28 de julho de 2010
Almoço no shopping
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Munido de papel e caneta, preciso relatar ao mundo o que vejo ao meu redor na meia hora de folga que me resta, antes de voltar ao trabalho. Quem nunca fez isso não sabe o quanto é terapêutico. Estou na praça de alimentação de um shopping center, desacompanhado em mesa com quatro lugares. Bebo refrigerante zero para compensar a ingestão calórica do almoço enquanto observo o ambiente e as pessoas.
São ao todo oito lojas na praça e a mais movimentada delas, sem dúvida, é o McDonald's. Sempre quis ter um milhão e pouco para adquirir uma franquia do McDonald's. Suas lojas estão sempre cheias, embora a figura daquele palhaço ridículo que criaram para promover a marca. Por aqui, não é diferente: há fila para comprar um daqueles sanduíches pouco saudáveis – e o dito palhaço na embalagem.
No televisor de teto, à minha frente, passa reportagem sobre a seleção brasileira. Está sintonizada na TV Globo, que segue descendo a lenha no Dunga – o rabugento técnico que comandou a seleção brasileira na infeliz campanha na África do Sul. Quase abaixo do televisor, um grupo de 11 meninas, todas com uniforme de colégio, riem e conversam sem parar. As colegiais optaram pelo lanche do McDonald's no almoço, inclusive a moça dos olhos azuis mais belos que já vi na cidade. Ironicamente, ela e as amigas são todas magras, como se só comessem alface. Por enquanto, o metabolismo acelerado ainda as mantém a salvo dos "efeitos colaterais" do Big Mac.
Tenho reparado também a freguesia dos demais restaurantes. Naquele que serve batata assada e recheada, oito em dez clientes estão aparentemente acima do peso. Não é de hoje que suspeito que as batatas exercem algum poder de atração sobrenatural sobre os gordinhos. A moça mais peso-pesado da praça de alimentação está comendo a dita batata no almoço.
Desde que comecei a escrever, uma cena agride minha visão. Um sujeito tamanho GG, com calça tamanho M, come algo da cozinha asiática enquanto seu cofrinho fica à mostra. Bizarro. Decidi trocar de lugar, de modo que agora, ocupando a cadeira vizinha, os divinos olhos azuis da loira impedem a visão do "inferno". O sujeito sem noção, aliás, foi o único acima do peso que notei se servir no restaurante japonês. Os demais clientes são todos magros. Pena que essa opção é um pouco cara, senão comeria todo dia por lá e perderia alguns quilos.
Quatro mesas defronte a mim, um jovem come tacos com um olho na comida e outro nas colegiais, como se quisesse comer outra coisa. Sorte a dele eu não ser pai, tio ou irmão de alguma delas. Talvez a culpa seja do tempero mexicano... é afrodisíaco, ouvi falar. Tequila, sei bem, deixa as mulheres soltinhas, mas sobre a pimenta da comida mexicana desconheço os efeitos. Precisaria consultar o Wikipédia.
Na mesa ao lado do "mexicano" tarado, acabaram de se sentar duas japonesas balzaquianas que optaram por comida mineira. Da mesma forma que sempre imagino um mineiro falando "uai" e comendo pão de queijo no café da manhã, espero vê-las comendo sushi com pauzinhos e falando em japonês. "Grande bobagem", vai pensar minha amiga de redação, a jornalista Elaine, filha de japoneses, ao ler isso. Caso ela mostre isso à irmã solteira, pior ainda: corro o risco de nunca conhecê-la pessoalmente.
Quatro mesas à minha direita, a moça mais bela do recinto, pele clara e cabelos escuros, traços de espanhola, optou pela culinária italiana. Foi minha opção para o almoço, mesmo não curtindo comer spaghetti com garfo e colher. Em momento algum a espanhola olhou em minha direção, uma pena. Talvez eu precise recobrar os exercícios e fazer uma dieta? Vou considerar isso.
As colegiais se foram, posso notá-las ao longe, próximo à escada rolante. Opa, o "mexicano" se levantou e foi atrás – se eu fosse irmão de alguma delas daria um "cagaço" nele! A moça peso-pesado também se foi, porém, para apanhar mais uma batata recheada. Cada um sabe a fome que tem. A espanhola terminou de almoçar e agora ajeita sua bolsa. Uhmmmm, passou um batom rosa com auxílio de um espelhinho portátil. Bem feminino, um ponto a mais para ela.
Bom, deu meu horário. Vou aproveitar a "carona" dela que tenho muito a fazer à tarde.
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Munido de papel e caneta, preciso relatar ao mundo o que vejo ao meu redor na meia hora de folga que me resta, antes de voltar ao trabalho. Quem nunca fez isso não sabe o quanto é terapêutico. Estou na praça de alimentação de um shopping center, desacompanhado em mesa com quatro lugares. Bebo refrigerante zero para compensar a ingestão calórica do almoço enquanto observo o ambiente e as pessoas.
São ao todo oito lojas na praça e a mais movimentada delas, sem dúvida, é o McDonald's. Sempre quis ter um milhão e pouco para adquirir uma franquia do McDonald's. Suas lojas estão sempre cheias, embora a figura daquele palhaço ridículo que criaram para promover a marca. Por aqui, não é diferente: há fila para comprar um daqueles sanduíches pouco saudáveis – e o dito palhaço na embalagem.
No televisor de teto, à minha frente, passa reportagem sobre a seleção brasileira. Está sintonizada na TV Globo, que segue descendo a lenha no Dunga – o rabugento técnico que comandou a seleção brasileira na infeliz campanha na África do Sul. Quase abaixo do televisor, um grupo de 11 meninas, todas com uniforme de colégio, riem e conversam sem parar. As colegiais optaram pelo lanche do McDonald's no almoço, inclusive a moça dos olhos azuis mais belos que já vi na cidade. Ironicamente, ela e as amigas são todas magras, como se só comessem alface. Por enquanto, o metabolismo acelerado ainda as mantém a salvo dos "efeitos colaterais" do Big Mac.
Tenho reparado também a freguesia dos demais restaurantes. Naquele que serve batata assada e recheada, oito em dez clientes estão aparentemente acima do peso. Não é de hoje que suspeito que as batatas exercem algum poder de atração sobrenatural sobre os gordinhos. A moça mais peso-pesado da praça de alimentação está comendo a dita batata no almoço.
Desde que comecei a escrever, uma cena agride minha visão. Um sujeito tamanho GG, com calça tamanho M, come algo da cozinha asiática enquanto seu cofrinho fica à mostra. Bizarro. Decidi trocar de lugar, de modo que agora, ocupando a cadeira vizinha, os divinos olhos azuis da loira impedem a visão do "inferno". O sujeito sem noção, aliás, foi o único acima do peso que notei se servir no restaurante japonês. Os demais clientes são todos magros. Pena que essa opção é um pouco cara, senão comeria todo dia por lá e perderia alguns quilos.
Quatro mesas defronte a mim, um jovem come tacos com um olho na comida e outro nas colegiais, como se quisesse comer outra coisa. Sorte a dele eu não ser pai, tio ou irmão de alguma delas. Talvez a culpa seja do tempero mexicano... é afrodisíaco, ouvi falar. Tequila, sei bem, deixa as mulheres soltinhas, mas sobre a pimenta da comida mexicana desconheço os efeitos. Precisaria consultar o Wikipédia.
Na mesa ao lado do "mexicano" tarado, acabaram de se sentar duas japonesas balzaquianas que optaram por comida mineira. Da mesma forma que sempre imagino um mineiro falando "uai" e comendo pão de queijo no café da manhã, espero vê-las comendo sushi com pauzinhos e falando em japonês. "Grande bobagem", vai pensar minha amiga de redação, a jornalista Elaine, filha de japoneses, ao ler isso. Caso ela mostre isso à irmã solteira, pior ainda: corro o risco de nunca conhecê-la pessoalmente.
Quatro mesas à minha direita, a moça mais bela do recinto, pele clara e cabelos escuros, traços de espanhola, optou pela culinária italiana. Foi minha opção para o almoço, mesmo não curtindo comer spaghetti com garfo e colher. Em momento algum a espanhola olhou em minha direção, uma pena. Talvez eu precise recobrar os exercícios e fazer uma dieta? Vou considerar isso.
As colegiais se foram, posso notá-las ao longe, próximo à escada rolante. Opa, o "mexicano" se levantou e foi atrás – se eu fosse irmão de alguma delas daria um "cagaço" nele! A moça peso-pesado também se foi, porém, para apanhar mais uma batata recheada. Cada um sabe a fome que tem. A espanhola terminou de almoçar e agora ajeita sua bolsa. Uhmmmm, passou um batom rosa com auxílio de um espelhinho portátil. Bem feminino, um ponto a mais para ela.
Bom, deu meu horário. Vou aproveitar a "carona" dela que tenho muito a fazer à tarde.
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6 de julho de 2010
Chora, me liga
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"Ao invés de fazer teu expediente na redação, você não estaria a fim de cobrir um show no fim de semana?" Quando ouvi essa pergunta de meu editor, em O Diário, tive a certeza - acompanhada de um inevitável frio na espinha - de que se tratava de um show sertanejo. Não deu outra: "João Bosco e Vinicius". Como não sou jornalista de negar fogo, ou melhor, de negar pauta, topei o desafio. O bom repórter é aquele que, além do conhecimento específio em uma ou mais áreas, dá conta do basicão em editoriais que não são de sua competência.
Fui ao jornal convicto de que, pelas forças ocultas da Lei de Murphy, fosse um show de rock jamais seria escalado. Como era sertanejo, e ainda por cima universitário, o editor-chefe deve ter pensado: "ahhhh, tem o Luiz Fernando..." Para que os amigos contextualizem a situação, para mim rock está para uma partida de futebol assim como sertanejo está para uma espetáculo de balé clássico. Se bem que, por conta das bailarinas, balé tem lá suas vantagens.
De João Bosco e Vinicius só sabia que eles cantam "Chora, me liga". Qual bendita alma residente em Maringá, essa cidade paranaense que é doente por sertanejo, não sabe desse detalhe. É ligar na rádio FM, não dá meia hora e toca "Chooora, me liga, implooora meu beijo de nooovooo. Me pede socooorro, quem sabe eu vou te salvaaar. Chooora, me liga, implooora pelo meu amô-o-or, pede por favô-o-or, quem sabe um dia eu volto a te procurar". Interessante a letra: sempre serve para alguma ex.
"Nada é tão ruim que não possa piorar". Para valorizar o ditado, o show atrasou um bocado, derramei água no sapato e durante o apresentação da dupla, no meio da multidão, uma baranga pegou na minha bunda. "O que é isso", exclamei. "Sorte que eu sou eu, um mero mortal. Imagine o que ela teria feito se eu fosse o Gianecchini", pensei, enquanto me afastava do dragão antes que ele cuspisse fogo. Fui para perto de algumas belas moças, mas aí, lógico, nenhuma pegou em mim.
Consegui me aproximar do palco. Distante cerca de cinco metros dos cantores, fiz fotos e vídeos com uma máquina portátil e anotei algumas declarações de fãs. Uma loira tipo holandesa, de olhos claros, cinturinha bem definida, cerca de 1,65m de altura, pele clara e cabelos lisos e esvoaçantes veio falar comigo. Viu o crachá de repórter do jornal e queria dar entrevista também. Não sei se era só entrevista que ela queria dar. Na dúvida, perguntei a idade da moça. "Tenho 17 anos", respondeu. "Melhor deixar para pegar o telefone de outra", pensei, ao suspeitar que ela estava mentindo a idade... para mais.
Difícil foi deixar a multidão. Cinco músicas depois do início do show, o número de fãs por metro quadrado era de pôr medo em qualquer claustrofóbico. O risco de topar com outro "dragão atrevido" também causava medo. Resolvi que era hora de partir, até porque a colega de cobertura, uma fotógrafa de olhos verdes e traços italianos, já devia estar me esperando.
Tinha em mãos e em mente o material necessário para uma boa matéria. Esperava uma saída honrosa, porém, pisei sem querer no calcanhar de uma fã entroncada e ela, sem considerar meu pedido de desculpas, disparou uma impiedosa colovelada. Considerando que o pisão, de 85 quilos, possa ter realmente doído, relevei a agressão e segui meu rumo.
Sentia-me como um peixe fora d'água em meio a uma multidão que cantava decor músicas que até então eu desconhecia, mas, no balanço final, a experiência foi válida. Tive a oportunidade de ir ao camarim da dupla e de, na entrevista, descobrir o carinho que eles alimentam por uma cidade que os acolheu quando eles ainda sonhavam ser famosos e tinham como ganha-pão as apresentações em boates e barzinhos.
João Bosco e Vinicius deram uma aula de simpatia e deixaram uma importante lição: não se deve, por maior que seja o sucesso, esquecer de quem te apoiou no início da jornada. Assim como não se deve deixar de anotar o número de telefone da jovem "holandesa", até porque, num futuro próximo, ela terá mais de 18.
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» Leia também sobre a cobertura.
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"Ao invés de fazer teu expediente na redação, você não estaria a fim de cobrir um show no fim de semana?" Quando ouvi essa pergunta de meu editor, em O Diário, tive a certeza - acompanhada de um inevitável frio na espinha - de que se tratava de um show sertanejo. Não deu outra: "João Bosco e Vinicius". Como não sou jornalista de negar fogo, ou melhor, de negar pauta, topei o desafio. O bom repórter é aquele que, além do conhecimento específio em uma ou mais áreas, dá conta do basicão em editoriais que não são de sua competência.
Fui ao jornal convicto de que, pelas forças ocultas da Lei de Murphy, fosse um show de rock jamais seria escalado. Como era sertanejo, e ainda por cima universitário, o editor-chefe deve ter pensado: "ahhhh, tem o Luiz Fernando..." Para que os amigos contextualizem a situação, para mim rock está para uma partida de futebol assim como sertanejo está para uma espetáculo de balé clássico. Se bem que, por conta das bailarinas, balé tem lá suas vantagens.
De João Bosco e Vinicius só sabia que eles cantam "Chora, me liga". Qual bendita alma residente em Maringá, essa cidade paranaense que é doente por sertanejo, não sabe desse detalhe. É ligar na rádio FM, não dá meia hora e toca "Chooora, me liga, implooora meu beijo de nooovooo. Me pede socooorro, quem sabe eu vou te salvaaar. Chooora, me liga, implooora pelo meu amô-o-or, pede por favô-o-or, quem sabe um dia eu volto a te procurar". Interessante a letra: sempre serve para alguma ex.
"Nada é tão ruim que não possa piorar". Para valorizar o ditado, o show atrasou um bocado, derramei água no sapato e durante o apresentação da dupla, no meio da multidão, uma baranga pegou na minha bunda. "O que é isso", exclamei. "Sorte que eu sou eu, um mero mortal. Imagine o que ela teria feito se eu fosse o Gianecchini", pensei, enquanto me afastava do dragão antes que ele cuspisse fogo. Fui para perto de algumas belas moças, mas aí, lógico, nenhuma pegou em mim.
Consegui me aproximar do palco. Distante cerca de cinco metros dos cantores, fiz fotos e vídeos com uma máquina portátil e anotei algumas declarações de fãs. Uma loira tipo holandesa, de olhos claros, cinturinha bem definida, cerca de 1,65m de altura, pele clara e cabelos lisos e esvoaçantes veio falar comigo. Viu o crachá de repórter do jornal e queria dar entrevista também. Não sei se era só entrevista que ela queria dar. Na dúvida, perguntei a idade da moça. "Tenho 17 anos", respondeu. "Melhor deixar para pegar o telefone de outra", pensei, ao suspeitar que ela estava mentindo a idade... para mais.
Difícil foi deixar a multidão. Cinco músicas depois do início do show, o número de fãs por metro quadrado era de pôr medo em qualquer claustrofóbico. O risco de topar com outro "dragão atrevido" também causava medo. Resolvi que era hora de partir, até porque a colega de cobertura, uma fotógrafa de olhos verdes e traços italianos, já devia estar me esperando.
Tinha em mãos e em mente o material necessário para uma boa matéria. Esperava uma saída honrosa, porém, pisei sem querer no calcanhar de uma fã entroncada e ela, sem considerar meu pedido de desculpas, disparou uma impiedosa colovelada. Considerando que o pisão, de 85 quilos, possa ter realmente doído, relevei a agressão e segui meu rumo.
Sentia-me como um peixe fora d'água em meio a uma multidão que cantava decor músicas que até então eu desconhecia, mas, no balanço final, a experiência foi válida. Tive a oportunidade de ir ao camarim da dupla e de, na entrevista, descobrir o carinho que eles alimentam por uma cidade que os acolheu quando eles ainda sonhavam ser famosos e tinham como ganha-pão as apresentações em boates e barzinhos.
João Bosco e Vinicius deram uma aula de simpatia e deixaram uma importante lição: não se deve, por maior que seja o sucesso, esquecer de quem te apoiou no início da jornada. Assim como não se deve deixar de anotar o número de telefone da jovem "holandesa", até porque, num futuro próximo, ela terá mais de 18.
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» Leia também sobre a cobertura.
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2 de maio de 2010
Um chalé na Serra Gaúcha
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O desembarque em Gramado, principal destino turístico da Serra Gaúcha, cidade que para muitos lembra a Europa, deu-se numa fria manhã de março, com denso nevoeiro e temperatura na casa dos 5°C. Há quem diga que por lá os termômetros são "viciados" para garantir baixas temperaturas, de qualquer forma, Luiggi Oliveira achava bom vestir blusa e tomar um amargo de novo. Para o jornalista, autor de dois contos que, juntos, não venderam 800 exemplares, a sensação de estar novamente no Rio Grande do Sul era como a de ter retornado do exílio. Sentia-se contente e desejava ficar ali, no ar puro da serra, até concluir seu terceiro livro, quiçá um futuro best seller.
Luiggi chegou de ônibus, com uma mochila nas costas, seu notebook em mãos e disposição para recomeçar do zero. E isso significava dispensar um bom tempo para comprar roupas e bem mais para fazer novos amigos. Em São Paulo, deixou tudo: as ridículas piadas de gaúcho, o pseudo-churrasco de grelha, a poluição, os alagamentos, o trânsito infernal, a violência da grande capital, o cobiçado emprego no maior jornal da cidade, o apartamento com home theater – que largou com toda a mobília aos cuidados de uma imobiliária –, livros e, inclusive, a namorada, com quem já cogitava morar junto. Decisões envolvendo laços afetivos são as mais difíceis de tomar.
Elizabeth era uma boa mulher, em mais de um sentido da palavra. Estilista de futuro promissor, sempre tão ocupada com o crescimento profissional, só foi perceber o momento de angústia do namorado no dia da despedida. E ele, o escritor, precisava de um bom motivo para largar tudo e de um melhor ainda para justificar o "exílio" em Gramado. Por que não Porto Alegre ou Caxias do Sul? Estava certo de que ouviria da bela morena alguma pergunta desse gênero.
Uma briga, mais intensa que as anteriores, foi "o início do fim". Elizabeth disse que gostaria de sair para conversar com sua melhor amiga. "Sem problemas", pensou Luiggi, "deve ser assunto de mulher". No dia do anunciado encontro, ao perguntar onde Elizabeth iria, o escritor recebeu inesperada resposta: um show sertanejo. Iria com a amiga ver Victor & Leo e só voltaria de madrugada. "Não creio que ela aprontou essa contigo, Luiggi", exclamou o melhor amigo e colega de redação, numa mesa de bar. "Fosse você, eu terminaria o namoro", disse o irmão lá do Rio Grande, via MSN. O incentivo do amigo e do irmão foi o combustível da coragem de Luiggi, que rompeu o namoro mesmo sob o temor de se arrepender da decisão, mais tarde.
No mesmo dia, deu início aos preparativos da mudança. Mantinha a disposição de investir na busca do sonho de ter seu nome estampado na capa de um best seller. Num primeiro momento, seu editor-chefe do jornal não aceitou o pedido de demissão. Apostava alto no gaúcho – que tantas vezes fora alvo de suas piadas bairristas. Cedeu ao pedido de acordo na semana seguinte, propondo ao jornalista a função de correspondente no Rio Grande. Luiggi estava, enfim, livre para largar aquela rotina, livre para realizar seu objetivo literário. Queria ver seu livro em todas as bancas, publicado em vários idiomas se possível. Se Paulo Coelho pôde, pensava, com persistência e dedicação conseguiria também.
Certa noite, Luiggi teve um daqueles sonhos surreais, no qual era autor de um título de sucesso chamado "Cobain e o Universo Feminino" – coincidentemente o título do livro que estava escrevendo – e residia num chalé em Gramado. Sua agora ex-namorada não acreditaria que a escolha da cidade se dera por esse motivo. Era melhor que ela nem soubesse do detalhe.
Em Gramado, deixou as malas num pequeno hotel e saiu a caminhar sem pressa pela Borges de Medeiros, uma das mais charmosas avenidas do País. Os cabos de energia elétrica soterrados, as folhas a cair das árvores, o frio, as pessoas encasacadas e as casas em estilo enxaimel conferiam àquela cidade, de fato, ares de Europa. Desejava ter, em Gramado, um chalé com lareira, um vinho nas noites de frio, ar puro nas caminhadas matutinas, sossego para escrever e, quem sabe, companhia especial para as noites mais frias. Estava certo de que teria aquilo, incluindo seu best seller.
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O desembarque em Gramado, principal destino turístico da Serra Gaúcha, cidade que para muitos lembra a Europa, deu-se numa fria manhã de março, com denso nevoeiro e temperatura na casa dos 5°C. Há quem diga que por lá os termômetros são "viciados" para garantir baixas temperaturas, de qualquer forma, Luiggi Oliveira achava bom vestir blusa e tomar um amargo de novo. Para o jornalista, autor de dois contos que, juntos, não venderam 800 exemplares, a sensação de estar novamente no Rio Grande do Sul era como a de ter retornado do exílio. Sentia-se contente e desejava ficar ali, no ar puro da serra, até concluir seu terceiro livro, quiçá um futuro best seller.
Luiggi chegou de ônibus, com uma mochila nas costas, seu notebook em mãos e disposição para recomeçar do zero. E isso significava dispensar um bom tempo para comprar roupas e bem mais para fazer novos amigos. Em São Paulo, deixou tudo: as ridículas piadas de gaúcho, o pseudo-churrasco de grelha, a poluição, os alagamentos, o trânsito infernal, a violência da grande capital, o cobiçado emprego no maior jornal da cidade, o apartamento com home theater – que largou com toda a mobília aos cuidados de uma imobiliária –, livros e, inclusive, a namorada, com quem já cogitava morar junto. Decisões envolvendo laços afetivos são as mais difíceis de tomar.
Elizabeth era uma boa mulher, em mais de um sentido da palavra. Estilista de futuro promissor, sempre tão ocupada com o crescimento profissional, só foi perceber o momento de angústia do namorado no dia da despedida. E ele, o escritor, precisava de um bom motivo para largar tudo e de um melhor ainda para justificar o "exílio" em Gramado. Por que não Porto Alegre ou Caxias do Sul? Estava certo de que ouviria da bela morena alguma pergunta desse gênero.
Uma briga, mais intensa que as anteriores, foi "o início do fim". Elizabeth disse que gostaria de sair para conversar com sua melhor amiga. "Sem problemas", pensou Luiggi, "deve ser assunto de mulher". No dia do anunciado encontro, ao perguntar onde Elizabeth iria, o escritor recebeu inesperada resposta: um show sertanejo. Iria com a amiga ver Victor & Leo e só voltaria de madrugada. "Não creio que ela aprontou essa contigo, Luiggi", exclamou o melhor amigo e colega de redação, numa mesa de bar. "Fosse você, eu terminaria o namoro", disse o irmão lá do Rio Grande, via MSN. O incentivo do amigo e do irmão foi o combustível da coragem de Luiggi, que rompeu o namoro mesmo sob o temor de se arrepender da decisão, mais tarde.
No mesmo dia, deu início aos preparativos da mudança. Mantinha a disposição de investir na busca do sonho de ter seu nome estampado na capa de um best seller. Num primeiro momento, seu editor-chefe do jornal não aceitou o pedido de demissão. Apostava alto no gaúcho – que tantas vezes fora alvo de suas piadas bairristas. Cedeu ao pedido de acordo na semana seguinte, propondo ao jornalista a função de correspondente no Rio Grande. Luiggi estava, enfim, livre para largar aquela rotina, livre para realizar seu objetivo literário. Queria ver seu livro em todas as bancas, publicado em vários idiomas se possível. Se Paulo Coelho pôde, pensava, com persistência e dedicação conseguiria também.
Certa noite, Luiggi teve um daqueles sonhos surreais, no qual era autor de um título de sucesso chamado "Cobain e o Universo Feminino" – coincidentemente o título do livro que estava escrevendo – e residia num chalé em Gramado. Sua agora ex-namorada não acreditaria que a escolha da cidade se dera por esse motivo. Era melhor que ela nem soubesse do detalhe.
Em Gramado, deixou as malas num pequeno hotel e saiu a caminhar sem pressa pela Borges de Medeiros, uma das mais charmosas avenidas do País. Os cabos de energia elétrica soterrados, as folhas a cair das árvores, o frio, as pessoas encasacadas e as casas em estilo enxaimel conferiam àquela cidade, de fato, ares de Europa. Desejava ter, em Gramado, um chalé com lareira, um vinho nas noites de frio, ar puro nas caminhadas matutinas, sossego para escrever e, quem sabe, companhia especial para as noites mais frias. Estava certo de que teria aquilo, incluindo seu best seller.
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28 de abril de 2010
Time-out
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Tenho três amigos que vão ao psicólogo regularmente e sei de alguns outros que também vão, eventualmente, mas por preconceito bobo não contam a ninguém, talvez por receio de parecerem loucos. Nada contra os psicólogos, mas prefiro meios alternativos para vencer traumas e superar problemas, mesmo aqueles que impõem medo.
Erga a mão quem não tiver problemas para resolver. Viver é matar a dentadas um leão a cada dia, é pagar dívidas, brigar e se reconciliar com a mulher amada, pensar no futuro dos filhos, reclamar do preço do combustível, fazer o mesmo do preço da carne, perder 35% do salário para os impostos, pedir aumento e ouvir não do chefe, procurar outro emprego, estudar para se manter competitivo no mercado de trabalho, tomar vacina contra gripe suína, irritar-se com o colega puxa-saco, sonhar com o carro novo e ter de parcelar em dez vezes a troca dos pneus do Gol "geração um", pagar mais impostos e, de dois em dois anos, votar nos mesmos "bons e honestos" políticos. É tanta coisa que chega a dar saudade dos tempos de criança.
São problemas que geram estresse. Para mim, a melhor maneira de extravasar é parar, respirar fundo, preparar um bom café, refletir bebendo o café e escrever. Pôr os problemas no papel – ou no blog –, às vezes com ajuda de personagens criados para resguardar alguma privacidade, é um método quase infalível. Com permissão para uma analogia barata: é como o time-out do basquete, ocasião em que o técnico de um time da NBA pede tempo para conversar com os jogadores, traçar estratégias alternativas e colocar a "casa" em ordem. Escrever, para quem é chegado das letras, é como um time-out.
Há ainda outros métodos para extravasar o estresse. Um deles são os livros de autoajuda. Mas cuidado, há muita porcaria editorial na praça, especialmente nessa área. Há também a opção milenar de buscar soluções no âmbito espiritual, em Deus e com ajuda de uma igreja (ou mesquita ou sinagoga, etc), ou até mesmo na esfera secular, numa rodada de chope com amigos para chorar as mágoas, por exemplo. Aliás, quantos reis já não ansiaram ser plebeu ao menos por um dia, no dia de maior tristeza, para ter a liberdade de desabafar com amigos numa mesa de bar.
Rei ou plebeu, "sangue azul" ou não, é bom ter amigos por perto em momentos de dificuldade. Como ensinou o apóstolo Paulo: "Assim, permanecem agora estes três: a fé, a esperança e o amor. O maior deles, porém, é o amor". Contudo, se nenhuma dessas técnicas funcionar, não relute em procurar um bom psicólogo. E se por acaso você for um rei ou algo parecido, faça como no cinema e seja "normal" por um dia... e vá beber com os amigos.
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Tenho três amigos que vão ao psicólogo regularmente e sei de alguns outros que também vão, eventualmente, mas por preconceito bobo não contam a ninguém, talvez por receio de parecerem loucos. Nada contra os psicólogos, mas prefiro meios alternativos para vencer traumas e superar problemas, mesmo aqueles que impõem medo.
Erga a mão quem não tiver problemas para resolver. Viver é matar a dentadas um leão a cada dia, é pagar dívidas, brigar e se reconciliar com a mulher amada, pensar no futuro dos filhos, reclamar do preço do combustível, fazer o mesmo do preço da carne, perder 35% do salário para os impostos, pedir aumento e ouvir não do chefe, procurar outro emprego, estudar para se manter competitivo no mercado de trabalho, tomar vacina contra gripe suína, irritar-se com o colega puxa-saco, sonhar com o carro novo e ter de parcelar em dez vezes a troca dos pneus do Gol "geração um", pagar mais impostos e, de dois em dois anos, votar nos mesmos "bons e honestos" políticos. É tanta coisa que chega a dar saudade dos tempos de criança.
São problemas que geram estresse. Para mim, a melhor maneira de extravasar é parar, respirar fundo, preparar um bom café, refletir bebendo o café e escrever. Pôr os problemas no papel – ou no blog –, às vezes com ajuda de personagens criados para resguardar alguma privacidade, é um método quase infalível. Com permissão para uma analogia barata: é como o time-out do basquete, ocasião em que o técnico de um time da NBA pede tempo para conversar com os jogadores, traçar estratégias alternativas e colocar a "casa" em ordem. Escrever, para quem é chegado das letras, é como um time-out.
Há ainda outros métodos para extravasar o estresse. Um deles são os livros de autoajuda. Mas cuidado, há muita porcaria editorial na praça, especialmente nessa área. Há também a opção milenar de buscar soluções no âmbito espiritual, em Deus e com ajuda de uma igreja (ou mesquita ou sinagoga, etc), ou até mesmo na esfera secular, numa rodada de chope com amigos para chorar as mágoas, por exemplo. Aliás, quantos reis já não ansiaram ser plebeu ao menos por um dia, no dia de maior tristeza, para ter a liberdade de desabafar com amigos numa mesa de bar.
Rei ou plebeu, "sangue azul" ou não, é bom ter amigos por perto em momentos de dificuldade. Como ensinou o apóstolo Paulo: "Assim, permanecem agora estes três: a fé, a esperança e o amor. O maior deles, porém, é o amor". Contudo, se nenhuma dessas técnicas funcionar, não relute em procurar um bom psicólogo. E se por acaso você for um rei ou algo parecido, faça como no cinema e seja "normal" por um dia... e vá beber com os amigos.
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26 de abril de 2010
Das Auto
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A caminho do trabalho, numa pálida tarde de outono, de sol encoberto por nuvens e chuviscos que não bastavam para ser taxados de garoa, decidi visitar um bom amigo. "Você pode vir vê-lo sempre que quiser", disse-me o mecânico, uma semana antes. Havia deixado meu Fusca 1975 para reforma e pintura, para os ajustes finais antes da venda. Santo Deus... venda era um verbo que não desejava empregar, sequer pensar, naquela situação.
Em seu azul escuro perolizado, com branco-gelo nas portas no provocante estilo minissaia, Sólido estava reluzente, quase pronto para ser disputado por colecionadores, em alguma garagem da cidade. Embora exuberante, parecia estar com um olhar triste, como se soubesse que seria vendido após o "banho de beleza".
— Teu Fusca não está pronto ainda — disse o responsável pela pintura — falta o polimento. Depois disso você vai vendê-lo num piscar de olhos.
Com ajuda de entendidos no assunto, avaliei meu Volkswagen bicolor em sete contos e pouco. Triste pela previsão de venda fácil e certo de que dificilmente tornaria a vê-lo após o negócio, fiquei ali, estaticamente triste, a observar o Sólido sem pressa. Fosse pelo afeto, nem R$ 20 mil o tirariam de mim. Precisava da grana para ajudar nas despesas de um caro curso de pós-graduação que havia cursado, seis meses antes, em São Paulo.
"Das Auto", como na propaganda. Na tradução livre do alemão: "O Carro", e que carro. No namoro de seis anos, o único problema que tive com o Sólido foi nos meses seguintes à aquisição. Bateria fraca, nada mais. O motor 1300 foi "feito" e, embora não seja lá tão econômico, é o ponto forte do fusqueta. Assoalho impecável; pneus largos e novos; interior em azul e gelo, combinando com a lataria externa; bancos em azul e preto; volante retrovisor e painel originais; vidros escuros. Um luxo. Com a pintura, desfilaria como um gentleman com terno a la James Bond e gravata borboleta.
Mais de uma vez, pensei em desistir da venda, porém, a iniciativa parecia acertada. Sem garagem coberta, o sol e o sereno mancharam a pintura sem dó. Agora, de "terno" novo, ele era merecedor de melhor abrigo, de uma espaçosa garagem para repousar. "Das Auto" merecia cuidados além do que eu poderia oferecer. A iniciativa da venda parecia realmente, vendo por esse ângulo, acertada.
Nunca liguei para a avaliação feminina do Sólido. Para as mulheres, era só um Fusca. Ao sair com ele pelas ruas da cidade, arrancava olhares interessados... de marmanjos que queriam o Sólido a ponto de fazer propostas obscenas por ele. "Te dou R$ 5 mil agora", disse um sujeito certo dia, no semáforo, de dentro de seu novo Vectra. "Por esse valor, tu devias procurar no ferro-velho do Seu Zé", retruquei. Para as mulheres, as mesmas que se interessavam pelo jornalista com crachá e carro adesivado do jornal, eu era invisível dentro do Sólido. Pobreza de espírito delas não entender a magia de um clássico bem conservado.
Comprei o Sólido em Pato Branco, de um sujeito que havia largado tudo no Brasil para assentar tijolos em Verona, na Itália, e que precisava de dinheiro para as passagens. Com financiamento do "banco paterno" – aquele da taxa de juros de 0% ao ano – paguei à vista e em espécie, garantindo o melhor Fusca do sudoeste paranaense por uma pechincha. O fechar das portas lembrava uma geladeira, a partida dava a impressão de o Sólido ter injeção eletrônica.
— Vai precisar trocar a bateria, o fluído de freio e o óleo. Nada mais — disse o pai de um amigo de infância, da Mecânica do Di, que avaliou o Sólido antes da compra.
— E quanto tu achas que vale um Fusca como esse?
— Seis mil, no mínimo. Mas se for vender em cidade grande, consegues mais que isso por ele.
— Nooooossa — exclamei, como se tivesse descoberto a pólvora.
— Quanto custou? — disse, já curioso, o mecânico.
— Misericórdia, saiu de graça — comentou, após saber o valor.
Passados seis anos, era chegada a hora de algum felizardo colecionador ter o Sólido em sua garagem. No jornal, deram-me alguns anúncios nos classificados, para agilizar a venda. Pensei em deixá-lo em alguma garagem de confiança, em terceirizar a venda para não correr o risco de me arrepender da decisão.
Na cinzenta tarde de outono, que testemunhou a redação desta crônica, passei em uma lotéria a caminho do jornal. Apostei novamente em minhas seis dezenas favoritas, esperançoso de que a sorte me permitisse ficar com o Sólido. Quem sabe a sorte, o destino, Deus, sei lá, percebessem que o Sólido ficaria bem comigo, mesmo exposto ao sol e ao sereno. Quem sabe.
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A caminho do trabalho, numa pálida tarde de outono, de sol encoberto por nuvens e chuviscos que não bastavam para ser taxados de garoa, decidi visitar um bom amigo. "Você pode vir vê-lo sempre que quiser", disse-me o mecânico, uma semana antes. Havia deixado meu Fusca 1975 para reforma e pintura, para os ajustes finais antes da venda. Santo Deus... venda era um verbo que não desejava empregar, sequer pensar, naquela situação.
Em seu azul escuro perolizado, com branco-gelo nas portas no provocante estilo minissaia, Sólido estava reluzente, quase pronto para ser disputado por colecionadores, em alguma garagem da cidade. Embora exuberante, parecia estar com um olhar triste, como se soubesse que seria vendido após o "banho de beleza".
— Teu Fusca não está pronto ainda — disse o responsável pela pintura — falta o polimento. Depois disso você vai vendê-lo num piscar de olhos.
Com ajuda de entendidos no assunto, avaliei meu Volkswagen bicolor em sete contos e pouco. Triste pela previsão de venda fácil e certo de que dificilmente tornaria a vê-lo após o negócio, fiquei ali, estaticamente triste, a observar o Sólido sem pressa. Fosse pelo afeto, nem R$ 20 mil o tirariam de mim. Precisava da grana para ajudar nas despesas de um caro curso de pós-graduação que havia cursado, seis meses antes, em São Paulo.
"Das Auto", como na propaganda. Na tradução livre do alemão: "O Carro", e que carro. No namoro de seis anos, o único problema que tive com o Sólido foi nos meses seguintes à aquisição. Bateria fraca, nada mais. O motor 1300 foi "feito" e, embora não seja lá tão econômico, é o ponto forte do fusqueta. Assoalho impecável; pneus largos e novos; interior em azul e gelo, combinando com a lataria externa; bancos em azul e preto; volante retrovisor e painel originais; vidros escuros. Um luxo. Com a pintura, desfilaria como um gentleman com terno a la James Bond e gravata borboleta.
Mais de uma vez, pensei em desistir da venda, porém, a iniciativa parecia acertada. Sem garagem coberta, o sol e o sereno mancharam a pintura sem dó. Agora, de "terno" novo, ele era merecedor de melhor abrigo, de uma espaçosa garagem para repousar. "Das Auto" merecia cuidados além do que eu poderia oferecer. A iniciativa da venda parecia realmente, vendo por esse ângulo, acertada.
Nunca liguei para a avaliação feminina do Sólido. Para as mulheres, era só um Fusca. Ao sair com ele pelas ruas da cidade, arrancava olhares interessados... de marmanjos que queriam o Sólido a ponto de fazer propostas obscenas por ele. "Te dou R$ 5 mil agora", disse um sujeito certo dia, no semáforo, de dentro de seu novo Vectra. "Por esse valor, tu devias procurar no ferro-velho do Seu Zé", retruquei. Para as mulheres, as mesmas que se interessavam pelo jornalista com crachá e carro adesivado do jornal, eu era invisível dentro do Sólido. Pobreza de espírito delas não entender a magia de um clássico bem conservado.
Comprei o Sólido em Pato Branco, de um sujeito que havia largado tudo no Brasil para assentar tijolos em Verona, na Itália, e que precisava de dinheiro para as passagens. Com financiamento do "banco paterno" – aquele da taxa de juros de 0% ao ano – paguei à vista e em espécie, garantindo o melhor Fusca do sudoeste paranaense por uma pechincha. O fechar das portas lembrava uma geladeira, a partida dava a impressão de o Sólido ter injeção eletrônica.
— Vai precisar trocar a bateria, o fluído de freio e o óleo. Nada mais — disse o pai de um amigo de infância, da Mecânica do Di, que avaliou o Sólido antes da compra.
— E quanto tu achas que vale um Fusca como esse?
— Seis mil, no mínimo. Mas se for vender em cidade grande, consegues mais que isso por ele.
— Nooooossa — exclamei, como se tivesse descoberto a pólvora.
— Quanto custou? — disse, já curioso, o mecânico.
— Misericórdia, saiu de graça — comentou, após saber o valor.
Passados seis anos, era chegada a hora de algum felizardo colecionador ter o Sólido em sua garagem. No jornal, deram-me alguns anúncios nos classificados, para agilizar a venda. Pensei em deixá-lo em alguma garagem de confiança, em terceirizar a venda para não correr o risco de me arrepender da decisão.
Na cinzenta tarde de outono, que testemunhou a redação desta crônica, passei em uma lotéria a caminho do jornal. Apostei novamente em minhas seis dezenas favoritas, esperançoso de que a sorte me permitisse ficar com o Sólido. Quem sabe a sorte, o destino, Deus, sei lá, percebessem que o Sólido ficaria bem comigo, mesmo exposto ao sol e ao sereno. Quem sabe.
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9 de abril de 2010
Entrevista com Cobain
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"Quando Toddy chamar seu nome acene para o público e vá ao encontro do entrevistador, okay?", disse a assessora, enquanto retocava a maquiagem da mais recente celebridade do País. Cobain não participou do reality show Big Brother, mas havia se tornado conhecido da noite para o dia. Foi dormir anônimo, e acordou com pedidos de entrevista ao telefone. Chamou uma amiga jornalista – e ex-namorada, claro – para ajudá-lo a lidar com a situação e com o assédio da imprensa. Tornara-se famoso, por acaso.
Cobain era o entrevistado da noite no Toddy Show, programa que se tornara campeão de audiência no horário nobre, liderado por John Toddy, um apresentador de humor sarcástico e perguntas ácidas. Composto por três blocos, o programa normalmente tinha três entrevistados. Contudo, Toddy falaria apenas com Cobain naquela noite. O mundo queria saber mais sobre o moreno de 1,82m de altura, que conquistava as mais belas mulheres até nas muitas vezes que, sem carro, teve de ir à pé ou de carona para as baladas.
A fama veio após o lançamento do livro "Cobain e o Universo Feminino", que revela romances de um galã e dá dicas de como entender mais bem as mulheres. "Quando compreendidas e amadas, mesmo na TPM, elas fazem tudo o que eles querem (na cama)", diz trecho do livro, que se tornou best seller mundial em menos de um ano após seu lançamento. Averso a entrevistas e se sentindo pressionado a revelar a identidade do protagonista, Luiggi Oliveira contou em entrevista exclusiva à revista semanal "Tudo" quem era Cobain e como o conhecera. Feito isso, o escritor se isolou em sua casa na Serra Gaúcha e Cobain, não teve mais sossego.
— Vou receber agora aquele que talvez seja o maior galã desde Don Juan. Vem pra cá Cobain — anunciou John Toddy, seguido de música de entrada de seu sexteto.
— Depois que Luiggi Oliveira revelou seu verdadeiro nome, você prefere ser chamado apenas de Cobain. Por quê?
— Nossa, como estou nervoso. Se ficasse assim com as mulheres ainda seria virgem — disse Cobain, arrancando risos da plateia. Era sua primeira entrevista em rede nacional e ele, ainda confuso com tamanho assédio, esperava agradar.
— Queria eu ser mais tímido diante das câmeras e ter tanta facilidade com as mulheres.
— Não há segredo, você só precisa dizer o que elas querem ouvir. E ser romântico e atencioso na dose certa.
— É possível manter esse nível de conquistador sempre? Por exemplo, no fim de semana agora acontece a Atchuca, uma das maiores raves do País. Você consegue se dar bem nesse tipo de festa?
— Vixi, faz tempo que não vou a uma rave. Hoje em dia deve ser bem diferente. No meu tempo não existia "emos", por exemplo — disse o bem apessoado, seguido de mais risos da plateia.
— O que rola numa rave, além de "emos"?
— Rola de tudo: música tecno, várias tribos de gente, de hippies a playboys, muita "bala" e muito "doce" — disse, referindo-se ao uso de entorpecentes ilícitos. — Muito energético também. Tem uma galera que faz swing, que é um malabarismo com foto e cordas e não orgia sexual, claro — acrescentou o entrevistado.
— Você quer dizer que em rave fica todo mundo noiado? — perguntou Toddy, que insistia no assunto ao ouvir de seu diretor que a audiência havia disparado.
— No meu tempo, cerca de 85% usavam algum tipo de droga, infelizmente.
— Fiquei sabendo que essas festas às vezes duram dias. Como isso é possível Cobain?
— Então Toddy, quando você está numa festa que não tem hora pra acabar, afastada da cidade, com bebida, comida, drogas e opções para sexo... cheio de gente, por que ir embora?
— Como o oportunista Cobain se comportaria na festa deste fim de semana?
— Não vou a essa festa, mas vou traçar um perfil psicológico do Cobain (risos). Ele é um cara que se dá bem com as mulheres, certo? Sai com mulheres que os outros geralmente nem chegariam. Quero dizer, sai com mulheres casadas e noivas, isso pra não falar naquelas que têm namorado. Então, ele é um cara que analisa as meninas, que sabe conversar com elas e encontra as lacunas que elas querem.
— Mesmo em uma rave?
— O tempo todo. Agora, como conselheiro amoroso, faço isso também profissionalmente.
— Como conselheiro, que dica você tem a quem quer se dar bem numa rave sem usar drogas, e que quer deixar a festa direto para um motel?
— Quanto mais sóbrio você estiver, melhor. É isso que posso dizer. Estando sóbrio, você tem condições de chegar na menina na hora certa.
Com a audiência bombando, John Toddy encerra o primeiro bloco e chama o intervalo comercial. Cobain, já mais relaxado, é aconselhado por sua assessora. Em sua primeira aparição em horário nobre, e em rede nacional, o galã conquista sorrisos e audiência.
— Não saia daí, nem mesmo para estourar pipocas. Voltamos em segundos com Cobain, o novo Don Juan... (pausa) que merda isso aqui. Oooo direção, a gente está economizando no ar-condicionado por acaso? Deixa mais frio isso aí!
— Você acha que me saí bem? — perguntou Cobain.
— Claro, mas vê se conta mais detalhes sórdidos, para apimentar a entrevista. Aliás, acho que aquela minha assistente de palco ali está de olho em você.
— Eu sei, já combinei uma volta com ela assim que sair do teu programa.
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"Quando Toddy chamar seu nome acene para o público e vá ao encontro do entrevistador, okay?", disse a assessora, enquanto retocava a maquiagem da mais recente celebridade do País. Cobain não participou do reality show Big Brother, mas havia se tornado conhecido da noite para o dia. Foi dormir anônimo, e acordou com pedidos de entrevista ao telefone. Chamou uma amiga jornalista – e ex-namorada, claro – para ajudá-lo a lidar com a situação e com o assédio da imprensa. Tornara-se famoso, por acaso.
Cobain era o entrevistado da noite no Toddy Show, programa que se tornara campeão de audiência no horário nobre, liderado por John Toddy, um apresentador de humor sarcástico e perguntas ácidas. Composto por três blocos, o programa normalmente tinha três entrevistados. Contudo, Toddy falaria apenas com Cobain naquela noite. O mundo queria saber mais sobre o moreno de 1,82m de altura, que conquistava as mais belas mulheres até nas muitas vezes que, sem carro, teve de ir à pé ou de carona para as baladas.
A fama veio após o lançamento do livro "Cobain e o Universo Feminino", que revela romances de um galã e dá dicas de como entender mais bem as mulheres. "Quando compreendidas e amadas, mesmo na TPM, elas fazem tudo o que eles querem (na cama)", diz trecho do livro, que se tornou best seller mundial em menos de um ano após seu lançamento. Averso a entrevistas e se sentindo pressionado a revelar a identidade do protagonista, Luiggi Oliveira contou em entrevista exclusiva à revista semanal "Tudo" quem era Cobain e como o conhecera. Feito isso, o escritor se isolou em sua casa na Serra Gaúcha e Cobain, não teve mais sossego.
— Vou receber agora aquele que talvez seja o maior galã desde Don Juan. Vem pra cá Cobain — anunciou John Toddy, seguido de música de entrada de seu sexteto.
— Depois que Luiggi Oliveira revelou seu verdadeiro nome, você prefere ser chamado apenas de Cobain. Por quê?
— Nossa, como estou nervoso. Se ficasse assim com as mulheres ainda seria virgem — disse Cobain, arrancando risos da plateia. Era sua primeira entrevista em rede nacional e ele, ainda confuso com tamanho assédio, esperava agradar.
— Queria eu ser mais tímido diante das câmeras e ter tanta facilidade com as mulheres.
— Não há segredo, você só precisa dizer o que elas querem ouvir. E ser romântico e atencioso na dose certa.
— É possível manter esse nível de conquistador sempre? Por exemplo, no fim de semana agora acontece a Atchuca, uma das maiores raves do País. Você consegue se dar bem nesse tipo de festa?
— Vixi, faz tempo que não vou a uma rave. Hoje em dia deve ser bem diferente. No meu tempo não existia "emos", por exemplo — disse o bem apessoado, seguido de mais risos da plateia.
— O que rola numa rave, além de "emos"?
— Rola de tudo: música tecno, várias tribos de gente, de hippies a playboys, muita "bala" e muito "doce" — disse, referindo-se ao uso de entorpecentes ilícitos. — Muito energético também. Tem uma galera que faz swing, que é um malabarismo com foto e cordas e não orgia sexual, claro — acrescentou o entrevistado.
— Você quer dizer que em rave fica todo mundo noiado? — perguntou Toddy, que insistia no assunto ao ouvir de seu diretor que a audiência havia disparado.
— No meu tempo, cerca de 85% usavam algum tipo de droga, infelizmente.
— Fiquei sabendo que essas festas às vezes duram dias. Como isso é possível Cobain?
— Então Toddy, quando você está numa festa que não tem hora pra acabar, afastada da cidade, com bebida, comida, drogas e opções para sexo... cheio de gente, por que ir embora?
— Como o oportunista Cobain se comportaria na festa deste fim de semana?
— Não vou a essa festa, mas vou traçar um perfil psicológico do Cobain (risos). Ele é um cara que se dá bem com as mulheres, certo? Sai com mulheres que os outros geralmente nem chegariam. Quero dizer, sai com mulheres casadas e noivas, isso pra não falar naquelas que têm namorado. Então, ele é um cara que analisa as meninas, que sabe conversar com elas e encontra as lacunas que elas querem.
— Mesmo em uma rave?
— O tempo todo. Agora, como conselheiro amoroso, faço isso também profissionalmente.
— Como conselheiro, que dica você tem a quem quer se dar bem numa rave sem usar drogas, e que quer deixar a festa direto para um motel?
— Quanto mais sóbrio você estiver, melhor. É isso que posso dizer. Estando sóbrio, você tem condições de chegar na menina na hora certa.
Com a audiência bombando, John Toddy encerra o primeiro bloco e chama o intervalo comercial. Cobain, já mais relaxado, é aconselhado por sua assessora. Em sua primeira aparição em horário nobre, e em rede nacional, o galã conquista sorrisos e audiência.
— Não saia daí, nem mesmo para estourar pipocas. Voltamos em segundos com Cobain, o novo Don Juan... (pausa) que merda isso aqui. Oooo direção, a gente está economizando no ar-condicionado por acaso? Deixa mais frio isso aí!
— Você acha que me saí bem? — perguntou Cobain.
— Claro, mas vê se conta mais detalhes sórdidos, para apimentar a entrevista. Aliás, acho que aquela minha assistente de palco ali está de olho em você.
— Eu sei, já combinei uma volta com ela assim que sair do teu programa.
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31 de março de 2010
Doze de Março
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Por Eduardo Cardoso de Oliveira*
Há um ano estávamos de férias, viajando pelo litoral catarinense e serra gaúcha. Voltamos embora antes do previsto, por dois motivos: a possível falta de dinheiro e uma doença que o João Paulo pegou. O piá precisou ficar internado por três dias. Segundo o médico que o atendeu, o problema de saúde era conhecido – não por mim – e atendia pelo modesto nome de mononucleose. Ser acometido de doenças pouco habituais é um hobby do Nanico.
Piá (LF), você está ficando velho! Lembro do longínquo e pré-histórico tempo no qual você fazia jornais caseiros sobre vídeogame, séries de TV e assuntos ligados a uma infância muito bem aproveitada, exceto pelo fato de trabalhar todo final de semana por copos de Coca-Cola e alguns pacotes de salgadinho. Carregávamos tijolos de um lado para o outro e vice-versa, cortávamos grama, pintávamos cerca, capinávamos as ervas-daninhas que antigamente cresciam junto ao meio-fio e hoje não crescem mais, arrancávamos matos da grama com uma faquinha, à tarde, sob sol escaldante, buscávamos água ná "vó" todo dia... você até inventou uma música: "escravos de Jó, buscam água lá na "vó". Na vó também buscávamos lenha, levávamos as sujeitas que sobravam dos serviços. O local de despejo dos entulhos: "buração". Bizarro!
Antes de voltar de viagem, conhecemos os cânions em Cambará do Sul (RS). "A melhor parte da viagem", frase sua a qual eu concordo. Outro município da serra gaúcha que passeamos foi a charmosa Gramado, cidade de muitas cafeterias, chocolaterias, parque e outros pontos turísticos que encantam pelo cuidado e zelo. Tudo parece estar no lugar certo, na hora certa, na temperatura certa e com a cor certa. Em Canela, cidade vizinha e sem o aspecto europeu de Gramado, conhecemos museus – um do chocolate e o outro ligado à evolução no processo produtivo. Também fomos ao parque da cachoeira do Caracol, onde cansamos de tanto descer escadas e nos arrastamos para subi-las na volta. Para que não digas que esqueci, conhecemos também a Catedral de Pedra, uma bela igreja!
A idade está chegando. Hoje (12 de março) completas 29 anos, quase um balzaquiano. No tempo que não sabíamos o que era computador, internet, televisão com controle remoto – o pai na época não conhecia os dois primeiros, mas já sabia o que era TV com controle remoto –, brincávamos de béts, descida de "canoa" no morro, corrida de barquinho (gravetos) no rio, exterminador do futuro, mãe-bola, futebol, bicicleta, Atari.
Costumávamos tomar sorvete na Dona Lila, segundo ela, fabricado no Nono Balin. Até hoje tenho minhas dúvidas. Íamos à aula caminhando, desde o dia que quebrou a Kombi próximo à casa do Seu Guilherme (que blusa grossa...), e para a mãe isso aconteceu quando você estava na oitava série. Eu ainda acho que você estava na segunda do primário e sua professora era a falecida Maria Helena Camuzatto. Você sabe que ela morreu né? Bateu um Kadett na rodovia entre Pato Branco e Mariópolis, mas isso já tem mais de dez anos.
O passeio pelo litoral catarinense foi nas cidades de Florianópolis, Balneário Camboriú, Bombinhas e Penha. Em Floripa, fomos fazer uma visita muito rápida para a Cristina e família, estilo médico do SUS. Almoçamos e só. Mais rápido ainda foi o passeio em Balneário Camboriú: apenas uma noite e na mais badalada praia catarinense. Na terra do Joce, Bombinhas, estivemos por dois dias. A cidade é linda, cheia de encantos naturais. O Marcos esteve lá esses dias. Falou que todos mandaram um abraço para nós.
Em Penha, há exatamente um ano, visitamos o maior parque temático do Brasil. Era teu aniversário. Estavas completando 28 anos e por isso não pagou a entrada. Chegamos em 11 de março, fazia seis anos que você não via o mar de perto, em terra. Foi legal estar em Penha. Logo na chegada avistamos a enorme Fire Whip, montanha-russa assustadora por fora e alucinante para quem embarca. Da nossa pousada era possível ver ela, ver o parque, ver a maçaneta da porta de entrada do parque, só não era perto o suficiente para ouvir o ronco dos leões dormindo à noite, mas da pousada podíamos ouvir as ondas do mar quebrando na praia.
Enfim, nossa viagem ano passado foi excelente. Foram as melhores férias que já tive, a que mais aproveitei e só não foi perfeita pela falta de pessoas que amamos. Elas não puderam ir! Apesar de ser muito jovem, você tem uma incrível história de vida a contar. E suas palavras escritas fazem isso muito bem. És o Pelé dos textos. És um gênio na escrita como Michael Jordan foi no basquete, como Schummy foi nas pistas, como Da Vinci foi nas artes, como Newton e Einstein na ciência, como a mãe é cozinhando.
Agora com 29 anos, muita coisa vai mudar. Vais morar em uma cobertura duplex do Monet e o melhor, dividir o apartamento com o João Paulo “Pebinha”. Ele fará muita falta aqui em Pato Branco. Fará falta em casa como você ainda faz, mas a ida dele tem um propósito nobre. Ele tem tudo para trilhar um caminho de sucesso como você já fez e ainda fará muito mais. Gostaria de escrever mais e melhor, mas as minhas palavras não são adestradas tanto quanto as suas. Parabéns por mais um ano de vida. Que Deus continue te abençoando.
* Eduardo é funcionário concursado da Copel e irmão do meio de LF (este, do blog) e de JP Pebinha, como ele bem diz. É modesto quando diz não lidar bem com as palavras e, com elas, deixou o autor do blog emocionado.
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Por Eduardo Cardoso de Oliveira*
Há um ano estávamos de férias, viajando pelo litoral catarinense e serra gaúcha. Voltamos embora antes do previsto, por dois motivos: a possível falta de dinheiro e uma doença que o João Paulo pegou. O piá precisou ficar internado por três dias. Segundo o médico que o atendeu, o problema de saúde era conhecido – não por mim – e atendia pelo modesto nome de mononucleose. Ser acometido de doenças pouco habituais é um hobby do Nanico.
Piá (LF), você está ficando velho! Lembro do longínquo e pré-histórico tempo no qual você fazia jornais caseiros sobre vídeogame, séries de TV e assuntos ligados a uma infância muito bem aproveitada, exceto pelo fato de trabalhar todo final de semana por copos de Coca-Cola e alguns pacotes de salgadinho. Carregávamos tijolos de um lado para o outro e vice-versa, cortávamos grama, pintávamos cerca, capinávamos as ervas-daninhas que antigamente cresciam junto ao meio-fio e hoje não crescem mais, arrancávamos matos da grama com uma faquinha, à tarde, sob sol escaldante, buscávamos água ná "vó" todo dia... você até inventou uma música: "escravos de Jó, buscam água lá na "vó". Na vó também buscávamos lenha, levávamos as sujeitas que sobravam dos serviços. O local de despejo dos entulhos: "buração". Bizarro!
Antes de voltar de viagem, conhecemos os cânions em Cambará do Sul (RS). "A melhor parte da viagem", frase sua a qual eu concordo. Outro município da serra gaúcha que passeamos foi a charmosa Gramado, cidade de muitas cafeterias, chocolaterias, parque e outros pontos turísticos que encantam pelo cuidado e zelo. Tudo parece estar no lugar certo, na hora certa, na temperatura certa e com a cor certa. Em Canela, cidade vizinha e sem o aspecto europeu de Gramado, conhecemos museus – um do chocolate e o outro ligado à evolução no processo produtivo. Também fomos ao parque da cachoeira do Caracol, onde cansamos de tanto descer escadas e nos arrastamos para subi-las na volta. Para que não digas que esqueci, conhecemos também a Catedral de Pedra, uma bela igreja!
A idade está chegando. Hoje (12 de março) completas 29 anos, quase um balzaquiano. No tempo que não sabíamos o que era computador, internet, televisão com controle remoto – o pai na época não conhecia os dois primeiros, mas já sabia o que era TV com controle remoto –, brincávamos de béts, descida de "canoa" no morro, corrida de barquinho (gravetos) no rio, exterminador do futuro, mãe-bola, futebol, bicicleta, Atari.
Costumávamos tomar sorvete na Dona Lila, segundo ela, fabricado no Nono Balin. Até hoje tenho minhas dúvidas. Íamos à aula caminhando, desde o dia que quebrou a Kombi próximo à casa do Seu Guilherme (que blusa grossa...), e para a mãe isso aconteceu quando você estava na oitava série. Eu ainda acho que você estava na segunda do primário e sua professora era a falecida Maria Helena Camuzatto. Você sabe que ela morreu né? Bateu um Kadett na rodovia entre Pato Branco e Mariópolis, mas isso já tem mais de dez anos.
O passeio pelo litoral catarinense foi nas cidades de Florianópolis, Balneário Camboriú, Bombinhas e Penha. Em Floripa, fomos fazer uma visita muito rápida para a Cristina e família, estilo médico do SUS. Almoçamos e só. Mais rápido ainda foi o passeio em Balneário Camboriú: apenas uma noite e na mais badalada praia catarinense. Na terra do Joce, Bombinhas, estivemos por dois dias. A cidade é linda, cheia de encantos naturais. O Marcos esteve lá esses dias. Falou que todos mandaram um abraço para nós.
Em Penha, há exatamente um ano, visitamos o maior parque temático do Brasil. Era teu aniversário. Estavas completando 28 anos e por isso não pagou a entrada. Chegamos em 11 de março, fazia seis anos que você não via o mar de perto, em terra. Foi legal estar em Penha. Logo na chegada avistamos a enorme Fire Whip, montanha-russa assustadora por fora e alucinante para quem embarca. Da nossa pousada era possível ver ela, ver o parque, ver a maçaneta da porta de entrada do parque, só não era perto o suficiente para ouvir o ronco dos leões dormindo à noite, mas da pousada podíamos ouvir as ondas do mar quebrando na praia.
Enfim, nossa viagem ano passado foi excelente. Foram as melhores férias que já tive, a que mais aproveitei e só não foi perfeita pela falta de pessoas que amamos. Elas não puderam ir! Apesar de ser muito jovem, você tem uma incrível história de vida a contar. E suas palavras escritas fazem isso muito bem. És o Pelé dos textos. És um gênio na escrita como Michael Jordan foi no basquete, como Schummy foi nas pistas, como Da Vinci foi nas artes, como Newton e Einstein na ciência, como a mãe é cozinhando.
Agora com 29 anos, muita coisa vai mudar. Vais morar em uma cobertura duplex do Monet e o melhor, dividir o apartamento com o João Paulo “Pebinha”. Ele fará muita falta aqui em Pato Branco. Fará falta em casa como você ainda faz, mas a ida dele tem um propósito nobre. Ele tem tudo para trilhar um caminho de sucesso como você já fez e ainda fará muito mais. Gostaria de escrever mais e melhor, mas as minhas palavras não são adestradas tanto quanto as suas. Parabéns por mais um ano de vida. Que Deus continue te abençoando.
* Eduardo é funcionário concursado da Copel e irmão do meio de LF (este, do blog) e de JP Pebinha, como ele bem diz. É modesto quando diz não lidar bem com as palavras e, com elas, deixou o autor do blog emocionado.
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