajando e, no púlpito, uma desconhecia levava a mensagem de fé. Bradava "aleluias", citava decor trechos do Livro Sagrado, falava em bênçãos, etc. Nada diferente do que Tomé, de família protestante, que crescera na Igreja Metodista, já não tivesse visto e ouvido centenas de vezes. Daquela pregação, ele não se recordava de uma única palavra. Enquanto a prepadora falava, Tomé lia trechos da bíblia e, em seu íntimo, conversava com Deus.
— Senhor, quando é que tu vais falar comigo? Não aguento mais esta ansiedade — dizia, em oração, sem convicção alguma de que Deus iria ouvi-lo. — Queria saber se devo ficar ou ir embora — pensava Tomé, descontente com os rumos de sua profissão. Era da opinião de que o mundo é grande e interessante demais para um homem passar a vida toda numa mesma cidade, no mesmo trabalho, no mesmo fuso horário.
O telefone tocou. Eram os pais de Tomé, do outro lado do Atlântico, querendo saber notícias do tipo: "está precisando de dinheiro?", da parte de pai; "está se alimentando bem?", da parte de mãe. Há anos havia deixado sua cidade natal e a distância de seus pais e irmãos, e os longos meses sem vê-los, contribuíam em muito para aqueles momentos de angústia e solidão. Despediu-se dos pais, mandou abraços aos irmãos, "calibrou" outra taça de vinho para, então, retomar a reflexão do ponto onde havia parado.
— Cansei de ouvir profecias vãs. Queria que Você falasse comigo — disse, em pensamento, de modo que apenas Deus pudesse escutar, caso não estivesse ocupado com afazeres mais importantes. Percebeu todos com os olhos fechados e que o culto estava na oração final, prestes a terminar. Ao dizer amém, como de praxe, foi surpreendido.
– Você, de óculos – disse a mulher que levou a Palavra naquela noite. – Sim, você mesmo. Deus está te dizendo que não esqueceu de você – a essa altura, Tomé já estava estático, com os olhos fitos naquela senhora, quase como se estivesse hipnotizado. Ainda era cedo para crer, queria ouvir o que ela tinha a dizer.
– Como assim, fui eu que me esqueci de ti. Fazia tempo que não vinha à igreja – retrucou Tomé, em diálogo que se passou em pensamento. – Qualquer um aqui tem te buscado mais do que eu, Tu sabes disso.
— Você se mantém humilde – prosseguiu a mulher, com a profecia. — Deus tem algo grande preparado pra ti este ano. É algo que você deseja muito e que fará bem às pessoas que te cercam. — E quando vai ser? — perguntou Tomé, no silêncio de sua mente.
— Tua benção será revelada ainda neste semestre. Eu sei até o mês e o dia, mas não vou te contar — quase sem piscar, Tomé ainda ouviu: — Você tem sido fiel. Não consigo descrever quanto amor Deus sente por ti.
— Senhor, lembra quando o apóstolo Paulo disse ser o maior dos pecadores. Garanto que ele não teria dito aquilo depois de me conhecer.
— Deus conhece teu coração e sabe os pensamentos daqueles que te cercam — prosseguiu a mulher. — Muitas pessoas sentem inveja de ti, mas te garanto que inveja alguma vai te atrapalhar.
Depois daquilo, os dias de Tomé não foram os mesmos. Nem todo mundo está preparado para o sobrenatural. Gente como Pedro, João, Paulo, talvez, Tomé não. Em noites seguintes, teve sonhos que se repetiam. Eram bons e o advertiam para algo que estaria por vir... e que viria logo. Ao refletir sobre a promessa de bênção, percebeu que o peso da solidão havia partido sem se despedir.
Duas horas mais tarde e uma garrafa de vinho a menos para contar história, teve sono. Fez uma oração, afinal, lembrar da profecia havia feito bem a Tomé, e conseguiu dormir. Despertou cinco horas mais tarde, com o barulho da namorada, que preparava o café. Levantou, com a cabeça pesada do vinho, e não tocou no assunto. Na noite anterior, por fé tinha certeza, Deus havia largado seus afazeres para estar com ele e espantar a solidão. Estava feliz e, bem-disposto, degustava um bauru de forma com cappuccino, já pensando na neve que tinha de remover da calçada.
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A solidão bateu à porta e não esperou ser atendida, entrou sem convite. Veio como o peso de um fardo difícil de carregar e tinha o sabor de tristeza. Poucas vezes Tomé havia se sentido triste como naquela chuvosa noite de sexta-feira. Ele reparava pela janela de seu chalé e pelo som no telhado: hora chovia, hora nevava – o som da chuva e o silêncio da neve são inconfundíveis. Nunca antes tinha se sentido tão só.
O vivido cidadão do mundo não sabia o real motivo daquele sentimento, apenas se sentia só, e triste. Era como se, numa guerra, toda sua tropa tivesse morrido sob fogo inimigo e ele, sozinho, encarasse o árduo desafio de voltar para casa, ensanguentado, mas com vida. Deitou-se e não conseguir dormir. O relógio despertador apontava meia-noite e, na cama, tinha a companhia de uma bela mulher. Adormecida, ela não tinha como perceber a angústia nos olhos e no respirar ofegante de Tomé, não podia fazer nada por ele. Só Deus poderia.
Deus, por pressuposto, estaria mais ocupado com os grandes problemas da humanidade, como a fome, a ganância, a corrupção, o ódio, a falta de fé e de moral. E se Deus estava ocupado, era melhor beber algo a orar. Levantou-se. Não fazia muito frio, mesmo assim pôs calça e camisa de manga comprida.
O relógio de parede apontava zero hora e 15 minutos. "Por que quando as coisas não vão bem a hora não passa", questionou-se. Do armário, sacou a melhor de suas garrafas de vinho. Ligou o computador, o televisor e o aparelho de DVD, apanhou uma revista, encheu a taça. Não navegou na internet nem assistiu ao filme escolhido nem leu qualquer coisa. Brindou consigo mesmo, duas, três taças, enquanto pensava na vida e nos dias que estariam por vir.
Entre um gole e outro... bem, muitos goles depois, Tomé lembrou-se de algo estranho que ocorrera em um culto, em sua primeira ida à igreja no ano. Tomé, bem como seu xará bíblico, era um homem desconfiado e gostava de um ditado por ele mesmo inventado: "Não confie cegamente em nenhum líder religioso, mas leia mais a bíblia". Por isso: bebia vinho; também por isso: não dizia amém para qualquer profecia. Certa vez, ouviu de uma "irmã" da igreja: "Deus me revelou, em sonho, você casado com fulana de tal". Tomé respondeu: "Então peça pra Deus lhe mostrar direito, porque a mim, que seria o mais interessado, Ele não disse nada". Outra vez, ouviu: "Crente de verdade não bebe". E respondeu: "Ah é, então por que Jesus transformou água em vinho e não em suco de maracujá?"
Contudo, o que ocorrera naquele culto, um mês antes, tinha sido diferente. E pensar naquilo, enquanto degustava sem pressa o bom vinho, trazia paz ao coração ansioso de Tomé. Na ocasião, o pastor estava viajando e, no púlpito, uma desconhecia levava a mensagem de fé. Bradava "aleluias", citava decor trechos do Livro Sagrado, falava em bênçãos, etc. Nada diferente do que Tomé, de família protestante, que crescera na Igreja Metodista, já não tivesse visto e ouvido centenas de vezes. Daquela pregação, ele não se recordava de uma única palavra. Enquanto a prepadora falava, Tomé lia trechos da bíblia e, em seu íntimo, conversava com Deus.
— Senhor, quando é que tu vais falar comigo? Não aguento mais esta ansiedade — dizia, em oração, sem convicção alguma de que Deus iria ouvi-lo. — Queria saber se devo ficar ou ir embora — pensava Tomé, descontente com os rumos de sua profissão. Era da opinião de que o mundo é grande e interessante demais para um homem passar a vida toda numa mesma cidade, no mesmo trabalho, no mesmo fuso horário.
O telefone tocou. Eram os pais de Tomé, do outro lado do Atlântico, querendo saber notícias do tipo: "está precisando de dinheiro?", da parte de pai; "está se alimentando bem?", da parte de mãe. Há anos havia deixado sua cidade natal e a distância de seus pais e irmãos, e os longos meses sem vê-los, contribuíam em muito para aqueles momentos de angústia e solidão. Despediu-se dos pais, mandou abraços aos irmãos, "calibrou" outra taça de vinho para, então, retomar a reflexão do ponto onde havia parado.
— Cansei de ouvir profecias vãs. Queria que Você falasse comigo — disse, em pensamento, de modo que apenas Deus pudesse escutar, caso não estivesse ocupado com afazeres mais importantes. Percebeu todos com os olhos fechados e que o culto estava na oração final, prestes a terminar. Ao dizer amém, como de praxe, foi surpreendido.
– Você, de óculos – disse a mulher que levou a Palavra naquela noite. – Sim, você mesmo. Deus está te dizendo que não esqueceu de você – a essa altura, Tomé já estava estático, com os olhos fitos naquela senhora, quase como se estivesse hipnotizado. Ainda era cedo para crer, queria ouvir o que ela tinha a dizer.
– Como assim, fui eu que me esqueci de ti. Fazia tempo que não vinha à igreja – retrucou Tomé, em diálogo que se passou em pensamento. – Qualquer um aqui tem te buscado mais do que eu, Tu sabes disso.
— Você se mantém humilde – prosseguiu a mulher, com a profecia. — Deus tem algo grande preparado pra ti este ano. É algo que você deseja muito e que fará bem às pessoas que te cercam. — E quando vai ser? — perguntou Tomé, no silêncio de sua mente.
— Tua benção será revelada ainda neste semestre. Eu sei até o mês e o dia, mas não vou te contar — quase sem piscar, Tomé ainda ouviu: — Você tem sido fiel. Não consigo descrever quanto amor Deus sente por ti.
— Senhor, lembra quando o apóstolo Paulo disse ser o maior dos pecadores. Garanto que ele não teria dito aquilo depois de me conhecer.
— Deus conhece teu coração e sabe os pensamentos daqueles que te cercam — prosseguiu a mulher. — Muitas pessoas sentem inveja de ti, mas te garanto que inveja alguma vai te atrapalhar.
Depois daquilo, os dias de Tomé não foram os mesmos. Nem todo mundo está preparado para o sobrenatural. Gente como Pedro, João, Paulo, talvez, Tomé não. Em noites seguintes, teve sonhos que se repetiam. Eram bons e o advertiam para algo que estaria por vir... e que viria logo. Ao refletir sobre a promessa de bênção, percebeu que o peso da solidão havia partido sem se despedir.
Duas horas mais tarde e uma garrafa de vinho a menos para contar história, teve sono. Fez uma oração, afinal, lembrar da profecia havia feito bem a Tomé, e conseguiu dormir. Despertou cinco horas mais tarde, com o barulho da namorada, que preparava o café. Levantou, com a cabeça pesada do vinho, e não tocou no assunto. Na noite anterior, por fé tinha certeza, Deus havia largado seus afazeres para estar com ele e espantar a solidão. Estava feliz e, bem-disposto, degustava um bauru de forma com cappuccino, já pensando na neve que tinha de remover da calçada.
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